Sistema e browser desconhecidos

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Agenda:

Apresentação
 

Apresentação do livro: de Francisco Fonseca 

 

Muito do Brasil institucional de hoje foi formatado naquele "momento singular" de nossa  história, como o denomina o professor Francisco Fonseca, que foi a transição da ditadura  militar dos anos 70 para a democracia formal. O Brasil é único, entre as excitadoras do  Cone Sul, a não punir os responsáveis pelos desaparecimentos, torturas e assassinatos  de ativistas políticos dos anos 70. Nem mesmo a história daqueles tempos foi no Brasil  por inteiro desvendada, graças ao sigilo quase eterno imposto aos documentos da época.

 

O pacto empresarial - militar que regeu a ditadura, manteve-se na transição para democracia, embora mudando de modo e de função. Mudou de modo ao substituir a  coerção física pela persuasão ideológica; mudou de função ao se propor a determinação do futuro, em vez da mera garantia do presente, tornada inútil pela própria dinâmica da transição.

 

Nessa mudança de modo e de objetivos, os Aparelhos Ideológicos de Estado, como os denominou Althusser, passam a ser mais importantes do que regimentos de infantaria. Esses aparelhos são a escola, a imprensa, a igreja, os grêmios mais diversos, os partidos políticos. Fonseca estuda a atuação de dois desses aparelhos ideológicos, o jornal O Estado de S. Paulo e a revista VISÃO, na determinação do caráter da transição. Eles os  chama, adaptando o conceito de Althusser, de "aparelhos privados de inculpação  ideológica", não no sentido de atuarem numa esfera privada e sim no de serem  propriedade privada, empresas comerciais. Embora se auto - proclamando liberais, esses  dois veículos revelaram mais uma vez às abertas ou às escondidas a vocação autoritária  e conservadora do liberalismo brasileiro. O Estado de S.Paulo erigindo em valor principal  a manutenção da ordem - em outras palavra a deslegitimação das massas como  protagonistas da política.VISÃO aproveitando-se oportunisticamente do desmonte do  poder militar, para propor também o desmonte do Estado e a implantação do que hoje se  chama de neo - liberalismo, o sistema no qual o capital financeiro e os interesses privados  tomam conta de todos os espaço da sociedade.

 

Com a inestimável ajuda desses dois veículos de imprensa, entre outros, a democracia de  hoje - conquistada de baixo para cima pelas mesmas massas que tentaram desqualificar,  especialmente as greves do ABC do final dos anos 70 - resultou formal e pouco  substantiva. Nada de reforma agrária, nada de enfretamento da tutela militar, nenhuma  mudança de fundo na repartição da riqueza nacional.

 

Hoje, décadas depois, percebemos como a abertura resultou de fato lenta, gradual e principalmente segura para os detentores do poder, como a concebeu o estado maior geiselista. Nem mesmo a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores feriu os fundamentos desse pacto. Os ideólogos do PT admitem que o primeiro presidente operário de nossa história, conseguiu bem governar porque evitou tocar nos interesses dos dois principais grupos de interesse do país, os grandes proprietários de terra e os banqueiros. E eu acrescentaria um terceiro grupo, o dos grandes empresas de comunicação de massa, capitaneadas pelo sistema Globo. O que Fonseca aferiu para VISÃO e O Estado de S.Paulo vale para o conjunto da grande mídia brasileira que opera  hoje como um quase partido, uníssona da defesa das mesmas políticas públicas elitistas  e uma macro-econômica a serviço dos capital financeiro e do modelo agroexportador.

 

E como se houvesse um DNA nacional, uma cultura dominante que se mantém através  das décadas, sobrevivendo até mesmo a reveses eleitorais importantes. O sociólogo  Ricardo Antunes diz que somos até hoje a mesma "colônia de exploração do trabalho"  criada como apêndice de Portugal para fornecer matéria prima barata. Embora aparências  tenham mudado muito, nosso lugar no mundo e nosso caráter como sociedade pouco  mudou através dos séculos, diz ele.

 

O liberalismo, nessa sociedade de DNA escravocrata, não deitou raízes, diz educadamente Fonseca, ou nasceu "fora do lugar" na expressão famosa de Roberto Schwarz. Darcy Ribeiro já havia mostrado em seu famoso ensaio "Sobre o óbvio!", que na  sociedade brasileira uma elite muito rica tem sido extremamente bem sucedida em manter  explorado um povo muito pobre. Este trabalho de Fonseca também poderia ter o título  "Sobre o obvio". O fato óbvio de que nossos jornais auto - proclamados liberais, não  passam de agentes de uma ideologia que embora com toques de positivismo e do que ele  chama de ocidentalismo, em essência são conservadores e no limite reacionários.

 

Outra característica do nosso DNA, diz sociólogo Chico de Oliveira é o patrimonialismo, a  indiferenciação por nossas elites dirigentes entre o público e o privado, e a conseqüente  apropriação do aparelho de Estado e de suas políticas públicas pelas classes  controladoras do processo político e dos meios de reprodução ideológica.

 

Décadas depois da transição, verificamos com mais clare/a que o que houve não foi a derrota da ditadura pela democracia e sim uma metamorfose, na quais estruturas básicas  de dominação foram mantidas quase plenamente, embora.com outra roupagem, e  algumas sem mesmo mudança da aparência, como é o caso do poder judiciário, que preserva escandalosamente até hoje uma justiça de classe na qual só os infratores pobres vão para a cadeia.

 

O poder legislativo, preocupado mais com sua auto-reprodução do que com definição de  políticas publicas sensatas, não obstante a maior representação de partidos de extração  popular e o fim das ameaças de cassações, funciona segundo as mesmas regras eleitorais de promiscuidade com empreiteiras, setores amplos do aparelho de Estado, veículos de comunicação e agências de propaganda.

 

É tão forte a hegemonia liberal-conservadora, que até mesmo as forças populares que forçaram alguns dos poucos avanços verdadeiramente democráticos e socialmente mais progressistas dessa metamorfose, o PT e a CUT, também se metamorfosearam e viraram, décadas depois, máquinas político eleitorais voltadas principalmente à sua auto- reprodução e à defesa de interesses corporativos.

 

Sim, houve mudanças significativas desde então. Mas não por força de um projeto político  hegemonizado por forças democráticas, por uma revolução pacifica - que não houve - e  sim por força dos sucessos econômicos, principalmente da ampliação das classe médias  brasileiras, e não menos pela entrada em cena dos novos instrumentos de comunicação,  que deram ao cidadão mais poder de saber e se fazer saber, sem ter que passar pelo  filtro dos donos da mídia.


 
     
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