Sistema e browser desconhecidos

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Agenda:

Mataram o presidente - Capitulo 1
 

 

 
Primeira parte
 
   Desde as primeiras horas  da manhã, quando o corpo do presidente foi encontrado, comentaristas do Jornal Nacional e da CBN enfatizavam a semelhança do cenário com o que levara a Getúlio a se matar cinqüenta anos antes: uma sucessão de acusações  pela imprensa, culminando com a revelação de contratos milionários de uma concessionária de telefonia supostamente favorecendo o filho do presidente  e a ilação de que  seu partido mandara matar o prefeito de Santo Amaro.
 
   Embora  calejado por insultos dos jornalistas, que o descreviam sistematicamente como grosseiro, desastrado e até analfabeto,  o presidente chegara a se queixar dias antes do que  chamou de “avalanche de acusações sem provas.” Em resposta, juristas notáveis com apoio do  arcebispo de São Paulo lançaram um manifesto acusando-o de querer acabar com a liberdade de imprensa. Um deles comparou-o a Mussolini, chamando-o  de “fascista.
 
    Finalmente, num diário de circulação nacional, um antigo companheiro de prisão, do tempo em que o presidente fora dirigente sindical,  insinuou que ele tentara violentar um rapaz, colega de cela. Essa infâmia,  disse o secretário do presidente, Dagoberto Carvalho, ofendera sua consciência de cristão e pai de família, jogando-o em profunda depressão.
 
   Só houve duas ocasiões em que o presidente esteve tão abatido, revelou o secretario Dagoberto: quando insinuaram que ele obrigara sua antiga companheira a abortar, e quando um jornalista americano retratou-o e a seu pai, já falecido,  como alcoólatras.
 
   Assim se explicava o suicídio, após uma campanha de mídia iniciada logo no começo de seu mandato, e que superou senão em intensidade, certamente em sofisticação, a de Lacerda contra Getulio. Desta vez, até o maior poeta nacional e um dos principais escritores o desqualificavam  semanalmente o presidente em  colunas de jornal. 
 
   Única voz discordante, o professor da UnB, Venâncio Leme, alertou para telas exibidas na grande bienal de artes de São Paulo mostrando o presidente sendo decapitado. “ Sua morte já foi decretada pelas artes  e assim, de modo subliminar, passada ao inconsciente coletivo”, ele escreveu no site Observatório de Jornais.
 
   Mas o que consagrou mesmo a tese do suicídio foi a carta encontrada sobre o criado-mudo. Embora não usasse expressões como “saio da vida para entrar na história,”  nem se tratasse propriamente de documento político, foi logo batizada pelos repórteres eriçados de “A Nova Carta Testamento.”
 
  Em todos os meios de comunicação, na boca de comentaristas, politicólogos,  até mesmo nas falas dos familiares e amigos íntimos do presidente, consolidou-se a idéia do suicídio como “a única  resposta encontrada pelo presidente para a tragédia política que o engolfara”.
 
  “Se a história se repetia, o presidente repetia a história,” diziam em coro os comentaristas. Alguns poucos ousaram acrescentar que a campanha da mídia viera das mesmas forças conservadoras que meio século antes levaram Getúlio a dar um tiro no peito 
 
  Mas o delegado Mauro Nascimento, chefe da Policia Federal,  soube desde o primeiro momento que  o presidente não se matara. Que fora assassinado. Um assassinato planejado por um cérebro conhecedor da história, dos cenários políticos, dos comportamentos coletivos e de como funcionam os meios de comunicação de massa. Uma execução, da mesma dimensão das de Lincoln, Kennedy e  Luther King. Mas, ao contrário daquelas, concebida com sutileza e sofisticação para ser tomada por suicídio.
 
   Ele não poderia ter se matado com esse Taurus 38, percebeu Mauro, logo que viu o revólver sobre a coberta, no leito de morte do presidente. O legista atestara a morte, por perfuração do miocárdio. Não declarara que foi suicídio porque isso não cabia a ele, médico, e sim à policia. Mauro, de propósito, nada disse, deixou que os jornalistas proclamassem à vontade o suicídio. Precisava  ganhar tempo. 
 
    O revólver  era o famoso Buldoguinho,  de empunhadura curta. O presidente não tinha os dois dedos centrais da mão direita, perdidos num torno nos tempos de Senai. Não poderia ter empunhado o Buldoguinho e acionado o gatilho, sem a ajuda da mão esquerda. Mesmo que tentasse só com a direita, instintivamente traria a esquerda em apoio.  Mas a mão esquerda repousava debaixo da coberta, não sobre dela. Elementar. 
 
   Um rápido exame laboratorial comprovou, logo depois, que não havia pólvora em nenhuma das mãos. Tudo isso ficou em segredo. Mauro agia rápido e até então conseguira manter suas descobertas em sigilo. 
 
   Deixem que a mídia fale em suicídio, isso nos ajuda, disse ele á sua pequena e fiel equipe. Instruiu-os a não falarem com a imprensa, e adiou de propósito a indicação de um porta-voz. 
 
   Graças a esse estratagema, ganhara tempo e espaço para agir. Enquanto a  mídia divulgava o conteúdo da “Nova Carta Testamento”  sem  contestar sua autenticidade, o original já  estava a caminho da perícia de São Paulo, levado por estafeta, de carona no avião presidencial despachado emergencialmente para buscar a primeira dama e os filhos do presidente.
   Talvez naquela mesma tarde, teria o laudo oficial comprovando  que se tratava de falsificação. Seria o suficiente para  abrir  o inquérito com apoio do Ministério Público e tratar a caso como conspiração política. Ia ser uma bomba.
   Rodolfo Medeiros, o braço de direito de Mauro, analisava o cenário institucional: 
   “Os que conceberam esse assassinato vão tentar enterrar o caso rapidamente junto com o enterro do corpo e eleger o sucessor, com muita pompa, assim como espalharam a tese do suicido com  estardalhaço.Não deixa de ser inteligente, ocultar um crime, por métodos políticos e midiáticos.”
 “Deixa  eles  pensarem que acreditamos. E vamos surpreende-los com a reviravolta dos laudos e abertura do inquérito,” disse Mauro.
   De volta à ante-sala da alcova presidencial em que ainda jazia o corpo Mauro puxou  a um canto o secretario do presidente, Dagoberto Carvalho, ainda atordoado, e lhe segredou que o presidente fora assassinado É um golpe e temos menos de 24 horas para desbaratar isso, ele advertiu.
 
  Sugeriu a um  Dagoberto estupefato e em parte incrédulo,  que reunisse imediatamente, em segredo e em ambiente de segurança máxima, o núcleo duro da presidência.  Disse-lhe para manter segredo e não se comunicar com os membros do núcleo pelo telefone. Ele Mauro ia formar um comando para desvendar  o crime.  Os dois grupos tinham que agir em conjunto.
   “Está tudo bichado,  não confie em nenhum servidor do Palácio.Isso só poderia ter sido tramado com gente de dentro e com orientação superior. Temos que montar um esquema fora do Palácio e das residências oficiais.” 
   Mauro pensa rápido, seu cérebro está turbinado. Sente-se possuído de uma segurança  e determinação  que nunca imaginara ter. Diz ao secretário:
   Dagoberto,  faça o seguinte, reúna o núcleo duro naquela casa que o ministro do patrimônio usa para as surubas dele; nesta altura é o único lugar seguro  que temos em Brasília  diga para cada um se munir do  celular de um dos filhos.Usar o próprio celular só para a rotina.Tenho uma  emergências, às onze encontro vocês na casa.”
  “Que casa  Mauro...”
  “Deixa disso Dagoberto, eu sei de tudo...e você também sabe. A casa do Lago Norte. Onze horas lá. E tente levar  uma avaliação da situação entre os militares, mas sem fazer onda. Não deixe ninguém saber da reunião, nem o cara da Abin. Está tudo bichado.”
 
Fim da primeira parte.
Nos próximos capítulos: A operação Mito
 
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