Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

Horizontal, nove letras
 

A trama é simples: Leonardo e Mariana juntam-se à guerrilha do Araguaia. Ao engravidar,  Mariana, retorna à sua família em São Paulo para dar à luz. Três anos depois, após uma  visita ameaçadora de pessoas ligadas à guerrilha, Mariana abandona de súbito a casa  dos pais levando a filha. Leonardo e Mariana nunca mais serão vistos.

 

A criança também não. No final da trama há duas surpresas que não vou revelar. A  narrativa começa com a leitura do diário de um participante da guerrilha que passou de  mão em mão até chegar, vinte anos depois, à Sofia, irmã mais nova de Leonardo, que o lê  fascinada Escrito com sensibilidade, o diário registra a nostalgia e as dúvidas de Leonardo, em fuga na selva, e contem reflexões e metáforas fortemente críticas à guerrilha, apresentada como uma guerra sem nenhum sentido. 

 

Sofia parte em busca da verdade sobre o desaparecimento do irmão no Araguaia. A  narrativa muda do modo. Adquire estrutura e ritmo de uma novela de tevê. E tão  adequada a uma adaptação para tevê que não me admiraria se foi escrita com essa  intenção. Contém poucos bem definidos personagens, locações precisas, diálogos a dois  que se sucedem, e a necessária surpresa final. O estilo em nada lembra os secos e  corrosivos contos de Guiomar de Grammont que compõe o premiado Sudário.

 

A história mexe com dois tabus: o "justiçamento" de membros da luta armada por seus  próprios companheiros sob a acusação de traição - um tabu das esquerdas - e o seqüestro de bebês por agentes da repressão - um tabu da direita. Jacó Gorender relatou  no seu Combate nas Trevas, de 1987, quatro justiçamentos, três pela ALN um pelo PCBR. Citando Os Possessos, de Dostoviesky, atribui-os principalmente à “obsessão pelo  traidor" que acomete organizações conspiratórias ao se verem em perigo.. Em Palavras  Cruzadas o justiçamento é usado para alavancar a crítica à guerrilha, cujos dirigentes são  retratados como coercitivos e militaristas.

 

Já o seqüestro de bebês e sua adoção por militares durante a ditadura carece de comprovação. Não há referência a essa prática no relatório final da Comissão Nacional da  Verdade. O relatório, entretanto, revela inúmeras situações de perversidade extrema da  repressão, inclusive tortura de crianças de menos de dois anos de idade, abortos forçados  de presas políticas, separação de crianças de seus pais, tortura, assassinato e estupros  de pais na frente de seus filhos, e entrega arbitrária de bebês ajuizados de menores.  

 

Recomendo vivamente a leitura do relatório - disponível na integra na internet - aos que  andarmpedindo a volta da ditadura. A Comissão da Verdado Estado de São Paulo, no seu  capitulo Infância Roubada, menciona a possibilidade de ter havido seqüestro de um ou  dois bebês nascidos na guerrilha do Araguaia. Mas não dá certeza, e sugere que se  aprofunde a pesquisa. Não por acaso, o principal documentário sobre a prática macabra  de seqüestrar bebês na Argentina c os esforços das Avós de Praça de Mayo em localizar  seus netos só é exibido ao Brasil em ambientes restritos, embora tudo tenha começado  com a participação de brasileiros, que conseguiram localizar o primeiro bebê.

 

Terminada a leitura, ficou - me a sensação de que Palavras Cruzadas iguala na crítica comportamental, guerrilheiros e repressores, soldados e mateiros, lavradores e batedores, como se a floresta, na sua rudeza, todos nivelasse. Poderia contrapor citando Primo Levi: "os dois estão na mesma armadilha, mas é o opressor e só ele quem a  preparou e afez disparar. " E também contrapor com o relatório da Comissão Nacional da  Verdade que no seu capítulo sobre a Guerrilha do Araguaia, um dos mais densos e frios,  nos revela uma repressão de crueldade inigualável, superando a ignomínia das degolas  de Canudos e das execuções do ISIS. Explica-se porque por tantos anos as Forças  Armadas se recusaram sequer a admitir que existiu uma guerrilha no Araguaia, atribuindo   eles próprios ao seu cerco e aniquilamento o estatuto macabro do indizível.


 
     
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