Sistema e browser desconhecidos

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O ataque articulado dos barões da imprensa - 1990
 

Uma de nossas culpas foi nunca termos dado muita atenção ao fenômeno da comunicação. Nascemos como partido  democrático e lutamos pela democracia, mas muitas de nossas cabeças foram formadas sob o paradigma que  considerava a democracia uma “farsa burguesa". Combatemos os DOI-CODI 1  que torturavam e matavam durante a  ditadura, mas não combatemos os jornais e os jornalistas que mentem e caluniam sob a democracia. Até apoiamos, por  extensão e acriticamente, o corporativismo dos sindicatos de jornalistas. Realmente não há democracia se a imprensa  não é livre, pluralista e honesta.

A imprensa brasileira tornou-se o DOI-CODI da democracia. Articulados a outros empresários, como os que  sabotaram o transporte coletivo em lugares tão distantes entre si, os barões da imprensa e da TV deram a contribuição  decisiva na campanha da burguesia para "derrotar Lula a qualquer preço". Organizaram não um simples golpe, mas todo  um processo que implicou na colaboração dos quadros orgânicos de cada redação, os "jornalistas da casa", na  indiferença de outros e finalmente na deformação do trabalho da massa de jornalistas subalternos, despojados hoje de  qualquer direito. Operam num quadro de decadência do jornalismo brasileiro, parte do quadro geral de perda de  referenciais éticos da sociedade. A própria categoria dos jornalistas desconhece hoje a ética da profissão e qual a sua  função numa sociedade democrática. 

A derrota da equidade, da honestidade e do pluralismo dos meios de comunicação de massa tem implicações  inquietantes. Denota uma fragilidade estrutural que será novamente instrumentalizada numa próxima campanha.  Jornalistas veteranos, que tanto reclamavam do autoritarismo do passado, e que se deixaram usar pela mesma polícia e pelos patrões exatamente num momento maior da democratização, sabem que não incorreram num mero pecadilho.  Cometeram um pecado capital. Os jovens tiveram o seu batismo de fogo, amadureceram na intimidade da violência  editorial. Tentaram resistir, mas nada garante que se assumiram de vez.

 

Candidatura de proveta

A candidatura Collor 2 já nasceu de proveta. Houve um salto de qualidade nas técnicas de engenharia política  desenvolvidas pela Globo desde 1982, quando quase derrotou Brizola 3 nas eleições para o governo do Rio de Janeiro  através de um programa de computador que substituía o resultado das urnas por um outro geneticamente manipulado.  Desta vez, Roberto Marinho 4 superou a si mesmo: criou um candidato, forneceu a própria realidade. Collor interpretou o  papel com eficácia. E pronunciando palavras-chaves, como "marajás", detectadas por pesquisas de  marketing político,  não precisou nem debater. Mas o empenho de Lula e seus comícios no sertão e nas cidades recolocaram a disputa no  campo do real. Assustada com a vitória de Lula no primeiro turno, a burguesia entrou em pânico e lançou a campanha  do terrorismo ideológico e da desclassificação de Lula na qual os jornais tiveram papel importante. Os quadros de  confiança afastaram jornalistas com alguma espinha da cobertura política e passaram a dirigir e fechar as páginas  políticas como questão estratégica. Tornaram-se diárias as matérias antiPT do Estado. Nenhum dia podia ser perdido. A   Folha trouxe Paulo Francis 5 de Nova York para sua primeira página. Ferreira Neto 6 montou um programa gratuito paralelo. Boris Casoy 7, mais sutil, reforçava com eficácia em momentos críticos. As reportagens de  O Estado de S. Paulo, que já não são mais lidas devido à inconsistência dos textos, eram, no entanto, brandidas à distância nos  programas gratuitos de Collor e Ferreira Neto, como base supostamente documental das falsas acusações. Foi também o Estado que sinalizou as linhas mestras do ataque: caracterizar o PT como atrasado e antidemocrático, Lula como  ignorante e a militância petista como uma "milícia" organizada para a violência. 8

 

Unanimidade

O sintoma mais sutil e mais importante da articulação dos barões da imprensa foi sua  unanimidade a favor de Collor. Jornais, ao contrário da televisão, possuem públicos  diferenciados e se distinguem através de diferenças ideológicas. E por não serem  concessões públicas que podem apoiar candidatos (desde que nos limites da época) a  maioria dos jornais por serem conservadores deveria apoiar Collor no segundo turno, mas  um jornal liberal como a  Folha de S.Paulo deveria apoiar Lula, mesmo que criticamente.  No segundo turno, Lula era o candidato das mesmas forças esclarecidas e organizadas,  que se engajaram na campanha das diretas. Para um jornal tão consciente de seu   marketing, essa traição ao seu público leitor não se deu gratuitamente.

Em quase todos os incidentes gerados para denegrir o PT, e não apenas no caso Diniz 9,  há a participação de delegados de polícia. Mesmo na tragédia da favela Nova República,  o delegado insistiu em indiciar o administrador regional do Butantã por negligência 10,  quando a própria polícia foi negligente frente aos vários Boletins de Ocorrência  contra o aterro clandestino lavrados naquela mesma delegacia. O caso  Lubeca 11 foi articulado com a polícia para se arrastar provocando um desgaste  prolongado do PT desde que os jornais entrassem no jogo. A Folha  entrou.

 

Nos últimos dias da campanha, frente a iminência da vitória de Lula,  os "quadros orgânicos" lançaram uma blitzkrieng 12, intensificando o terrorismo ideológico e a  difamação. No Programa Ferreira Neto, Collor acusou o PT de querer confiscar as  cadernetas de poupança. A  Folha atribuiu a Lula uma proposta de arrocho salarial, e às  correntes majoritárias do PT a intenção de fazer "tudo o que estiver a seu alcance para  cercear e se possível suprimir a liberdade de expressão” 13

 

Fraude do debate

A Globo lançou a falsificação do último debate, fraude decisiva na inversão da tendência  eleitoral que mostrava Lula atropelando Collor nos últimos dias da campanha. Conforme o  Gallup 14 dos dias 14 e 15, após o último debate e antes do debate forjado pela Globo,  Collor caía para 44,9 por cento e Lula nele encostava com 44,4 por cento. E, apesar da  ligeira vantagem de Collor sobre Lula na avaliação geral do debate (41,9 contra 38,8),  Lula foi considerado vencedor por três em cada cinco dos indecisos. "São esses votos  que decidem a eleição hoje" disse Carlos Eduardo Matheus, diretor do Gallup 15. Matheus  disse depois que o programa falsificado da Globo foi decisivo na inversão da tendência  final do eleitorado 16. Finalmente, a polícia detonou a operação Abílio Diniz, um último  cartucho. Boris Casoy atacou de entrevista com Saulo Ramos 17, vinculando o PT ao  seqüestro, através do artifício de dizer que devemos ser cautelosos e evitar ilações. O   Estado encampou as declarações do delegado Fleury 18 implicando o PT. Ainda  acrescentou na primeira página que "Um padre da Zona Sul, simpatizante do PT, foi o  avalista da casa alugada pelos seqüestradores” 19. Naquele dia, havia no Brasil 31  milhões de simpatizantes do Lula. As coberturas do seqüestro de Diniz por Casoy e pelo   Estado ficarão para os estudiosos da imprensa como o nosso incêndio do Reischtag 20.

 

Fonte:  Boletim Nacional, n. 48, fevereiro de 1990, p. 14. Acervo do CSBH-FPA.

 

NOTAS                                          

 1. O Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) era uma entidade do governo brasileiro elaborado a partir de diretrizes do Conselho de Segurança Nacional em 1970. No contexto, seu objetivo era  gerenciar informações e reprimir a organização da sociedade contra a ditadura militar.  (N.E.)

 2. Fernando Collor de Melo (1949-), político brasileiro, disputou as eleições pelo Partido  da Reconstrução Nacional (PRN), assumiu a presidência em 1990 e em 1992 foi deposto  por meio de processo de  impeachment. (N.E.) 

 3. Leonel de Moura Brizola (1922-2004), engenheiro e político. Governador do Estado do  Rio de Janeiro pelo PDT por duas vezes (1983-1987 e 1991-1994). Em 1989, candidatou- se a presidente da República pelo PDT. (N.E.)

 4. Roberto Marinho (1904-2003). Jornalista e empresário. Em 1931, assumiu o diário  O  Globo fundado em 1925 por seu pai Irineu Marinho. Na década de 1940, inaugura a Rádio  Globo 'le, em 1965, durante a ditadura civil-militar, funda a TV Globo no Rio de Janeiro.  (N.E.)

 5. Franz Paulo Trannin Heilborn (1930-1997), jornalista, em seus artigos fazia oposição à   candidatura de Luiza Erundina em 1988 e também à candidatura do presidenciável Luiz   Inácio Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores em 1989.(N.E.)

 6. Joaquim Antônio Ferreira Neto (1938-2002), jornalista brasileiro, em 1990 apresentava  o Programa Ferreira Neto transmitido pela Rede Record e, no mesmo ano, candidatou-se   ao Senado pelo Partido da Renovação Nacional. (N.E.)

 7. Boris Casoy (1941-), jornalista brasileiro, no contexto, apresentador do jornal TJ Brasil transmitido pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). (N.E.)

 8. É preciso deter as milícias, escreveu Augusto Nunes, no OESP  [O Estado de S. Paulo] 5/12/89, pg. 2 (Nota do autor.)

 9. Em 1989, às vésperas das eleições nas quais concorriam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fernando Collor de Melo (PRN), o secretário de Segurança Pública Luiz Antônio Fleury Filho declarou à imprensa que material de propaganda do Partido dos Trabalhadores foi encontrado junto aos seqüestradores de Abílio Diniz, estabelecendo dessa maneira, na imprensa, uma possível ligação entre o Partido e o seqüestro do empresário.  Folha de S.Paulo, 17 de dezembro de 1989, Caderno Especial, p.l. (N.E.)

 10. Em outubro de 1989, houve um desmoronamento no morro da favela Nova República, em São Paulo, soterrando moradores do local. Na ocasião, o delegado Marco Aurélio  Dourado alegou que Nelson Bedim, administrador regional do Butantã, poderia ser  responsabilizado juntamente com a prefeitura de São Paulo, então sob a gestão de Luiza  Erundina (PT), pelo desastre. (N.E.)

 11. Em 1989, durante um debate entre os candidatos à presidência, Ronaldo Caiado, candidato ligado à União Democrática Ruralista (UDR), acusou o candidato Luiz Inácio  Lula da Silva de receber em sua campanha doação em dinheiro da incorporadora Lubeca  em troca da aprovação, pela prefeitura de São Paulo - no contexto ocupada pela ex-  prefeita Luiza Erundina - , para a execução de um projeto urbanístico na cidade. Embora  com intensa cobertura pela imprensa no período, o caso foi arquivado por falta de provas.  (N.E.)

 12. Termo alemão que significa "guerra-relâmpago". Consiste em desmoralizar o inimigo atacando-o rapidamente por diversas frentes utilizando assaltos surpresas com manobras  brutais de modo a limitar suas reações e defesas. (N.E.)

 13. OESP  [O Estado de S. Paulo], 15/12/89 (Nota do autor).

 14. Instituto Gallup de Opinião Pública, empresa de origem norte-americana, possui mais  de 30 escritórios ao redor do mundo. No Brasil, atua desde 1967 com pesquisas em  diversas áreas. (N.E.)

 15. FSP 12/12/89, p. 1 do caderno D  [Folha de S.Paulo]. (Nota do autor)

 16. Entrev. ao autor, 17/12/89, à noite. (Nota do autor)

 17. José Saulo Pereira Ramos (1929-2013), jurista e político brasileiro, ministro da Justiça  entre 1989 e 1990, durante o governo de José Sarney. No contexto, o Jornal  O Estado de  S. Paulo publicou uma reportagem na qual relacionava o seqüestro de Abílio Diniz com o  PT através da declaração do secretário de segurança. Luiz Antônio Fleury, de que havia  sido encontrado material de campanha do PT no local do seqüestro. Ramos, em  contrapartida, afirmou que "o detalhe pode ser uma armação’ dos marginais."  O Estado  de S. Paulo, ano 110, n. 35.225. 17 de dezembro de 1989. capa. (N.E.)

 18. Luiz Antônio Fleury Filho (1949-), político brasileiro. No contexto, Secretário de Segurança do Estado de São Paulo. Em 17 de dezembro de 1989. o jornal  O Estado de  S. Paulo publicou na primeira página a declaração do delegado na qual afirmava ter  encontrado junto ao local do seqüestro de Abílio Diniz, material de campanha do Partido  dos Trabalhadores. (N.E.)

 19. OESP [O  Estado de 5.  Paulo] 17/12/89, l.a pág. (Nota do autor)

 20. Reischtag: parlamento alemão cujo incêndio ocorrido em 27 de fevereiro de 1933 foi  atribuído ao jovem comunista Van der Lubbe. No contexto de ascensão do Partido Nacional Alemão, o governo nazista utilizou o fato para intensificar a perseguição aos  comunistas, proibindo a edição de jornais socialistas e comunistas. (N.E.)


 
     
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