Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

A censura soviética
 

É A MAIS SUTIL, A MAIS COMPLETA — COMO PROVA A NOVA EDIÇÃO DA NOVELA "BABI YAR",  LANÇADA NA INGLATERRA HA UM MÊS

 

"Niet Kuznetsov, ya Anatoli!” A pronúncia de Kuznetsov é macia e suave, extremamente  agradável. Mas percebe-se que êle está protestando: “Não sou mais Kuznetsov, agora  sou Anatoli. Kuznetsov era um covarde, um escritor sórdido, conformista. O que êle  escreveu não costa. Outros escritores já se acusaram de covardes e renegaram total ou  parcialmente a própria criação. Mas é sem dúvida mais grave quando um livro é  republicado restaurando palavras, parágrafos e até capitak» inteiros anteriormente  suprimidos pela Censura. A nova edição da novela "Babi Yar", surgida em Londres nos  últimos dias do ano passado, tem por isso 81 páginas a mais do que a edição russa de  1966 e as traduções que se seguiram, inclusive a existente no Brasil. O novo "Babi Yar" é  um magnífico documento de como trabalha a Censura soviética, provavelmente a mais  sutil, completa e inteligente de todas as censuras conhecidas.

 

Transformou "Babi Yar", escrito inicialmente como uma denúncia da desumanidade e da   crueldade, em uma denuncia da desumanidade e crueldade nazistas. O anti-semitismo,  mostrado por  Kuznetsov como um sentimento latente entre os ucranianos, reduz-se a um  fenômeno exclusivo do nazismo.

 

Todos esses trechos estão destacados em negrito na nova edição. Eles mostram também  que a intransigência da Censura soviética elimina as cenas naturalistas. Como quando  um general alemão deitase com duas mulheres russas ao mesmo tempo, "para se  aquecer". Ou quando o garoto Kuznetsov (êle tinha doze anos, em setembro de 1941, no  momento em que as tropas alemãs invadiram a Ucrânia, ocuparam Kiev e mataram mais  de 70 000 judeus, ciganos, soldados do Exército Vermelho e civis de grupos de  resistência clandestina) mata um filhote de gato.

 

Em 1969, Kuznetsov pediu autorização para pesquisar em Londres material sobre a vida  de Lênin. Conseguiu-a depois de fingir concordar em ser útil à polícia secreta *. No forro  de sua roupa levou para a Inglaterra os manuscritos completos de "Babi Yar", em  pequenos rolos de microfilmes. Durante dois anos eles foram projetados e o já então  asilado político Kuznetsov lia-os em voz alta para serem gravados e mais tarde  datilografados. Finalmente, todas as suas impressões sobre Babi Yar (colina nos  arredores de Kiev, por onde hoje passa uma rodovia) seriam publicadas, como a terrível  conversa com Dina Pronicheva, única sobrevivente conhecida das matanças. "Este é o  meu único livro. Tudo o que foi publicado como sendo meu nos últimos 25 anos foi  sempre uma deformação.

 

  • Soljenítsin, o escritor russo premiado em 1970 com o prêmio Nobel de Literatura, atacou  violentamente Kuznetsov tanto por aceitar o jogo da polícia secreta como por asilar-se no  Ocidente: "Há escritores que pensam uma coisa, escrevem outra e praticam uma  terceira", disse então.

 

Em todo esse tempo, nenhuma palavra minha foi impressa como eu a escrevi.” Kuznetsov  agita furiosamente as mãos, enquanto fala. Mas sua voz soa suave no escritório de David  Floyd, tradutor do livro e intérprete da entrevista (êle só fala em russo). Seus olhos são  atentos, pequenos e vivos. É baixo, meio gorducho e de uma agradável simplicidade.

 

Com 41 anos, às vezes ainda parece a mesma criança que durante dois anos anotou em  pequenos pedaços de papel as fantásticas histórias que testemunhou em Babi Yar. O  CANIBALISMO, A FOME E A LOUCURA ENTRE OS CAMPONESES VEJA — Qual foi a  orientação geral seguida pela Censura soviética para o manuscrito de "Babi Yar”?   ANATOLI — A idéia central do livro, de denunciar qualquer tipo de barbarismo, foi  reduzida à idéia menor de denunciar apenas o nazismo. Eu descrevi como os alemães  queimavam livros considerados perigosos, mas o censor cortou as passagens em que eu  falava da queima de livros sob o regime soviético. O censor cortou tudo sobre o terror da  época estalinista, como por exemplo a fome de 1933, provocada pelo próprio homem na região fértil da Ucrânia, quando milhões de camponeses morreram ou foram levados à  loucura pela inanição*. Ê preciso ter em conta que a Censura soviética sabe tratar de uma  obra como um todo, descobrindo os perigos de analogias, aparentemente inofensivas. A  sutileza do censor russo chega ao ponto de terem sido cortadas algumas passagens mais brutais, mais chocantes do terror nazista.

 

À primeira vista elas apenas aumentariam a simpatia dos leitores pelos russos, que afinal  combatiam o nazismo. Mas a razão do corte é que os censores sabiam muito bem que  essas cenas eram singularmente parecidas com outras do terror estalinista.

 

E por isso foram removidas. Na cena, , por exemplo, em que Dina Pronicheva está na fila  dos que vão ser fuzilados pelos alemães e as bagagens são amontoadas ao lado, ela diz,  querendo se auto-iludir, que certamente tudo será dividido igualmente depois, e somente  por isso foram confiscadas as bagagens, e acrescenta: "Será dividido igualmente, não  haverá mais pobres e ricos". Essa última frase foi a única cortada de todo o diálogo. Como se pode falar nisso se normalmente já deveria ter havido igualdade no regime  soviético? E, você sabe, até hoje não há igualdade na União Soviética. VEJA — Esse  critério não explica, por exemplo, o corte da cena em que as crianças transformam um  tanque destruído em um brinquedo. Elas dizem: “O tanque transformou-se num belo  brinquedo para nós". Por que essa frase foi cortada?

 

ANATOLI — Depois do critério principal, há outros. Essa cena do tanque foi cortada  porque "transcendia o pacifismo, o humanismo soviético precisava também de tanques.  Os tanques não devem ser ridicularizados" — foi dito pelo editor. Aliás, as passagens que  mostram o 

 

* Kuznetsov confirma, com essa declaração, as denúncias da fome que a coletivização das terras provocou na Ucrânia, feitas nas memórias atribuídas ao ex-primeiro-ministro Nikita Kruschev e publicadas em várias revistas ocidentais (no Brasil, em “Realidade").   Exército Vermelho em retirada também foram cortadas. O Exército não pode ser ridicularizado ou tratado com menosprezo. Eles chegaram ao extremo de cortar a descrição da entrada dos cavalos alemães em Kiev, dizendo que eu dava a entender que  "os cavalos alemães eram mais bonitos e maiores que os cavalos russos”. VEJA — Mas  há cortes completamente inexplicáveis por critérios políticos. A violação de uma garota  judia por dois alemães, por exemplo, que logo depois a fuzilam, é reduzida ao fuzilamento  apenas; a chegada de mulheres para serem fuziladas em Babi Yar e que anteriormente foram prostituídas pelos alemães em Kiev também sofreu cortes inexplicáveis.

 

ANATOLI — A Censura soviética não aceita o naturalismo. Por isso há cor com motivaçõss puramente estéticas. ( nas de extrema crueldade, por exemplo canibalismo, o  sangue, o sexo. Há um mite para esse tipo de descrição e fc desse limite tudo é cortado.  O censo soviético preocupa-se com os nervos leitor, não permite que o leitor fiq, "chocado" com cenas naturalistas. 

 

VEJA — De que forma, exatamente seu manuscrito foi manipulado pelos censores desde  que foi entregue?

 

ANATOLI — O processo foi o me mo pelo qual passam todos os livros. E entreguei o  manuscrito ao editor, em geral pode fazer duas coisas: 1) recusar simplesmente o  manuscrito, e neste caso êle pode ainda denunciar o autor KGB (polícia secreta) e. conforme o caso autor passa por muitos aborrecimento é interrogado e mesmo preso; 2)  aceitar o manuscrito, como aconteceu com “Bat Yar", achando que êle é publicável e que vale a pena estudar quais os cortes necessários. Nesse caso, um funcionário marcar cuidadosamente as passagens que devem ser cortadas e o editor mostra essa passagens  aos- autores. Na verdade, tudo se passa entre o autor e o editor. O censor não aparece. 

 

SEM OS CORTES. NÃO É POSSÍVEL PUBLICAR UMA OBRA 

 

VEJA — Esse funcionário desconhecido pelo autor tem então o poder fina de decisão  sobre um manuscrito?

 

ANATOLI — Não, isso é apenas o começo; se o autor aceita os cortes — e não há outra  solução se êle quer ter o livro publicado —, o manuscrito é enviado pelo editor a outros  censores, censores mais importantes. Esses censores-mores não se preocupam com  detalhes, com uma palavra ou uma frase. Eles cortam páginas ou capítulos inteiros, de  acordo, provavelmente, com a linha política da época.

 

VEJA — Então a Censura não tem um endereço oficial, por exemplo, um escritório com   placa na porta; o autor só lida com o editor?

 

ANATOLI — Oficialmente, a Censura não existe. O que existe é uma palavra LIT. Em toda  a parte há o LIT. LlTj estadual, municipal, central, regional Existe até um verbo, um  neologismo tirovat, que é, no caso, censurar, levar para o LIT ou passar pelo LIT. Mas,  oficialmente, o LIT é um organismo que cuida das publicações em geral e não  especificamente da censura. O que o LIT faz, no fim de todo esse processo, é de- vülver o  manuscrito ao editor com um carimbo: "Aprovado para publicação”'. 

 

VEJA — Então um funcionário do LIT não é necessária e exclusivamente um censor?

 

ANATOLI — Não, não é. Onde se pode saber com toda a segurança quem é o censor é  no rádio e na televisão, por ca usa da rapidez com que a autorização precisa ser  conseguida. Aparece uma notícia e o locutor não sabe se ela pode ser transmitida. O  encarregado do programa então aponta para uma pessoa qualquer que está por perto e  diz: "Pergunte a êle se pode". Então a gente sabe que “êle" é o censor.

 

VEJA — Pode-se dizer que o editor é o primeiro escalão da Censura, já que èle pode  recusar o manuscrito se achar impublicável por motivos outros que apenas a qualidade? 

ANATOLI — Sim, é claro. O que acontece é que o editor tem orientação de não aborrecer  o censor com manuscritos impublicáveis. O censor detesta censurar. Por isso, parte dos  manuscritos é barrada logo pelo editor. 

 

A PRINCIPAL NORMA É IMPEDIR AS IMAGENS NEGATIVAS

 

VEJA — E quem são os funcionários do LIT que cuidam da aprovação?

 

ANATOLI — São sempre membros do Partido Comunista. Eles acham que fazem um  grande sacrifício censurando. que se dedicam à defesa do regime. Que trabalham até  dezoito horas por dia para proteger o regime.

 

VEJA — E há uma norma geral para ser seguida por todos os censores?

 

ANATOLI — A principal norma é impedir a propagação de uma imagem negativa ao  sistema soviético. De modo geral, as críticas são divididas em duas categorias: críticas  sobre o sistema soviético em si — essas são proibidas; críticas a aspectos isolados do  sistema pressupondo que êle é correto mas existe a necessidade de aperfeiçoamento,  sem contestá-lo — essas são permitidas. O general Grigorenko, por exemplo, era um  leninista declarado, sempre foi, tinha o retrato Je Lênin na parede, mas contestou o  estaiinismo como um todo, o que vai contra u ma das normas básicas da Censura, e por  isso foi colocado num hospício.

 

VEJA — Mas como todos os censores.  num país enorme como a União Soviéca podem ter um trabalho mais ou  menos uniforme?

 

ANATOLI — Os censores têm um livro, uma espécie de enorme manual, mas escrito em  letras bem miúdas onde estão todas as regras. Digamos que num texto aparece a palavra  "Stálin". Eles procuram no livro: "Stálin" — proibida qualquer crítica a isso e aquilo, não  falar sobre tal ou qual coisa". Então eles examinam o que diz o manuscrito e se alguma coisa estiver contra as regras do manual eles riscam. Por exemplo, é proibido usar na  Rússia a palavra "catástrofe". Este ano, parece-me, houve uma epidemia de cólera em  Odessa, mas nada pôde ser escrito porque as palavras certas não podiam ser usadas.  Somente dias depois é que se noticiou que "algumas pessoas morreram de cólera em  Odessa”.

 

VEJA — Existe entre os escritores da União Soviética, em virtude da censura, o costume  de se autocensurarem, ou seja, já entregarem ao editor um manuscrito que possa ser  considerado razoável?

 

ANATOLI — Sim, é claro. Todos escrevem com autocensura, sabendo o que é possível e  o que é impossível.

 

VEJA — E o possível e o impossível variam segundo o escritor?

 

ANATOLI — Sim, os limites variam. Nenhum deles escreve toda a verdade, mas o que  cada um pode escrever depende das amizades que tem, da posição dentro da hierarquia  soviética e também da fama internacional. Ylia Ehrenburg era muito famoso, conhecido  internacionalmente e tinha amigos altamente colocados. No caso de Ehrenburg eles  deixavam passar um pouco mais. "Só para você”, eles diziam. E êle avançava  exatamente esse pouco mais. No caso de Yevtuchenko. era ainda mais fácil. Yevtuchenko  era amigo de Súslov, de Mikoyan *. Se o LIT não gostava de seus poemas, êle ia mostrar  ao Suslov, Suslov dava alguns telefonemas e estava tudo resolvido.

 

SOLJENÍTSIN DISSE QUASE TUDO, MAS NÃO DISSE TUDO

 

VEJA — E Soljenítsin, qual o seu limite, na sua opinião?

 

ANATOLI — Soljenítsin avançou demais, disse quase tudo e por isso foi punido. Mas  Soljenítsin ficou ainda no "quase", não falou toda a verdade. Se êle tivesse escrito toda a  verdade, estaria preso. Só um escritor no exílio pode escrever toda a verdade.

 

VEJA — Soljenítsin disse que se recusa a ir para o exílio porque um escritor russo não  pode criar fora de seus país. Acredita nisso? 

 

ANATOLI — Não. Eu nunca criei tanto quanto depois de vir para Londres. Só agora  percebo a natureza completa do regime soviético. Aprendi mais sobre a União Soviética  aqui do que quando estava lá.

 

VEJA — E quais foram suas criações além da recomposição de "Babi Yar”? 

 

ANATOLI — Uma ficção sobre o conflito entre a decência e a barbárie. Algo  impressionista, talvez surrealista. Mas ainda não estou satisfeito a ponto de publicar.  Estou escrevendo também sobre a minha vida em Londres, gostaria de escrever algo  sobre a problemática do "emigre". E estou preparando uma documentação sobre a vida  na Rússia na última década, no período de Kruschev.

 

VEJA — Bem, sr. Kuznetsov.

 

ANATOLI — Niet Kuznetsov, ya Anatoli! O * Ylia Ehrenburg, romancista  i e poeta {famoso por seu verso "Olhe, soldado Tusso, como é bonito o cadáver de um alemão”), admirador  e admirado por Stálin. Morreu em 1967. Eugene Yevtuchenko, autor de “Autobiografia  Precoce", publicado no Brasil. Conhecido como rebelde por seus poemas de crítica ao  governo soviético. Mikail Suslov, um dos mais importantes teóricos vivos do comunismo.  Sobrevive politicamente desde os primeiros dias do comunismo russo.

 

Anastas Mikoyan, ex-vice-presidente da URSS por vários anos. Hábil político, de quem  disse o presidente John Kennedy: “Se Mikoyan fosse americano, seria o presidente da  Coca-Cola"


 
     
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