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Apresentação: Comunicação e Política
 

Apresentação do livro: Comunicação e Política

 

Até que ponto ações comunicativas na esfera pública, em especial por parte do Estado,  poderiam esvaziar o terrorismo? Ou vencer impasses e ultimatos específicos, como os  seqüestros de políticos pelas FARCs da Colômbia? Ou acabar com os sangrentos  atentados a ônibus e mercados populares no Sri Lanka, na Argélia, no Paquistão?  Ou extinguir com a prática dos homens bomba no Oriente Médio? 

 

Nos ensaios deste livro, a comunicação pública é entendida num sentido ontológico, como  constituinte da política; como parte de uma esfera pública na qual atores sociais valem-se  da mídia para dialogar e negociar entre si e com a opinião pública. Graças à internet, há  também na esfera pública de hoje um novo "poder comunicativo dos cidadãos" como diz  Carly. Os próprios atentados terroristas tem entre seus objetivos principais o reconhecimento público de sua existência e a visibilidade ampliada na esfera pública. O  terceiro objetivo dos terroristas é instituir o medo. Muito raramente, em apenas algumas  circunstâncias, os atos terroristas tem como alegar um ganho militar.

 

Sendo a comunicação pública constituinte da política, ela se dá no espaço ostensivo das  representações, conforme as teses de Hannah Arendt. Nesse espaço, falas e atos fazem  parte de uma construção social de significados marcada pelas circunstâncias materiais e  subjetivas do momento. Deveria predominar nesse espaço a razão argumentativa, no sentido concebido por Habermas, de que a interlocução pode levar a soluções distintas  conforme o peso de razões subjetivas, mas sempre com base nas condições objetivas.   No caso, condições políticas objetivas.

 

Digo " deveria" porque a tragédia das situações descritas neste livro está justamente na  inobservância das condições objetivas. Já começa pelo fato de que em geral é a ausência  de condições objetivas para avançar que leva organizações de luta armada ao recurso  extremo do terrorismo. Necessariamente clandestinos e minoritários, muitas vezes isolados  de suas próprias comunidades, os terroristas quase sempre provocam o " diálogo” com a  esfera pública através de um ato de terror.

 

Este livro mostra o fracasso da razão argumentativa nas situações limites de violência na  política, como foram os casos do seqüestro e assassinato de Aldo Moro na Itália em 1978  pela Brigadas Vermelhas, e o assassinato do vereador Miguel Angel na Espanha pelo  ETA, em 1997.

 

Nos dois episódios, organizações clandestinas adotaram posições de irracionalidade  difíceis de serem entendidas, até mesmo levando em conta as mais tortuosas razões  subjetivas. Como se fossem movidas pelo imperativo categórico de matar, rejeitaram  apelos de clemência até mesmo de seus seguidores. No seqüestro e execução do  vereador Miguel Angel, o ultimato do ETA nem deu tempo hábil para o desenvolvimento  de um exercício de diálogo argumentativo ou negociação. No de Aldo Moro, passaram-se  55 dias até o mesmo desfecho: a execução do seqüestrado. Como se o fator tempo não  fosse determinante, porque nunca houve nada a ser amadurecido, pensado, negociado  entre o seqüestrado e seus seqüestradores, ou entre os seqüestradores e a sociedade  civil.

 

Os dois casos sugerem que o terrorismo é uma política de desespero. Mas não um  desespero necessário, como o do levante do guetto de Varsóvia, inútil naquele momento  mas de valor emblemático na salvaguarda da memória dos resistentes. Morrer lutando,  não como carneiros. O desespero do ETA ou das brigadas vermelhas gerou, ao contrário,  um passivo moral desses movimentos perante sua própria história e o humanismo.

 

O mais paradoxal é que nos dois casos, mais nitidamente no de Aldo Moro , esses  equívocos mortais não ocorrem à margem do processo político mas como etapas quase  que necessárias de processos de transição de sistemas políticos atrasados ou  autoritários, paia sistemas modernos de representação. São tragédias políticas. Talvez por  isso, não adiantaram as tentativas de superar os impasses pela negociação.

 

O espetacular e devastador atentado do El Qeda ao World Trade Center mudou o panorama mundial e colocou o combate ao terrorismo, antes prioridade de alguns  Estados nacionais, como prioridade de todo o sistema mundial de poder, unindo até  mesmo Estados Unidos e Federação Russa. Entre os governantes europeus, há o  consenso de que o terrorismo atual tornou-se um problema de primeira ordem e grande  complexidade, um desafio estratégico de envergadura. Um dos mais cruéis atos  terroristas do novo cenário foi o ataque dos terroristas chechenos a uma escola que levou  à morte dezenas de crianças totalmente inocentes.

 

Com tudo isso, ações terroristas ainda são aceitas em algum grau, em geral de modo ambíguo ou inconsciente, por alguns setores simpáticos às causas libertárias, que os associam às lutas anti-imperialistas, ou de libertação nacional. Ou por serem vistos como única opção ao que é chamado de "terrorismo de Estado." A causa original de muitos desses movimentos, como o ETA no País Basco, o IRA na Irlanda do Norte e os Tamil, no  Sri Lanka, pode ter sido um projeto político de erradicação nacional. Outros tiveram como  causa original um projeto revolucionário da transformação social, como as FARCs na  Colômbia e as Brigada Vermelhas, na Itália. Mas quase todos, quando seus objetivos se  tornam historicamente superados, como é o caso dos Bascos na Espanha após a unificação européia, ou inalcançáveis, como aconteceu com as Brigadas Vermelhas ou com as FARCs passam a viver da realimentação do medo e do desejo de retaliação. O terrorismo vira uma caldo de cultura de um poder paralelo que se recusa a morrer. Na  Palestina, por exemplo, cada vez que começava um processo de aproximação entre  Israel e Autoridade Palestina, o terrorismo recrudescia. Em várias ocasiões, tentativas de  acordos de paz foram implodidas por atentados terroristas.

 

No terrorismo de raízes étnicas, como na Irlanda do Norte e no país Basco funciona durante muito tempo a "espiral do silêncio", o mecanismo pelo qual a população local não  consegue expressar claramente sua rejeição às suas táticas. Mas há um momento em até  isso tudo explode. Foi o que aconteceu na Espanha, primeiro em resposta ao assassinato  do vereador Miguel Angel, que provou manifestações de repúdio nunca antes vistas,  depois em reação ao atentado do El Qeda aos trens de Madrid em 11 de marco de 2004  que matou 192 pessoas e reverteu o resultado das eleições. O conservador José Maria  Aznar cometeu o erro capital, quando se trata de comunicação pública, de mentir à   população, atribuindo o tentado ao ETA.

 

Baltazar Garzón, o juiz espanhol que condenou o partido nacionalista basco Herri Batsuna , por abrir espaço em seu programa eleitoral a um vídeo do ETA de apologia à luta  armada, reuniu posteriormente em livro críticas pesadas ao uso do terrorismo na política,formuladas por chefes de Estado, especialistas e lideranças políticas de todo o mundo. No seu livro A luta contra o terrorismo e seus limites' um dos entrevistados, o ministro do interior da Espanha, Miguel Angel Moratinos diz que o " O objetivo principal do  terrorismo é produzir medo e pânico para desestabilizar psicologicamente a sociedade'.  Lembra que a palavra terror foi aplicada pela primeira durante a revolução francesa . E o  terrorismo " foi sendo usado por diferentes projetos políticos ao longo da história, sob a  proteção de um discurso legitimador que pode ser religioso, cultural ou o político, mas  sempre com a mesma 'sem-razão" .

 

Nesse livro, o primeiro ministro espanhol José Luiz Zapatero, eleito justamente na onda de reação ao atentado de Madrid, diz que . 'Não há razão no terrorismo, não há sentido, não há política, no terrorismo, sô há terror morte e chantagem ". A tese central de Garzón  é a de que o terrorismo éa não política. O fato de um movimento que nega a política  poder ter como causa principal a política mostra a complexidade do problema.

 

Garzón defende uma filosofia geral de combate ao terrorismo que em tudo a ver com o conceito de comunicação pública como constituinte da política: é a da legalidade como estratégia e a repressão como prática aperfeiçoada. A crítica que ele faz ao governo americano é exatamente a de ter abandonado a legalidade depois do atentado do 11 de setembro, violando direitos humanos e leis internacionais. Os ataques do El Qeda, além  de alimentarem em todo o mundo um sentimento geral de vulnerabilidade, como mostra  este livro, levaram o terrorismo a um novo patamar de destruição. Os atentados  anarquistas visavam apenas a pessoa do governante identificado com a opressão ou o  que seja, em geral, o Rei. Mesmo o IRA, em geral, avisava com antecedência a hora da  explosão para dar tempo às pessoas de fugirem. A El Qeda, ao contrário, procura infligir   o máximo e não o mínimo de vítimas.

 

As ações da El Qeda levaram à assinatura de tratados e criação de organismos conjuntos  de combate ao terrorismo. Em todo o mundo e em todas as viagens internacionais foram  reforçadas as regras de segurança. Nos Estados Unidos, Europa, e alguns outros lugares,  já foram introduzidas mudanças estruturais no aparelho de Estado e nas leis de repressão  depois do 11 de setembro que limitam as liberdades e garantia individuais. É assustadora  a naturalidade com que os grandes meios de comunicação aceitam as aberrações e  violações dos direitos humanos cometidas pelo governo americano em Guantanamo  contra os suspeitos de terrorismo. Carly aponta no terceiro ensaio, sobre a auto- censura,  o perigo de se instituir em escala mundial uma sociedade de comunicação com traços de  autoritarismo , censura e auto-censura que antes só se encontravam em alguns países  periféricos sem tradição democrática.


 
     
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