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Apresentação: Uma cartografia da ética
 

Apresentação do livro: Uma cartografia da ética

 

Esta é uma cartografia de grandes relevos e não dos pequenos acidentes ou dilemas éticos das jornadas jornalísticas. Seu roteiro é o da análise de algumas dicotomias  clássicas da ética. O individual e o coletivo; o publico e o privado, deveres e direitos,  determinismo e liberdade. Sua bússola é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Uma das facetas mais interessantes desta cartografia é a forma como cada relevo  mapeado é referido à Declaração Universal dos Direitos do Homem ou ao Código de ética  dos jornalistas brasileiros.

 

Nessa cartografia, os costumes funcionam como categoria fundante dos valores éticos. Mas os valores podem sobreviver às suas circunstâncias e assumir caráter sistêmico e duradouro. Influir na própria moral de cada época. Assim, costumes e valores operam  como uma "dobradinha," realizando a " economia" da ética, na palavras da profa. Mayra. A referência constante desta cartografia à Declaração Universal dos Direitos do Homem mostra como um conjunto de valores, formulado com a precisão da linguagem canônica e  a partir de um rito de aceitação universal, ganha autonomia discursiva e política tornando- se ele mesmo um fato gerador de preceitos éticos. 

 

Os valores se resolvem na forma de normas de conduta, entre elas os código aplicados  de ética, como são os diferentes código de ética profissionais, inclusive os dos jornalistas.  São diferentes, de país para país, ou de tempos em tempos, justamente porque refletem

diferenças de ênfase ou de articulação de valores das matrizes éticas de cada cultura ou de cada tempo.Um atributo especial da Declaração Universal dos Direitos do Homem é o  de ter se cristalizado como síntese de tantas matrizes culturais num terminado período  chave do pós-guerra.

 

Tanto a Declaração, como os diferentes códigos aplicados de ética são portanto exercícios de hegemonia ideológica num determinado tempo histórico. E, como aponta a profa. Mayra, a ética é também um discurso - um sulco ainda pouco explorado nos trabalhos sobre ética jornalística no Brasil. Brasil, Seus processos de formulação e de legitimação se dão em contextos discursivos, mesmo quando outras instâncias, como a família ou instituições da sociedade, influem decisivamente na sua aceitação.

 

Hoje, vivemos um novo tempo discursivo, marcado pela negação das utopias e pela ausência de um padrão ético hegemônico, exceto no sentido metafísico de que a  ausência de padrões também seria um padrão. Fatores objetivos contribuíram para a  quebra de valores tradicionais. As revoluções da biotecnologia, que inovaram o campo da  reprodução humana, alteraram definições fundamentais como as do início da vida e do  momento da morte. O ser humano passou a ser definido como um animal simbólico e não  como ser racional. Sua relação com a natureza passou a ser de uma solidariedade de  destinos e não mais de dominação. Nesse novo contexto político, ideológico e discursivo,  a Declaração Universal dos Direitos do Homem passa por uma re-leitura ainda em curso  que por um lado enriquece-a, desdobrando seus anunciados de direitos e deveres em  sub- enunciados aplicáveis a situações e agrupamentos específicos, mas por outro lado  despoja-a da condição de meta- narrativa.

 

De éticas socialmente constituídas, passamos para uma ética definida em torno de cada indivíduo, o que parece uma contradição em termos, um paradoxo, já que as condutas pessoais só podem ser avaliadas na sua articulação com outras condutas. Pode ser uma  ética provisória. O fato é que hoje, dentro de limites bastante amplos, cada um tem o  direito de pensar e agir como quiser. O exemplo mais expressivo está no campo sempre  delicado da sexualidade: cada um pode adotar a preferência sexual que quiser. E mais,  nesse novo ambiente ético, cada um tem o dever de pensar antes de tudo em si mesmo,  em seu projeto de vida. É o dever definido como negação do social, é a celebração da  individuação ética, a morte do social. Não se trata da morte de valores, mas da  prevalência de determinados valores como tolerância, pluralismo, sucesso pessoal e  liberdade individual que no seu conjunto e na forma como se articulam definem uma  matriz ética que só se aplica em torno de um indivíduo de cada vez.

 

Essa é grande paradoxo ético de nossos tempos. Por isso, entre as muitas dicotomias da ética jornalística de hoje, vivemos a mais básica de todas que á do individualismo versos códigos de ética. Sendo os códigos socialmente constituídos, eles são hoje negados liminarmente por essa nova mentalidade que contesta a própria possibilidade de haver  uma recomendação de conduta universal. Cada indivíduo nesses tempos pós- modernos,  teria a faculdade de decidir sua própria conduta, cultivar seus próprios valores. È a desqualificação do direito de exigir determinados comportamentos. È o retorno também á mais básica e fundamental de todas as discussões éticas: sobre a necessidade ou não de haver uma ética.

 

Nas redações, deu-se uma rendição quase total aos ditames mercantilistas ou ideológicos dos proprietários dos meios de informação. Uma postura que é a negação da ética  clássica do jornalismo de interesse público, consolidada no mesmo momento histórico em  que foi formulada a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Não por acaso, esse  novo ambiente ético no jornalismo é adequado aos valores do neo -liberalismo econômico  e foi instrumental ao seu processo de implantação. Nesse sentido é um equívoco  considerar o novo ambiente ético das redações uma disfunção do jornalismo. Ele existe  porque tem uma função. O vazio ético do jornalismo, portanto, é a rigor o reflexo de um  embate ideológico que se dá além da esfera estrita da comunicação, um embate entre  propostas divergentes e civilização e de organização. Não deixa de ser uma crise.

 

As crises são momentos adequados para a criação. Este texto, recuperando a trajetória  da ética através do vales e montanhas do pensamento humano pode ajudar a superar  essa crise .Como diz a profa Mayra, sua cartografia da ética aponta para os as alturas das  elevações, sem discutir necessariamente as dificuldades de cada escalada. Mas hoje, o  que precisamos, é exatamente isso: não é a discussão de como escalar uma ou outra  colina, é como redesenhar todo o mapa e redefinir o lugar de nossas montanhas.


 
     
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