Sistema e browser desconhecidos

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Meios De comunicação como estratégia de guerra
 

Bernardo Kucinski 1

 

Nos seus 21 anos de existência, o PT só tem sido maltratado pela grande imprensa  brasileira. Como um filho enjeitado de uma grande família senhorial, cresceu levando  pancadas de todos os lados. Parece que um partido político de trabalhadores é dose  demais para as nossas elites.

 

Esse padrão negativo de relacionamento delineou-se primeiro no massacre dos  trabalhadores rurais pela Polícia Militar durante a greve em Leme, interior de São Paulo,  ainda em 1986 2

A mídia deu ampla guarida à tentativa grosseira da Polícia Militar de atribuir a autoria dos  tiros que mataram os boias-frias a deputados do PT, que ali estavam para se solidarizar  com os grevistas. O mesmo conluio com a polícia se repetiria no episódio do seqüestro de  Abílio Diniz, em 1989, quando o governador Fleury obrigou os seqüestradores a vestirem  camisetas do PT; cinco anos depois, a mídia tentou envolver Lula no assassínio do  presidente do Sindicato dos Condutores de Veículos do ABC, Oswaldo Cruz 3.

 

Nos três episódios, a mídia foi instrumento de acusações altamente infamantes e  obviamente falsas contra o PT, às vésperas de uma eleição. O objetivo é claro: quebrar as  perspectivas eleitorais do partido ou de Lula. Mais do que denotar um mero viés  ideológico ou um alinhamento político, o que seria natural, a mídia tem servido de força  auxiliar de uma estratégia de guerra das elites dominantes, na qual vale tudo para  derrotar o PT. A derrota de Lula por Collor em 1989 foi resultado de uma manobra de mídia, que não hesitou em usar os recursos mais pusilânimes, da mentira e da difamação.

 

Mecanismos mais sutis de desinformação também foram se desenvolvendo com esse  mesmo objetivo. Entre eles, ignorar ou não informar substantivamente sobre os  programas, propostas e ações do PT ou das administrações por ele controladas. Não  trabalhar com a informação é pré-requisito para desinformar e maltratar a imagem do PT.  Para poder dizer e repetir que "o PT não tem propostas e só sabe criticar", é preciso antes  ignorar as propostas do PT. Não noticiá-las.

 

Assim se explica a percepção das lideranças do PT de que a mídia se constitui no Brasil  em um dos principais bloqueios ao acesso do PT ao poder. E de que as vitórias do PT são  conseguidas a despeito da mídia, contra a mídia, quando consegue neutralizar a mídia. A  mídia, e não os partidos conservadores, tornou-se o adversário a ser vencido. Os  esforços para montar frentes partidárias amplas em torno do PT, às vezes sacrificando em  excesso princípios ideológicos, são motivados mais pela necessidade de somar tempo de  TV gratuita na campanha eleitoral, para fazer frente ao antagonismo da mídia, do que por  uma concepção determinada de governabilidade ou hegemonia do campo popular.

 

Pelos mesmos motivos, uma das barreiras mais fortes ao projeto político do PT é hoje o  do desgaste da imagem de Lula, principal liderança do partido e  a que simboliza nossos  compromissos com os trabalhadores e os excluídos da sociedade.

 

Foi grande e em parte irreversível o estrago na imagem de Lula após duas décadas de  tratamento preconceituoso e desrespeitoso pelos meios de comunicação, de fotos  escolhidas cuidadosamente para danificar, de frases retiradas de seus contextos, de  injúrias e insinuações caluniosas.

 

Esse padrão de relacionamento diz muito sobre a natureza da própria mídia no Brasil, sua  falta de pluralismo, sua cultura autoritária e promíscua, sua ética de "tirar vantagem", sua  tradição de "rabo preso" com o governo, por meio de favores fiscais, inclusive o grande  favor de não pagar os atrasados do INSS 4, da ordem de centenas de milhões de reais.

 

Temos uma categoria profissional de jornalistas, trabalhando em condições subdemocráticas e ela mesma vítima de uma cultura autoritária. E controlando-os, um  patronato que tem como função histórica fazer a corretagem dos favores do Estado aos  grandes grupos econômicos internacionais. Um patronato de mídia não só escravocrata  em sua mentalidade, mas também testa de ferro de interesses estrangeiros na sua  vinculação subordinativa de classe.

 

Mesmo apanhando o tempo todo, esse enjeitado chamado PT cresceu sem grandes  seqüelas e hoje, aos 21 anos, se constituiu em subpoder, em vários Estados e grandes  prefeituras. Por isso e somente por isso, a mídia, viciada no poder, passou a moderar sua  hostilidade. Descobriu que existe um "PT light",  ou "cor de rosa". Certamente ignora  menos o PT, informa um pouco mais. Mas estrategicamente ainda está de prontidão. Para  servir de força auxiliar nos grandes e decisivos embates, entres os quais o maior é  sempre o de eleição presidencial. 

 

Fonte:  Jornal PT Notícias,  n. 100, ano V, 8 a 21 de fevereiro de 2001. Acervo CSBH-FPA.

 

_______________

 1 Coordenador de comunicação do Instituto Cidadania e professor titular da ECA-USP.

 2 Referência à greve de Leme, interior de São Paulo, iniciada em 27 de junho de 1986, na qual  trabalhadores rurais reivindicavam melhorias nas condições de trabalho. Em 11 de julho de 1986,  a Polícia Militar reprimiu o protesto e dois trabalhadores foram mortos. Na ocasião, a Polícia Militar  declarou à imprensa que os tiros haviam sido disparados de um carro oficial da Assembléia  Legislativa de São Paulo, onde estavam os deputados do Partido dos Trabalhadores, José  Genoino e Djalma Bom. (N.E.)

 3 Oswaldo Cruz Júnior, presidente do Sindicato dos Condutores Rodoviários,  assassinado em 6 de janeiro de 1984. Apesar de identificado o assassino, teve sua morte  vinculada à imagem de Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Partido dos  Trabalhadores, por alguns veículos de comunicação. (N.E.)

 4 Em novembro de 1998, o teto previdenciário sofreu um reajuste implementado pela  emenda constitucional 20/1998, elevando-o de 1.081 reais e 50 centavos para 1.200  reais. Os segurados que recebiam o valor até 1998 não tiveram a correção do teto  reajustado. Somente em julho de 2011 o Ministério da Previdência permitiu a revisão dos  valores atrasados para os beneficiários que tiveram seu recebimento limitado. (N.E.)


 
     
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