Sistema e browser desconhecidos

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Prefácio: A história vista do cárcere
 

Este livro pode ser lido de diversas maneiras, a começar pelo seu valor de face, ou seja,  como uma história objetiva e detalhada da repressão política no Brasil desde suas  origens, culminando com os métodos especialmente cruéis e as atrocidades cometidas  durante a ditadura dos anos 1960 e 1970. Também pode ser lido como narrativa típica do  pensamento e visão do mundo das esquerdas latino-americanas formadas no marxismo militante nos marcos da Guerra Fria em que por um lado ecoava o triunfo, em Cuba, da  primeira revolução socialista em solo americano e por outro, regimes militares eram  implantados com apoio norte-americano em todo o Sul do continente e iniciava-se o  pesado bloqueio a Cuba que perduraria por mais meio século. E pode ser lido como fruto  de uma estratégia específica de sobrevivência intelectual desenvolvida por jovens que  mesmo encarcerados não se renderam e mantiveram não só o sonho de mudar o mundo,  também o desejo de continuar lutando. É sob essa ótica que eu prefiro ler este livro.

 

Nas narrativas sobre a ditadura dos anos 1960 e 1970, objeto ainda embaçado no  imaginário social do nosso povo, predominam testemunhos dos que contra ela lutaram ou  foram por ela perseguidos, presos, supliciados, exilados, ou por sua causa sofreram  perdas de amigos e parentes. São centenas de relatos em primeira pessoa. Em contraste,  são poucas as obras impessoais, nas quais o objeto central é a repressão e contam-se  nos dedos de uma mão as que foram escritas no calor da luta. Esta é uma delas e  passado meio século, ainda hibernava. Sua publicação, coincidindo com os resultados  frustrantes da Comissão Nacional da Verdade sobre os crimes da ditadura é  especialmente significativa. Quiçá contribua para que se acertem contas das atrocidades  aqui descritas até praticamente o apogeu da repressão, janeiro de 1975, quando o relato  se encerra.

 

Embora líderes populares e militantes tenham sido torturados e desaparecidos desde os  primeiros dias do golpe até praticamente o último ano da ditadura, é ao longo do ano de  1974, quando esta narrativa estava sendo completada, já nos estertores do regime militar,  que a repressão implanta como política sistemática, o método do desaparecimento de  militantes, antes aplicado de forma localizada no extermínio da guerrilha do Araguaia. 

 

Imbuídos do espírito de resistência, mais do que isso, de participação na luta que lá fora  continuava - embora já em situação desesperadora - o que podiam/esses militantes já  encarcerados? Municiar as entidades e indivíduos que se dedicavam à denúncia dos  horrores que haviam presenciado. Esse parece ter sido o objetivo central desse esforço  coletivo. Por isso, ao passo que as autobiografias e testemunhos dos participantes da luta  contra a ditadura são narrativas de catarse, de introspecção e autoanálise, este livro tem  como seu objeto central a denúncia da própria ditadura e seu sistema de repressão, ou  seja o ambiente externo ao indivíduo. 

 

Contudo, não fica apenas na denúncia em si. Estuda a gênese dos aparatos de repressão  e seu lugar nas lutas populares em diferentes fases de nossa história, buscando entender  porque os aparelhos de repressão do Estado brasileiro chegaram à selvageria dos anos  1960 e 1970. Que forças sociais e estamentos propuseram e deram sustentação às  atrocidades cometidas? Como cada etapa de lutas e repressões se articula com os  modos de produção dos respectivos períodos? Em que contexto internacional aquilo tudo  acontecia? Para responder essas questões esse pequeno grupo debruçou-se em quase  cinco séculos de história de uma sociedade que se formou no escravismo e manteve até  hoje grande parte de sua população privada dos direitos elementares de vida e cidadania.  

 

Tentam sistematizar essa longa história de opressão e de lutas tendo como norte explicar  os anos de chumbo. Um dos pontos altos deste texto é a análise de como o Exército  Nacional, a partir da Guerra do Paraguai, se tornou um protagonista central da cena  política brasileira, não mais abandonando o centro do palco. Outro ponto alto é a  sistematização do encadeamento de ações que desembocaram no golpe, sua articulação  e sua doutrina. 

 

Como terceiro ponto alto, destaco o desenho analítico da arquitetura da repressão, sua  extensão e capilaridade, que foram muito além do que ainda hoje se imagina, e fizeram  do regime militar, a despeito de sua máscara de um autoritarismo ameno, um silencioso e  temível Estado policial, atingindo com seus tentáculos todas as esferas da vida social, no  campo, nos sindicatos, nas universidades, nas empresas estatais e autarquias, e na cultura.

 

Nessa tarefa, à qual se dedicaram com notável aplicação, gerando um texto extenso e  meticuloso, tiveram todo o tempo do mundo que só uma prisão prolongada permite.  Porém não puderam consultar obras fundamentais. A bibliografia, por isso, é parca,  limitada a uma dúzia de autores, #s que puderam contrabandear para dentro da cadeia. O  método que os guiou é o do materialismo histórico que entende a luta de classes como  motor da história, e as bases econômicas como determinantes das condições da  superestrutura, incluindo-se nela os aparelhos coercitivos de Estado e a ideologia das  classes dominantes. A linguagem que é canônica e datada, embora não acadêmica,  reflete uma preocupação constante com a precisão em demarcar os campos antagônicos  daquela luta. 

 

Enquanto os relatos testemunhais pós-ditadura tentam entender o que moveu essa  geração de idealistas num dos momentos mais tensos da nossa história, este texto escrito  dentro da prisão no calor da hora é basicamente reiterativo. Busca reforçar o ânimo dos  que lá fora ainda arriscavam suas vidas numa luta desigual e numa situação já  desesperadora. É como se a força do gesto moral que os levara à luta fosse tão intensa,  que não cabia discutir a validade política de sua continuação, suas chances de algum grau de sucesso. A luta, para esses poucos ousados e valentes, era um imperativo ético.

 

E quem poderia prever o horror dos métodos da repressão? As torturas sistemáticas, ao  ponto de levarem muitos desses jovens à loucura e ao suicídio? Os desaparecimentos, as  execuções sumárias? As casas da morte? Os que lutaram foram ingênuos ao supor que o  Estado se autoimporia limites legais ou morais. A história nos mostra que, ao se ver  desafiado, o Estado se transfigura rapidamente num monstro implacável e feroz, que a  nada se curva. Mesmo nas sociedades de tradição democrática, assim reage o aparelho  de Estado quando desafiado. Assim reagiram na Guerra Fria e assim reagem hoje. Foram  ingênuos e alguns de seus líderes talvez tenham tangenciado o limite da irracionalidade.  Contudo, foram os que ousaram, os que sonhavam mudar o mundo e não se  acovardaram.


 
     
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