Sistema e browser desconhecidos

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As muitas formas de não dizer a verdade – III
 

  

Continuamos com nossa série de verbetes que tem por finalidade ajudar as assessorias a responderem distorções do noticiário, sem ter que usar linguagem adjetivada. Os verbetes procuram descrevem os mecanismos específicos de manipulação da matéria jornalística. 

 

Editorialização da notícia.

 

Dá-se quando o jornalista  ou editor inserem opiniões na matéria informativa com a intenção deliberada de guiar o juízo dos leitores. Fenômeno cada vez mais comum, chegando atualmente às manchetes de jornais. Ex: “Marta recua, adiando a licitação”. A notícia é  “Marta adia a licitação”. O qualificativo “recua’, deveria estar  num editorial comentando a fato. Nos jornais de hoje temos alguns exemplos da editorialização da notícia. 

   

No O Globo, a manchete sobre a manifestação dos servidores é o exemplo de uma forma sutil de editorialização da notícia: “Marcha divide sindicatos e o PT.” A manchete parece  expressar com perfeição o que aconteceu ontem em Brasília, mas que tal esta outra: “Governo racha sindicalistas”.  Por aí se vê que foi editorializada.

   

Um exemplo de  editorializada grosseira é a reportagem da Folha de hoje sobre a demora do governo em gastar o dinheiro que tem, em que entrevista o Ministro do Planejamento, Guido Mantega. Escreve a jornalista no meio da reportagem: 

   

“Em vez de avaliar o desempenho do governo pelos gastos dos investimentos em comparação ao valor autorizado por lei, Guido Mantega prefere considerar também os gastos com manutenção da máquina....” 

 

Esse trecho é um editorial. Encaixado no meio da entrevista é uma indelicadeza além de denotar falha no questionamento na hora da entrevista. 

 

Deformação da informação.

 

Dimensionar os fatos de modo desproporcional à sua importância, com a finalidade de direcionar o seu sentido. É o que ocorre quando um incidente numa passeata ocupa todo o noticiário, sem que o próprio motivo da passeata ou  suas demandas sejam informados. 

 

Denuncismo.

Denúncias de prevaricação na gerência da coisa pública, ou mesmo em negócios privados, baseadas em dossiês, sem o cuidado de verificar sua  veracidade e sem conceder ao acusado a presunção da inocência. O denuncismo vem funcionando como um substituto da justiça, uma espécie de linchamento que se dá no espaço midiático. 

 

Temos um bom exemplo hoje com a denúncia do Correio   Braziliense: “Xerife da moralidade mentiu para o governo”. A denúncia é de um episódio antigo, de dois anos atrás, no qual um funcionário teria dito que não tinha propriedade em Brasília, para ter direito a apartamento funcional. A mentira,  se aconteceu, durou pouco, porque o funcionário logo  corrigiu sua declaração. Não houve nenhuma conseqüência. Nenhum prejuízo ao governo. Nada.

 

Qual a lógica do denuncismo? A lógica econômica. É muito barato dar um furo de reportagem e se mostrar como guardião do interesse público, com esse tipo de matéria. O preço, quem paga, é a vítima, no caso o funcionário, que teve seu nome conspurcado por uma matéria no principal jornal da cidade em que ele vive com sua família e seus filhos.

 

Especial: A matemática das manifestações

por Moacyr Oliveira Filho (Moa)

 

Desde os tempos das passeatas contra a ditadura, quantificar com precisão o número de pessoas presentes a um comício, uma passeata ou qualquer manifestação, tem sido um desafio para os jornalistas.

 

E, quase sempre, a divulgação desse número desagrada alguém, seja  os organizadores da manifestação ou do comício, seja os alvos do protesto.

 

Para resolver o problema, os jornalistas adotaram algumas práticas. Uma delas é  combinar previamente entre si o número que será divulgado. Outra, é a citação de dois cálculos:  um da Polícia Militar, sempre mais baixo, e outro dos  organizadores, sempre mais alto.

 

E assim tem sido durante todos esses anos.

 

Ontem, esse critério parece não ter sido utilizado por todos os repórteres, na avaliação do público presente na manifestação dos servidores públicos na Esplanada dos Ministérios.

 

Vejamos os números divulgados:

 

“Ato de 20 mil” ( O Globo)

 

“Organizadores dizem ter reunido 40 mil, PM fala em 30 mil” (Folha)

 

“A manifestação reuniu entre 20 mil e 50 mil servidores, conforme versões da Polícia Militar e dos organizadores” (JB)

 

“Para a PM havia 20 mil pessoas, para os organizadores, 30 mil” (Estadão)

 

“Manifestação reúne 30 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar” (Correio Braziliense)

 

“Pelas contas da PM e dos sindicalistas, 20 mil pessoas participaram do ato” (Jornal Nacional)

 

“Os funcionários públicos conseguiram levar 25 mil pessoas à Esplanada, segundo cálculos da própria PM” (Jornal da Record)

 

Uma leitura atenta desses números mostra que, dessa vez, os repórteres não só não combinaram entre si um número comum para utilizar nas suas matérias, como cada um deve ter ouvido fontes diferentes, tanto na PM, como na organização do evento. Só isso explica que a avaliação da PM oscile de 20 a 30 mil pessoas em cada matéria, e a dos organizadores varie de 30 a 50 mil.

 

Embora, nesse caso, 10  mil pessoas a mais ou a menos não faça muita diferença para dimensionar a representatividade do protesto, a divulgação de números tão discrepantes mostra, mais uma vez, a pouca preocupação da mídia com a precisão das informações que publica. E, como sempre, quem perde com isso é o leitor.


 
     
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