Sistema e browser desconhecidos

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player


Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

Seria a versão mais importante que os fatos?
 

 

Podemos considerar a mentira e a imaginação como denominadores comuns dos casos do jornalista Jayson Blair e do cientista David Kelly. No jornalismo e na política, temos a presença constante desses dois atributos exclusivos do gênero humano que são a capacidade de mentir e a imaginação. 

Jayson Blair precisou de muita imaginação para inventar o que inventou. No seu caso, a meu ver, a fraude jornalística foi um recurso para garantir o emprego, num ambiente de alta competição, de luta feroz por um lugar na profissão. Vou ler aqui um pequeno trecho do que ele mesmo escreveu: "Eu era novo, sob muita pressão. Era um negro no Times, o que é algo que tanto prejudica quanto ajuda. Certamente tenho problemas de saúde, que me levam a ter que matar o jornalista Jayson Blair. Eu iria matar a mim mesmo ou matar o jornalista. Para que o ser humano pudesse viver, o jornalista tinha que morrer". 

Nesse novo ambiente competitivo, o jornalista tem que adotar estratégias de sobrevivência. No escândalo que se seguiu à demissão de Jayson Blair, o The New York Times admitiu que era prática comum correspondentes nacionais de jornais se basearem em trabalhos de free lancers para escrever suas reportagens. Ou seja, não eram eles que iam verificar os fatos. 

No novo ambiente competitivo o jornalista não deve se deixar marcar como radical, tem que aceitar as regras do jogo. Despojar-se do espírito crítico. Acreditar no sistema. Acreditar, por exemplo que a invasão do Iraque visava implantar a democracia. Na invasão do Iraque pelo exército americano, cerca de quinhentos jornalistas se juntaram aos destacamentos militares como parte da tropa; eram jornalistas "embutidos" nos batalhões. O resultado foi a cobertura que todos testemunhamos, na qual as reportagens faziam parte das táticas de guerra. O jornalismo virou força auxiliar da invasão, com a tarefa específica de desinformar. E fez isso tão bem que a única operação bem-sucedida da invasão foi a da desinformação. 

Essa mudança no papel do jornalista lembra as ordens religiosas dos templários e dos hospitalários da Igreja Católica, que, nas cruzadas medievais, lutavam com uma ferocidade ainda maior do que a dos soldados comuns, porque o faziam em nome de Deus. Temos agora o jornalista-soldado, esse "embutido" da invasão do Iraque. Sua glória não foram, evidentemente, as mentiras que escreveram. Seu etos é o do soldado, não o do jornalista. Alguns deles, não sei se todos sabem disso, foram interceptados pela alfândega nos aeroportos americanos porque traziam troféus de guerra do Iraque. Os troféus desses jornalistas não eram belas reportagens, mas peças que saquearam dos grandes museus de Bagdá. 

Defendo, então, a hipótese de que o caso de Jayson Blair é um exemplo da competição exacerbada que hoje determina o panorama da imprensa em muitos países, especialmente no Brasil, e que tem levado jornalistas a modalidades de pautas envenenadas, à invenção, ao uso de todo tipo de recurso para conseguir um pequeno lugar ao sol. 

No caso de Andrew Gilligan, o jornalista da BBC de Londres que entrevistou o cientista David Kelly, acho que houve um falseamento talvez até involuntário da verdade, uma pequena forçada de barra, comum no jornalismo, que às vezes tem conseqüências nefastas e outras vezes, não. Ele interpretou o que era apenas uma suposição ou desconfiança do cientista como se fosse informação concreta e fundamentada: a de que o Governo havia envenenado o relatório sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Houve uma imprecisão na informação que naquele contexto, gerou uma crise transatlântica. 

Acho interessante discutirmos esse caso inglês, porque ele remete ao fato de que no jornalismo é mais natural montarmos uma matéria segundo o esquema que já está na nossa cabeça do que segundo a complexidade que muitos fatos têm. Nesse caso do relatório sobre as armas de destruição em massa no Iraque, era mais natural o jornalista imaginar que o Governo deu uma forçada de barra no relatório do que imaginar o contrário, de que ele teria feito um relatório neutro, totalmente descompromissado. Havia uma necessidade urgente de se justificar a guerra. Então o jornalista fez uma suposição, ou uma pré-suposição, já com o esquema em sua cabeça. A rigor, a mesma suposição que fez o cientista, mas que por uma pequena forçada de barra ele elevou à categoria de fato. 

 

Podemos considerar a mentira e a imaginação como denominadores comuns dos casos do jornalista Jayson Blair e do cientista David Kelly.

 

No Brasil isso acontece o tempo todo. Por exemplo, recentemente, criou-se na cabeça de alguns jornalistas que o Governo Lula está montando um esquema totalitário de controle da informação, chegando-se a compará-lo com o DIP de Getúlio Vargas. Trata-se, aliás, de algo interçssante, porque todos sabemos que a esquerda tem experiências totalitárias em seu passado, assim como a direita. Termos da esquerda, como "stalinismo" e "comissário do povo", remetem a um paradigma totalitário. Eu fui chamado de "comissário do povo", como também o José Dirceu. Por quê? Por que isso se encaixa num esquema possível. Tem a ver com os fatos? Não. E, no entanto, sai publicado em grandes jornais. 

Buscando encontrar uma explicação para esse fenômeno, lembrei-me de um texto que já tinha visto, magnífico, de Hannah Arendt, em Crises da república, onde ela analisa os episódios da Guerra do Vietnã, nos quais a 50 mentira foi usada abundantemente. Diz ela que a verdade dos fatos é uma verdade contingente, ou seja, não é uma verdade necessária, como dois mais dois são quatro, mas uma verdade que podia ser esta ou podia ser aquela, sendo muitas vezes difícil construir uma narrativa coerente com a verdade dos fatos, seja ela qual for. Uma narrativa, por assim dizer, baseada na razão é sempre muito mais coerente. 

Uma colunista, não sei se a Eliane Cantanhêde ou a Dora Kramer, sintetizou isso na conhecida afirmação de que "na política a versão é mais importante do que os fatos". Essa frase exprime algo que, de alguma forma, é inerente à natureza do jornalismo, que lida com fatos, com verdades contingentes, que nem sempre têm uma explicação. A história não tem necessariamente uma lógica, apesar de suas relações de causalidade. É muito mais fácil dizer que o Governo Lula está construindo um sistema totalitário. Vai-se atrás de alguns dados fragmentados e se monta uma história, cria-se uma narrativa até coerente e interessante, mas que não tem nada a ver com os fatos. 

 

As "invenções" não necessitam de testemunho. Se forem racionais, a versão prevalece sobre o fato. "É esta fragilidade que torna o embuste tão fácil e até certo ponto tão tentador; ele não entra em conflito com a razão".

 

O jornalista Gilligan achou que era totalmente coerente a desconfiança do cientista David Kelly de que Campbell teria "envenenado" o relatório das armas de destruição em massa do Iraque. Ele não afirmou isso categoricamente, mas apenas suspeitou, pois não tinha nenhuma informação concreta. E foi assim que começou toda essa história. 

Valho-me aqui de mais alguns trechos de Hannah Arendt. "A falsidade deliberada trata com fatos contingentes, ou seja, com coisas que não trazem em si nenhuma ver dade inerente, nenhuma necessidade de ser como são". Continua ela, mais adiante: "Os fatos necessitam de testemunho para serem lembrados e de testemunhas de confiança para se estabelecerem, para que possam encontrar um abrigo seguro no domínio dos assuntos humanos". As "invenções" não precisam disso. Se forem racionais, elas colam e a versão prevalece sobre o fato. "É esta fragilidade que torna o embuste tão fácil e até certo ponto tão tentador; ele não entra em conflito com a razão", diz Hannah. 

Mas o caso inglês remete também a uma outra esfera, não propriamente jornalística: a da mentira na política. Recorro novamente a Hannah Arendt, numa passagem em que ela afirma que a mentira é um dos grandes recursos da política. O caso de David Kelly revelou todo um processo interno do governo inglês, de produção da mentira, da meia-verdade. Segundo Hannah, o sigilo, diplomaticamente chamado de discrição, os arcana imperii, mistérios do governo, e o embuste, ou seja, a falsidade deliberada, a mentira descarada, são usados como meios para alcançar fins políticos desde os primórdios da história documentada. A veracidade nunca esteve entre as virtudes da política. Mentiras sempre foram encaradas como instrumentos justificáveis nesse meio. 

A meu ver, essa questão é importante, porque ela talvez nos remeta à percepção de que poder e jornalismo têm uma interface absolutamente incompatível. 

Leio aqui um comentário da BBC acerca do relatório do inquérito feito sobre o caso David Kelly. "Aprendeu-se muito sobre as maquinações obscuras e muitas vezes complexas do Governo e as ações muitas vezes discutíveis dos servidores públicos ao darem conta dos seus atos. Também aprendemos que o doutor Kelly, o cientista que se suicidou, não era um funcionário de segunda categoria do Governo, como este havia dado a entender, mas o principal cientista britânico na área de inspeção de armas de destruição em massa. Também aprendemos que ele era um tipo estranho no ninho. Era pago por um departamento do Governo, tinha uma mesa em outro departamento e gastava boa parte de seu tempo em viagens ao Exterior, na difícil tarefa de encontrar as tais armas de destruição em massa. Mas ele era também o homem que falava a jornalistas. No passado, seus contatos com a imprensa, aparentemente, não causavam preocupação a seus superiores, pelo menos enquanto ele se limitava a observações sobre assuntos científicos e se mantinha afastado da política. Depois da erupção do escândalo, todo contato com jornalistas que ele teve se tornou objeto de suspeição e, um pouquinho antes de sua morte, ele recebeu ordens de compilar uma lista de todos os repórteres que conhecia". Isso mostra a preocupação do poder com a imprensa. 

 

O poder se vale da mentira. O jornalismo, apesar de às vezes se pautar por esquemas pré-concebidos ou de preferir a versão aos fatos, se norteia basicamente pela busca da verdade. É muito sério esse conflito entre poder e jornalismo.

 

Quero aproveitar a referência que fiz ao conflito, para mim insuperável, entre o jornalismo e o poder em torno da verdade, para fazer alguns comentários sobre como este Governo, do qual faço parte, está lidando com essa questão. Fiz, recentemente, duas viagens, uma à Inglaterra e outra aos Estados Unidos, nas quais pude ver como os governos desses países lidam com a imprensa. O que me levou a pensar nessas viagens foi a percepção, logo de início, de que nosso Governo está desaparelhado para lidar com a mídia numa concepção moderna. Não tem uma política bem elaborada, nem funcionários em número suficiente. 

A máquina governamental brasileira é gigantesca. Fico muito impressionado quando observo a quantidade de agências, autarquias e órgãos que formam o Governo Brasileiro. Tudo isso foi construído para um país com a vocação de ser uma potência. Isso ainda não aconteceu, mas as instituições já estão aí. Essa máquina tem centenas de janelas para a população, de locais para se relacionar com o público, que precisam ter uma política, estar equipadas para tanto, mas, na maioria, não estão. 

Outro problema muito interessante, do qual logo me dei conta e que não imaginava que fosse assim, é que a presidência da República, nos regimes presidencialistas e, a meu ver, também nos regimes parlamentaristas, é uma usina de alta intensidade de produção de decisões, que tem de decidir o tempo todo, sempre sob a pressão do tempo. Isso implica que haja um fluxo de informações para dentro e para fora. Trata-se de uma área especializada na qual também somos muito carentes. 

Em minha viagem à Inglaterra, que se deu às vésperas da invasão do Iraque, me deparei com um governo de tradição democrática que se achava em estado de guerra. Sua máquina de informação estava, assim, diante de uma conjuntura um pouco envenenada, mas me foi possível inferir como ela funciona em situações normais.  

No regime parlamentarista inglês, o primeiro-ministro vai quase todos os dias ao Parlamento para ser questionado pelos deputados, sendo os debates transmitidos pela televisão. Isto se dá através de todo um ritual que, envolvendo dias e horários certos, formatos e cenários definidos, confere a esse evento um caráter solene, quase religioso. É uma prestação de contas isônoma, para o conjunto da mídia ou para jornalistas acreditados no Parlamento, sem privilegiar emissoras ou pessoas. Numa democracia moderna como a inglesa, o Governo procura a mídia vendo nela uma instituição. Sendo ela questionadora e até mesmo, como se costuma dizer, um "quarto poder", causa uma preocupação muito grande o que ela pensa e publica. Por isso, ela é acompanhada muito de perto, como me foi dado ver. Diariamente, se produzem sinopses das matérias veiculadas, que são analisadas numa reunião de cúpula, surgindo daí posicionamentos que estarão presentes no discurso do primeiro-ministro. Com isso, já às 10h da manhã todos os escalões do Governo estão falando a mesma linguagem. 

Nos Estados Unidos, a realidade é um pouco diferente, já porque lá o regime de governo é presidencialista. O presidente não vai diariamente ao congresso para ser questionado. Isto ele faz só uma vez por ano, quando pronuncia solenemente o seu speech to the nation. Seja o que for, ele não é questionado. Além disso, existem lá dois centros de decisão relativamente independentes, apesar de fazerem parte do mesmo poder: a Casa Branca e o Departamento de Estado. E há ainda centros decisórios de menor importância, como alguns ministérios e o Pentágono. 

A Casa Branca tem um rito de interface com os jornalistas. Todos os dias, há um encontro com eles às 9h30 da manhã, que é uma espécie de pré-briefing. A mídia toma conhecimento do que o presidente fará durante o dia e com quem se encontrará. Com isso, ela já pode orientar suas pautas e destacar equipes de rádio e televisão. E o Governo afere qual é a preocupação da imprensa naquele dia. Daí surgirá o briefing do meiodia, na Casa Branca, quando o porta-voz se submete ao questionamento dos jornalistas. 

 

No regime parlamentarista inglês, o primeiro-ministro vai quase todos os dias ao Parlamento para ser questionado pelos deputados, sendo os debates transmitidos pela televisão.

 

Esse briefing é precedido de uma preparação intensa por parte do porta-voz. A partir do levantamento do que está interessando à mídia, ele consulta os departamentos envolvidos com as questões, para verificar qual é a posição do Governo. Se a pergunta se liga, por exemplo, às tropas que estão no Iraque, ela é submetida ao Departamento de Defesa, mas também a outros departamentos que eventualmente têm a ver com o assunto. As respostas chegam em folhas rubricadas e assinadas, de acordo com a exigência de que todas elas sejam registradas por escrito, admitindo-se cada vez menos a sua circulação de boca em boca. As informações estarão nas mãos do porta-voz, para serem usadas por ele no briefing de imprensa.

É claro que o porta-voz trabalhará essas informações a seu modo, tentando direcionar as perguntas e as respostas. Quando estive lá, a questão era sobre as armas de destruição em massa. O porta-voz se esforçava para demonstrar que o Governo Norte-americano nunca tinha dito que Saddam Hussein possuía tais armas, mas programas para fabricá-las. Vê-se que o porta-voz procurava "saídas" para a questão. Mas os jornalistas americanos não são bobos... 

Esses ritos são importantes, mas não são eles que determinam o comportamento da mídia norte-americana. Seguir um ritual é uma obrigação do porta-voz, que está aí para falar em nome do Governo. O exercício ingente de coleta e disseminação interna de informações leva à sua formalização e uniformização. Interessante notar isso: a demanda da mídia organiza o próprio Governo. 

No Brasil não temos esses rituais. A meu ver, esse seria o grande salto que poderíamos dar na comunicação governamental: instituir ritos formais e tratar a imprensa como um corpo isônomo. O resto, os vazamentos, os furos e as informações privilegiadas, ficariam por conta da iniciativa dos jornalistas. Isto sempre vai existir, mas o Governo não pode fazer disso o seu modelo de comunicação. Às vezes um ministro chama um jornalista e lhe passa uma informação exclusiva, para testar a opinião pública ou talvez tentar alguma jogada. Esse padrão de comunicação é próprio do político que foi transposto para o Governo. Ele tem jornalistas amigos com os quais mantém uma relação privilegiada, em que os usa e é por eles usado.

 

O exercício ingente de coleta e disseminação interna de informações leva à sua formalização e uniformização. Interessante notar isso: a demanda da mídia organiza o próprio Governo.

 

O Governo tem uma obrigação institucional de informar, o que não pode ser feito seguindo esse padrão. No momento, é essa a nossa luta, na qual já logramos algum êxito. Vejam-se, por exemplo, nos jornais de hoje, 17 de outubro de 2003, as notícias sobre os novos planos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), vinculada ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Essa divulgação foi feita pelo padrão dos briefings norte-americanos, que pretendemos institucionalizar entre nós. Por ele, convocamos não todos os jornalistas, mas um grupo significativo de todos os veículos, para contextualizar uma questão um pouco mais complexa, que envolve tecnicalidade e exige um conhecimento específico. O resultado obtido com a experiência foi razoavelmente bom. A informação sai mais precisa e, por outro lado, não inibe os jornalistas que querem ir à busca de uma visão mais crítica. Desde que eles não se comportem como" embutidos" e mantenham o espírito crítico, é claro. 

 

 

BERNARDO KUCINSKI Assessor especial da Secretaria de Comunicação Social (Secom), do Governo Federal. Licenciado em Física pelo Instituto de Física da USP, com doutorado em Ciências da Comunicação (1991) na ECA-USP e pós-doutorado (1992) no Instiutute of Latin American Studies da London University, é professor-titular da ECA-USP. Como jornalista, trabalhou na BBC e no jornal "The Guardian", em Londres, nas revistas "Veja" e "Exame", além dos jornais "Gazeta Mercantil", "Opinião", "Movimento" e "Em Tempo". Entre os livros que publicou estão "O fim da ditadura militar" (Contexto, 2001), "A sín-ndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro" (FPA, 1998), "Jornalismo econômico" (Edusp, 1996), "Carnival of the oppressed" (com Sue Branford Zed Books, Londres, 1995) e "Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa" (Scritta, 1991). Palestra proferida em 16/10/2003. 


 
     
Index Enviar noticia por email clique aqui para imprimir a noticia
Comentários: 0

Comentários: