Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Encontro Literário      |      

O dia em que a Folha derrubou uma manchete verdadeira para colocar uma falsa
 

    

Na primeira edição da Folha de hoje, aquela usada para confeccionar a “Mídia Impressa” da Radiobras,  estava a manchete  semelhante às de praticamente toda a imprensa nacional, inclusive jornais fora do eixo Rio -São Paulo:

 

“Lula propõe taxar armas contra a fome.”

 

É um fato de indiscutível importância jornalística, por envolver o Presidente do Brasil, o fórum dos chefes de estados mais poderosos do mundo, e uma proposta ao mesmo tempo concreta e de alto conteúdo ético.

 

Na segunda edição, essa manchete sumiu. Foi parar num cantinho da página, reduzida a uma chamadinha de uma única coluna. No seu lugar, uma nova manchete  um tanto obscura, que não tratava de um fato e sim de uma polêmica, e ainda de difícil entendimento numa leitura rápida.

 

“Reajuste de salário perde para preços e contradiz BC”.

 

Esta nova manchete, usada pra rebaixar a proposta de Lula, a rigor nem é verdadeira, é uma assertiva falsa. Ela se baseia nos seguintes dados do DIEESE, detalhados na matéria, no interior do jornal (pg B1):

   

“Segundo levantamento do DIEESE,  em apenas 14,29% dos acordos salariais feitos de janeiro a maio, os trabalhadores  conseguiram recuperar o poder de compra com reajustes superiores ao INPC...enquanto 46,43% dos reajustes ficaram abaixo da inflação medida pelo INPC, 39.28% dos acordos conseguiram zerar a variação do índice na data-base.”

 

Notem a construção deliberadamente tortuosa, feita para fazer passar a idéia falsa de que  a maioria dos trabalhadores não conseguiu sequer  “ recuperar o poder de compra” . Não é verdade: em 14,29% dos acordos, os trabalhadores conseguiram mais do que a reposição do INPC e em outros 39,28% conseguiram a reposição plena do INPC. Somados isso dá 53,57%, dos acordos. 

 

Um caso de manipulação dos números.

   

Os dados não falam em maioria dos trabalhadores e sim maioria dos acordos. Mas já destroem o argumento central da matéria de que o Copom está errado ao falar em inércia inflacionárias por indexação de  salários. O BC pode até estar errado, em outras coisas, mas o que os números do DIEESE mostram  um claro e generalizado processo de indexação de salários. Ao contrário d a manchete da Folha, que, portanto, é uma assertiva falsa.

   

O autor  nem não se preocupa em destrinchar o tamanho das principais categorias que fizeram os diversos acordos, informação que poderia eventualmente mudar todo o rumo do argumento. Também não informa quanto  abaixo da inflação em média, ficaram os reajustes dos 46,43 que não conseguiram reposição plena. Meio ponto percentual, um ponto? 

   

A matéria traz argumentos poderosos de Walter Barelli e Clarice Messer contra a justificativa do Copom que culpou indexação salarial pela inflação inercial. Mas são argumento de outra ordem, que partem do bolo da massa salarial e da renda média dos assalariados, ambos em queda. Os dados numéricos dos acordos salariais levantados pelo DIEESE corroboram em vez de negar a tese do Copom. 

    

É falsa em especial a passagem da matéria que diz: “os reajustes salariais dados aos trabalhadores nos primeiros cinco meses do ano ficaram na maior parte, abaixo da inflação.”

 

O mistério da troca da manchete.

    

O que aconteceu na redação da Folha, no intervalo entre a primeira edição e a última?   O que intriga é a razão da mudança, que além de depreciar um fato jornalístico importante, desinformou o leitor na questão da indexação salarial. As duas matérias já estavam lá desde o primeiro fechamento. Não se trata de uma  situação em que de repente chegou uma notícia mais quente e foi preciso mudar a primeira página. Além  disso, a qualidade da matéria sobre salários é ruim demais, como qualquer editor poderia ter percebido Só pode ter sido a chegada de alguém ou o telefonema de alguém, obviamente, da direção do jornal. Viu Lula na manchete, viu combate á fome na manchete, Não gostou. Mandou tirar. 

 

Não deixe de ler:

O artigo de Luiz Carlos Bresser Pereira na página B 3 Folha de hoje,em que ele expõe as relações entre taxa de juros e inflação. Um artigo essencial para quem está acompanhando o debate mais quente de nossos dias.


 
     
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