Sistema e browser desconhecidos

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Agenda:

Mataram o presidente - Capitulo 2
 

 

 
Segunda Parte
 
  O delegado Mauro Nascimento ganhara fama ao desvendar um assassinato em que foi usada pela primeira vez no mundo, como arma, uma cápsula radioativa. O caso obteve repercussão internacional. Mauro recebeu então o convite do  presidente e do ministro da justiça para assumir a chefia de Policia Federal, onde se encastelara um poderoso grupo de policiais corruptos ligados à presidência anterior.
 
   Mauro estava convencido de que  embora tivesse conseguido desbaratar  o grupo, alguns de seus remanescentes estavam diretamente envolvidos no assassinato do presidente. Mas a concepção do crime,  calculou Magno, vinha de outro tipo de mente, um cérebro equipado para recriar um cenário de mito.
 
  A hipótese de que o assassinato estava sendo encoberto através da exploração de mitos da política, impunha-se cada vez mais. Logo que o corpo foi encontrado, dezenas de políticos que se diziam amigos do presidente invadiram  seus  aposentos no Alvorada, sob variados pretextos.
 
   Com isso, não só perdeu-se a chance de uma perícia confiável devido à obliteração de digitais, como se repetia a cena história da cirurgia fatídica do presidente Tancredo Neves, cuja agonia e morte acabam por encarnar o mito do sacrifício pessoal pela abertura política, o mito do fim da ditadura.
 
   Mauro anotou na sua caderneta: checar guarda palaciana, equipe da portaria, zeladoria e serviçais dos aposentos do presidente. “Obviamente, entre eles há cúmplices da trama.” Checar cronograma do Presidente na noite em que foi morto, minuto a minuto e quem estava no Palácio nessa noite.
 
  A partir das nove da manhã, foi assumindo o primeiro plano o personagem que faltava para completar o mito: o narrador da tragédia. Obviamente, um quadro de rede Global, obviamente, o âncora do Jornal Nacional,  Nilson Bondas. Instalado com formidável equipamento defronte aos portões do Palácio, Bondas comandava uma equipe numerosa de repórteres, estrategicamente alocados  a pontos chaves da arquitetura do poder de Brasília.
 
   Parecia tudo bem articulado: a quem  entrevistar, que perguntas formular, em que ponto da resposta cortar e devolver a condução da narrativa ao Bondas. Era como se um diretor de cena estivesse conduzindo o espetáculo, tendo muita clareza sobre os efeitos almejados.
 
   Fazendo fundo ao Bondas, como moldura datada da tragédia, destacavam-se as curvas elípticas, também míticas, dos pilares do   Alvorada, desenhadas por Niemeyer, tornadas símbolos do poder central desde a renúncia de Jânio.
 
   Assombrado pela desenvoltura do espetáculo, Magno reuniu seu pequeno conselho político para uma troca emergencial de idéias. Além do Rodolfo Medeiros, chamou o Rui Azevedo, encarregado das relações da PF com a mídia, e o Alberto Lima, que fazia a ligação com o Congresso.  
 
  Decidiram montar uma operação. Seria a Operação Mito. Definiram rapidamente, mas com precisão, uma divisão de tarefas e uma cronologia de ações.  Rodolfo ficaria na sala de situação, articulando e coordenando. Amélia, a mais eficiente operadora do PF ficaria ao seu lado, auxiliando e o substituindo, quando necessário.
 
    Usariam  a sala de situação principal, contígua às salas da chefia e sub-chefias, mas fechariam todo o andar. Os não participantes da  operação mito seriam removidos naquela mesma manhã, para o andar de baixo. Só os especialmente credenciados poderiam entrar no quinto andar. O próprio crachá estaria em código. Ninguém deveria saber da existência da Operação Mito. Se era uma  guerra, como concluíram, responderiam com uma operação de guerra.
 
   Para disfarçar, deixaram escapar o rumor de que estava em andamento uma  operação Jacarandá, de desbaratamento da maior quadrilha de contrabando de madeiras jamais descoberta no Brasil. Operação ultra-secreta, dizia o rumor. 
   Foi quando o Rodolfo observou: 
   “Mas nós precisamos de alguém de confiança que entenda de mitos e mídias, alguém capaz de antecipar qual vai ser o próximo passo dos golpistas. Obviamente é tudo planejado, as comparações com o suicídio de Getulio, a carta testamento; da investigação  nós cuidamos, mas como lidar com a dimensão midiática do golpe? Azevedo, quem você conhece que poderia nos ajudar?”
    “ Só tem um em quem se pode confiar, o professor Venâncio Leme, da UnB, “
    “Chamem esse Venâncio. Quer falar com ele já.” Disse Mauro.
   E assim se constituiu a equipe  que desvendaria a trama do assassinato do presidente e entraria nos anais da história do Brasil e dos estudos das relações entre mídia e poder: Mauro no comando, Rodolfo na sala de situação, auxiliado pela eficiente Amélia, Lima colado na rede Global e o professor Venâncio tentando antecipar  os movimentos da mídia de massa. Mais alguns se  juntarão à equipe. Serão apresentados no momento adequado.
 
   Também a tese da aceleração da trama  logo se confirmou. Às onze da manhã, embora fosse uma segunda-feira, o Congresso já havia sido convocado pelo presidente da Câmara, Romão Malheiros, para uma sessão extraordinária no inicio da noite, que decidiria sobre a vacância do poder. O vice Josias Alencastro, encontrava-se hospitalizado, em fase avançada de uma doença grave, assim se dizia. Nem tinha como tomar posse, e não fazia sentido, diziam em uníssono, os comentaristas da Tevê e do rádio.
 
    De todo o  país, desembarcavam em Brasília deputados e senadores em vôos especiais oferecidos pelas duas empresas que dominam o mercado aéreo e em jatinhos colocados à disposição por empresas privadas.  
 
   Com se tivessem combinado, todas as grandes empresas privadas e  bancos ofereceram jatinhos. Amélia, de olho na tevê, na sala de operações da PF,  percebeu que os jatinhos só traziam parlamentares da  oposição. Avisou Lima. 
 
  A mídia já soltara o balão de ensaio: falava-se à boca pequena no cafezinho do Congresso, de uma emenda constitucional, já em elaboração,  dando o poder ao presidente da Câmara, Malheiros, o terceiro na linha sucessória.
 
   Malheiros era conhecido pelo maquiavelismo e falta de escrúpulos. Lima deixou mensagem na mesa de Magno, alertando que Malheiros havia participado diretamente dos  esquemas de venda do patrimônio público do governo anterior. Lembrou que foi ele  quem tentou passar de contrabando a emenda que abriria os gigantescos depósitos de petróleo do pré-sal brasileiro ao capital estrangeiro. 
 
   Para que Malheiros tomasse posse, explicou Lima, era preciso  declarar a vacância da  vice –presidência, o que exigia malicia porque embora muito doente, o vice Alencastro estava  vivo e lúcido, no seu quarto de hospital.
 
   Declarada a vacância, o Congresso teria  dez dias para designar o presidente em exercício, e mais vinte dias para eleger o novo presidente, que cumpriria os 20 meses de mandato que faltavam.
 
   Magno leu a mensagem e calculou: foram cuidadosos até nisso: esperaram passar uma semana a mais alguns dias  dos dois primeiros anos, assim não tem eleição direta do novo presidente. Claro que no Congresso vão eleger o próprio Malheiros.
 
   Frente à suas câmaras poderosas, Bones já traçava a biografia do Malheiros, convenientemente deixando de lado as acusações que pesavam contra ele, os vários processos encalhados na justiça,    
Inclusive o que o  acusava de super-faturar contratos de merenda escolar e compras de medicamentos em seu Estado.
 
Fim da segunda parte
Próximos capítulos: a reação do núcleo duro
 
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