Sistema e browser desconhecidos

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Apresentação: Imprensa e poder, os bons companheiros
 

Apresentação do livro: Imprensa e poder, os bons companheiros

 

Como definir a relação entre imprensa e poder? Trata-se de uma tarefa difícil, porque o jornalista tem um  mandato da sociedade democrática para bem informar, mas essa mesma sociedade faz da informação uma mercadoria. 0 espaço do jornalismo é portanto contraditório. Pode ser mais amplo ou mais estreito, conforme a resultante do confronto  entre esses dois direitos, o democrático e o mercantil.

 

Já por esse raciocínio não pode ser verdade que os donos de jornais sejam os únicos  responsáveis pela complacência do jornalismo brasileiro perante o poder. Essa tese,  dominante tanto entre jornalistas como nos meios acadêmicos, é em si mesma uma  ideologia justifícadora da própria complacência. A complacência é o resultado  normatizado do confronto entre o nosso tipo de democracia e o nosso tipo de capitalismo,  é sistêmica e de natureza cultural, um código de comportamento que envolve,de  modos.diversos,donos de meios de comunicação e jornalistas. Um padrão de  jornalismo  típico de sociedades sub-desenvolvidas, reforçado, no nosso caso, por duas décadas de  regime militar.

 

0 impeachment de Collor pode ser interpretado como um momento de ruptura desse  padrão. Ura momento importante. Por isso, abalou a ideologia dominante nas academias  e nos botequins, sobre a impotência do jornalismo brasileiro. Mostrou que nem sempre  êle se identifica como o poder. Mostrou que dá para fazer jornalismo de outro padrão no Brasil; dá para agir naquele espaço de contradições de forma a elevar o teor de  democracia do sistema. Pois o que fizeram Luis Costa Pinto de VEJA, Bob Fernandes e a  trinca Augusto Fonseca, João Santana e Mino Pedrosa, de ISTOé.

 

Além dos fascinantes depoimentos de Bob Fernandes e exemplos notáveis de jornalismo investigativo, o trabalho de Emiliano José tenta responder duas perguntas centrais: 1) por  que o padrão foi rompido exatamente naquele momento? 2) porque logo se restabeleceu o domínio do padrão complacente? 

 

O motor do rompimento foi o confisco da poupança - e talvez falte a ênfase nesse fator na  abordagem de Emiliano. Tudo começou com o confisco. Com aquele golpe de suprema arrogância, Collor traiu seu eleitorado, confundiu o público com o privado, invadiu e  transtornou a vida de pessoas e famílias, tornou-se de imediato um devedor da  sociedade. A agressão foi internalizada por algum tempo no subconsciente coletivo de  uma classe média collorida, totalmente chocada pela traição. E arrebentou com fúria, na  forma de um linchamento político, quando a hiperinflação voltou.

 

VEJA e ISTOé lideraram o processo porque são os meios de comunicação ao mesmo  tempo mais sensíveis à classe média e menos ligados à tradicional oligarquia do poder.  Em todos os outros veículos, inclusive FOLHA DE S.PAULO, a circulação é tão pequena  que se pode dizer que a maioria dos leitores são os próprios protagonistas das notícias: empresário, políticos, artistas, governantes. VEJA é a única publicação no Brasil que tem  um público leitor como categoria distinta da elite do poder. Esse público começou a  cobrar, é uma revista em processo permanente de elaboração e reforço de uma ideologia  da classe média, e portanto muito sensível aos seus sentimentos. Em geral tenta impor  valores, mas no processo, acaba também recebendo. VEJA foi levada por seus ,leitores  rompem com Collor, mais ainda porque ISTOé não lhe deixou alternativa.

 

As mesmas razoes , em menor intensidade, valem para ISTOé, uma revista bolada para disputar com VEJA o seu próprio espaço. No entanto, ISTOá contava como o peso maior  da figura do Editor, hino Carta já havia rompido antes com o padrão complacente - o  episódio das duas reportagens de VEJA sobre tortura em pleno regime Mediei. E sua  saída de VEJA parece ter marcado um rompimento com os barões da imprensa em geral,  tanto assim que tentou fundar seu próprio diário ,A República.

 

0 livro de alguns traz preciosos dados novos/ sobre a cumplicidade de empresários,   revoltados pelas porcentagens exigidas por PC Farias, muito acima da taxa de corrupção  a que estavam acostumados. 0 contexto do rompimento do padrão complacente, da  imprensa, é o de uma exaustão do sistema, grupos econômicos sandwichados entre uma  estagnação de dez anos e exigências de caixinha muito superiores ao normal. Tudo isso  apareceria mais tarde com plenitude na CPI do orçamento , que foi apenas o desenlace  natural da crise iniciada no impeachment.

 

Quando setores importantes da burguesia no Brasil, sentem que não estão mandando  diretamente no Estado, surge o espaço público burguês; o espaço no qual vão levantar  suas demandas. Foi assim nos anos 50, quando as oligarquias, proprietárias dos jornais  se levantaram contra o Estado populista e, no limite, conspiraram para derrubá-lo. Foi um período de jornalismo burguês combativo. As duas décadas de ditadura são de total  identificação entre burguesia e Estado e portanto a não necessidade de um espaço  público e de imprensa crítica.

 

Com Collor, a identificação de classe se estressou mas não se rompeu, o que valoriza  ainda mais o feito jornalístico. Os grandes veículos oligárquicos, 0 ESTADO DE S. PAULO  e Rede Globo ficaram a reboque dos veículos menos enraizados na oligarquia. Acima das  divergências, colocou-se durante todo esse período, até a eleição de Fernando Henrique,  o inimigo comum, Lula. Por isso, talvez, o padrão complacente da imprensa se recompôs parcialmente, logo depois do impeachment.

 

Acredito, no entanto, que nosso Collorgate ainda contribuirá para elevar o conteúdo  democrático do jornalismo brasileiro, até o rompimento definitivo do padrão complacente.  Sinais disso aparecem com freqüência cada vez maior, no rádio t na Televisão. Livros  como este, de Emiliano José, certamente contribuirão para que o impeachment de  Collor seja um paradigma também no ensino de jornalismo. Afinal, jornalistas  comandaram um processo que democraticamente derrubou um presidente corrupto.


 
     
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