Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

Mataram o presidente - Capitulo 3
 

 

 
Terceira Parte 
 
    Às onze horas da dramática manhã em que o presidente foi encontrado morto, o núcleo duro já estava reunido na casa do Lago Norte, conforme combinado. O delegado Mauro chegou atrasado quinze minutos e se desculpou. Pela primeira vez reuniam-se sem o presidente.
 
   Fazem parte  do núcleo duro o ministro  do patrimônio,  dono da casa, o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência - a poderosa Secom -  e o Ministro chefe da Casa Civil. São os três ministros mais fortes. O secretario Dagoberto não participava, mas era informado das decisões. Agora se incorpora como membro pleno.
 
    Ao receber o delegado Mauro, o anfitrião deixou transparecer seu desagrado pela revelação da existência da casa do lago. Afinal ninguém tinha nada que ver com sua vida pessoal. Tentava adivinhar o que mais esse delegado sabia. Rememorava as mulheres especiais que para lá trouxera, a jornalista, a mulher daquele governador. Será que esse safado andou fotografando?Será que é um chantagista?
 
     Mauro já antecipara esse momento. Segurou o ministro pelo braço, como  se faz com um amigo, e lhe disse: “ Não se preocupe ministro, não temos nada com sua vida privada, nem sou moralista nem vou me desculpar porque estou imbuído da correção da minha conduta; nós só vigiávamos a casa pela sua própria segurança. E  estamos aqui agora para desbaratar um golpe sujo contra a democracia. Foi providencial termos essa casa.” 
 
  Só então deixaram o hall em direção à  sala. Quando viu a mesinha central guarnecida de  whisky, água e biscoitos, Mauro perguntou:
   “Você dispensou o guarda e a  arrumadeira?
   “ Não tem ninguém na casa, exceto nós.” O anfitrião estava mais calmo.
    Mauro foi saudado com alvoroço. A informação de que o presidente fora assassinado os deixara aturdidos. À tristeza profunda pela perda do presidente, somava-se agora a excitação pela perspectiva de uma luta e não de uma simples entrega de poder. 
 
  Mauro pediu calma e abriu sem demora a reunião  dizendo que pedira sua convocação ao Dagoberto para informar que o primeiro diagnóstico de sua equipe apontava para uma trama de vasto alcance, arquitetada por gente sofisticada e com cúmplices dentro do Palácio.
 
   Questionado sobre a sua certeza de que foi assassinato, explicou que havia vários indícios, mas o principal era a ausência de pólvora nas mãos do presidente. Disse ter quase a certeza de que a propalada carta testamento era uma forja. 
   “O presidente não se matou, foi assassinado,” disse enfático.
E repetiu o que havia dito ao Secretário:
  “Está tudo bichado. Por isso proponho que aqui seja instalado o quartel general político. O comando policial eu tenho condições de operar dentro da PF;   trouxe celulares para cada um de vocês; podem devolver os das crianças.”
    Mauro tirou de uma sacola os celulares e os distribuiu de acordo com  uma lista.
   “ Cada um já tem na memória os números dos demais. São aparelhos especiais, não podem ser rastreados por grampos comuns. Mesmo assim sejam discretos e para as conversas ordinárias  continuem usando seus aparelhos  regulares, de modo a não chamar a atenção.”
    “Que mais você  recomenda?”, perguntou o ministro do patrimônio.
    “Nós corremos contra o  tempo. Há indícios de que o objetivo dos golpistas é o de passar por cima do vice e empossar o presidente da Câmara,  Romão Malheiros. Devem convocar uma reunião extraordinária do Congresso talvez para esta noite. Podemos amanhecer com um novo presidente,um novo ministro da justiça e o um outro chefe da Policia Federal e ai acaba nossa capacidade de resistência.”
    “ Então é preciso denunciar logo o assassinato. Você tem todas as provas?”, perguntou o ministro. 
   “ Até a noite terei, mas isso só não adianta. Abre-se um inquérito, a mídia de propósito cria confusão e enquanto isso eles emplacam o Malheiros. Eu acho que as provas devem ser usadas centro de um estratégia mais ampla para obstar o golpe.
     O chefe da Secom intervém:
    “ Concordo com o Mauro. Está na cara que a  mídia está preparando a opinião pública para uma rasteira no e a posse ao Malheiros. Temos  que neutralizar o Malheiros  ou provocar  um racha entre os golpistas.”
     Diz o ministro chefe da casa civil:
     “Correto, mas também temos que  empossar logo o vice. Afinal, ele está lúcido. O que não pode é ter vacância de fato, porque ai eles tem o argumento para declarar a vacância formal.”
     Todos fazem sinais de concordância.
     “E quanto ao Malheiros? Você não tem aquela munição toda,  as bandalheiras dele no Congresso, os decretos secretos, os salários fantasmas?” Dagoberto dirigira-se ao Mauro que responde:
   “Tenho isso e muito mais, o que eu me pergunto é se não seria um erro  encurralarmos o Malheiros, mais motivo ele terá para agir depressa e nos desmontar; o Malheiros, vocês sabem , é um cão chupando manga.”
    “O Mauro está certo, ”, diz o chefe da Secom
    “ Precisamos ser mais espertos; que tal Mauro se  em vez de atacarmos o Malheiros frontalmente, pegarmos uma das quadrilhas que só nós sabemos que tem ligação com ele; deixamos ele fora, como se não tivesse nada. Só o tempo que ele vai perder com  isso já nos ajuda muito”
    “É uma boa estratégia, embora eu ache que em algum momento vamos ter que desmoralizar o próprio Malheiros”
    Mauro faz uma pausa e diz:
     “Que tal o bando  do governador de Rio Negro? Enchemos um avião inteiro com esses  caras. Estão todos com as mãos sujas, o vice também, o ex-governador, o procurador do Estado o presidente do Tribunal de Contas. E são ligadíssimos ao Malheiros. Embora só nós saibamos disso.”
   O chefe da Secom exulta: “É  isso mesmo.”
  Todos aprovam. 
   “Tenho mais duas propostas”, diz Mauro: Organizar um funeral para amanhã logo  no começo da tarde,  assim forçamos uma ocupação do espaço na mídia, e pedir aos nossos governadores e à aeronáutica que tragam nossos parlamentares a Brasília. Os  empresários, muito sacanas,  estão trazendo só os da oposição.”
   Eu me encarrego do transporte, diz o ministro dono da casa. O Ministro da casa civil se prontifica a organizar o funeral. Mauro diz:
   “ Ótimo, proponho nova reunião aqui às 16 horas. Não venham todos ao mesmo tempo, a menos que seja num só carro. Não se deixem seguir. Não abram nada perto dos funcionários do Palácio, nem mesmo dos seus chefes de gabinete.
   E dirigindo-se ao ministro chefe da casa civil pergunta;
 “Alguma chance dos militares estarem envolvidos no golpe?  Podemos ter uma avaliação ?”
   “ A  prioridade da cúpula militar é afastar  a  imagem de golpistas e torturadores. É por isso que resistem tanto à abertura dos arquivos. Eu  não duvido que algum grupo pequeno entre eles favoreça um golpe, de medo que o nosso governo acabe abrindo os arquivos,  mas a  estratégia da cúpula é apagar o passado, não é reavivar a passado. Um novo golpe militar poria tudo isso a perder. Mas eu vou checar.”
   Mauro se despede, pede que Dagoberto o acompanhe até a porta e longe dos demais pergunta a meia voz: “Seria importante termos a Abin conosco nessa hora, até que ponto o general  é confiável?
   “Eu acho que é, tenho quase certeza,  mas podemos fazer um teste....”
    “Que tal você passar a ele nosso diagnóstico  de que há um golpe em marcha? Você não abre o nosso esquema paralelo da casa do Lago. Mas mobiliza ele, pede que corra atrás de informações. Pelo retorno podemos  avaliar. Diga que a suspeita de assassinato é sua, pessoal, não do governo.”
 
Fim da terceira Parte
Nos próximos capítulos: o contra-ataque da Polícia Federal 
 
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