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Correstrangeiros: Como me tornei correspondente do The Guardian e outras histórias
 

Só fui entender o prestígio do The Guardian  no mundo do jornalismo muitos anos depois   de me tornar correspondente do jornal, quando dei um curso na Miehigan State University.    0 pequeno aviso na porta do professor que me convidou só dizia "Bernardo Kucinski foi    correspondente do The Guardian  no Brasil". Não falava nada dos muitos livros que  escrevi, nem do meu título de doutor em Comunicação, nada. Nem mesmo “professor da  USP", expressão que no Brasil é uma verdadeira griffe.  No entanto, foi por acidente que  me tornei stringer  do The Guardian.  Uma série de acidentes. Cheguei em Londres em  1970, com uma mão na frente outra atrás, o manuscrito de um livro denunciando as  torturas da ditadura militar, escondido numa das malas da minha mulher, e a credencial de  jornalista de um jornal alternativo, 0 Bondinho.  De cara, deparei com uma reportagem de  um tal Christopher Roper, no The Guardian,  elogiando o "milagre econômico" do Delfim  Netto. Escrevi uma carta indignada ao jornal e foi assim que tudo começou. Eu não sabia  que o Christopher era um dos donos de uma newsletter  especializada em América Latina,  chamada Latin America Politieal Fteport.  Uma newsletter  bem "quente" e simpática à luta  contra as ditaduras que então dominavam Brasil, Argentina e Uruguai. Entre os donos,  quase todos do The Guardian,  estavam John Rettie, o jornalista que primeiro descobriu e  publicou o discurso do Kruschev no XX Congresso sobre os crimes de Stalin, e Richard Gott, idealizador da importante coleção da Penguim sobre a América Latina, que  publicaria o manual da guerrilha urbana de Marighella. 

 

Incomodado com a minha carta, o tal Roper quis me conhecer. Conversa vem conversa  vai, acabou me convidando para colaborar com a newsletter. Pode escrever em português que nós traduzimos, disse ele. Semanas depois, escrevi minha primeira colaboração, em  inglês. Acho que foi o furo de reportagem sobre a criação de um banco multinacional em Londres, com a participação de um banco brasileiro. 0 correspondente da revista Visão   em Londres copiou essa matéria, o que me deu muito prestígio.

 

Aliás, ele copiou sem dar o crédito, levando um pito do Roper. 0 importante é que decidi  escrever em inglês, embora tão macarronico que dava pena. Era mais fácil traduzir do  português do que consertar aquele inglês. Mas hoje estou convencido que se não tivesse  começado a escrever em inglês naquele dia nunca teria me tornado stringer do The    Guardian, South, Euromoney, Airline Business  e outras publicações inglesas e  americanas.

 

0 inglês é uma língua muito difícil para brasileiros, mas muito forte, rica em expressões  idiomáticas e sempre em transformação. E lexicamente muito lógica, apesar do registro  escrito de muitas palavras parecer coisa de disléxico. Cheguei à conclusão de que no  inglês se você pensa de modo correto só há uma maneira correta de escrever o que você  pensou. E não tem aquela brutal diferença entre a língua falada e a linguagem escrita  erudita. Voltei para o Brasil quatro anos depois, já com emprego na Gazeta Mercantil  e,  de quebra, como colaborador do Opinião  e stringer  do Latin America Political Report   Uns dois anos depois deu-se então o segundo incidente. Um jornalzinho fascista  chamado Expresso,  que tentava imitar o estilo da imprensa alternativa, publicou uma   reportagem de página inteira acusando-me de subversivo. Acompanhava uma charge de  um Kucinski narigudo, ao estilo das caricaturas anti-semitas.  Estávamos num período  decisivo da ditadura,  1977. 0 milagre econômico desabava em meio a crise do petróleo.  Era visível o esgotamento do regime militar, o que levara os setores militares mais comprometidos com a repressão a inventar novos inimigos e subversivos, mesmo onde  eles não existiam. 0 contexto no qual um ano e meio antes eles haviam prendido e  assassinado o Vladmir Herzog. Sentindo-me um tanto em perigo, apelei para os editores  do newslettere  decidimos que a melhor proteção seria eu começar a aparecer como  stringer  do The Guardian,  com matérias assinadas - j á que na newsletter  não se  assinavam matérias. E foi assim que me tornei correspondente do The Guardian.  Como   se fosse um favor deles para me proteger. E esse sentimento, de que eles estavam  fazendo um favor, acompanhou-me durante muitos anos.

 

Um jornalzinho fascista publicou uma repostagem acusando-me de subversivo.

 

Hoje acho que eu é que estava fazendo um favor. Sofria demais para escrever em inglês,  em especial quando tinha que falar de coisas simples do cotidiano. Faltavam-me as  palavras. Além disso, tinha que correr contra o tempo (três horas de desvantagem), e se a  matéria chegava lá depois das quatro, hora de Londres, não entrava. Brasil só entra se for  para adiantar o fechamento ou se for golpe militar. 0 Brasil não tinha naquela época a  importância estratégica que tem hoje. Para piorar tudo, a teletipista do Correio de  Pinheiros era adepta da operação padrão. Além do teletipo ser uma máquina lenta,  sempre havia dois ou três despachos na frente o meu para serem enviados-Houve tempo  em que alugamos um escritório na Sete de Abril - eu Patrick Knight e alguns outros, mas  um dia, descobrimos que o garoto que levava as mensagens ficava zanzando horas antes  de entregar no teletipo. Hoje é fácil, você aperta um botando e lá vem o corretor de inglês.   aperta um botão e lá vem o corretor do inglês. Aperta outro botão e a matéria já está na  tela do editor, lá em Londres, ou em Nova York. Não precisa sair de casa. Só nós, os  veteranos, sabemos como era duro ser correspondente estrangeiro na era a.l. (antes da  Internet).

 

Lembro-me de um episódio em especial, quando o México decretou a moratória da dívida  externa, em 82. México, Brasil e Argentina eram os três maiores devedores. Disse ao  editor de economia que o Brasil seria o próximo a quebrar; na verdade já estava  quebrado, só que o Delfim estava segurando a má notícia por causa das eleições em  novembro. Estávamos em setembro. 0 editor ficou doidinho, queria a matéria para o dia  seguinte, e matéria grande. No dia seguinte vi que não daria tempo de jeito nenhum de  passar aquela matéria gigantesca pelo teletipo. A solução, usada naquele tempo apenas para despachos curtos, foi ditar a matéria por telefone, palavra por palavra. As telefonistas  do The Guardian  eram treinadas em taquigrafia, mas não em entender o inglês falado por  um paulistano. Diferentemente dos americanos, os ingleses não têm o ouvido treinado  para escutar a fala de um estrangeiro.

 

Na Inglaterra, se você, por exemplo, põe o acento da palavra "Trafalgar" em "gar",  ninguém te entende. Tem que pôr o acento em “fá." Foi duro. Essa transmissão durou  horas. Do lado de lá, o editor pulava de ansiedade em volta da telefonista. E ela naquele  inglês cockney:  "what did you say, dear?" Em compensação, foi a glória. No dia seguinte,  lá estava a manchete "Blefe não vai salvar o Brasil." Por causa dessa matéria, o Alberto  Tamer, correspondente do Estadão  que tinha uma fala num programa matutino do Joelmir  Betting da Band,  disse com todas as letras que eu "era membro de um grupo que  trabalhava para difamar o Brasil no exterior." Notem que esta é segunda "referência   desabonadora aos jornalistas brasileiros que faço nesta pequena memória daqueles  tempos. Vem mais, adiante. Minha correspondência era diferente da dos outros  correspondentes estrangeiros. Claro, tinha que ser, era um olhar mais brasileiro. A agenda  deles era de índios, miséria, prostituição, favelas, destruição da Amazônia, corrupção, perseguições políticas. Temas importantes, mas muito marcados por clichês do terceiro- mundismo. Ainda vivíamos o restinho daquele período de certa maneira glorioso, em que  a América Latina excitava o mundo como um lugar exótico. Um período que acho que  começou com a revolução cubana e teve seu apogeu quando Gabriel Garcia Marques  ganhou o Nobel com Cem anos de solidão.

 

 Os correspondentes realmente estrangeiros também escreviam muito sobre a economia.  Mas davam pouca atenção à política institucional e questões militares. Cobriam vez ou outra violações de direitos humanos pela ditadura, mas acho que só naqueles casos de  expulsão de padres pelos militares a cobertura era mais forte. Acho que naquela época  ainda de guerra fria, a denúncia das ditaduras latino-americanas não era tema popular na  grande imprensa estrangeira. Aliás, o Chomsky escreveu verdadeiros tratados sobre a  leniência do New York Times  em relação às ditaduras da América Central e do Sul.

 

Mesmo depois da derrubada de Allende, que chocou o mundo. É possível também que  muitos correspondentes estrangeiros ou seus chefes lá fora não tivessem clareza sobre o  tamanho do risco envolvido. É difícil denunciar abusos de uma ditadura quando você não  sabe avaliar os riscos.

 

Lembro-me de quando um grupo de luta armada seqüestrou o cônsul japonês em São  Paulo para trocar por presos políticos e desembarcou aqui um bando de jornalistas  japoneses. Eu e alguns outros correspondentes decidimos abordá-los para explicar o  contexto daquele seqüestro, os desaparecimentos políticos, o Doi-Codi, as torturas. Eles  não quiseram nem saber. Foi um desapontamento. Eu não me importava nem um pouco  com índios e com a devastação da Amazônia. Acompanhava mais de perto o visível  crescimento da insatisfação social, o surgimento das grandes greves do ABC, o  agravamento da crise da dívida externa e da inflação; a luta intestina no meio militar entre  geiselistas e linha dura. 0 surgimento do "braço clandestino" da repressão. 

 

Por diferentes motivos, alguns trágicos, eu tinha então fontes militares, o que era muito  raro. Nenhuma redação tinha, por exemplo, o Almanaque militar,  livro básico de  referência para se decifrar o sentido político das promoções de militares e da composição  do alto comando, que então mandava no país. Ele podia ser comprado na livraria do  Exército, no Rio de Janeiro, mas ninguém se lembrava disso. Foi com base nesse  conhecimento que relatei, no The Guardian,  o primeiro golpe militar que teve Brasília como palco. Aliás, um golpe virtual, ou palaciano, sem o deslocamento de tropas: quando  o ministro do Exército, General Sylvio Frota, convocou os comandantes dos cinco  exércitos para uma reunião em Brasília que iria desbancar o presidente, Geisel se  antecipou enviando emissários à base aérea de Brasília, que pegaram os generais do alto  comando, um por um, no  aperta um botão e lá vem o corretor do inglês. Aperta outro  botão e a matéria já está na tela do editor, lá em Londres, ou em Nova York. Não precisa  sair de casa. Só nós, os veteranos, sabemos como era duro ser correspondente estrangeiro na era a.l. (antes da Internet).

 

Lembro-me de um episódio em especial, quando o México decretou a moratória da dívida  externa, em 82. México, Brasil e Argentina eram os três maiores devedores. Disse ao  editor de economia que o Brasil seria o próximo a quebrar; na verdade já estava  quebrado, só que o Delfim estava segurando a má notícia por causa das eleições em  novembro. Estávamos em setembro. 0 editor ficou doidinho, queria a matéria para o dia  seguinte, e matéria grande. No dia seguinte vi que não daria tempo de jeito nenhum de  passar aquela matéria gigantesca pelo teletipo. A solução, usada naquele tempo apenas para despachos curtos, foi ditar a matéria por telefone, palavra por palavra. 

As telefonistas do The Guardian  eram treinadas em taquigrafia, mas não em entender o  inglês falado por um paulistano. Diferentemente dos americanos, os ingleses não têm o  ouvido treinado para escutar a fala de um estrangeiro. Na Inglaterra, se você, por  exemplo, põe o acento da palavra "Trafalgar" em “gar", ninguém te entende. Tem que pôr  o acento em “fá." Foi duro. Essa transmissão durou horas. Do lado de lá, o editor pulava  de ansiedade em volta da telefonista. E ela naquele inglês cockney:  "what did you say,  dear?" Em compensação, foi a glória. No dia seguinte, lá estava a manchete "Blefe não  vai salvar o Brasil." Por causa dessa matéria, o Alberto Tamer, correspondente do Estadão   que tinha uma fala num programa matutino do Joelmir Betting da Band,  disse com todas  as letras que eu "era membro de um grupo que trabalhava para difamar o Brasil no  exterior." Notem que esta é segiHKía"referência desabonadora aos jornalistas brasileiros  que faço nesta pequena memória daqueles tempos. Vem mais, adiante. 

 

Minha correspondência era diferente da dos outros correspondentes estrangeiros. Claro,  tinha que ser, era um olhar mais brasileiro. A agenda deles era de índios, miséria,  prostituição, favelas, destruição da Amazônia, corrupção, perseguições políticas. Temas  importantes, mas muito marcados por clichês do terceiro-mundismo. Ainda vivíamos o  restinho daquele período de certa maneira glorioso, em que a América Latina excitava o  mundo como um lugar exótico. Um período que acho que começou com a revolução  cubana e teve seu apogeu quando Gabriel Garcia Marques ganhou o Nobel com Cem  anos de solidão. 

 

Os correspondentes realmente estrangeiros também escreviam muito sobre a economia.  Mas davam pouca atenção à política institucional e questões militares. Cobriam vez ou  outra violações de direitos humanos pela ditadura, mas acho que só naqueles casos de  expulsão de padres pelos militares a cobertura era mais forte. Acho que naquela época  ainda de guerra fria, a denúncia das ditaduras latino-americanas não era tema popular na  grande imprensa estrangeira. Aliás, o Chomsky escreveu verdadeiros tratados sobre a  leniência do New York Times  em relação às ditaduras da América Central e do Sul. Mesmo depois da derrubada de Allende, que chocou o mundo. É possível também que  muitos correspondentes estrangeiros ou seus chefes lá fora não tivessem clareza sobre o  tamanho do risco envolvido. É difícil denunciar abusos de uma ditadura quando você não  sabe avaliar os riscos. Lembro-me de quando um grupo de luta armada seqüestrou o  cônsul japonês em São Paulo para trocar por presos políticos e desembarcou aqui um  bando de jornalistas japoneses. Eu e alguns outros correspondentes decidimos abordá-los para explicar o contexto daquele seqüestro, os desaparecimentos políticos, o Doi-Codi, as torturas. Eles não quiseram nem saber. Foi um desapontamento. Eu não me  importava nem um pouco com índios e com a devastação da Amazônia. Acompanhava   mais de perto o visível crescimento da insatisfação social, o surgimento das grandes  greves do ABC, o agravamento da crise da dívida externa e da inflação; a luta intestina no  meio militar entre geiselistas e linha dura. 0 surgimento do "braço clandestino" da  repressão. 

 

Por diferentes motivos, alguns trágicos, eu tinha então fontes militares, o que era muito  raro. Nenhuma redação tinha, por exemplo, o Almanaque militar, livro básico de  referência para se decifrar o sentido político das promoções de militares e da composição  do alto comando, que então mandava no país. Ele podia ser comprado na livraria do  Exército, no Rio de Janeiro, mas ninguém se lembrava disso. Foi com base nesse  conhecimento que relatei, no The Guardian,  o primeiro golpe militar que teve Brasília como palco. Aliás, um golpe virtual, ou palaciano, sem o deslocamento de tropas: quando  o ministro do Exército, General Sylvio Frota, convocou os comandantes dos cinco  exércitos para uma reunião em Brasília que iria desbancar o presidente, Geisel se  antecipou enviando emissários à base aérea de Brasília, que pegaram os generais do alto  comando, um por um, no momento do desembarque, e os levaram para o Palácio  presidencial, deixando Frota sozinho no chamado "Forte Apache", a sede do Exército. A reunião convocada por Frota para destituir Geisel virou uma reunião que destituiu Frota.  Pela primeira vez no Brasil, disse eu na matéria, não é o comandante do Exército que  demite o presidente, é o presidente que demite o comandante do Exército.

 

Em julho de 1981 mandei o furo sobre o envio de urânio do Brasil ao Iraque, que acabou  provocando o rompimento das relações entre Brasil e Israel. A fonte era militar e a  confirmação obtive de físicos, que eu conhecia dos meus tempos de estudante de Física.  Mas os coleguinhas brasileiros, por inveja ou governismo, acusaram-me de ter recebido a  informação do Mossad e que era falsa. 0 Brasil não tinha capacidade de enriquecer  urânio, foi o argumento do governo. Um argumento falacioso porque meu despacho dizia  claramente que se tratava de urânio quimicamente puro e não de urânio enriquecido. Eu  até citava um físico que especulava para que podia servir esse tipo de urânio, já que  inda  não era enriquecido. 

 

Fui salvo pelo Estadão, que alguns dias depois publicou uma ampla reportagem com  fotografia e tudo, confirmando a história. Mesmo assim, o Estadão não me deu o crédito,  suponho que para não ser acusado de “também" ter sido usado pelo Mossad. 

 

Se a matéria chegava lá depois das quatro, hora de Londres, não entrava.

 

Vários jornalistas brasileiros gastaram as solas de seus sapatos atrás de pistas que  pudessem me caracterizar como agente do Mossad, enquanto eu conseguia mais e mais  fontes que corroboravam a história da remessa do urânio, inclusive do Rômulo Pieroni,  que comandou parte da operação como diretor do Ipen. Desde esse episódio perdi o  respeito pela maioria dos colegas brasileiros. Lembro sempre daquela frase de Orwell  sobre um agente do Comintern  que tinha como tarefa difamar os anarquistas na Guerra  da Espanha: "Esse sujeito e os jornalistas são as únicas pessoas que conheço pagas  para mentir." E nunca mais organizei as open-houses  em que convidava uma centena de  meu aniversário e o de meus dois filhos.

 

0 correspondente estrangeiro obviamente tem como primeira e mais regular fonte de  informação a imprensa local. Muitos correspondentes estrangeiros demoram para  perceber que a nossa imprensa local não é confiável, não pode servir de base para  despachos a uma imprensa internacional dotada de um padrão superior de precisão,  contextualização e análise. Se era assim na época da ditadura, em que os jornalistas  tinham algumas causas nobres em comum e havia uma imprensa alternativa de oposição,  agora ficou ainda pior, quando a maioria dos quadros veteranos ou saiu das redações ou  aderiu ao discurso único do neoliberalismo, e o reportariado é formado por jovens com  pouco ou nenhum conhecimento da história recente. Digo isso com pesar, porque muitos  deles foram meus alunos. Felizmente esse quadro começa a mudar, mas vai levar uns  anos ate que isso se manifeste numa mudança de qualidade do nosso jornalismo.

 

O Brasil não tinha naquela época a importância estratégica que tem hoje

 

Tive a sorte de me tornar jornalista numa das eras de apogeu do jornalismo escrito: a era do Watergate, das reportagens de Basil Davidson  sobre as guerras de libertação na África. Veja  tinha acabado de surgir, dirigida por Mino Carta, não era esse lixo que se vê hoje. Na Veja  publicamos duas capas memoráveis, denunciando as torturas no Brasil, em  pleno governo do general Mediei. Depois veio o grande projeto de jornalismo econômico  da Gazeta Mercantil.  Outro momento alto de nossa imprensa. Hoje esse jornal está nas  mãos de um especialista em comprar massas falidas. E ainda tinha o The Guardian,  e a  imprensa alternativa, de que eu participava, Opinião,  depois Movimento  e Em Tempo.   Durante todo o período em que fui stringer  do The Guardian  e de outros veículos  estrangeiros, trabalhei também na imprensa local, principalmente em jornais alternativos,  Gazeta Mercantil  e Exame.

 

Também tive sorte, pessoalmente, nas minhas reportagens. Lembro-me de duas, em  especial. A primeira sobre uns tais "empréstimos paralelos.” Pedido do Euromoney.  Eles  tinham ouvido cantar o galo, mas não sabiam onde. Queriam uma reportagem. Eu  também não sabia nada. Mas naquela semana, por acaso, minha mulher cismou de visitar  uma amiga que não via há 15 anos, e me arrastou junto, lá para os lados do Alto do  Ipiranga. 

 

Chegamos. 0 marido, um japonês bonachão, mas com cara de deprimido, tinha acabado  de se demitir do banco em que trabalhava, por estafa. “Essa coisa complicada de  empréstimos paralelos acabou comigo, cansei", disse ele. A partir disso só foi preciso um  pouco de paciência e ele me deu o serviço todo, detalhe por detalhe. No fim disse que  chega de bancos, agora ia criar rãs, no seu sítio. Não bastasse esse lance de sorte, dias  depois, na cervejinha que tomávamos depois do karatê, abordei um aluno novo, um rapaz  jovem, perguntando porque ele decidira treinar karatê: “estafa", disse ele, "para relaxar".  Trabalhava no Citibank e estava estafado com os "empréstimos paralelos do banco". Ele  me deu detalhes ainda mais preciosos. Datas, valores, mecanismos usados pelas  empresas e o nome das empresas. 0 empréstimo paralelo basicamente era uma forma de  mandar grandes somas de dólares para o exterior sem ter que passar pelo Banco Central   ou pela Receita Federal. Como? A multinacional A, com sobra de caixa, fazia um empréstimo em moeda local aqui no Brasil à multinacional B, que estava com falta de  caixa. Na Europa a matriz da empresa B fazia uma transferência equivalente em moeda  de lá à empresa A. As duas se acertavam nas taxas de juros das operações. Resolviam  seus problemas de investimento ou de remessa de lucros, sem ter que internar ou  remeter dólares, bastando um contrato de gaveta intermediado por um banco. 

 

Outro lance incrível de sorte se deu quando a Airline Business me pediu uma matéria  sobre a privatização das Aerolíneas Argentinas. Cheguei em Buenos Aires e logo procurei  o jornalista que colaborava de lá para o mesmo newsletter  americano (Lagniappe Letter),   para o qual eu então colaborava do Brasil. Ele me recebeu muito bem e, quando falei do  que eu estava atrás, ele muito simplesmente abriu um armário atrás de sua escrivaninha  e disse: "aqui usted tiene todo sobre Aerolíneas." E tinha mesmo. Inclusive um estudo de  viabilidade econômica de sua privatização, encomendado, se bem me recordo, pela  Scandinavian Airlines. Foi ele quem havia feito o estudo. É ou não é um rabo muito  grande? Também tive meus azares. Acho que o principal, recorrente, é em relação aos  livros que escrevi. Um deles, que escrevi com Sue Branford, sobre o PT, descrito como  partido que se definia por uma ética e não por uma ideologia ou doutrina.  ética e não por  uma ideologia ou uma doutrina. Tive o ímpeto de queimá-lo em praça pública. Depois me  dei conta que quem escreve livros não queima livros. Os livros também são datados. Têm  uma história. Outro livro, Abertura, história de uma crise,  tinha com base as reportagens  escritas para o The Guardian  sobre as lutas operárias que levaram à abertura, e a luta  intestina que se seguiu no meio militar. É um livrinho bom, citado por alguns historiadores por suas revelações únicas. Mas a editora, do meu amigo Ozeas Duarte, faliu. Muitos  exemplares foram vendidos a peso. Felizmente a Editora Contexto lançou uma versão  paradidática do mesmo livro, que está por aí, vendendo aos pouquinhos. O livro Ditadura  da dívida,  que escrevi com Sue Branford, também morreu de "morte da editora", a  Brasiliense, que faliu. E assim por diante, o livro que denunciava torturas, Pau de arara, a  violência militar no Brasil,  que escrevi com ítalo Tronca, publicado em francês pela Maspero e depois em espanhol pela Siglo XXI, saiu dos catálogos porque fizemos a  besteira de não colocar autoria, ou melhor, pseudônimos. Foi rebaixado à condição de  panfleto. Se é verdade que me afastei de muitos de meus colegas brasileiros, as amizades com os jornalistas ingleses ficam para sempre: com Rettie, com Sue Branford,  Moyra Ashford, Jan Rocha, Stanley Lehman, Patrick Knigth e tantos outros.  

 

Correspondentes vêm e vão. Mas muitos acabam fisgados pelo Brasil, pelas brasileiras  principalmente. E vão ficando. Às vezes, para sempre. Alguns se tornam especialistas em  aspectos do Brasil, superando os brasileiros. Poucos conhecem o MST como Sue e Jan  Rocha. Poucos conhecem o mercado de café como o Patrick. Onde os correspondentes  falham muitas vezes é na economia, que acompanham intensamente, mas em geral reproduzindo um senso comum da imprensa local, que, além de nem sempre ser sensato,  é formulado quase que somente pelos bancos. Da política institucional falam pouco  porque ela não é vista como importante, no que talvez tenham razão. Mas também por  causa da insistência em tratar o Brasil como país do Terceiro Mundo, e não como uma  potência regional hoje com capacidade de influência em várias questões de importância estratégica mundial, desde o combate ao narcotráfico, até o etanol, passando pela  pirataria, luta contra a Aids, negociações de Doha, integração da América Latina, relações  com Chávez e por aí afora. Guardadas as proporções, é como se os correspondentes  brasileiros em Washington só falassem dos teenagers  que desaparecem, da máfia, dos  filhos de imigrantes que não vão à escola, dos trabalhadores clandestinos, da prostituição,  e assim por diante. Tudo isso que tem aqui tem lá. Mas lá não é isso o que interessa a um  correspondente estrangeiro. E com esse recado, talvez um tanto pretensioso, termino  esse pequeno relato.


 
     
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