Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Encontro Literário      |      

O jornalismo mediúnico
 

 

 

Um novo gênero de reportagem está surgindo no  jornalismo político. É a reportagem que adivinha as intenções, visões, crenças disposição de espírito e até mesmo os sentimentos dos protagonistas.  E que através dessa adivinhação, consegue explicar seus gestos e decisões. Um bom exemplo é este texto, de poucos dias atrás, em um dos jornais de referência nacional:

 

... O ministro da Casa Civil, José Dirceu, estava preparado para a guerra.      Dirceu não gostou de saber que Alencar pediu ao ministro dos Transportes, Anderson Adauto (PL), que não tivesse apego ao cargo. O ministro leu como uma declaração de que Alencar subiria ainda mais o tom das críticas aos juros altos.

 

No momento em que tenta debelar focos de rebelião na base do governo, o comportamento de Alencar, na visão de Dirceu, dificulta seu trabalho. A ameaça velada de saída de Adauto, por exemplo, poderia abrir uma crise com o PL, partido que tem 33 deputados federais e que é muito influenciado por Alencar.

     

Mais: na visão de Dirceu, Alencar dá combustível para as críticas dos radicais petistas e do grupo de 30 parlamentares do PT que lançou um manifesto na semana passada contra a política econômica. Afinal, se o vice pode criticar, por que outros não podem?

      

Como Dirceu, com aval de Lula, tem optado por punir os rebeldes, deixar Alencar continuar a criticar o governo seria suicídio político, crê o ministro da Casa Civil. Daí a decisão de Lula de pedir, pela segunda vez, que o vice abrandasse suas críticas.

     

Ciente da contrariedade de Dirceu, com quem conversou sobre o "imbróglio Alencar" após sua chegada ao Brasil, Lula optou por falar francamente com o vice, mas de forma conciliatória.

      

Lula não deseja fazer "marolas", na expressão de um auxiliar, no momento em que mais precisa reunir forças políticas para aprovar as reformas tributária e previdenciária no Congresso.

      

Apesar de avaliar que Alencar faz as críticas como porta-voz empresarial -o vice é dono de empresas-, Lula acha que, na segunda-feira, ele foi induzido a cair numa jogada do vice-presidente do Senado, Paulo Paim (PT-RS), para obter espaço na mídia.

Paim visitou Alencar e o incentivou a falar com os repórteres. Foi nesse contexto que foi dada a entrevista coletiva na qual o vice pediu interferência "política" para baixar os juros...”

 

O lugar dos sentimentos na reportagem.

   

Os sentimentos são essenciais na reportagem. Mais ainda, na reportagem de fatos prosaicos, como discursos de autoridades. Em vez de escrever “Churchill disse ontem que a paz ainda está distante,” é muito melhor escrever: “Debaixo de uma chuva fina, com a cabeça desprotegida, Churchill disse ontem que a paz ainda está distante. “

  

Notem que neste exemplo, citado de memória de um manual de redação inglês, o estado  de espírito do protagonista não é definido explicitamente,  muito menos adivinhado. O que o jornalista faz é descrever fatos concretos ( chuva fina, cabeça desprotegida), que podem ser associados a sentimentos. 

  

Já a  matéria do nosso exemplo define categoricamente  sentimentos, disposição, opiniões, visões, crenças do ministro José Dirceu e  até mesmo do presidente, a saber: 

 

José Dirceu estava preparado para a guerra...

Dirceu não gostou...

O ministro leu como...

Na visão de Dirceu...( esta expressão aparece das vezes)

Crê o ministro da Casa Civil...

Ciente da contrariedade de Dirceu...

Lula não deseja fazer...

Lula acha que...

Ele foi induzido...

 

Os sentimentos como fio condutor da narrativa.

    

O jornalismo mediúnico em primeiro lugar adivinha os sentimentos dos protagonistas.  Em segundo lugar, usa os sentimentos como fio condutor da narrativa. Essas parecem ser  as duas característica desse novo gênero. 

   

A descrição desse sentimento ou crença em cada episódio não é apenas acessória, para ilustrar ou dar colorido ou expressividade ao texto. O sentimento, ou  estado de espírito do protagonista é o fator principal que explica seu gesto ou decisão. Por isso, eles aparecem praticamente em todas as frases. 

 

Eliminando o problema das fontes.

   

Notem que no texto exemplar, em apenas uma das passagens a descoberta do sentimento é atribuída a uma fonte, mesmo assim muito vaga: “na expressão de um auxiliar”.  Leitura da Mídia verificou que neste episódio o jornalista nem sequer falou como ministro José Dirceu. A grande vantagem desse novo gênero é justamente essa: ele dispensa  fontes. Essa é a sua lógica operacional.

 

* O novo gênero foi detectado primeiramente por Fábio Kerche, que cunhou a expressão “jornalismo mediúnico.” A Pesquisa do texto exemplo que usamos hoje foi feita por Telma Feher.


 
     
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