Sistema e browser desconhecidos

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Agenda:

O partido tardio dos trabalhadores
 

Introdução

Em meio ao ocaso do socialismo em quase todo o Ocidente nas últimas décadas do século XX, as esquerdas brasileiras conseguiram criar três novas formas de organização e de intervenção política que assustaram o campo conservador e surpreenderam as esquerdas de outras partes: o Partido dos Trabalhadores (PT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Sem-Terra (MST).

Essas três poderosas organizações populares, de dimensões sem precedentes na história do Brasil, ligadas entre si por um mesmo imaginário de transformação modal e freqüentemente protagonizadas pelas mesmas pessoas e lideranças, têm como núcleo duro o Partido dos Trabalhadores.

Foram quadros do PT que criaram em 1983 a Central Única dos Trabalhado-ires como forma de hegemonizar o movimento sindical, e foi no âmbito da Secretaria Agrária do PT que se manteve aceso o debate da Reforma Agrária, sob a liderança de José Gomes da Silva, um de seus principais teóricos. Reforma Agrária tomou-se proposta prioritária do partido. A maioria dos dirigentes do Movimento dos Sem-Terra, fundado no Rio Grande do Sul em meados da década de 80 por ativistas oriundos da Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, são também ativistas do PT. O MST acabou se tornando a mais ativa força de pressão popular do Brasil nos últimos anos da década de 90, quando o desemprego estrutural, ao mesmo tempo em que enfraqueceu o movimento sindical, forneceu os contingentes humanos dos sem-terra.

Após um crescimento eleitoral de início lento, o PT acabou por hegemonizar o campo das esquerdas. Nas eleições municipais de 2000, recebeu quase 12 milhões de votos, conquistou boa parte das grandes cidades, inclusive capitais de estado, assim se posicionando como real alternativa de poder em plano nacional. O PT, que j foi chamado de “anomalia política”, deve ser hoje um dos maiores partidos políticos de trabalhadores do mundo ocidental. Este texto tenta explicar suas origens e as razões de seu sucesso até agora.

 

O lugar do PT

O Partido dos Trabalhadores surgiu como desdobramento das grandes greves operárias do final dos anos 1970 que feriram de morte a ditadura militar brasileira. Protagonistas de uma industrialização tardia, os trabalhadores metalúrgicos acabaram criando um partido também tardio de uma classe operária fabril fadada a perder vitalidade logo na década seguinte. Ocorre que o momento daquelas greves foi também de desgaste da ditadura militar, de luta de setores intelectuais pela anistia e restauração da democracia, e de rejeição pelas novas lideranças sindicais surgidas sob a sombra protetora da Igreja de Libertação, da antiga estrutura sindical domesticada pelo patronato. A criação do PT foi impulsionada por todas essas forças.

No instante mesmo de sua fundação, o PT seduziu grupos tradicionalmente incompatíveis, da esquerda trotskista à esquerda leninista, marxistas e católicos da Igreja de Libertação, operários quase analfabetos e intelectuais de prestígio. Essa aliança de contrários conseguiu se tornar em poucos anos o primeiro partido de massas do Brasil em que predominam as idéias socialistas, e o único partido político brasileiro com ativistas e vida orgânica fora dos períodos eleitorais. Um ativismo comparável ao dos antigos partidos comunistas, que no entanto, operaram na clandestinidade durante a maior parte de sua existência no Brasil.

Nos seus primeiros 21 anos, o PT criou diretórios em 3.600 cidades com cerca de 800 mil filiados, Estima-se que dois terços deles participam regularmente das atividades o partido.

Nas eleições nacionais de caráter proporcional de 1998, para a Câmara dos Deputados, o PT obteve 12,8 por cento dos votos, quase tanto quanto cada um dos três grandes partidos de centro e de direita. Sua representação no Congresso se compunha de 7 senadores e 60 deputados federais, a quarta maior bancada. Tornou-se, assim, o pólo aglutinador das oposições parlamentares brasileiras. Seu fundador, o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva foi o principal concorrente do campo popular às eleições presidenciais acontecidas depois do fim da ditadura, em 1989, 1994 . assustando os poderosos interesses financeiros que se criaram no Brasil a da crise da dívida externa dos anos 1980.

Nas condições de carências extremas da sociedade brasileira, a candidatura de se colocou como uma alternativa dramática de mudança na estrutura de poder e foi considerada por isso mesmo inaceitável pelas elites dominantes, que recorreram a um intenso esforço de manipulação dos meios de comunicação de massa, para impedir sua vitória. Em 1998, Lula obteve um terço dos votos válidos no primeiro turno.

Crescendo lentamente, mas sofrendo freqüentes e pesados reveses, vinte e um anos depois de fundado, o PT governa, neste início de novo milênio, mais de 100 grandes cidades, incluindo a maior cidade brasileira, São Paulo, e outras cinco capitais. Também governa três estados. Paralelamente, o movimento sindical sob influência da CUT tornou-se dominante, inclusive no meio rural, abarcando mais de dois mil sindicatos, compreendendo quase 20 milhões de trabalhadores.

Os últimos anos da década não foram fáceis para o PT. Com o aumento significativo do desemprego, a CUT perdeu espaço ideológico ante o “sindicalismo de resultados” dos sindicatos populistas. O PT perdeu algum espaço ideológico e organizativo para o PCdoB no movimento estudantil e não conseguiu desenvolver me discurso para as classes médias com o poder de persuasão equivalente ao do discurso neoliberal. Mas no início do novo milênio, com o colapso do modelo neoliberal, o não cumprimento de muitas de suas promessas e a revelação dos mecanismos de corrupção que acompanharam a implantação desse projeto em toda a

América Latina, o PT reconquistou a confiança de camadas amplas das classes médias, principalmente por meio de seus exemplos de moralidade administrativos e combate ao clientelismo político.

 

O PT como uma invenção política

O Partido dos Trabalhadores desafia definições. Foi fundado por trabalhadores industriais recentemente urbanizados, como o foi a social-democracia européia do começo do século, mas num outro tempo da história. No final dos anos 90, a própria base operária que havia dado origem ao PT estava dizimada pela revolução tecnológica, pela dispersão industrial e pelo desemprego. Mas o PT não desapareceu, ao contrário, continuou crescendo, ainda que mais devagar, ganhando adesões de novas frações da sociedade, em geral grupos excluídos e profundamente descontentes.

O Partido dos Trabalhadores não se encaixa em nenhum modelo, nem no do Labour Party britânico, com o qual tem alguns traços comuns, nem no dos partidos marxistas, já que não possui uma doutrina definida. Margareth Keck, autora de estudo seminal sobre o Partido dos Trabalhadores, chamou seu trabalho de “o estudo de uma anomalia”.(1) Em contraste com o Labour Party, o PT nunca teve vínculos estatutários com sindicatos. É apoiado por grande número de ativistas católicos, atas defende a igualdade de direitos para homossexuais e admite discutir a legalização do aborto. É um partido de massas, operando no espaço público, mas está estruturado como um partido orgânico, quase leninista, com um comitê central e regras de obediência estrita às decisões partidárias. Ao mesmo tempo, e mais paradoxalmente ainda, permite a existência de tendências organizadas dentro do partido. Seus seguidores são membros ativos de movimentos populares e dirigem muitos deles, mas os movimentos não fazem parte da estrutura do partido e freqüentemente entram em choque com administrações eleitas pelo Partido.

Seria o PT um produto ultrapassado do marxismo, ou, ao contrário, o precursor de uma nova modalidade de organização política?

O PT nasceu como uma “obra aberta”, na qual a entrada de cada novo participante é não apenas bem-vinda como modifica a obra original. Essa característica de seu processo de criação é ainda hoje um traço central do PT, que explica a paradoxal “democracia petista”, na qual convivem os contrários.

Na sua fase inicial, os diversos grupos e grupúsculos de esquerda aderiram ao PT com propósitos claramente instrumentais, cada qual esperando conquistar a hegemonia do novo partido. Um dos principais grupos, a Social Democracia, por exemplo, de raízes trotskistas, via o PT como uma organização transitória. Aderiram ao PT, mas mantiveram durante todos esses anos sua organização interna e seus vínculos com a IV Internacional. (2)

Nenhum desses grupos conseguiu substituir ou instrumentalizar o PT, apesar de uma intensa e às vezes autofágica luta interna. Muito lentamente a cultura do sectarismo foi sendo substituída pela lógica de um partido de massas. Mas a “lógica da diferença”, como a chamou Margareth Keck, ou seja, da convivência entre tendências e pensamentos bem diferentes no interior de um mesmo partido e curvando-se às decisões da maioria ainda é um traço genético do PT.

 

A cultura petista: ética e radicalidade

Para entender esse “partido aberto”, é preciso examinar o que uniu os petistas, além da idéia cada vez mais vaga e problemática da construção do socialismo. Os que os identificou, fossem intelectuais de esquerda ou militantes de base católicos_ era um ethos, mais do que uma ideologia, uma forma de ser e de ver, que não se restringia à militância política, abrangendo a totalidade da pessoa e de sua vida. Um ethos que combina radicalidade, no sentido de rejeição a políticas e atitudes de compromisso, com um senso de integridade de caráter, de agir honesto no mundo pouco honesto da política brasileira.

Não bastasse a força desses valores no ego da maioria dos petistas, o 1º Congresso do partido, em 1991, aprovou um código de ética petista, tornando esse valores mandatários:

“Temos um dever no PT, um partido diferente, de desenvolver uma nova ética partidária, também diferente, e expressá-la claramente em nossos estatutos. Essa nova ética político-partidária tem que se assentar em quatro pilares: em 1º lugar, a postura individual dos militantes; em 2º lugar, a relação dos militantes entre si; em 3º lugar, o conceito de fidelidade partidária; e em 4º lugar, a relação dos militantes e do Partido com o mundo exterior... Quando falamos do primeiro pilar falamos em integridade política individual que, por exemplo, não admite que um petista coloque seu mandato a serviço de seu uso político pessoal, através de políticas clientelistas, mesmo que isso seja aceito na legalidade burguesa... no que se refere ao segundo pilar, é essencial desenvolver o sentimento fraterno entre todos os militantes... o terceiro pilar implica que o conceito de fidelidade partidária no PT tem de expressar claramente que o partido é mais do que a simples soma de seus militantes... já o quarto pilar implica que aquilo que é aceito como normal pelos políticos não sirva de exemplo para o PT...(3)

Um partido que assim se definia, especialmente no contexto da política clientelista, corrupta e populista da América Latina, estava se auto-limitando. De fato, essa ética fez o partido perder oportunidades políticas, ao relutar em fazer acordos e alianças, freqüentemente com base em considerações moralistas. Ao mesmo tempo, o “purismo” petista ofendia outros partidos, e intelectuais e ativistas do campo popular não-petistas, que acusam os petistas de se verem como os únicos justos na face da Terra.

Mas à medida que foi chegando ao poder, em prefeituras e governos estaduais, o PT acabou se institucionalizando e perdendo muito desse purismo inicial. Seu ativismo de base perdeu muito de seu vigor inicial, que era extraordinário. Suas administrações também foram contaminadas, em alguns casos isolados, pelos mecanismos de corrupção política, pelo nepotismo e pelo carreirismo. Embora esses meanismos, dominantes na cultura política brasileira, ocorressem no PT de modo apenas pontual, foi o bastante para desencadear uma profunda crise interna.

Quando a corrupção inerente ao modo de implantação do modelo neoliberal, e aos grupos políticos que lhe deram sustentação, foi exposta em toda a sua extensão, ocupando o centro das preocupações da opinião pública, na segunda metade do mandato final de Fernando Henrique, o PT emergiu como a única força política que colocava a ética na política como um ponto programático, e o colocava em em suas administrações municipais. Foi a capitalização da revolta ética da população que levou à avalanche de votos pelo PT nas eleições municipais de 2000, em conquistou a maioria das grandes cidades brasileiras.

ethos petista tem sido atribuído por cientistas sociais à cultura das Comunidades Eclesiais de Base e outros movimentos populares que proliferaram no B nos anos 70 e 80, lutando por reivindicações específicas, especialmente mo transporte e saúde. As Comunidades Eclesiais de Base foram criadas pela Igreja Libertação, ala do clero católico fundada na Conferência dos Bispos latino-americanos de Medellin, em 1968 e que no seu apogeu chegou a somar 2 milhões de membros. (4) Vários dos líderes laicos ou não da Igreja de Libertação são também ativistas petistas. (5) Nessas comunidades, reunidas sob a proteção da Igreja, numa era de pressão política, desenvolveram-se as virtudes da auto-suficiência, da participação solidariedade. E também uma visão messiânica da política que depois se to especialmente acentuada no Movimento dos Sem-Terra.

No final dos anos 70, com o momentâneo agravamento das condições de trabalho nas grandes fábricas, essa militância contaminou os sindicatos, dando origem ao que foi chamado de “novo sindicalismo”, que rejeitava a política de apaziguamento dos conflitos de classe do peleguismo sindical, por meio da cooptação e até da corrupção dos líderes sindicais. (6) Os sindicatos sob influência do Partido Comunista, além de instrumentalizados, também praticavam algum grau de peleguismo. como parte dos zigue-zagues oportunistas típicos desse partido.

Entre os líderes do novo sindicalismo, mais preocupado com o bem-estar das trabalhadores do que com formulações ideológicas, logo se destacou pela sua capacidade de organização e aglutinação o jovem de família muito pobre oriunda do Nordeste, Luíz Inácio da Silva, conhecido como Lula. Em 1974, durante um congresso de trabalhadores metalúrgicos, em São Bernardo, o novo sindicalismo lançou seu primeiro manifesto público, rejeitando o peleguismo e sua principal forma de sustentação, o imposto sindical cobrado compulsoriamente de todos o trabalhadores e rateado entre sindicatos. Vinte e cinco anos depois, conquistada a hegemonia no meio sindical, mas sofrendo a crise do desemprego a CUT defendia um tanto envergonhada a manutenção do imposto sindical, alegando que sem ele muitos sindicatos pequenos desapareceriam.

 

Nascimento do PT

Em 1977 Lula conduziu a campanha dos metalúrgicos do ABC pela reposição de perdas salariais e de alguns benefícios, cortados em meio a uma momentânea retração econômica. O artifício usado pelas empresas foi a manipulação de índices de inflação pelo então ministro da economia Delfim Netto, que resultou em perdas de 31 por cento. As greves explodiram no ano seguinte, primeiro em São Bernardo e Diadema, logo espalhando-se por todo o Estado de São Paulo e algumas outras regiões, num total de 300 fábricas e 300 mil operários. As greves de maio de 1978 quebraram de fato as leis repressivas antigreve do regime militar, e aceleraram o fim desse regime.

Desde o início, duas idéias dominaram essa nova liderança operária: a da autonomia dos trabalhadores e a de que apenas greves, mesmo grandes e vitoriosas, são mudariam o essencial do destino dos trabalhadores. Em dezembro de 1978, muniram-se 14 ativistas, dos quais 12 líderes sindicais, sob a liderança de Lula, para discutir a criação de um partido político de trabalhadores. Apenas 4 aprovaram de mediato a idéia, mas outros três sindicalistas se juntaram em seguida e já em janeiro de 1979 foi aprovada a tese apresentada no IX Congresso de metalúrgicos, realizado em Lins (SP) “chamando todos os trabalhadores brasileiros a se unificarem na construção de seu partido, o Partido dos Trabalhadores”.(7)

Os acontecimentos precipitaram-se. No mês seguinte, foi divulgada uma “Carta de Princípios” do PT, proclamando que os problemas da sociedade brasileira não seriam superados sem uma “participação decisiva dos trabalhadores”. Em outubro, foi lançado o “movimento pelo Partido dos Trabalhadores, numa churrascaria em São Bernardo, com a presença de 130 pessoas e eleita uma comissão nacional provisória. Em fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo, foi lançado o Partido dos Trabalhadores, em encontro aberto, com a aprovação de um manifesto, na presença de 1200 pessoas. Quatro meses depois, em junho, impulsionado pela nova anda de greves do mês anterior, fortemente reprimidas e que levaram à prisão de Lula, é fundado o partido, referendado seu manifesto e aprovado seu estatuto e plana de ação. Entre os signatários estão personalidades ilustres da esquerda e da intelectualidade brasileira e as mais expressivas lideranças do novo sindicalismo.(8)

Diz o manifesto de fundação:

“O Partido dos Trabalhadores nasce da vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para os políticos e os partidos comprometidos com a manutenção da atual ordem econômica, social e política... os trabalhadores querem se organizar como força política autônoma”.

O manifesto proclama o novo partido como de massas, comprometido com a democracia plena e exercida diretamente pelas massas. “Sua participação em eleições e suas atividades parlamentares se subordinarão as objetivo de organizar as massas exploradas e suas lutas”. (9) A opção desse aglomerado heterogêneo fundador do PT, que incluía muitos ex-membros da luta armada, grupos e teóricos marxistas, é claramente pela democracia, pelo jogo político aberto no espaço público burguês e não mais pela revolução.

A fundação do PT é o marco dessa opção democrática das esquerdas brasileiras, depois da derrota da luta armada na América Latina, vinte anos antes da queda do muro de Berlim. Mas optaram ainda com muita desconfiança e não contaram com a adesão, ao contrário, enfrentaram a hostilidade dos partidos comunistas tradicionais, o PC (linha Moscou) e o PC do B (linha chinesa). Esses partidos marxistas convencionais, imediatamente repudiaram a pretensão do PT de falar em nome dos trabalhadores, e passaram a combater o novo partido em suas áreas de influência. Os intelectuais marxistas racharam. Um grupo liderado por Francisco Weffort, Chico de Oliveira e Florestan Fernandes, aderiu ao novo partido. Outro sob a influência de Fernando Henrique Cardoso ficou fora. Fernando Henrique Cardoso rejeitou a tese da autonomia operária, argumentando que se tratava de urna empreitada obreirista, que as relações políticas não se resumiam a relações de classe e que ‑ como já dizia Kautski ‑ a consciência política dos trabalhadores não surge endogenamente, tem de ser trazida de fora. Também afirmou que o campo popular no Brasil nunca chegaria ao poder sem um forte apoio de outros setores. O que de fato ocorreu. Os trabalhistas, herdeiros de Getulismo e liderados por Leonel Brizola, tinham seu próprio projeto de partido, mas acabariam se aliando ao PT mais tarde, graças ao entreguismo das elites. O PT, desde o início defendia um projeto de soberania nacional, ainda que não considerasse o capital estrangeiro particularmente mais nocivo do que o nacional.

A tese da democracia direta, de difícil realização em democracias grandes e de massa, refletia na ocasião a radicalidade dos criadores do PT, e em algum grau sua descrença nos mecanismos de representação burgueses. Obviamente acabaram entrando no jogo da representação, mas mantiveram em todos esses vinte anos o princípio do mandato imperativo, que impede seus representantes de votaram ou negociarem contra as resoluções do partido. Também impuseram aos parlamentares do PT a obrigação de entregarem ao partido 1/3 de seus salários, taxa quase que punitiva. Essas restrição, por outro lado, conferiram ao PT a imagem de partido sério e movido por princípios ao contrário de todos os demais partidos políticos brasileiros, que se movem por alianças ocasionais e interesses pessoais ou de grupos.

O PT funcionou também como espaço de re-socialização de militantes sobreviventes da luta armada e do exílio, familiares de presos políticos desaparecidos, várias categorias de ativistas e intelectuais que, por um lado, tinham em comum a rejeição ao estalinismo, especialmente aos métodos do Partido Comunista e, por outro, tinham pouca disposição de transigir com a ditadura. Esses militantes não aceitavam  a proposta gradualista de abertura política e de anistia limitada, adotada pela cúpula militar e apoiada pela oposição liberal abrigada no MDB. A partir das peves do ABC colocava-se claramente a alternativa de uma abertura de baixo para cima que levasse também a transformações sociais. Essa posição passa a ser nucleada peão novo partido, o PT.

 

O partido e suas tendências

A coexistência de diversas tendências dentro do PT sempre foi problemática. 1 só por causa da perversidade da lógica das tendências na qual grupos minoritários sistematicamente se aliam contra a tendência majoritária, enfraquecendo continuamente o partido; também pela exacerbação dos debates doutrinários, usados como bandeira de luta interna, e geradores de um discurso autocentrado que não dialoga aram a imaginação das massas.

Em 1983, o núcleo dirigente, formado por sindicalistas e sob a liderança de Lula, rendeu-se à realidade das tendências, e decidiu formalizar-se também como tendência, criando a “Articulação”, que se tornaria, então, majoritária dentro do PT, constituída basicamente por dirigentes sindicais, intelectuais e quadros da antiga ALN, o grupo de luta armada criado por Marighella, sob a liderança de José Dirceu. Defendendo a tese do PT como partido de massas, aberto e democrático, a Articula-gila efetivamente dirige o partido, eventualmente aliada a um ou outro grupo.

A tolerância em relação às tendências foi abalada em abril de 1986, quando ombros do grupúsculo PCB (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), que se auto-proclamavam petistas, foram presos numa tentativa de assalto a um banco na Bahia. Um mês depois, no IV Encontro Nacional do PT, foi aprovada uma resolução restringindo a aceitação de tendências àquelas alinhadas ao programa e à disciplina do partido e proibindo a dupla militância. A resolução definia o PT como um partido próprio e de massas e não (como alegavam as tendências) uma frente de organizações políticas, ou uma frente institucional de massas, que pudesse “ser intrumentalizada por qualquer partido político”. (10)

No Encontro Nacional seguinte, já em meio aos debates da Assembléia Nacional Constituinte, no qual o PT e o movimento popular tiveram papel decisivo, foram aprovadas regras estritas proibindo as tendências de terem finanças, organismos dirigentes e jornais próprios, mas essas regras foram parcialmente relaxadas no Primeiro Congresso do partido em 1991. Em 1993, o PT expulsou dois grupos que não se curvaram às restrições, a Convergência Socialista e Causa Operária, ambos de raízes trotskistas.(11)

A fragmentação do partido em grande número de grupos foi uma das da derrota de Lula na campanha presidencial de 1994, quando o PT tinha todas condições de vencer, em meio à profunda crise provocada pela renúncia de pelo “escândalo do orçamento”, em cuja elucidação lideranças do PT tiveram decisivo. (12) Mas o comando da campanha de 1994 foi repartido em feudos, cada dado a um dos grupos, faltando-lhe unidade. Nas diversas regiões do país, as rias dentro do PT se formavam por alianças ocasionais entre as tendências. (13)

O partido também se atomizou em função de lideranças personalistas, se e regionais. Mas aos poucos foram sendo vencidas resistências a “políticas de ças”, com partidos do campo popular considerados “populistas”. Com a eleição José Dirceu para a presidência do PT, a partir da derrota eleitoral de Lula em 1 as tendências moderadas, Democracia Radical, liderada pelo deputado federal Genoíno, e Articulação, liderada por José Dirceu, tonaram-se majoritárias. No  da década, sob a denominação de “campo pragmático” ou “campo majoritário constituíam um terço dos delegados ao Segundo Congresso do partido, de novembro de 1999, em Belo Horizonte. A esquerda do partido, propugnando as teses da “moratória da dívida externa” e da “re-estatização do sistema bancário”, continuem bastante forte, alimentada pelo agravamento da própria crise econômica. José Dirceu manteve-se na presidência do PT por três mandatos sucessivos. (14)

As tendências ainda marcam profundamente a vida interna do partido, apesar de seu caráter simultâneo, hoje, de partido de massas. É a existência de tendências marxistas que assegura ao PT sua qualidade de “partido de esquerda” ou “marxista.” Nem os católicos formalizaram uma tendência e nem os intelectuais. Tendências excludentes e doutrinaristas são uma característica da forma marxista de se fazer política.

 

Força e fraqueza do PT

Durante toda a década de 80, o Partido dos Trabalhadores foi o principal beneficiário do agravamento da crise brasileira, especialmente da falência da representação política da burguesia, apesar de em nenhum momento conseguir hegemonizar a crise. Na primeira fase de seu crescimento, até meados dos anos 90, a sociedade civil sempre exigiu do PT mais do que sua capacidade podia dar em cada etapa da luta política. O Partido expandiu-se nesse período a uma velocidade que deixava grandes vazios organizativos e conceituais.

Em apenas 15 anos o PT tornou-se um dos grandes partidos políticos da América Latina, mas também nesse processo sofreu derrotas importantes e emblemáticas, inclusive na região em que nasceu, no cinturão industrial do ABC. Nesse período, que vai até o início dos anos 90, o PT conquistou a hegemonia entre servidores públicos, mas não conseguiu desenvolver uma linguagem que falasse à grande massa dos trabalhadores informais e às classes médias. No final da década, perdeu também seu fascínio junto aos jovens universitários, que constituem importante contingente formador de quadros políticos na América Latina, seduzidos que foram pelas idéias neoliberais.

Em 1994, o PT foi às urnas convencido de que duplicaria sua representação no Congresso. Mais uma vez seu desempenho eleitoral ficou aquém do potencial. Mesmo assim sua bancada cresceu de 35 para 49 deputados federais e de apenas 1 para 4 senadores. O mesmo desapontamento ocorreu na eleição de 1998, quando sua áaricada cresceu menos ainda, em apenas cerca de 20 por cento, para 60 deputados federais e 7 senadores. Nesta eleição dá-se o início do fenômeno do enfraquecimento da hegemonia do PT no campo das esquerdas, com o súbito crescimento do pequeno Partido Socialista Brasileiro, em parte alimentado por antigos militantes do próprio PT.

Parte da sub-representação do PT é devida ao seu principismo, ou purismo político, que o impede, por exemplo, de fazer promessas eleitorais que sabe que não cumprir, ou a usar sem restrições ‑ nesse caso também por falta de dinheiro ‑ as técnicas de marketing político; ou à recusa de tendências ortodoxas que diretórios regionais a adotar alianças, ou outras soluções de oportunidade consideram oportunistas. Por outro lado, o sistema eleitoral brasileiro, herda ditadura, assim como as regras de uso do horário eleitoral nos meios de o são periodicamente re-formatadas pela maioria conservadora, para o campo popular.

Assim, o estado de São Paulo, no qual o PT é forte, deveria ter 107 cadeiras da Federal, pelo princípio da proporcionalidade, mas tem apenas 70. Estados do Norte e Nordeste, nos quais predomina o clientelismo eleitoral, e que ter apenas duas ou três cadeiras, têm o mínimo de sete. É no Nordeste, te na Bahia e em Pernambuco, estados com grandes populações, que o a desobstruir o mecanismo da sub-representação, à medida que esses esta-industrializaram no final dos anos 90 e que se tornaram mais estreitas as familiares com migrantes nordestinos que viveram no Sul.

Nas eleições de 1998, Lula venceu em grandes cidades do Nordeste. E o PT Governadores do Acre e Mato Grosso do Sul, além do governador do Rio do Sul, onde o PT já era muito forte.

Também elegeu o governador de Alagoas, em aliança com o PSB. Em São Paulo, berço do PT, mas ainda com forte penetração do clientelismo e da corrupção política do malufismo, que tem raízes no antigo ademarismo populista, o PT perdeu por pouco. E perdeu o estado de Espírito Santo, o primeiro que havia governado. nesse caso graças ao agravamento de lutas internas que levaram à saída do governador Victor Buaiz.

O acirramento de lutas internas em âmbito regional, exatamente na fase de transição do PT local de aglomerado de facções para partido de expressão de massa, tem sido um dos fatores recorrentes de seus retrocessos. Nessas eleições, o PT perdeu também o Distrito Federal, perante a força combinada da máquina clientelista, cio governo federal e do dinheiro das máfias do jogo clandestino. No final dos anos 90, o agravamento do desemprego, que quase duplicou, o PT perdeu poder no meio operário, e não conseguiu a adesão dos jovens, o que fez aumentar no partido a influência relativa dos funcionários públicos. Sob influência do corporativismo do funcionalismo público, e submetido a forte boicote dos meios de comunicação de massa, o PT não conseguiu desenvolver um discurso para o conjunto da sociedade que respondesse à onda de privatizações com o mesmo poder de sedução do discurso neoliberal.

Ao se iniciar o novo milênio, o clientelismo, o populismo e a corrupção eleitoral permaneciam como os grandes inimigos externos do PT. Sua principal fraqueza interior ainda era a luta entre suas facções. Mas para as eleições municipais de 2000, o partido já havia desenvolvido um sistema formal e bastante eficaz de centralização da campanha, criando normas, palavras de ordem, um discurso unificado e cartillhas de orientação que permitiram superar o obstáculo interno do facciosismo. Com isso inflingiu ao clientelismo político uma grande derrota. O PT venceu em grande número de cidades da Bahia, de Santa Catarina e Paraná, tradicionais redutos do clientelismo.

Um dos fatores das repetidas derrotas de Lula foi o preconceito alimentado pelos meios de comunicação de massa de que um simples trabalhador como ele não estava preparado para governar, de que o PT sabia fazer a crítica, mas não tinha propostas e nem experiência administrativa. Esse preconceito ‑ uma variante da rejeição dos intelectuais de esquerda liderados por Fernando Henrique ao princípio da autonomia operária que presidiu a criação do PT ‑ é o produto da internalização pelo povo de sua condição de dominado, de sua baixa auto-estima.

Lula recuperou boa parte de seu prestígio interno e externo com a vitória do PT nas eleições municipais de 2000, nas quais ele se engajou totalmente. Apesar do desgaste de três derrotas, Lula ainda era, no início do novo milênio, a maior liderança política do PT e do país, carreando de 28 a 30 % da preferência eleitoral em todas as pesquisas de opinião.

 

A experiência administrativa

Com a derrota na disputa presidencial de 1994, o PT passou a valorizar mais as experiências administrativas em prefeituras e estados e conseguiu firmar uma imagem de um partido honesto, nas administrações sub-centrais, inovador e comprometido com os interesses da população. O fator honestidade foi se revelando determinante para o prestígio do PT, à medida que os diferenciais ideológicos tornaram-se difusos e que as elites passaram a recorrer mais e mais à corrupção e ao dinheiro do jogo clandestino e que o aparelho de Estado foi sendo contaminado pelo narcotráfico.

A partir de 1992 o PT passou a administrar quatro capitais de estado e mais 50 cidades médias e grandes, em geral cidades com grande contigente de trabalhadores industriais. O número de vereadores subiu de 127, em 1982, para 1896, em 1996 e 2475 em 2000. E o número de prefeitos subiu de apenas 2 na primeira eleição, de 1982, para 174, em 2000.

Na prefeitura de Porto Alegre, o PT instituiu um mecanismo exemplar de consulta popular e discussão pública do orçamento anual, conhecida como “orçamento participativo”, depois copiado por alguns outros prefeitos, inclusive de outros partidos. Entre as cidades administradas pelo PT estiveram São Paulo, a maior cidade da América do Sul, Santos, onde está o maior porto da América Latina, São José dos Campos, Campinas, Londrina e Ribeirão Preto, todas grandes cidades.

Em Santos, o prefeito do PT, David Capistrano, um médico, instituiu uma avançada experiência de reforma psiquiátrica, pondo fim ao maior hospício da cidade e devolvendo aos doentes mentais o convívio social e seus direitos de cidadania.Também adotou políticas públicas ousadas de combate à AIDS e restaurou os sistemas de drenagem construídos no início do século para combater a febre amarela e depois abandonados.

Na Amazônia, o PT desempenhou papel destacado no desenvolvimento do princípio das reservas extrativas auto-sustentadas, principalmente por meio de Chico Mendes, fundador do partido em Xapuri, estado do Acre. Na governança do Distrito Federal, pelo ex-reitor da Universidade de Brasília, Cristovam Buarque, foi instituído o inovador programa de “bolsa-escola”, assegurando um subsídio a toda família com renda baixa que mande os filhos em idade escolar à escola. Também esse programa passou a ser adotado, com modificações, por outras administrações sub-centrais.

 

A experiência parlamentar

A representação parlamentar petista, apesar de minoritária, desempenhou papel decisivo, primeiro ao bloquear proposições antipopulares na Constituinte de 1988, depois na denúncia da corrupção pelo do que ficou conhecido como o “escândalo do orçamento”, logo após a queda de Collor. Os deputados federais do PT, José Genoíno, Aloízio Mercadante e Hélio Bicudo, e o senador Eduardo Suplicy, encontram-se entre os mais votados do país. Ao mesmo tempo, denúncias de corrupção vêm atingindo parlamentares de outros partidos, reforçando, pelo contraste, o prestígio do PT como partido ético.

Em comparação com outros partidos, o PT ainda é de longe o que tem a proporção de representantes de origem operária ou profissionais liberais. Dois ços dos parlamentares do partido são vinculados ao movimento sindical e mo tos populares. Pelo PT elegeram-se as primeiras mulheres para o senado do uma delas negra e moradora de favela, Benedita da Silva, a outra, filha de co de borracha no Acre, que só apreendeu a ler e escrever quando já tinha 16 anos idade, Marina Silva. A bancada do PT lidera o bloco de oposição de esquerda parlamento.

 

O PT e movimentos populares

Desde sua fundação, o PT viu-se não como um partido político convenci operando estritamente no plano político-eleitoral, mas como núcleo de uma rede movimentos populares. Essa articulação tem para o PT um valor estratégico, parte de uma concepção gramsciana de chegada ao poder, fundada na conquista progressiva de posições e construção de uma hegemonia popular.(15) Com esse e to, foi fundada a CUT e dado apoio decisivo ao MST e outros movimentos s Militantes do PT atuaram no menos conhecido Movimento Popular de Saúde, teve influência decisiva na definição do Sistema Universal de Saúde ‑ (SUS).

De fato, a maioria dos ativistas dos movimentos populares de reivindicações específicas, característicos da cena social brasileira, são também ativistas do PT e da Igreja Católica da base. Mesmo nos novos movimentos protagonizados pela classe média urbana, como algumas ONGs ecológicas, é marcante a presença de petistas. A maioria dos projetos de interesse popular aprovados no Congresso é originária do PT.

Mas o PT sempre teve dificuldades em elevar esse conjunto de movimentos populares a um patamar superior, apesar do sucesso de algumas marchas de protesto organizadas em conjunto, como “Grito dos Excluídos”, conduzido pela Igreja Católica a cada 7 de setembro, data nacional, e a Marcha dos Cem Mil, organizada em Agosto de 1999. A dificuldade se deve tanto à autonomia desses movimentos como à cultura de não instrumentalização do PT, e à intervenção das forças de centro e de direita nos momentos críticos. Foi o PT que lançou a campanha pelas eleições diretas para a presidência em 1984, mas a condução dessas campanha logo lhe escapou das mãos caindo sob o controle dos liberais.

Em 1991, após a derrota para Collor, Lula criou um “governo paralelo” informal, inspirado na experiência do Shadow Cabinet, do Partido Trabalhista Britânico, que passou a discutir políticas públicas alternativas e reivindicações dos movimentos populares, assim como o problema macroeconômico do Brasil. Assim surgiu o mais importante programa de combate à fome no país, o Programa de Emergência Alimentar, que associava o combate à fome à Reforma Agrária e redistribuição de atada no campo. Encampado pelo governo, mas reduzido a uma ação meramente beneficente de distribuição de alimentos, esse programa foi levado em frente por Herbert de Souza, o Betinho. Logo depois, Lula criou o Instituto da Cidadania, uma espécie de ONG, dirigida por ele, dedicada a formular políticas públicas alternativas de âmbito nacional. Com o apoio de outras ONGs, o Instituto Cidadania formulou o primeiro de três projetos completo de política pública, o “projeto Moradia”, concebo para resolver o problema do déficit habitacional e considerado o mais completo de seu gênero no Brasil. Em seguida, iniciou os projetos “Fome Zero”, visando acabar com a fome no Brasil, e “segurança pública”, para atacar nas raízes o problema da violência urbana.

Em torno do PT, formaram-se também outras entidades, como a Fundação Perseu Abramo, com uma editora e um acervo histórico. Em torno de Lula e do Instituto da Cidadania, manteve-se uma espécie de “lulismo”, não organizado, ativistas, funcionários do partido e lideranças sindicais e políticas, que seguem fiéis ao fundador do partido e sensíveis ao seu carisma.

O PT possuiu uma Secretaria Nacional de Movimentos Populares, e criou, com outros partidos do campo popular, um Fórum Nacional de Entidades Democráticas e Populares, como tentativa de articulação do movimento social. Sua influência mais direta é no movimento sindical, desde que a Central Única dos Trabalhadores (CUT), principal central sindical do país, criada pelo PT, tornou-se amplamente majoritária. Vários ex-dirigentes da CUT são parlamentares do PT. No final dos anos 1990, com a duplicação dos níveis de desemprego no Brasil, especialmente nas principais áreas de influência da CUT, São Paulo, sua influência diminuiu bastante, ao mesmo tempo em que aumentou a da central rival, a Força Sindical, apoiada pelo patronato e pelo governo. Mas a CUT ainda é hegemônica no setor organizado do funcionalismo público, nas industrias maiores e, desde o início dos anos 1990, também no setor agrário.

O mais forte movimento popular do final da década de 1990, o MST, disputa espaço político com o PT, apesar de suas íntimas relações e suas afinidades ideológicas. Assim, o MST tem um projeto de luta política, muito mais amplo e ambicioso do que a proposta de reforma agrária que lhe deu origem. Apóia o PT nas campanhas eleitorais e é apoiado pelo PT, mas tem um projeto próprio de poder, com raízes no messianismo católico da Igreja de Libertação, no qual também o PT tem algumas raízes. Esse projeto, de cunho fortemente moralista, propõe o confisco da riqueza dos mais ricos, a moratória da dívida externa e mudanças nos padrões de consumo como requisitos para uma redistribuição de renda.

O PT apóia decisivamente, como meta prioritária, a Reforma Agrária, e organizou várias campanhas de protesto contra a violência no campo e o assassínio de lideranças rurais, muitas delas também lideranças petistas. Mas não endossa o projeto de poder do MST. Na disputa presidencial de 1998, o PT tentou transformar, num certo momento, o que era uma campanha eleitoral convencional num movimento social, a partir do diagnóstico de que sem a força de um movimento popular forte Lula não se elegeria, ou, se eleito com vantagem mínima, não conseguiria governar. Após a derrota de Lula de 1998, foi retomada a discussão sobre uma articulação entre PT, CUT, MST e outros movimentos sociais menores, com o objetivo de formar o bloco popular capaz de disputar a hegemonia neo-liberal. Existe a percepção de que um candidato à presidência do PT só se elegeria no Brasil no bojo de uma forte e organizada campanha de protestos capaz de canalizar as insatisfações rompendo preconceitos e mecanismos políticos tradicionais.

 

O problema do socialismo

Apesar de nunca ter definido uma doutrina precisa de socialismo, o PT proclama-se como um partido socialista e tem comportamento doutrinário típico de partidos marxistas. (16)

No quinto encontro nacional, realizado em 1987, foi iniciada a delicada discussão sobre que tipo de socialismo o partido defendia. Foi enfatizada “a conquista do socialismo e a construção de uma sociedade socialista como os principais objetivos estratégicos do Partido dos Trabalhadores”. Apesar de não propor o partido com único instrumento da luta dos trabalhadores, o discurso petista nesse encontro ainda era estruturado no jargão de uma visão elementar do marxismo e da história. A discussão foi retomada no primeiro Congresso do partido, realizado em 1991 com a participação de líderes de esquerda de toda a América Latina. O muro de Berlim acabara de cair. O partido reconhece que

O colapso dos regimes do Leste Europeu, a crise da URSS e dos demais países que compunham o bloco chamado “campo socialista” não se constitui apenas no crepúsculo do estalinismo e do totalitarismo, travestido de socialismo. Num certo sentido, o que se está vendo é o desmantelamento de grande parte daquilo que o movimento operário socialista mundial construiu desde a Revolução Russa de outubro de 1917... temos que reconhecer que estamos assistindo ao esgotamento do ciclo de revoluções socialistas iniciadas a partir da Revolução Russa de 1917 e do modelo de sociedade por elas inspirado...(17)

Mas o PT não conseguiu se transformar na velocidade exigida pelo seu próprio diagnóstico. Apesar de seu crescimento eleitoral, suas bases de ativistas se estreitaram e seus quadros se burocratizaram, convocados para as tarefas de administrações municipais, estaduais e das bancadas do partido. Também o aumento da exclusão social, fazendo do trabalhador com vínculos formais de emprego e do funcionário público ‑ apoiadores naturais do PT ‑ quase que privilegiados na cena Serial brasileira, dificultou a formulação de um discurso articulador dos sentidos erigidos às grandes massas excluídas e ao conjunto da sociedade. Enquanto a sedução neoliberal afastou do PT os jovens yuppies das classes médias, o MST serviu de novo pólo aglutinador dos excluídos e desempregados.

Já no Congresso de 1991 o PT reconheceu o novo fôlego do grande capital e dos Estados Unidos assim como a importância da revolução tecnológica em curso e ara potencial de desarticulação do trabalho operário na indústria, e a investida neoliberal contra as conquistas sociais. Todos esses fatores se combinaram para rebaixar o padrão de desenvolvimento capitalista na América Latina que se encontrou em 1 nação dramática no limiar do novo milênio, arrasada pela divida externa, narcotráfico, e desemprego estrutural:

O impasse histórico do capitalismo na região e a incapacidade do neoliberalismo e das elites em formularem soluções exigem das esquerdas a apresentação de um projeto emergencial de desenvolvimento... urge a construção de um padrão alternativo de desenvolvimento inspirado nos ideais socialistas democráticos e libertários... uma nova ordem econômica, jurídica e ecológica que tenha como exigência fundamental a democratização do poder. (18)

No Congresso seguinte, oito anos depois, as teses das várias tendências petistas refletiam em primeiro lugar a sensação mais profunda da grande derrota dos ideais socialistas no plano mundial, e uma perplexidade ainda maior com os rumos do desemprego estrutural e com a força renovada do capitalismo. Também a percepção de que o partido precisava urgentemente desenvolver um novo discurso, dirigido a novos contingentes populares, diferentes do operário fabril, ou funcionário público, e uma percepção mais clara de como fazer alianças em plano nacional, para chegar ao poder.

A destruição do que ainda restava de burguesia nacional, produzida pelo projeto neoliberal de Fernando Henrique durante os últimos anos de década, reduzia bastante a base de alianças possíveis do PT em torno de um projeto nacional. Por outro lado, a pauperização das classes médias e a deterioração generalizada do tecido social, e até da base material do país, especialmente suas florestas e suas cidades, abriam a possibilidade de uma aliança fundada em valores éticos, muito mais do que ideológicos ou políticos.

Trajetória Eleitoral do Partido dos Trabalhadores

Quadro 1
Eleições municipais

Ano Número de Número de
  Prefeitos Vereadores
1982 2 127
1988 37 1006
1992 54 1100
1996 115 1895
2000 174 2475

Nota: Em 1985 houve eleições para capitais e o PT elegeu o prefeito de São Paulo, a maior cidade da América do Sul e o prefeito de Porto Alegre. Em 2000, o PT reelegeu os prefeitos de Porto Alegre e de Belém e ainda das seguintes capitais: São Paulo, Recife, Aracaju e Goiânia. Em coalizão elegeu ainda os prefeitos de Belo Horizonte e Macapá. Nessas eleições, recebeu 11,9 milhões de votos, ou 14,13% do total de votos e passou a governar cidades que somam 28,8 milhões de habitantes, quatro vezes o que governava em 1996.

 

Quadro 2
Eleições estaduais

Ano Número de  Número de
  governantes deputados
1982 Zero 12
1986 Zero 33
1990 Zero 83
1994 2 92
1998 3 90

Nota: em 1994 foram eleitos os governadores do Distrito Federal e do Espírito Santo; em 1998 foram eleitos governadores do Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. 

 

Quadro 3
Eleições para o Congresso

Ano % votos % cadeiras Número de Número de
  p/ Câmara da Câmara cadeiras senadores
1982 3,5 1,7 8 Zero
1986 6,9 3,3 16 Zero
1990 10,2 7,0 37 1
1994 12,8 9,6  50 5
1998 13,2  11,3 60 7

 

Quadro 4

Eleições presidenciais

Ano 1º turno: votos 1º turno % 2º turno: votos 2º turno: %
1989 11.622.000 16 31.000.000 44,2
1994 16.802.000 22 - -
1998 21.803.000 26,1 - -

Nota: Em porcentagem do total de votos, subindo para 27% dos votos válidos no primeiro turno de 1994 e para 31,8% dos votos válidos no primeiro turno de 1989. Os adversários principais foram Collor de Melo e Leonel Brizola em 1989; Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998. Em 1998, Lula foi o vencedor em 10 capitais, inclusive Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre, e grande número de cidades com mais de 200 mil habitantes.

 

Bibliografia

HANECKER, Marta. O Sonho era Possível. MEPLA/Casa América Livre, São Paulo, 1994. 

KECK, Margareth. The Workers Party and Democratization in Brasil. Yale University Press, New Haven, 1992.

KUCINSKI, Bernardo & BRANFDORD, Sue. Carnival of the Opressed. Latin America Bureau, London, 1995.

RESOLUÇÕES DE ENCONTROS E CONGRESSOS. Partido dos Trabalhadores/Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 1998.

SADER, Emir. Quando novos personagens entram em cena. São Paulo, Paz e Terra, 1988. 

SADER, Emir e SILVERSTEIN, Ken. Without fear of being happy: Lula, the Workes Party and Brazil. Ed. Verso, London, 1991.

 


 

1. KECK, Margareth E. The Workes Party and democratization in Brazil. USA.Yale University Press, 1991.

2. Os principais grupos que se juntaram ao PT eram: Democracia Socialista, trotskista, filiada à IV internacional, que queria transformar o PT num partido marxista ó revolucionário; Convergência Socialista, também trotskista, que se propunha transformar o PT num partido de massas marxista, o grupúsculo Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP; o PCBR (dissidencia do PCdoB), a APML, ambos vendo o PT como uma formação transitória e locus de recrutamento de ativistas para si próprios; Libelu, fração da IV Internacional, que se propunha conquistar a máquina do novo partido.

3. Resoluções de Encontros e Congressos. Partido dos Trabalhadores. Ed. Fundação Perseu Abramo. São Paulo, 1998.

4. SADER, Emir. Quando novos personagens entram em cena. São Paulo, Paz e Terra, 1988.

5. Entre os quais Frei Betto, Plínio de Arruda Sampaio, Irma Passoni.

6. Pelego é a pele colocada pelo cavaleiro entre a sela e a montaria para amortecer os choques da cavalgada.

7. Conhecida como Tese de Lins. Ver esse e outros documentos da história do PT em Resoluções sr Encontros e Congressos. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1998.

8. Entre os fundadores e primeiros dirigentes do partido estão Apolonio de Carvalho, Mario Pedrosa, Manoel da Conceição, Sérgio Buarque de Holanda, Moacyr Gadotti, Antonio Condido,  Florestan Fernandes, Paul Singer, Francisco Weffort, José Ibrahim, Helena Greco, Paulo Freire.

9. Resoluções e Encontros, op. cit.

10. Resoluções e Encontros, op. cit. Plano de Ação Política e Organizativa do PT para o período 1986-88.

l1. A Convergência Socialista formou seu próprio partido, o Partido Socialista dos Trabalhadoafiicado (PSTU), que apoiou Lula na campanha de 1994.

12. A Articulação elegeu 33 por cento dos delegados. O grupo “Na luta PT”, formado pelo grupúsculo trotskista “O Trabalho” e pelo deputado Luis Eduardo Greeenhalghlegeu 20 por cento dos delegados. O partido passou a ser dirigido como um condomínio político. ¿ direita, o grupo “Democracia radical”, formado principalmente por membros do Congresso, elegeu apenas 11 por cento dos delegados; outras tendências e independentes elegeram o resto.

13. Principais tendências do PT às vésperas da campanha de 1994: Opção à esquerda (33%), formada pela Democracia Socialista mais quadros da ALN como Ruy Falcão; Unidade na Luta (31%), formada por lideranças sindicais como Lula e Olívio Dutra; Na Luta (20%), marxista ortodoxa formada por Sokol e Greenhalgh; Democracia Radical (11%), social-democratas parlamentar, formada por Eduardo Joge e José Genoíno; Independentes, com Francisco Weffort e outros intelectuais.

14. As principais eram Democracia Socialista, filiada à IV Internacional de Mandel, Refazendo, liderado pelo deputado federal do Rio de Janeiro, Milton Temer, e Rede, liderada pelo ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, que chegou a ser considerado uma opção do PT à candidatura à presidência da República. Continuaram a existir grupos menores auto-referentes, como O Trabalho.

15. A Resolução do Primeiro Congresso do partido fala na “necessidade de construir uma ampla rede de movimentos sociais e populares; para permitir a combinação das mais variadas formas de luta e articulação entre o campo e a cidade, e a construção de um bloco político e social e a disputa da hegemonia”. Resoluções de encontros e Congressos, op. cit., pp. 479 e seguintes.

16. Todas as decisões políticas rotineiras são votadas pelos 21 membros da Comissão Executiva Nacional, que se reúne regularmente. Decisões mais importantes vão para as reuniões do Diretório Nacional, com 86 membros. Questões estratégicas ou doutrinárias são discutidas nos Encontros, realizados a cada dois anos, ou nos Congressos, realizados a cada dez anos, com toda a própria dos grandes partidos socialistas do início do século.

17. Resoluções de Encontros e Congressos, op. cit. pp. 479 e ss.

18. idem, Ibidem.


 

O Partido tardio dos Trabalhadores. In: O Brasil não é mais aquele. Maria Ângela D´Incao. São Paulo, Cortez, 2001. pgs 181-200. www.cortezeditora.com.br


 
     
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