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Introdução: Estação Doi-Codi
 

Introdução ao livro: Estação Doi-Codi

 

Embora contrapondo lembranças de quando foi preso e torturado com cenas atuais de visitações  ao Doi - Codi e sessões da Comissão Estadual da Verdade, esta narrativa de Álvaro Caldas pertence  claramente ao mesmo gênero testemunho de seu Tirando o Capuz, um dos primeiros dessa  categoria, publicado ainda em 1981, mal tinha sido decretada a Anistia Política.

 

Testemunhos de situações extremas de opressão contêm um paradoxo: A impossibilidade de  expressar a verdade essencial e última porque esta se foi com quem não sobreviveu. Álvaro Caldas  o admite quando diz: "Nesse ponto, o narrador chega ao indizível. "  E também o inferno que foi  aquilo está bem expresso na advertência de um preso a outro, recém-trazido: "Fale tudo, eles são  loucos. “

 

Talvez por terem sido situações extremas, são tão numerosos os testemunhos dos que por elas  passaram. Começaram ainda em plena ditadura com as "Memórias do Exílio” de Arthur José  Poerner, publicado em Lisboa em 1976. Nessa primeira fase, em que, predomina o tema do exílio,  tivemos, entre outras, "Tempo de Ameaça", de Rodolfo Konder, o primeiro tomo das memórias de  Gregório Bezerra, e "Querida Família", de Flávia Schilling. E também as "Cartas da Prisão", de Frei  Betto, que tratam do exílio interno, nos cárceres da ditadura.

 

Numa segunda fase, já com a anistia no horizonte surge "O que é isso companheiro?” de Fernando  Gabeira (1979), que provoca um frisson, por romper com os dogmas da esquerda a que pertenceu.  Segue-se uma avalanche de narrativas auto-biográficas. "Camarim de Prisioneiro", de Alex Polari e  "Os Carbonários" de Alfredo Syrkis, ambos de 1980, o "Tirando o Capuz", de Álvaro Caldas e  "Guerra é Guerra" de índio Vargas, ambos de 1981. Duas delas mergulham também na trajetória da  própria utopia, a utopia socialista em Os Carbonários e a utopia nacionalista em Guerra é Guerra. Já  está presente a autocrítica da luta armada, contudo seus protagonistas narradores - à exceção  talvez de Gabeira - demonstram constância ético-ideológica. 

 

O ciclo se encerra em 1984 como "Pedaços de morte", de Flávio Koutzi. Seguiu-se um intervalo, de  reconstrução pessoal e da campanha das Diretas que parece não ter deixado espaço para a auto -  reflexão até que uma década £á-se nova avalanche de auto-biografias, começando pela coletânea de  32 testemunhos de militantes na coletânea "Tiradentes, um presídio da ditadura", em 1997.  Seguiam-se a autobiografia de Dom Paulo Evaristo Arns, Da esperança à Utopia, em 2001 e O Baú  do guerrilheiro, de Ottoni Fernandes Júnior em 2004. As últimas que nos chegam, são 'Por um Triz,'  de Ricardo Azevedo, que recupera a história da Ação Popular, "Minha Vida de Terrorista” de Carlos  Knapp e O Assalto ao céu de Takao Amano, ambos de 2014 e esta, de Álvaro Caldas.

 

São várias as motivações das auto - biografias. Para fazer um balanço, diz Syrkis: "Erros  cometemos e a validade do gesto moral não atenua a dimensão daquela derrota que custou muitas  vidas valiosas", ele admite, dirigindo-se principalmente às "novas gerações que despontam."  Também para reiterar convicções: "Não me sinto derrotado e tampouco vitorioso. Sei que perdemos  uma batalha, mas não a guerra de classes contra o capitalismo," diz Takao Amano. 

 

Antônio Cândido, numa análise do conjunto das 32 auto - biografias dos presos políticos do presídio  Tiradentes, aponta três características dessas narrativas: nenhum de seus autores se coloca na  condição de vítima, todos tentam ser sinceros e contribuir para traçar o panorama daqueles tempos e  todos escrevem num tom de "eloquência discreta.” Observa também que essas memórias revelam   jovens conscientes da opção que escolheram e de seus riscos, sem que muitos deles soubessem  dimensionar esses riscos e a desigualdade da luta, ou estarem para ela devidamente preparados.  Alguns, diz ele, deixaram - se levar pelo cabresto ideológico. 

 

Nessas carências talvez esteja a razão mais geral e profunda de tantos testemunhos. Razoes  psicológicas, mais do que ideológicas. Textos auto - biográficos permitem ao autor o re-exame de  crenças e valores através da reconstrução memorialista de seus atos. E como se cada um que passou  pelos cárceres da ditadura ou amargou o exílio, sentisse a necessidade de uma catarse. E como se as  narrativas fossem confissões, ajustes de contas, algumas consigo mesmo, outras com filhos e  netos^que conheceram país e avós como pessoas mas não como personalidades políticas, e há as que dirigem a amigos e até ao espírito de companheiros mortos ou desaparecidos.

 

São também narrativas de dor e de espanto. Narrativas de sobreviventes. “Escrever sobre fatos tão  dolorosos como a prisão, tortura, anos afastado da sociedade é muito doloroso. Pior ainda quando se  assiste, da prisão, impotente, ao assassinato de tantos companheiros de luta", escreve Ottoni na  apresentação de suas memórias. Os relatos são terríveis, por que terríveis eram os métodos da  repressão, poucas vezes igualados na história. Muitos foram levados à loucura ou suicidaram - se  anos depois, alguns já no exílio, suas psiques irremediavelmente despedaçadas pela tortura. Vários vivem até hoje no exílio, e há os que vivem numa espécie de exílio mental, não conseguindo se  libertar das seqüelas psíquicas da tortura e da perda de companheiros mortos e desaparecidos. "Mais  de quarenta anos depois, essas lembrança ainda causam arrepios e lágrimas," diz o deputado  Adriano Diogo, presidente da Comissão da Verdade da Assembléia Legislativa do Estado de São  Paulo, também ex-preso político, numa breve memória recém publicada. 

 

Ressalto a brutalidade de todo isso, porque ela explica talvez a ausência de ambições literárias na  maior parte dessa produção auto - biográfica. As exceções são raras e uma delas é este texto de  Álvaro Caldas. Outras exceções são as Memórias do Esquecimento, de Flávio Tavares publicada em  1999, que se destaca já no aparente paradoxo do título e o perturbador Ulciscor, estranhas memórias  do pouco conhecido paranaense Walmor Marcellino publicada em 2010, que ele próprio chama de  "esboços crítico- históricos.” 

 

E como se não se pudesse fazer literatura com coisa tão sórdida. Além, é claro, da incompatibilidade entre o registro factual do gênero testemunho j que busca estabelecer verdades, e  a invenção que caracteriza a criação literária. São gêneros que dificilmente se misturam. 

 

Nos capítulos que tratam do hoje, Álvaro Caldas nos revela a constrangedora impotência da  Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro, perante o cinismo dos poucos agentes da  repressão ainda vivos e que se sabem imunes. É a mesma impotência da Comissão da Verdade  Nacional, instituída sem o poder de fazer justiça e tão tardiamente que já não havia quase a quem  interrogar. 

 

Ao final de seus trabalhos, a Comissão Nacional da Verdade apresentou seu relatório revelando  episódios escabrosos, a maioria deles já conhecidos. Tanto esse relatório, como as próprias sessões  da comissão e de outras estaduais e municipais mal foram mencionados pela mídia. A memória da  ditadura continuará sendo registrada primordialmente pelos livros catarse dos que contra ela  lutaram. Até que eles também desaparecerão e nada mais restará, senão teses acadêmicas e uma  breve referência em linguagem canônica nos livros escolares de História do Brasil. Será lembrada,  se o for, como são lembradas a Guerra dos Farrapos, ou a Batalha do Riachuelo, ou a Cabanada. Ou  seja, uma abstração histórica sem substância condensada numa frase de efeito qualquer. O que  também é uma forma de "não dizer o indizível."


 
     
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