Sistema e browser desconhecidos

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Dez paradoxos do jornalismo neo-liberal
 

Nunca houve tanta falta de pluralismo na mídia brasileira, como nesta era neo-liberal, e no  entanto, fez parte da ideologia de auto-legitimação do neo-liberalismo, proclamar as  virtudes do mercado, em especial do " mercado de idéias". Um primeiro paradoxo é o de  que não há mercado de idéias no neo-liberalismo, porque no grande espaço mediático  em que se dá hoje o intercâmbio de idéias, nos meios de comunicação de massa, há  completa uniformidade ideológica. Nem mesmo há jornais diários mais "católicos", em contraste com outros mais "laicos," ou mais conservadores e menos conservadores. Não  há jornais de esquerda, e nem jornais alternativos. Hoje há apenas uma revista mensal  alternativa com presença perceptiva nas bancas. Os estudiosos do nosso jornalismo  chegaram a cunhar uma expressão para designar a uniformidade de todos os jornais na  era neo-liberal: a mesmice jornalística. Os jornais de referência nacional se tomaram tão  parecidos que é comum confundir um pelo outro nas bancas de revistas. Trazem os  mesmos colunistas, dizendo as mesmas coisas, e com frequência as mesmas manchetes.  Os jornais de capitais de província reproduzem os mesmos comentários sindicalizados  pelos colunistas dos grandes jornais de eixo-Rio-São Paulo. Trata-se de um caso extremo daquele fenômeno de auto escoramento entre jornalistas que o estudioso norte-  americano Gaye Tuchman chamou de "rede de factibilidade" pelo qual jornalistas tendem  a adotar os menos enfoques, por medo de errarem, de se sentirem isolados.

 

O discurso é um só, uniforme em todos os jornais e emissoras de rádio e TV, o discurso  da necessidade, inevitabilidade e naturalidade das soluções neo-liberais, tais como a  privatização dos serviços públicos, a desregulação das leis trabalhistas e a liberação dos  movimentos de capitais. Todos defendem os neo-liberalismo econômico. Na era neo-liberal vivemos sob a ditadura do discurso único, expressão cunhada pelo insuspeito  ministro da economia na época da ditadura, e hoje deputado federal, Delfim Netto. De formação neo-keneysiana, e dotado de inteligência aguda, até mesmo Delfim Netto se  espantou com a atual falta de pluralismo na mídia brasileira. De feto, nem mesmo durante  os 15 anos de ditadura militar, quando Delfim reinava como " czar da economia", havia tal  unanimidade. Esse é o segundo paradoxo, o paradoxo da derrocada crítica.

 

Havia, durante a ditadura, uma pujante imprensa alternativa, incluindo vários semanários  de circulação nacional, alguns deles como Pasquim., Opinião e Movimento, extremamente  críticos. E no entanto, diversificados, diferentes entre si, abarcando desde a doutrina  anarquista, até a marxista ortodoxa, passando por jornais de oposição católicos e outros  feministas. Durante os primeiros anos da ditadura, até fins de 1968, revistas  convencionais como VISÃO e VEJA, expressavam posturas diferentes, uma mais  nacionalista, outra mais mercadológica, mas ambas defensoras dos direitos humanos.  Havia jornais sobreviventes da era populista, como Última Hora, e um bravo jornal de uma  família tradicional, Correio da Manhã, que criticava ferozmente os militares. Também na  fase final da ditadura, a partir de 1974, is tarde, a partir de 1975, os jornais convencionais  intensificaram sua postura critica.

 

No período mais negro da ditadura, entre 1968 e 1974, os jornais mais combativos  chegaram, a ser submetidos a censura prévia. E mesmo assim mantiveram suas posturas  criticas. Este é o terceiro paradoxo: o advento da democracia ao invés de aumentar o  espaço e a profundidade da crítica, acabou com a critica, e sem a necessidade de censura.  Na era neoliberal não é preciso limitar a crítica manu-militari, porque não existe  a crítica.

 

No neo-liberalismo, o próprios jornalistas se autocensuram. Esse é um recurso que  sempre existiu no jornalismo brasileiro e foi exacerbado durante a ditadura nos temáticas  políticas de e de direitos humanos. Mas hoje se tornou uma postura dominante e  generalizada. A autocensura também é uma expressão cunhada especialmente para uma  imprensa de cultura autoritária. Enquanto na imprensa anglo-saxônica e européia a auto-censura é adotada em momentos específicos e para temas específicos, como uma  exceção, o jornalista brasileiro incorporou a autocensura como parte de seu ethos, de como ele constitui sua personalidade jornalística. Enquanto o jornalista anglosaxão ou  europeu socializa todas as informações relevantes ao interesse público, especialmente  as mais chocantes, o jornalista brasileiro administra a informação, retendo algumas de as  partes, em especial as mais chocantes. Esse é o quarto paradoxo.

 

Outro sintoma da falta de liberdades do jornalismo neo-liberal é o stress que ataca  jornalistas em início de carreira, assim que começam a trabalhar nos veículos de  comunicação de massa. O individualismo ganhou as mentes e corações tanto das gerações mais jovens como da maioria da gerações antigas, desiludidas com os fracassos do  socialismo. Inclusive dos jovens que optaram pelo jornalismo como profissão fascinante, a profissão da critica e da liberdade de expressão e de criação. Mas  esses jovens jornalistas logo descobrem que é quem tem menos liberdade de expressão. 

 

Um padrão autoritário de controle da produção jornalística predomina nas redações brasileiras. A ética jornalística desapareceu das redações e a supressão das liberdades  de informar se banalizou como condição natural, como regra. Durante a ditadura militar,  era exceção.O jornalista jovem é hoje, entre todos os brasileiros, o que mais se identifica  com o neo-liberalismo e no entanto o tem menos liberdade de opinião. Esse é o quinto  paradoxo.

 

De modo diverso, mas sempre autoritário, os jornalistas são submetidos ao mandonismo  de patrões, por sua vez mancomunados com interesses empresariais e políticos. Deu-se  uma privatização da cobertura da mídia, como se deu, no neo-liberalismo, uma  privatização do Estado. No jornalismo neoliberal a mídia fala em nome do interesse  público mas serve ao interesse privado. Esse é o sexto paradoxo.

 

O apoio das empresas de comunicação ao projeto neo-liberal supera o grau de apoio  dado pelas mesmas empresas ao projeto desenvolvimentista de reorganização  econômica  da ditadura militar baseado no tripé, grupos nacionais-Estado-multinacionais,  e que gerou o "milagre econômico" de 1968 a 1972.0 milagre se caraterizou por um   crescimento extraordinário do PEB e portanto da renda nacional a taxas de 10 % ao ano  em média, durante cinco anos seguidos, enquanto o projeto neo-liberal trouxe a  estagnação econômica durante quase duas décadas, triplicou a escala do desemprego, e  massificou a miséria e exclusão, estancando o universo e leitores. Exclusão social é  outra palavra expressão demarcadora da sociedade periférica na era neo-liberal.

 

Como se explica que empresas de comunicação de massa, que prosperam quando a  renda aumenta e entram em crise quando a miséria toma conta, apoiem o projeto neo- liberal? Esse é o sétimo paradoxo. A indústria de comunicação de massa está em  profunda crise no Brasil, com a queda nas tiragens dos jornais e revistas, demissões em  massa, e queda na publicidade, mas ainda assim apoia entusiasticamente, in totum e sem   dissidentes, o projeto neo-liberal. Todas os grandes grupos empresariais brasileiros de   comunicação estão hoje, fortemente endividados pelo estreitamento do mercado e  invasão das multinacionais e no entanto aprovam sem restrição o projeto neo-liberal.

 

Durante a reorganização que levou ao "milagre", deu-se o esmagamento dos grupos  remanescentes da "burguesia nacional", e ainda persistiam conflitos de interesses entre  burguesia agrária e burguesia industrial, entre uma visão protecionista a certos setores,  como o da informática, controlado pelos bancos nacionais, e as multinacionais. Tudo isso  se refletia numa mídia menos uniforme, que apesar de endossar a visão triunfalista do  "milagre" e se mostrar complacente demais para com as violações dos direitos humanos,  mantinha espaços de critica localizados. Hoje, após a penetração das multinacionais em amplos setores do comércio, do mercado financeiro, da agro-industria, e das telecomunicações, além dos setores que tradicionalmente já dominava, não há alternativas burguesas à globalização neo-liberal e tudo o que grupos sobreviventes da  burguesia nacional querem é serem convidados para festa da desnacionalização, serem  comprados pelo capitai estrangeiro. 

 

Os grupos empresariais de comunicações no Brasil fecharam totalmente com o projeto  neo-liberal dentro de uma visão estratégica se de se alavancarem frente aos  investimentos necessários às novas tecnologias e o processo global de mega-fusões e  portanto de concentração das empresas de mídia em curso, associando-se ao capital estrangeiro e , tem como objetivo estratégico, associar-se com capitais estrangeiros, por  isso, cobram do parlamento de derrubada do limite de 20% a essa participação, e da  restrição á posse de empresas de comunicação por pessoas jurídicas. Esse é o oitavo  paradoxo: as empresas brasileiros de comunicação de massa planejam sua própria   absorção pelos grandes grupos globais de comunicação. E o suicídio empresarial de uma  burguesia congenitamente entreguista e subserviente. É também a suicídio cultural da  comunicação e massa brasileira. Essa supressão do enfoque nacional já determinou o  padrão da cobertura da " guerra contra terror", que meramente reproduziu a colaboração  da CNN ao o esforço de guerra de Bush.

 

O que mais impressiona hoje no panorama mediático brasileira é o contraste entre a  crescente polarização da sociedade e ausência de qualquer polarização ideológica entre  os veículos de comunicação de massa. Esse é o nono paradoxo. Como se explica que  numa sociedade tão polarizada entre uma maioria de ricos e uma massa de pobres,  entre  um poder conservador e uma oposição de esquerda vigorosa, que conseguiu contrair o   maior partido de esquerda da América Latina, os jornais sejam todos conservadores? Pose ser que exploração seja o fato de os meios de comunicação ser  um instrumento dessa própria denominação, especialmente os eletrônicos que são concessões públicas, e  em sido outorgados somente a políticos conservadores e grupos dominantes.Se  durante a ditadura os meios de cominação eram os coercitivos, as prisões, a intimidação,  pela tortura e no limite o fechamento de alguns jornais, na democracia os meios de  comunicação de massa foram erigidos em meios de controle ideológico e até social,  fortemente instrumentalizados pelo sistema de poder.

 

Nosso último paradoxo é de caráter mais universal: o contraste entre a a hegemonia  completa do projeto neo-liberal na mídia brasileira e as outras características da era  chamada pós-moderna que proclama o fim das metanarrativas e das ideologias  dominantes, dando lugar ao à convivência e multiplicidade de padrões à tolerância de  valores diversos enfim ao pluralismo em todas as suas formas.


 
     
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