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Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

Quando a imprensa precisou de heróis
 

0 reconhecimento solene de atos e heróis da resistência realimenta o ideal de resistir.  Mas, transformado em rito de reconhecimento, institucionalizado e mitificado, leva a uma  inversão de valores: ao atribuir caráter excepcional à resistência, justifica o seu contrário,  a submissão. O normal fica sendo não resistir; os heróis resistem porque são diferentes, excepcionais, insensatos; no limite, loucos. Assim se explica a apropriação posterior dos  "heróis da resistência” pela maioria submissa.

 

Sem negar reconhecimento e mérito, proponho problematizar o tema de resistência no  período de autoritarismo pós-1964 à luz dos conceitos de democracia e de revolução. Democracia como um jogo com regras socialmente construídas e aceitas pelo conjunto da  sociedade, algumas formalizadas, outras subentendidas, como o princípio da  transparência e a própria liberdade de imprensa 1. Revolução como um jogo secreto,  amplamente difundido nos meios intelectuais e jornalísticos dos anos 60, proposto por partidos semiclandestinos e passando, necessariamente, por instâncias de ocultamente 2

 

Ao interromper a democracia em 1964, sem definir claramente qual era o novo jogo, as  elites dominantes anteciparam-se, colocando cidadãos, intelectuais, políticos e jornalistas perante o dilema de aceitar ou não o fim do jogo. E, em não aceitando, que jogo passar a  jogar? O jogo da revolução? Ou insistir no jogo da democracia? O que seria resistir?

 

O DIA SEGUINTE AO GOLPEresistência clandestina

 

O golpe militar continha dentro de si um golpe particular dos próprios barões da imprensa  contra o único concorrente de peso, popular e nacionalista, a rede ULTIMA HORA. Os  grandes jornais aplaudiram a suspensão do jogo democrático; o Estado de S. Paulo  assumiu como sua a contra-revolução que de fato ajudará a organizar 3. As redações do  ÚLTIMA HORA foram empasteladas não como uma imprensa a ser reprimida, mas como  parte do próprio assalto ao poder. ULTIMA HORA desapareceria pouco depois, assim como o populismo em que se sustentara.

O CORREIO DA MANHÃ é o primeiro grande jornal a se voltar contra o golpe,  veiculando as crônicas indignadas de Carlos Heitor Cony, os artigos de Newton Carlos, Rubem Braga, Alceu Amoroso Lima, Hermano Alves, Edmundo Moniz, Carlos Drummond  de Andrade, Otto Maria Carpeaux, e de outros intelectuais de extração liberal 4.  Jornalistas e intelectuais, sensíveis à questão das liberdades públicas e individuais,  reagiam sem perguntar "se a correlação de forças é favorável". A esquerda marxista, que  questionava a importância da democracia e de sua preservação, iria preferir o jogo da  resistência clandestina 5.

O grotesco do golpe militar também desencadeou nos humoristas cariocas, liderados por  Millôr e Jaguar, uma fúria criativa sem paralelo na imprensa brasileira. Incapazes de  colocar toda sua produção nos veículos convencionais, criaram "PIF-PAF", o precursor do  "PASQUIM", o mais durável de todos os jornais alternativos nascidos durante o regime  autoritário. Tornaram-se também colaboradores decisivos de outros jornais alternativos 6

É também no Rio de Janeiro que surge a primeira revista nacional de resistência  intelectual ao novo regime: a Revista Civilização Brasileira, de Enio Silveira, que, sem negar espaço aos liberais, torna-se um fórum de reflexão e resistência da esquerda  marxista. Ali escrevem, a partir de inícios de 1965, Paul Singer, Luciano Martins,  Francisco Weffort, Werneck Sodré, Ferreira Gullar, Jean Claude Bernardet, Octavio Ianni,  praticamente toda a intelectualidade progressista. Ali se inicia a análise do significado do golpe, preliminar às duas grandes revisões dos paradigmas dominantes na esquerda: a  crítica do populismo e da razão dualista e, mais recentemente, a revisão do próprio  marxismo recolocando a democracia como questão central 7

 

SOBRE HERÓIS E PADRÕES DE RESISTÊNCIA

 

Nos primeiros dias após o golpe, as crônicas de Cony tornam-se referência nacional,  leitura obrigatória, ponto de encontro espiritual de todos os que também querem resistir, podendo ou não podendo; de todos os que precisam de estímulo ou emulação, de todos  os que querem saber se existe resistência aberta.

 

Os homens-símbolo, os jornais-símbolo, heróis da resistência da imprensa, são  necessários e a sociedade irá produzi-los em cada instante, às vezes com a ajuda direta  do opressor, como ocorreria com Wladmir Herzog, assassinado no DOI-CODI de São  Paulo em outubro de 1976, ou com Lourenço Diaféria, processado por uma crônica  escrita já em 1977 .

 

Mas o herói necessário é também alienante. Seu mito, como símbolo, transcende o  simbolizado, ganha vida própria no imaginário social, no inconsciente coletivo. Depois  será assumido pelas instituições que esvaziarão seu conteúdo original, destruindo o  conhecimento do específico no seu gesto de resistência. Segue-se um longo processo  que, no imaginário social, fundirá todos os mitos na figura recriada de um único herói,  arquétipo daquela resistência. Perdem-se dezenas de gestos de resistência que o acaso  não incluiu na galeria dos heróis e, portanto, na memória da resistência. 

 

Mesmo neste meu breve resumo, acabo condicionado por nomes consagrados, por  registros históricos de fatos notórios. Henfil, Paulo Francis, Stanislaw Ponte Preta,  Raimundo Pereira também desempenharam em alguma etapa a função-símbolo. Mas  Hélio Fernandes, que enfrentou dez anos quase ininterruptos de censura prévia em seu  jornal diário A TRIBUNA DA IMPRENSA sem transigir ou negociar com o opressor, não foi  erigido em símbolo por não se encaixar no padrão ideológico associado ao ato de resistir.

 

E seu irmão, Millôr Fernandes, tem sido tão regular na resistência a todo tipo de  autoritarismo que se desclassificou como candidato a herói. Em Millôr, a resistência é anti- heróica porque não se coloca como opção que demande vontade ou coragem. Sua liberdade é um estado natural, quotidiano. "Livre pensar é só pensar." Dificilmente seria  erigido em mito porque, no limite, ou seremos todos como ele — e neste caso não  precisaremos de heróis —, ou a liberdade será tão excepcional que não bastará um anti- herói.

 

RIO DE JANEIRO, A CIDADE RESISTENTE

 

Por que os jornalistas cariocas lideraram a resistência incicial ao golpe? Em São Paulo e  no Nordeste muitos intelectuais ligados ao Partidão ou a Polop tiveram de se esconder. O  radicalismo carioca carregava na crítica de costumes e convenções, rejeitando o dogma  e, no limite, o marxismo.

 

Era também mais gregário e mais homogêneo. E seus jornalistas tinham o estatuto da  personalidade pública. Enquanto em círculos intelectuais de São Paulo e Belo Horizonte iria alastrar-se a idéia da reação pelas armas, mesmo o marxismo carioca mantinha-se na  corrente moderada, aliada aos democratas-liberais defensores da democracia formal. Já  separados dos falsos liberais "udenistas" pela polarização pré-golpe, esses pensadores,  escritores, artistas e jornalistas reagiram coletivamente nas páginas do Correio da Manhã,  em Civilização Brasileira, esporadicamente no Jornal do Brasil e em Ultima Hora e,  posteriormente, em O Pasquim.

 

Não por acaso, o núcleo paulista dirigente de OPINIÃO, que herdaria o espírito de  resistência, estabeleceu sua sede no Rio de Janeiro, onde, apesar das prisões de  jornalistas que se seguiram ao AI-5, sobreviveram o espírito e uma massa crítica de  resistência. O Correio da Manha, o mais tradicional do Rio de Janeiro, simbolizou a  cidade resistente. Forçado pelo seu próprio público leitor, sua equipe e seus intelectuais,  O Correio da Manhã, que aderira à campanha contra a ordem constitucional com os  famosos editoriais "Fora!", de 31 de março e "Basta!", de l2 de abril, voltou-se contra a  nova ordem, aceita e apoiada por virtualmente todas as grandes empresas jornalísticas  brasileiras. Após um cerco de meses, ocorreram as prisões de sua proprietária Niomar  Muniz Sodré Bittencourt — fato raro na história das relações entre o regime autoritário e  os barões da grande imprensa — e dos diretores Oswaldo Peralva e Nelson Batista. O  Correio fechou em 11 de setembro de 1969. Niomar recusou uma associação com  Samuel Wainer, dizendo que "não se misturava com cafajestes” 9. Repudiou o golpe mas  não a sua condição de classe, a classe que o engendrara. Mesmo assim, não foi  perdoada. Gestos simbólicos de insubmissão tornam necessária uma repressão também  simbólica, exemplar. Resistência e repressão criam seu próprio jogo.

 

 

IMPRENSA E RESISTÊNCIA CLANDESTINA

 

A resistência específica da imprensa não pode ser pensada sem referência ao fenômeno  geral da resistência ao regime autoritário. Muitos jornalistas que detinham postoschaves na grande imprensa pertenciam a organizações políticas clandestinas, inclusive  organizações como a ALN, o MR8 e a COLINA, que pregavam a luta armada contra o novo regime, assaltavam bancos para levantar recursos e depois seqüestraram  embaixadores para libertar seus presos.

 

Ao decretarem eles também o fim do jogo democrático, aceitavam o novo jogo, imposto  pelo regime autoritário primeiro de forma titubeante, depois na forma de regras claras e rígidas do AI-5 — jogo  que, dificilmente, poderiam ganhar. Suas penalidades incluíam a prisão, o exílio, a tortura e a morte. Daí a necessidade do ocultamento extremo, do secretismo, da negação da  própria identidade do jornalista como personalidade plena de domínio público. Finalmente, a clandestinidade total, pois, na cultura das organizações que adotaram a luta armada,  era sinal de fraqueza não cair na clandestinidade.

 

A luta armada não emulava a resistência democrática nem se somava a ela. Uma viveu  da morte da outra. Uma negava a validade da outra. Primeiro, a morte da perspectiva democrática com o AI-5 deu vida à luta armada, enfraquecendo os quadros da resistência  liberal-democrática na imprensa. Depois, a derrota da luta armada, num quadro de crise  social e de emergência de novos atores sociais na base, deu nova vida à resistência  democrática e, portanto, à resistência pela imprensa. Surgem os metalúrgicos de São Bernardo e as comunidades de base. E a valorização da democracia, vista agora como  conquista permanente, e não apenas objetivo tático, inclusive pelos sobreviventes da  resistência clandestina, o que recolocaria a imprensa como agente central da construção  democrática, através da demarcação do espaço público e sua democratização.

 

A GRANDE IMPRENSA E A TORTURA

 

A denúncia de tortura de presos políticos por órgãos policiais estabelece um elo, às vezes  até indesejado pelo jornal ou pelo jornalista, e sempre delicado, entre luta clandestina e o  exercício da liberdade de imprensa. Assim é mesmo nos regimes democráticos em que atuam grupos clandestinos, como na Irlanda do Norte. A grande imprensa deve e pode  denunciar todo e qualquer ato de violência, especialmente do poder autoritário, sem negar  princípios liberais — ao contrário! — como decorrência desses mesmos princípios e,  portanto, sem com isso estar apoiando a luta armada como proposta. Na verdade, ela   deve sempre denunciar as violações de direitos humanos, sem sacrifica-los a razões de  Estado. Não fazê-lo foi a grande falha, o pecado original da imprensa brasileira durante o  regime Militar, "Quem pesquisar o que aconteceu no Brasil vai encontrar muito pouco ou  quase nada nos jornais: notas oficias, resumos de depoimentos nas auditorias, informações de órgãos de segurança comunicando prisões e morte, e com destaque apenas para noticias de sequestros…" 10

No campo das torturas, o jogo da grande imprensa foi além da mera complacência   recíproca com o regime. A grande imprensa não só evitava a temática das torturas,  evitava também a cobertura das centenas de processos políticos nas auditorias militares.  Seria para evitar situações que colocassem o ativista clandestino como vítima, quando o  discurso dominante o descrevia como terrorista, como agente de uma guerra subversiva?  Era mais que isso. As classes dominantes, incluindo proprietários de alguns grandes  jornais, compartilhavam a tese da "guerra subversiva" e, assim, aceitavam implicitamente  o direito de a repressão usar "regras de guerra". Especialmente após o espetacular  seqüestro do embaixador americano Burke Elbrick, em setembro de 1969, tornou-se  urgente para todo o conjunto das classes dominantes a derrota da guerrilha urbana. E a  tortura foi o principal método adotado.

A omissão da grande imprensa diante da sistemática prática de torturas e assassínios de  presos políticos refletia uma duplicidade de valores. Era como se a tolerância das elites  ante a tortura habitual de presos comuns, desde que pobres, tivesse sido estendida ao  campo da tortura de presos políticos, desde que "terroristas". Tanto assim que torturas iniciais no Nordeste, quando ainda não havia guerrilha urbana, relatadas por Márcio  Moreira Alves, tiveram grande eco na imprensa liberal, levando à criação de uma comissão de inquérito. O mesmo se deu com o episódio da tortura e morte do sargento  Manuel Raymundo Soares, no Rio Grande do Sul, em 1967, denunciadas principalmente  pelo Jornal do Brasil 11. O  fenômeno da omissão começa quando as prisões se enchem  de ativistas de organizações clandestinas e quando a Operação Bandeirantes, em São  Paulo, levada depois a todo o país com o nome de DOI-CODI, passa a práticas  escabrosas. A censura a esses itens também se torna total, mas, para a maioria dos  jornais, através apenas de bilhetinhos.

A omissão dos jornalistas como indivíduos, além das restrições das empresas e da  censura, podia ser explicada pelo medo. Em dezembro de 1969 a equipe de Veja, sob a liderança de Raimundo Pereira, na qual eu me incluía, aproveitou o pretexto de uma vaga  promessa do novo presidente Garrastazu Mediei de acabar com as torturas e produziu uma reportagem de capa denunciando torturas. A grande imprensa repercutiu, mas não  ampliou a denúncia. Demos mais uma capa, mas isolada, e a revista foi apreendida. Alguns meses depois a equipe sairia de Veja e dois anos após constituiria o núcleo  fundador de Opinião. Nessa época multiplicavam-se prisões políticas, e dificilmente um  jornalista não tinha algum parente ou amigo preso, o que, ao contrário de estimular atos  de resistência, alimentava o medo.

 

A RESISTÊNCIA DE OPINIÃO E DA IMPRENSA ALTERNATIVA

 

As origens de Opinião remontam ao efêmero jornal Amanhã, publicado sob a cobertura do  Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP por volta de 1966. Voltado ao trabalhador de  fábrica e muito vigoroso, Amanhã, apesar do sucesso inicial, dissolveu-se pela ação  paralela da polícia e da disserção entre os partidos políticos clandestinos que o apoiavam. O núcleo central de Amanhã seria, depois da passagem de alguns de seus membros por Veja, o núcleo central de Opinião.

Como Amanhã, Opinião, Em Tempo, Movimento e todos os jornais dessa linhagem  refletiam coligações políticas específicas criadas no processo de formação de cada jornal, às quais se agregavam jornalistas e intelectuais independentes e simpatizantes das  organizações clandestinas ou não, que o apoiavam. Daí a sucessão de rachas e  nascimentos de novos veículos à medida que a conjuntura política separava as diversas  organizações ou produzia rachas, no interior de uma delas, que se refletiam como rachas  no próprio veículo.

Aqui não é o espaço para uma discussão em profundidade da imprensa alternativa, mas a  caracterização dessa linhagem é básica para o entendimento de sua contribuição ao  processo de resistência. Tratava-se de uma imprensa legal que assumia o discurso  liberal-democrático, mas que era apoiada também por partidos políticos clandestinos,  alguns dos quais adeptos da idéia da revolução. A adesão se dava em torno de um  programa comum, às vezes explicitado por escrito.

Em Opinião sempre esteve clara e firme sua orientação liberal-democrática. Trazia uma  seleção dos melhores artigos da imprensa liberal mundial. Seu proprietário, Fernando Gasparian, e inúmeros intelectuais amigos que apoiavam o jornal, eram liberais. A alta  qualidade do projeto editorial fez de Opinião um jornal liberal-democrático de vanguarda, e qualificou-o em escala nacional e internacional como símbolo da resistência intelectual  ao regime autoritário. Por isso foi punido exemplarmente pela censura, tornando-se um  dos poucos veículos submetidos à permanente censura prévia. Opinião representa a  resistência da liberdade de pensar criticamente, muito mais do que de noticiar ou  denunciar. Deu assim uma contribuição imensa à sobrevivência do próprio pensamento  no Brasil, o que explica a consideração que intelectuais, profissionais liberais e  acadêmicos da geração que se tornou adulta sob o regime autoritário tem até hoje por  Opinião.

 

Opinião morreu asfixiado pela censura prévia. O jogo bruto da censura prévia  transformava o próprio fazer jornal em ato de resistência, forçando seus participantes a  jogar um outro jogo, de abnegação, frustração e impotência, que nem todos queriam ou  podiam aceitar. O próprio dono insistia em que o jornal deveria ser imediatamente auto- suficiente, um absurdo para qualquer jornal com menos de um ano de mercado e muito  mais para um jornal produzido naquelas condições de censura.

 

Nesse tipo de imprensa, apoiada em acordos políticos, prevalece uma relação recíproca  de uso — cada corrente está, no fundo, usando as demais para seu próprio jogo político. No caso de Opinião, o proprietário liberal-democrata usava jornalistas de esquerda, e  estes usavam o capital burguês. Havia também as relações de uso inter-esquerdas. Isso  gera desconfianças que, no contexto da crise, levaram à saída da equipe fundadora do  jornal. Opinião sobreviveu mais alguns anos com apoio cada vez menor nos grupos de  esquerda subjacentes ao jornalismo, à política e à academia. Segue-se um período de  grandes divisões entre as esquerdas e de profileração e fragmentação da imprensa  alternativa, somando-se pelo menos vinte jornais de alguma importância entre os anos  1975 e 1978. Os mais duradouros são De fato (BH), Coojornal (RS), Versus (SP),  Movimento (SP), Em tempo (SP). Versus, com uma retórica voltada à América Latina,  Coojornal com primoroso acabamento e grandes reportagens investigativas sobre o  aparelho militar, Movimento cobrindo a vida do povo e a cena brasileira, Em Tempo  revelando a crise do sistema militar e denunciando a lista dos 233 torturadores, todos  esses jornais tiveram  grandes momentos, momentos simbólicos, na resistência ao autoritarismo. Coexistiam quando da eclosão da campanha da anistia. Foram  desaparecendo a partir de 1979/80, a maioria vítima de um autoritarismo que já não era  externo, mas sim interno: o dos próprios grupos de esquerda que os apoiavam. Nessa  cultura partidária fortemente dogmática surgem, por um breve momento, Hora do Povo, a  antítese da imprensa democrática.

 

A partir de 1974, parte da grande imprensa passa a jogar um novo e sutil jogo, apoiando a  facção militar favorável à abertura. E, em 1978, o espaço da resistência deixou de ser  monopólio da imprensa alternativa ou católica e passou a ser disputado pela imprensa  convencional, a começar por Isto É. As elites dominantes e os proprietários de jornais voltam a propor o paradigma democrático como jogo a ser jogado.

 

 

SOBRE A NATUREZA E A PERMANÊNCIA DA CENSURA

 

O regime militar concebia a sociedade como um campo de batalha. Todos os que  discordavam eram inimigos. Nessa concepção, formalizada na Lei de Segurança  Nacional, não há meio termo. Quem não está com um lado, objetivamente está com o  outro. Adotam assim o próprio conceito de luta de classes proposto pelas esquerdas —  em versão reducionista —, alinhando-se com as elites dominantes contra essas  esquerdas.

Trata-se de uma visão totalitária que explica a lenta evolução do regime em direção ao  totalitarismo e que vai refletir-se na concepção indiscutivelmente totalitária que tem da  imprensa, vista como campo privilegiado dessa luta. Dizem, por exemplo, que: a) os  comunistas valem-se da imprensa para envenenar o país; b) todos os meios de  comunicação são dominados pelos comunistas; c) os donos de jornais não são  comunistas, mas os jornalistas são 12.

No entanto, nem o regime atingiu forma totalitária acabada, nem foi totalitária a atuação  da censura. Havia, basicamente, três modalidades de censura: a) uma totalitária, ou seja,  abrangente, severa e permanente, imposta a apenas meia dúzia de periódicos e que,  além dos já citados, atingiu também O São Paulo, da Cúria Metropolitana de São Paulo; b) uma censura totalitária, extensiva a todos os órgãos de imprensa apenas no item  específico dos crimes cometidos pelos órgãos de repressão; c) um jogo sofisticado de  censura branda por bilhetinhos, autocensura, intimidações administrativas e tráfico de  favores, jogo esse aceito por quase todos os grandes jornais e por centenas de jornais do  interior. Pouquíssimos jornais sofreram processos pela Lei de Segurança Nacional, a  maioria pequenos jornais do interior 13.

A partir de 1974, com a volta dos castelistas ao poder pela escolha do general Geisel para  suceder Mediei, iniciasse um novo e sofisticadíssimo jogo que levará à reconstrução das  relações íntimas da grande imprensa com o poder, típicas de eras anteriores ao golpe. A  facção castelista passou a usar a imprensa na luta contra "a comunidade de segurança”. Assim como a censura à imprensa fora essencial para a derrota da guerrilha urbana por   métodos brutais, o levantamento dessa mesma censura passou a ser o instrumento de  intimidação da própria repressão.

 

O idealizador da abertura, general Golbery do Couto e Silva, "passou um bom tempo  antes e depois da posse de Geisel em comunicação direta com os principais jornalistas e  editores, tentando persuadi-los dos objetivos do processo de abertura... e dos  constrangimentos que ele e Geisel enfrentavam por parte da oposição representada pela  linha dura” 14. Estabeleceram-se laços privilegiados entre vários jornalistas e o general  Golbery, destacando-se o Editor de Veja, Elio Gasperi, que por sua vez se relacionava  com outros editores importantes no Rio e em São Paulo. Assim o projeto de abertura  gradual e controlada passou a contar com o suporte da grande imprensa. Na sucessão de  Geisel, alguns desses jornalistas empenharam-se em minimizar a candidatura pelo PMDB  do general Euler Bentes Monteiro 15.

Derrotado Euler, o jogo prossegue através das propostas de anistia negociada e transição  controlada. Assim, boa parte da grande imprensa coloca-se como um anteparo entre o  poder acuado e as oposições populares, que ela não pode desprezar.

A autocensura suprimiu a verdade no Brasil mais do que toda a censura. Mas seu efeito  mais funesto foi o de ter sobrevivido ao próprio regime, incorporando-se como hábito, como cultura do meio jornalístico e como direito natural das chefias e proprietários de  jornais. A precariedade do estatuto do jornalista, que pode ser demitido a qualquer  momento, somou-se à permanência e abrangência da autocensura, à perda dos  referenciais éticos do jornalismo, que antecede o golpe de 64 e se agrava com os 20 anos  de autoritarismo. Essas deficiências só podem ser superadas pela prática da liberdade  como um direito trivial; um jornalismo sem heróis.

 

________________

 1 Para o conceito de jogo como adesão às regras constitutivas de determinadas categorias culturais, que só assim passam a existir, ver Roy G. D'Andrade. "Cultural  meaning systems" in Culture theory, essays on mind self and emotion. Edited by Richard  A. Shweder e Robert A. LeVine. London, Cambridge University Press, 1984.

 2 O predomínio do paradigma da revolução pode ser visto por alguns dos títulos  significativos da época: "A revolução brasileira", de Caio Prado Júnior; "O caminho da  revolução brasileira", de Moniz Bandeira; "A opção imperialista" e "A opção brasileira",  ambos de Mário Pedrosa. “Divergências havia quanto ao caminho, não quanto à  necessidade da revolução.

 3 Para o papel de Júlio Mesquita Filho e de O Estado na preparação do golpe militar, ver  Bernardo Kucinski, "O Estado de São Paulo, Liberal, conservador, antifascista'' in Opinião,   23/01/75.

 4 Seleção dessas crônicas podem ser encontrada» em O golpe de 64, a imprensa disse  não, organizada por Thereza Césario Alvim, Ed. Civilização Brasileira, 1979; e C. H. Cony.  O ato e o fato, Rio, Ed. Civilização Brasileira, 1984.

 5 Para as posições dos intelectuais de esquerda às vésperas do golpe, ver Alice Mitika  Koshiyama, em "O Jornalismo e o golpe de 64" in Revista Brasileira de Comunicação, SP,  n 59.

 6 Ver uma seleção de trabalhos de Claudius, Jaguar e Fortuna em Hay Gobierno?, Rio,  Ed. Civilização Brasileira, 1964.

 7 O número 2 da revista reproduzia o discurso de paraninfo de Florestan Fernandes na  Faculdade de Filosofia de São Paulo em inícios de 1965, sob o titulo "A revolução  brasileira e os intelectuais”.

 8 Folha de S. Paulo, 5/8/77.

 9 In Samuel Wainer, Minha Razão de Viver, Rio, Ed. Record, 1987.

 10 Álvaro Caldas. Tinndo o Capuz. Rio, Ed. Codecri, 1981.

 11 Para os antecedentes do DOI-CODI, ver Bernardo Kucinski e ítalo Tronca, Pau de  arara, a violência militar no Brasil, Ed. Siglo XXI, 1972.

 12 Para um estudo detalhado da censura, ver Paolo Marconi, A censura política no Brasil, São Paulo, Ed. Global, 1980.

 13 Conforme o relatório "BRASIL NUNCA MAIS!", da Cúria Metropolitana de São Paulo,  Rio, Editora Vozes, 1986.

 14 In Alfred Stepan. "Os militares: da abertura à nova república”. Ed. Paz e Terra, 1986;  Para um estudo da abertura, ver também Bernardo Kucinski. "Abertura, história de uma  crise". Ed. Brasil Debates, 1982.

 15 Conforme depoimento de Pompeu de Souza in Marconi Paolo, op. cit.


 
     
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