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Falácias do jornalismo econômico na era neo-liberal
 

A partir da notas da intervenção no painel “Jornalismo econômico, do VII Seminário de Comunicação do  Banco do Brasil, realizado em novembro de 2002

 

Como nasce a notícia de economia?

 

O critério principal de seleção e edição dos fatos que vão virar notícia deveria ser o do  interesse público: a informação é tanto mais importante para um veículo, quanto mais  puder afetar seu universo de leitores. 1 Mas não é isso o que vem acontecendo com as  notícias sobre economia desde que se implantou em nosso país o modelo chamado "  neo- liberal" . As notícias sobre economia, apesar de ocuparem o centro do noticiário e de  funcionarem até mesmo como organizadoras de toda pauta jornalística, não vem sendo escolhidas ou tratadas nos jornais de referência nacional pelo critério do interesse público. 

 

O único critério adotado é dos interesses do capital financeiro. Sabemos por observação  empírica que boa parte do noticiário econômico, atualmente, é definida a partir de eventos  de comunicação programados pelos próprios agentes econômicos, especialmente bancos  e corretoras, além de grandes empresas e governos. São almoços e coletivas com a  imprensa, seminários, distribuição de relatórios e press- releases. Especialmente, na era neo- liberal, os prognósticos de taxas de câmbio ou de juros, ou de inflação produzidos  regularmente como se fossem a previsão do tempo, pelos departamentos de análise dos  bancos e corretoras.

 

É assim também que se geram quase todas as notícias referentes a novos projetos de  investimentos, tendências da economia e os importantes relatórios anuais do Banco  Mundial ou do FMI. E assim que saem os dados de emprego e desemprego do sistema  DIEESE/DIESAST, os dados trimestrais do PIB e da produção industrial do IBGE, os  dados de conjuntura da CNI, da FIESP e da indústria automobilística, e os dados do  Banco Central sobre o desempenho das contas públicas, especialmente da dívida púbica  e do déficit público. Mas para comentar esses prognósticosa era neo-liberal, são   convidados invariavelmente os mesmos analistas de mercados que produziram esses dados, e seus colegas yuppies que passaram o dia jogando na bolsas ou nas mesas de  câmbio.

 

Tudo isso seria muito natural, porque a economia não é um fato, um acontecimento  extraordinário, uma anomalia; a economia é um processo. Para que seja objeto da notícia  jornalística, é preciso fazer cortes nesse processo, e apresentá-lo aos pedaços, como se  fossem fatos isolados. O PIB cresceu tanto", diz a manchete garrafal, de primeira página,  como se fosse um fato. Nem foi um fato e nem era novidade, era um processo que vinha  de meses e todos já sentiam no seu dia a dia. Foi preciso elaborar um comunicado à  imprensa, chamar os jornalistas, fechar as contas num determinado dia e apresentar essa  conta como fosse um fato para que essa informação virasse notícia.

Mas nem todos os cortes, nem todas s contas viram notícia. A condição é necessária, mas  não é suficiente. Continuamos com a mesma interrogação : porque certos eventos de  comunicação viram notícia jornalismo econômico e outros não? O processo jornalístico  vai selecionar alguns deles e descartar outros. Um dos exemplos mais interessantes de  um tema favorito nas manchetes do neo- liberalismo e que não tem o menor interesse  público é o chamado "Déficit Público”.

 

A falácia do déficit público

 

O nosso mais tradicional diário, O Estado de S. Paulo, dedica uma em cada cinco  manchetes, a uma construção teórica chamada " déficit público." Nas manchetes do "  Estadão" , o destino do país depende exclusivamente do seu sucesso em reduzir o déficit  público. Eis que, de repente, o Banco Central candidamente espalhou a informação de que o déficit público brasileiro é definido de modo diferente do que se faz em outros  países e que se for definido conforme as regras internacionalmente aceitas, ele cai à  metade, de 7 por cento do PIB para menos de 3.5%. Revelou isso, porque sua prioridade  no final do governo FHC, passou a ser a de maquiar as contas nacionais tendo em marcar  um fim menos inglório aos oito anos de ciclo neo- liberal fernando-henriquista.

 

Nenhum jornalista percebeu as implicações formais e substantivas dessa informação. Se  ela é correta, significa que o déficit público é de fato uma construção arbitrária , um  recorte ideológico das contas nacionais, e que todas as dramáticas manchetes de página  inteira do "Estadão", sobre aumentos ou quedas do déficit público, eram enganosas. Eram  a dramatização de um objeto que pode ter menos da metade do tamanho a ele antes  atribuído. Do ponto de vista substantivo, significa que a cruel política de arrocho do Banco  

Central tinha como balisa um referencial falso.  Na verdade, o conceito de déficit público  foi criado apenas como mecanismo ideológico - e midiático- de persuasão da opinião  pública. Convencela de que apertar o cinto é necessário, para diminuir o déficit público.

 

O que corrobora a tese de que a economia como ciência social é condicionada pelo  objetivo do convencimento, da persuasão, num ambiente de inevitável conflito de  interesses. Predomina nesse exercício o interesse das classes dominantes. O paradoxo  do jornalismo econômico está em que como jornalismo ele deveria se colocar no campo  dos interesses da maioria da população (o interesse público), mas como instrumento do  neo- liberalismo e integrante do seu conglomerado ideológico, acaba se colocando  sempre a serviço dos interesses do capital financeiro Essa distorção se comprova por  alguns detalhes mais chocantes da construção ideológica chamada "déficit público, "feita  de medida para enquadrar uma economia periférica: se uma estatal brasileira perfeitamente sólida e lucrativa como a Petrobrás, investir seu próprio capital na  construção de uma nova refinaria, esse gasto é computado como despesa na matriz do  nosso muito especial "déficit público”; mas se essa mesma empresa decide se vender  uma subsidiária, a venda não é computada como receita na matriz do déficit público.

 

A quem interessa acompanhar tão de perto uma categoria tão difusa e tão distante do dia- a-dia da população? Somente a quem a inventou: os banqueiros que agitam a bandeira  do déficit público como forma de forçar o governo a economizar o suficiente para pagar os  juros exorbitantes de sua dívida, o FMI, que representa o conjunto dos interesses do  capital financeiro, e o ministro Malan, fiscal desse tipo de política. Os leitores dessas  manchetes são os próprios protagonistas das decisões objeto das manchetes.

 

Nesse tipo de neo-jornalismo, não há um publico leitor autônomo e nem interesses  sociais. O jornal dialoga apenas com a elite que protagoniza suas notícias, e seu  jornalismo se torna auto- referente. O critério de seleção e destaque da matéria  jornalística não é o interesse público e sim o interesse da fração dominante do poder, o  capital financeiro, os bancos. Um país ou uma taxa de risco? Um dos últimos exemplos do  uso ideológico do jornalismo econômico é a criação de um novo índice, chamado "risco- país, no noticiário da crise argentina. A crise é profunda, especialmente na esfera social. 

 

O desemprego e a miséria disseminam-se pela Argentina. Mas todo o noticiário da crise  está centrado não na economia argentina ou no seu povo, e sim num índice definido a partir de negociações financeiros que se dão em geral bem longe da Argentina. Esse  índice, "risco-Argentina", é baseado na diferença entre os juros que remuneram um título  de dívida argentina, e os juros que remuneram títulos do tesouro americano. Foi criado  por um dos bancos credores da Argentina, gradativamente adotado por outros bancos e  depois pela imprensa em geral. É mais uma construção arbitrária inventada pelos  operadores de bancos para sua própria referência. Para o povo argentino é uma  abstração. Como essa diferença de juros varia todos os dias, propicia a cada dia uma  nova manchete: "Risco- Argentina atinge novo recorde", ou "Caiu o risco Argentina.”

 

O indicador "risco- Argentina", tornou-se desde agosto de 2002 um tema autônomo do  noticiário, depois virou o tema principal, e finalmente a referência dominante, o fio  condutor de quase todas as reportagens sobre a crise argentina . Tornou-se o ícone da  crise agentina e o único critério de julgamento do seu agravamento ou não.

 

Na sua esteira, surgiram outros ícones, outros indicadores de "risco-país", mas apenas  para países periféricos. Hoje existem indicadores de "risco-Brasü"," risco Turquia" , “risco- Nigéria." E uma nova tabelinha com as classificações desses "riscos -países”, começou a  aparecer desde o início de novembro, nos principais diários. Mas não existe indicador de  risco EUA, nem mesmo depois dos atentados do 11 de setembro.

 

O mercado como sujeito

 

No neo- liberalismo, o mercado é a categoria suprema. Um dos primeiros exercícios  semânticos do discurso neo- liberal foi o de suprimir a palavra Estado ao se referir a  países periféricos. Em vez de "países em desenvolvimento ", passaram a falar em  “mercados emergentes." A soberania passa a ser do mercado.  Não é mais do país, muito  menos de seu povo. Sai Rousseau, entra George Soros.

 

O fenômeno da substituição de países e povos por taxas de risco do capital especulativo  acentuou-se há cerca de dois anos, quando os cadernos de economia passaram a  publicar todos os dias , com destaque crescente, os índices de fechamento da principais  bolsas de valores do mundo. Graças à facilidade dos info- gráficos, logo surgiu um mapa-  mundi diário com as variações dos índices das bolsas. 

 

Nos dias de maior variação, os índices que antes eram publicados em cadernos internos,  compulsados apenas por especialistas, viraram manchete de primeira página. De  manchetes ocasionais, evoluíram para o papel de fio condutor das narrativas do  jornalismo econômico.

 

Rito de mercado e rito de fechamento

 

Os editores descobriram que o rito diário de fechamento das bolsas era muito adequado  ao rito diário de fechamento dos jornais. Criou-se um ritual no noticiário econômico,  baseado nos fechamentos diários desses mercados. Todos os dias as bolsas ou sobem  ou caem. Raramente ficam estáveis. Isso garante a manchete. Praticamente todo dia é   possível elaborar uma manchete em torno do comportamento das bolsas, e a partir dela  montar a narrativa econômica do dia.

 

Como é construída essa narrativa? Tendo a manchete como núcleo da narrativa, são  aventadas as razões para a queda ou alta da bolsa. Essas supostas razões nada mais  são do que os demais fatos jornalísticos do dia. A notícia da queda ou da alta da bolsa  passa amarrar o conjunto de fatos que precisam ser reportados; passa a conduzir o  noticiário. Assim, num determinado dia, a queda da bolsa é atribuída ao anúncio de que  uma determinada empresa revelou lucros menores no trimestre, ou de que caíram as  vendas de automóveis nos Estados Unidos, ou desabou o preço do barril de petróleo tipo  Brent. A maioria das ilações e atribuições de causalidade desse tipo de narrativa, são "  chutes" , como se diz no jargão jornalístico. Ou pura especulação. A relação de  causalidade pode muito bem ser inversa à reportada. A queda do preço do petróleo  poderia ser atribuída à queda da bolsa, ou das vendas de automóveis, e não o contrário.

 

Na narrativa do neo- jornalismo as interpretações são invariavelmente atribuídas ao  "mercado." Em geral, esse “mercado", é um analista de banco ou um especulador da  bolsa, única e interessada fonte do jovem repórter. Mas na manchetes, o " mercado” aparece como um Big Brother onisciente que pensa, age e fala: " O mercado vê calote no  plano argentino" proclama a manchete de primeira página da Folha." O mercado é a força  da nação", diz outra manchete, essa do JB. A mais emblemática manchete do  neojornalismo ainda é esta da Folha, inspirada numa reportagem do Financial Times: " O  mercado convoca governo para a guerra." O mercado passa a ser referido no noticiário  diário como uma divindade grega, que tem certos atributos permanentes, mas que é muito   

temperamental e precisa ser tratada com cuidado extremo.  O do noticiário econômico  como uma nova guerra fria Noam Chomsky, "o famoso lingüista norte- americano, e  também um crítico dos meios de comunicação de seu país, delinou uma " teoria dos filtros", segundo a qual a informação na imprensa americana era filtrada e enviesada por  vários mecanismos. O principal deles era o que Chomsky chamou de "ideologia da  guerra- fria". Entre os outros filtros estavam a origem social elitista da maioria dos  jornalistas , a influência da publicidade, e o preço cobrado pelas fontes de informação do  governo. 

O que nos interesse em especial é o filtro da "ideologia da guerra- fria, porque eu acredito  que um mecanismo semelhante é o filtro principal do noticiário econômico hoje no Brasil  neo- liberal. No que consiste um filtro tipo "guerra- fria?" Consiste em condicionar todo o  noticiário aos seus efeitos num luta maior entre o bem o mal. Se a notícia favorecer esse  grande " mal”, previamente definido, ela é reprimida, espremida, no limite até suprimida.

 

Nesse mecanismo, o jornalismo paga um preço muito alto, porque o mérito das questões  é sacrificado em nome do combate ao grande "mal". Num jornalismo tipo "guerra-fria",  uma lógica maior , uma lógica de combate, sobre- determina todos os tratamentos da  informação.

 

Eu sustento, neste seminário que uma lógica maior, excludente, que não quer explicar e  sim persuadir, comanda hoje todo o noticiário econômico. E para que não me julguem um  exagerado, vou logo dando um exemplo extremo: o exemplo do apagão elétrico. Durante  oito anos, o setor elétrico brasileiro, totalmente estatal, foi re- estruturado do modo  profundo, dividido em setores, com a definição de novas regras e novos atores. Cada  grupo de interesse criou uma associação, para defender seus pontos de vista na nova regulação, discutida e negociadas nas comissões técnicas do Congresso. Pois bem,  durante todo esse tempo, e foram oito anos, o nosso jornalismo econômico não  acompanhou essas discussões, não informou sobre os impasses havidos, não freqüentou  as comissões técnicas do Congresso e nem as audiências publicas.

 

Muito antes do apagão elétrico, deu-se uma apagão media tico. O noticiário econômico,  resumia a manchetes triunfalistas para cada privatização de setor elétrico, comemorando  os ágios pagos pelo lance vencedor. Mas não informava que esses ágios seriam  recebidos de volta como prejuízo patrimonial dedutível do imposto de renda; não  informavam os graves impasses na regulação, que levaram aos atrasos das termelétricas,  não informavam que o sistema vinha usando estoques de água armazenados durante  cinco anos. Alguns desses impasses, persistem até hoje. Também não ouviam, e  continuam dando pouca atenção aos especialistas que criticam o novo modelo.

 

O mecanismo, como vemos, é o mesmo da "guerra- fria". Os protagonistas, as fontes, os  press - releases, os documentos, são divididos entre os que são contra a privatização do  setor elétrico e o que são a favor. Tudo o que for contra é omitido, ou relegado a um  espaço menor. Tudo o que for a favor é amplificado. O mérito da questão não interessa. E  se a questão for complexa, seus termo são simplificados de modo grosseiro. Não  interessa ouvir quem é a favor de privatizar a geração, mas acha que se deve manter  estatais os reservatórios, porque ele tem funções múltiplas de lazer, de abastecimento de  água e de navegação.

 

No jornalismo de "guerra- fria", as pautas não são elaboradas para se esclarecer uma  questão, porque o mérito da questão, como vimos não interessa. Elas são elaboradas  para convencer o leitor de uma determinada solução. A matéria vai mostrar, por exemplo,  que "as empresas estatais são ineficientes." Eventuais evidências em contrário, são  descartadas. E se ineficiência deriva não do fato de a empresa ser estatal, mas de ser monopolista, o que afeta também grandes empresas privadas, isso é escamoteado do  leitor. Não entram na matéria. A reportagem tem a função de captar frases que legitimem  um discurso previamente construído. Se você propor um terceira via, definindo uma  empresa pública, de propriedade estatal, mas regida por um estatuto público, isso  também é descartado, É complicado demais.

 

Jornalismo como instrumento de construção e desconstrução 

O jornalismo econômico dos últimos 20 anos foi instrumental na tarefa de construção do  paradigma neo- liberal. Nessa tarefa, ocupou o centro da primeira página e de lá não saiu  até hoje. Tornou-se o núcleo em torno do qual se articulam as demais coberturas jornalísticas. Uma em cada duas manchetes dos jornais brasileiros tem sido dedicada ã  economia. Todos os jornais tem cadernos de economia e alguns saem com dois cadernos  de economia numa mesma edição. O único diário de circulação nacional hoje no Brasil é  um jornal especializado em economia, a Gazeta Mercantil, e já temos um novo diário que  se propõe a dividir esse espaço, o jornal VALOR ECONÔMICO.

 

O jornalismo econômico da era liberal se caracterizou por um discurso agressivo porque  sua primeira tarefa é a desconstruir o modelo vigente, e o paradigma desenvolvimentista.  Usou para isso o método da exclusão e da desqualificação dos oponentes. O que diverge  é um "atrasado", é um dinossauro. A exclusão não fica só no discurso, os dissidentes são  excluídos dos melhores espaços dos jornais, todos eles ocupados hoje por colunistas neo- liberais. Só não se dá uma exclusão total porque as fala dissidente é útil para  legitimar a fala dominante. Legitimar, mas não influir no discurso dominante ou quebrar  seu império. 

 

Mas a exclusão mais eficaz é a temática. Vou dar dois exemplos contrastantes, de uma  tema da maior importância para uma ampla gama de leitores , que é sistematicamente  excluído das manchetes de jornais, e em contraste de um tema artificialmente erigido em  importante e que não sai das manchetes dos jornais.

 

O tema importante mas omitido é das taxas de juros: vocês sabiam que os juros  praticados no Brasil desde a introdução do Real estão entre os mais altos do mundo?  Mais precisamente, entre os três mais altos do mundo, perdendo apenas ora para a  Argentina e Rússia, ou Rússia e Turquia? Sim ,muitos de nós sabemos disso, mas  raramente a noticia é manchete de jornal. E no entanto, todo mês, uma assessoria de  imprensa do Paraná, publica um estudo meticuloso das taxas de juros de 40 países, envia  para todas as redações, disponibiliza na internet. Mas raramente algum jornal publica. No  mês passado, a divulgação coincidiu com mais uma reunião do Copom, portanto era  especialmente oportuna sua publicação, mesmo assim foi omitida por todos os jornais de  referência nacional, inclusive pela Gazeta Mercantil.

 

Por que a comparação entre taxas de juros de diferente países é importante?

Porque essa taxa é o custo do dinheiro. E o dinheiro é um dos mais importantes fatores  de produção. Se nosso juro é muito mais alto do que o de outros economia, significa uma  desvantagem nos nosso poder de competição.

 

É uma informação que interessa a todas as empresas que exportam, e portanto a  milhares de empresários e de seus empregados, a setores empresariais e aos formuladores de políticas públicas. 

 

Se essa tabela, que sai todos os meses, é tão importante, por que não é publicada?   Muito simples; porque uma manchete dizendo "Juros do Brasil estão entre os mais altos  do mundo", quebra a mística do discurso neo- liberal, do discurso de que nossa moeda é  forte, de que a inflação é baixa de de que os fundamentos da economia são sólidos. Um  juro real de básico 10 % ao ano , ao que correspondem juros de até 40% ao ano para  capital de giro, é juro anômalo, é juro de uma economia doente. É juro de enforcado. Por  isso, esse indicador não vira manchete.

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 1 Não é, portanto, um critério metafísico. Depende da composição mais ou menos elitista  dos leitores, e da importância dos personagens objeto da notícia, entre outros fatores.  Mas o interesse público opera como uma refereencia idealizada e legjtimadora do  processso de seleção das informações que vão virar notícia. Ver uma das mais recentes  súmulas sobre notícia em : Teorias da Notícia e do Jornalismo, de Jorge Pedro Souza, Chapecó, Ed Argus, 2002.

 2 "Essa construção tem por objetivo escamotear a  fenomenologia do processo: o enorme sacrifício da sociedade que vem pagando impostos  pesados , que já chegam a 35% do PIB, enquanto o Estado corta gastos sociais e direciona esses recursos para pagar juros da dívida pública. Teoricamente também o  noticiário é falacioso ao tentar culpar gastos públicos pela inflação. É possível ao Estado  operar grandes déficits públicos sem causar inflação, se a economia estiver abaixo do  pleno emprego, como vem sendo o caso da economia brasileira.

 3 O indicador risco Argentina foi criado pelo J . P. Morgan. Ele mede a diferença entre os  juros que rendem um titulo da divida Argentina e um título do Tesouro americano de  mesmo prazo. Como os títulos são transacionados com um desconto sobre seu valor de  face que varia de um dia para o outro, o juro que teoricamente seria recebido também  varia. Assim, se um titulo de valor de face US$ 100,00 e rendendo juros de 8% ao ano, for  vendido por apenas US$ 50,00 estará rendendo juros efetivos de 16% . Se nesse mesmo  dia um titulo americano estiver sendo vendido sem desconto e seu juro for 4% ao ano. O  risco Argentina nesse dia será 16- 4 ou 12. O indicador recebe mais dois zeros para efeito  de vizualização das pequenas oscilações e fica então em 1200 pontos.

 4 A linguagem  funciona nesse caso como um ato falho freudiano revelando sentimentos ocultos.

 5 "O dólar mercado está estressado"; o mercado reagiu com pessimismo ao discurso do  ministro". Essas são algumas expressões comuns no jornalismo da era neo- liberal.

 6 Ocasionalmente era publicada pelo DCI, jornal tradicional de S. Paulo mas de circulação  restrita. A partir da eleição de Lula, passou a ser publicada mais vezes pelos jornais de  referência nacional.


 
     
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