Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Encontro Literário      |      

Como a imprensa morde e assopra as crises
 

 

por Moacyr Oliveira Filho (Moa)

 

O Brasil viveu nos últimos três dias sob a tensão de uma suposta “crise” institucional, envolvendo os Poderes da República. O estopim da tal crise foi uma declaração do presidente Lula, na terça-feira, durante um improviso em solenidade na Confederação Nacional da Indústria. Mas, na verdade, o que espalhou o rastilho de pólvora e por pouco não provoca uma perigosa explosão foi a interpretação que a imprensa deu às palavras do presidente.

 

Vamos aos fatos:

 

Na terça-feira, durante seu discurso na CNI, o presidente Lula, dirigindo-se a uma freira que recebera um prêmio do Senai, afirmou textualmente:

 

“Eu, irmã, estou com a senhora quando diz que a gente não pode nunca deixar de crescer. Eu, a cada dia que passa, a cada dificuldade, me sinto o brasileiro mais otimista que este País já teve. Nada, podem ficar certos, que não tem chuva, não tem geada, não tem terremoto, não tem cara feia, não tem o Congresso, não tem o Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este País ocupar um lugar de destaque, que ele nunca deveria ter deixado de ocupar”.

 

Essas foram, literalmente, as palavras proferidas pelo presidente. E, mesmo que alguns achem que foram palavras fortes, exageradas ou messiânicas, em nenhum momento o presidente se referiu às reformas em tramitação no Congresso ou criticou abertamente os poderes Legislativo e Judiciário. O presidente falava de otimismo e de sua disposição de fazer valer o seu otimismo, mesmo diante de dificuldades diversas, entre elas, as políticas.

 

Até aí, nada demais. Nada que justificasse uma crise institucional. Nenhuma ofensa. Nenhuma crítica aberta, explícita ou direta.

 

No dia seguinte, a manchete do Globo, carregava nas tintas, incluía novas palavras à fala presidencial e acendia o estopim:

 

“Lula: não tem Congresso nem Judiciário que impeçam as reformas”.

 

A simples leitura da frase do presidente e da manchete do Globo é suficiente para comprovar o equívoco e o exagero do redator da manchete. Em nenhum momento da sua frase, o presidente fez a menor referência, ainda que indireta, às reformas. A manchete do Globo, portanto, estava errada. Além de incompleta. Só falou do Congresso e do Judiciário, deixando de lado a chuva, a geada, o terremoto e a cara feia, citados pelo presidente. 

 

O jornal, para não perder uma manchete forte, editou a frase do presidente e, mais do que isso, descontextualizou-a, passando uma imagem irreal.

 

Pronto. Foi o bastante para deflagrar a “crise”.

 

A reação negativa gerada mais pela manchete do jornal do que pela frase em si, obrigou o presidente a voltar ao assunto, no dia seguinte, e explicar exatamente o que quis dizer. Não fosse a manchete exagerada, talvez o presidente não tivesse sido obrigado, por dever de ofício e responsabilidade, a ter dado tais explicações.

 

Os jornais do dia seguinte acabaram sendo forçados, ainda que discretamente, a admitir o erro e, para não arcar sozinhos com o ônus, optaram por dividi-lo com o presidente. “O presidente agiu com a necessária rapidez para esclarecer a frase de que “só Deus” pode impedi-lo de fazer o Brasil voltar a ocupar lugar de destaque. Nada a ver com o Judiciário e o Congresso, poderes republicanos que merecem dele todo o respeito”, disse O Globo, num mini-editorial, esquecendo-se de se desculpar, também, pela manchete equivocada.

“...apesar das explicações do dia seguinte, não de todo improcedentes, mas também não de todo satisfatórias....”, sentenciou Merval Pereira, em sua coluna. “Bem examinada, a frase não é mesmo uma ameaça”, concluiu Clóvis Rossi, na Folha. “Ele de fato não se referiu às reformas previdenciária e tributária”, reconheceu, em editorial, o Correio Braziliense, admitindo em outro trecho que “sempre haverá alguém de plantão disposto a se aproveitar da situação, exaltar os ânimos, apostar no caos”. O Correio só não disse se incluía a imprensa nesse plantão.

 

Mas, quem melhor definiu a situação foi Miriam Leitão, no Bom Dia Brasil de quinta-feira: “O presidente certamente estava usando uma força de expressão para mostrar o quanto está determinado a fazer as mudanças necessárias para o país. No presidencialismo, o presidente é muito poderoso, mas a República tem três poderes.

O Executivo só fará as reformas que quer se o Legislativo aprovar, depois da longa tramitação, com amplo espaço para debates e emendas, e depois de passar pelas duas casas. As leis só valem se o Judiciário considerá-las constitucionais. Mas o pior que pode acontecer a uma República democrática é o Legislativo legislar em causa própria e o Judiciário julgar em causa própria. E este é um momento muito importante, porque a reforma da previdência mexe com interesses dos servidores públicos, entre eles, os do Judiciário e do Legislativo. Os deputados e senadores não podem pensar nos seus interesses, na hora de avaliar a proposta enviada pelo presidente, mas os do país como um todo. E o Judiciário não pode continuar fazendo o que tem feito nos últimos dias, em que os presidentes dos tribunais superiores usam a autoridade que têm para fazer declarações de defesa corporativa. Falam de seus próprios interesses como se fossem defesa institucional do poder Judiciário”.

 

Tivessem todos os jornais, tido esse mesmo entendimento e feito essa mesma abordagem, precisa, certamente, a propalada “crise” não teria existido e consumido, desnecessariamente, a energia do presidente da República, dos líderes do Congresso e do presidente do STF.

 

O episódio, no entanto, deixou algumas lições, que continuam ocupando espaço no noticiário e nas páginas de opinião dos jornais. A principal delas é a de que o presidente da República deve evitar, ao máximo, os improvisos, para não dar margem a interpretações equivocadas ou distorcidas, como ocorreu nesse caso. 

 

Como definiu Teresa Cruvinel, no Globo de quinta-feira: “Tudo isso redime Lula, mas não tira o caráter pedagógico do episódio, para um presidente que insiste em comunicar-se como um líder popular, esquecido da ressonância de tudo o que fala, principalmente sobre o delicado tecido das instituições”. E reforçou o Globo, num mini-editorial, também na quinta-feira: “Todos estaremos livres de sustos e curto-circuitos se o presidente disciplinar-se a ler discursos com frequência, em vez de aventurar-se em improvisos temerários”.

 

Da mesma forma, seria melhor para todos se também a imprensa se esforçasse em ser mais precisa nas suas manchetes e nas transcrições de declarações do presidente da República, evitando interpretações livres, como verdadeiros improvisos.


 
     
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