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Agenda:

O método Paulo Francis
 

O método Paulo Francis

Bernardo Kucinski

 

Talvez o Brasil já tenha acabado e a gente não se dê conta disso.

(Paulo Francis, in: Soares’ list of Brazilian quotations)

 

O simulacro

Quando Paulo Francis morreu, em 4 de fevereiro de 1997, era o jornalista mais bem pago desse país que ele suspeitava já tivesse acabado. (1) Comutava entre Nova Iorque e Paris de supersônico e só freqüentava restaurantes grã-finos. De todos os jornalistas “griffe”, esses que fazem a fama na TV e depois vendem suas colunas a vários jornais ao mesmo tempo, era o mais contundente. Mas cometia erros de português, trocava datas e nomes, e, principalmente, insistia em insultar pessoas de modo vil, tanto por escrito como na televisão. Com se explica que fosse o mais bem pago? O que os leitores viam nesse jornalista que desprezava as regras elementares da decência? Além do sucesso de público, o que mais explica que textos de tão baixo nível estilístico e ético, tão antijornalísticos, tenham sido aquinhoados com espaços tão grandes em jornais respeitáveis, como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo? Suas colunas galhofeiras na Folha (1976-1990), depois em O Estado (1990-1997), chegaram a ocupar página inteira.

Numa sociedade que em princípio identifica O Estado como o inimigo, a linguagem da galhofa, como a de Francis, é a mais apropriada para desfazer do governo. E foi assim que ela se instalou no jornalismo brasileiro, a partir dos pasquins irreverentes do Império. Depois, foi sendo aplicada a todo e qualquer “outro” aquele de quem se diverge, numa cultura que não aceita a divergência. Basta descrever o adversário grotescamente, não sendo preciso discutir o mérito de suas posições. Por isso, também se presta à manipulação da opinião pública; permite desmoralizar ou desqualificar lideranças sem discutir suas idéias. Na linguagem da galhofa não é necessária a informação, muito menos a precisão, o que talvez se coaduna com a displicência, outro traço de nossa matriz cultural. Isso pode explicar a aceitação irrestrita de Paulo Francis pelo grande público.

A infâmia é igualmente comum na nossa imprensa, aparece regularmente, e com mais ênfase nos momentos sinistros, como na Guerra de Canudos, em que os famélicos seguidores de Antônio Conselheiro eram descritos como “malditos saqueadores”, ou como “monstros”. (2) Ou, quase um século depois, no massacre do Leme, em que a imprensa acusa deputados do PT pelo crime cometido pela Polícia Militar. É tão consolidada a postura infamante de nossa imprensa, que se tornou imune à lei, como mais um dos direitos à impunidade garantidos de fato às elites brasileiras.

Após duas tentativas frustradas no campo da ficção, (3) Paulo Francis fez sucesso no jornalismo dos anos 80 e 90, ao reelaborar a linguagem da galhofa, ampliando seu âmbito, num período de declínio relativo do discurso jornalístico clássico, de exaustão do argumento racional e de fastígio do leitor. A confiabilidade é o que menos importava nesse jornalismo de “fin de siécle”, feito mais para divertir, polemizar e chocar.

Paulo Francis inventou um método, que tinha corno tática principal atacar personalidades em princípio inatacáveis - provocando tamanha surpresa entre os leitores, que se seguia animada reação em todas as rodinhas, tornando o próprio Francis assunto obrigatório, ponto de referência das rodas de conversa de intelectuais e jornalistas. Nesse processo, também inovou sua linguagem, que já era coloquial. Inventou um jornalismo que se comunicava com o leitor e se propagava com a eficácia e a naturalidade das intrigas de uma cidade pequena. Nessa linguagem, seus solecismos e erros de concordância pareciam naturais. Apesar de muitos tentarem, ninguém conseguiu superar Paulo Francis porque ninguém ousou levar tão longe sua falta de escrúpulos, na arte de injuriar, difamar e caluniar.

 

As origens

Paulo Francis tornou-se crítico de teatro, primeiro na Revista da Semana, entre 1956 e 1957, depois, no Diário Carioca, Última Hora e O Pasquim. Desde o princípio, seu estilo se destacava pela crueldade e compulsão ao insulto, apoiado em ataques sucessivos, impiedosos. Escrevia por frases curtas, agressivas. Tornou-se célebre uma longa invectiva contra Tonia Carreiro, no começo de sua carreira de crítico teatral, insinuando que a atriz posou nua para revistas pornográficas e apontando várias vezes o envelhecimento de seu corpo. Paulo Francis acreditava que toda atividade cultural, como a crítica teatral, tinha de ser um “ato de hostilidade”. (4) Nos seus textos encontram-se dezenas de ataques, aos mais diferentes personagens ou idéias, no espaço de apenas uma página. O ataque é constitutivo da estrutura de pensamento de Paulo Francis. Ele não conseguia pensar sem ser na forma de um ataque.

As investidas podiam ser explicadas como uma necessidade compulsiva de emitir julgamento sobre tudo. Ia agregando avaliações definitivas ou epítetos, ao longo do texto, mesmo que não tivessem nada a ver com o tema tratado. Podia ser uma estratégia de defesa, de quem se sente vulnerável. Também sentia a necessidade de citar a todo instante pessoas famosas com quem havia conversado ou jantado, ou de alguma forma conhecido, e de demonstrar erudição, mencionando fatos históricos, teorias, livros e autores. Uma memória prodigiosa, mas que o fazia cair nas armadilhas das imprecisões, das trocas de nomes e de dados. O método Paulo Francis de fazer jornalismo prescinde da pesquisa cuidadosa, da checagem dos fatos. E um jornalismo adjetivador e ideológico. No limite, por excesso de generalizações e falta de paciência para uma hierarquização adequada das idéias e dos fatos, torna-se preconceituoso.

Para cada tempo há um método preferencial de jornalismo, favorecido pelos proprietários dos meios de comunicação e seus quadros dirigentes. O jornalismo ideologizado, adjetivador, que dispensa a reportagem e dela até foge, é bom para os períodos de crise política aguda, quando é preciso desqualificar as oposições, fazer guerra ideológica, e, ao mesmo tempo, escamotear os fatos da crise. Paulo Francis foi o jornalista que entendeu esse tempo e o usou em seu beneficio, principalmente entre 1990 e 1997, período em que, por duas vezes, a candidatura Lula ameaçou o poder no Brasil. Nas páginas muito apropriadas do mais antipopular jornal brasileiro, o Estadão, ele se dedicou furiosamente a desqualificar as oposições.

 

Insultos contra a academia e contra a esquerda

Paulo Francis via o mundo muito mais como um intelectual do que como um jornalista, no entanto desprezava o saber acadêmico. (5) Mas só atacava o intelectual brasileiro. Os estrangeiros, citava com prazer, às vezes glosando ligeiramente, mas sem hostilizar. Os brasileiros, insultava sempre que podia. Até intelectuais amigos. Insultou os críticos de formação acadêmica, em especial Antonio Candido, a quem chamou “barão vermelho da crítica literária”. E também injuriou autores ou artistas que foram bem recebidos pela crítica. Cacá Diegues, o cineasta de Bye Bye, Brasil, filme que tão bem retrata o sentimento de perda de encanto pela pátria, a sensação de que “o Brasil já era”, compartilhado desde muito por Paulo Francis, é chamado por ele “Cocô Diegues...” Do sociólogo Helio Jaguaribe disse: “me lembra um cachorro decrépito ou cavalo manco, pedindo que alguém o alivie de sua miséria”.

Francis expressava enfado pela academia e por tudo o que fosse rotina e consagração. E sentia também rancor pela critica acadêmica desfavorável a seus dois romances, Cabeça de papel e Cabeça de negro, que, além de mal escritos, não conseguiram escapar do espaço real da narrativa jornalística e atingir o mundo imaginário da narrativa literária. Seus personagens e enredos não convencem; os outros conteúdos são filosofados no mesmo estilo desatento de seus textos jornalísticos. Fossem bem escritos, lembrariam vagamente a ficção de Henry Miller, em quem deve ter se inspirado.

Foram os insultos de Paulo Francis dirigidos às lideranças da esquerda brasileira que lhe garantiram o lugar privilegiado na grande imprensa. Insultava-os nominalmente, sem subterfúgios. Paulo Francis foi, para os proprietários da grande mídia, o instrumento ideal para desmoralizar a esquerda sem ter de discutir suas idéias. Bastava desqualificar seus líderes insultando-os. Ninguém melhor que um ex-intelectual-de-esquerda para fazer isso. Teve a ousadia de escrever que “Luiza Erundina era uma anta”, que “Lula era um ignorante”, e que Eduardo Suplicy “era ...maluco e ...safado”. Disse que Vicentinho, o líder sindical do ABC, que é mulato tinha de “ser chicoteado”, numa referência clara ao castigo das chibatas da escravatura. Tantas investidas deram origem a um livro com mais de 400 páginas de Fernando Jorge, no qual isso está documentado. (6)

Sua virulência contra a esquerda foi também a forma como trabalhou a crise de suas crenças da juventude: agredindo-as ao extremo. Pois ele autoproclamou-se trotskista, pelo menos até 1980 quando publicou pequeno livro de memórias O afeto que se encerra. (7) Tratava-se de trotskismo não militante, estritamente intelectual, adquirido, prim durante um curso de teatro com o norte-americano Eric Bentley, 1954 e 1957, quando ficou três anos nos Estados Unidos lendo marxis em pleno macarthismo. Depois, dialogava com alguns trotskistis emir do Rio de Janeiro, como Edmundo Moniz e Mário Pedrosa.

Em O afeto que se encerra, uma espécie de despedida do Brasil, completar 50 anos de idade, expresso no duplo sentido do verso do à bandeira, ainda se derramava em elogios a Marx, e usava um referen marxista para considerar deficientes os escritores Otto Lara Resende, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca. Disse que lhes faltava “a cabeça que norteie a experiência que transforma em arte”, que só o marxismo podia propiciar. Nessa crítica, inclui também Guimarães Rosa. “Todos esses autores descrevem ‘brilhantemente, às vezes’, os acidentes da natureza e do comportamento humano, mas não têm a visão de conjunto que se consegue com o marxismo”, diz Paulo Francis. Somente em Trinta anos esta noite, escrito em 1994, para analisar o golpe de 1964, Paulo Francis proclama sua conversão ao liberalismo: “hoje me convenci que a sociedade liberal é a única potável”. (8)

 

Seguidores

O estilo de Paulo Francis, feito para chocar e divertir, e não para informar ou analisar, tornou-se dominante no jornalismo brasileiro dos anos 80 e 90, talvez uma versão desse fenômeno mais geral do pós-modernismo, que os cientistas sociais chamam de “simulacro”. O macaco Simão é um exemplo notável da influência desse gênero, inclusive pelo recurso ao insulto. Jornalistas consagrados, com uma história de contribuições sérias e originais, e dotados de fontes de informação e do espírito da reportagem, como Élio Gasperi, também recorrem a efeitos de linguagem, a misturar ficção com realidade, a inventar palavras ou fazer montagens fotográficas, e episodicamente a difamar ou insultar pessoas, no esforço de chocar o leitor e provocar interesse.

Na tarefa de desmoralizar as esquerdas, Francis também criou escola. Arnaldo Jabor, da mesma geração e nas mesmas circunstâncias, trabalhou sua crise ideológica agredindo da mesma forma suas crenças do passado, e vilificando os que a elas se mantinham fiéis, especialmente o PT. Ambos dialogavam repetidamente em seus artigos, com os textos ou idéias de Marx, para demonstrar que tinham autoridade para desqualificar as esquerdas, ou como se tivessem com o próprio Marx um problema pessoal não resolvido.

Jabor ganhou espaço na mídia assim que começou a difamar o PT e as esquerdas em geral. Com a transferência de Francis da Folha para o Estadão, Jabor tornou-se o herdeiro presuntivo do seu espaço na Folha. Mais ainda depois da morte de Francis, Jabor também inventava, quando não tinha fatos. (9) Também largou o Brasil e foi viver em Nova Iorque. Também se considerava cosmopolita. Tinha, no entanto, sobre Francis, a vantagem do talento literário e do conhecimento do vernáculo.

 

Um país que não tem lugar para gênios

Paulo Francis cresceu no Rio de Janeiro, no rico período democrático que vai do fim do Estado Novo ao golpe de 64. Trombava numa esquina com Jaguar e na outra com um Jorge Amado, ia tomar cafezinho com Millôr ou com  Ênio Silveira. Aprendeu trotskismo com Mário Pedrosa. Fez teatro tendo Niemeyer como cenógrafo. Foi editor-assistente, ainda jovem, da melhor revista produzida no Brasil, Senhor, dirigida por Luiz Lobo e Newton Rodrigues, e na qual escreviam os melhores jornalistas e ficcionistas da época. (10) Sua capacidade de trabalho era excepcional, sua memória prodigiosa e suas tiradas cínicas ou críticas freqüentemente geniais, sua independência analítica, total. Pensava claro. Mas toda a cultura de Paulo Francis e toda a sua radicalidade não conseguiam produzir raciocínios profundos, especialmente no campo das artes. Era um “jornalista bem formado... nunca foi um teórico por excelência”, diz George Moura, que analisou sua obra de crítico teatral. Deixava-se levar, apesar da clareza analítica, por uma espécie de senso comum formulado por frases de efeito, muitas delas surripiadas de outros autores.

Francis e Jabor pertenceram a uma categoria de gênios dos anos 60, que incluem Glauber Rocha e Geraldo Vandré, com histórias de vida semelhantes, apesar de algumas diferenças significativas. Os quatro abandonaram o Brasil nos anos 70, e todos eles sofreram um processo de deslocamento intelectual, de perda de referências que os levou a graus variados de excitação mental. Vandré também repudiou seu passado e exibiu sintomas de esquizofrenia; Glauber comportou-se de forma estranha, ao fazer, num certo momento, o elogio dos generais, em especial de Golbery. É a época em que muitos optaram pelo exílio.

Para esses quase-gênios, o Brasil funcionou como uma pátria maldita, uma restrição ao seu desenvolvimento. Uma pátria que além de pobre, traiu-os em 1964, matando seus ideais de juventude e vários de seus amigos. Um lugar onde não se podia estar. “Eu me sinto sempre numa espécie de exílio pessoal, sou um estrangeiro nato”, disse Paulo Francis ao completar 50 anos. (11) “O Brasil não é um país, é um grande acampamento”, diria Francis mais tarde, na televisão. Numa sociedade como os Estados Unidos, ou a Grã-Bretanha, haveria muitos Paulo Francis com quem Francis poderia se comparar, competir, se emular. No Brasil, esses gênios se tornam únicos, se descolam da média de seus pares, e começam a ser possuídos pela soberba, até que entram em órbita e se destroem. As duvidosas citações literárias de Paulo Francis, sua erudição estéril e sua recorrência repetida ao plágio de pequenas frases de efeito teriam sido abortadas desde cedo, num jornalismo de nível mais elevado, como o da Grã-Bretanha ou da França.

A maldição de Paulo Francis foi ter nascido no Brasil.

 

Paulo Francis resistente

Duas contribuições de Paulo Francis resistem ao tempo. Sua extensa obra de crítica teatral no Diário Carioca, entre 1957 e 1962, totalizando 1 236 artigos, e suas colaborações para O Pasquim, no período da ditadura militar (1968-1972). As criticas de teatro e a coleção de traduções são hoje referência para qualquer estudioso do teatro brasileiro. Paulo Francis rejeitou o padrão auto-indulgente da crítica teatral carioca num gesto consciente, que tinha por objetivo demarcar seu território desde o início. Não compactuava com a corrupção nem com a troca de favores, comuns na crítica teatral daquela época. Essa necessidade explicava também o nível de violência de sua linguagem.

Francis foi um dos gurus de O Pasquim, o jornal alternativo que influiu profundamente na mentalidade da juventude brasileira, criando hábitos e um modo crítico de ver o mundo e a ditadura. Paulo Francis escrevia em geral sobre tópicos internacionais, entre os quais a guerra no Vietnã. Algumas de suas crônicas da guerra do Vietnã são antológicas. “A iniciação de Phan Ti Mao na democracia”, que relata o estupro planejado de uma adolescente vietnamita por soldados americanos, é profundamente marcante. “O massacre de Mi Lay” é uma instigante análise do mecanismo pelo qual a denúncia dessa chacina e sua apresentação como uma aberração serviram para encobrir centenas de outras da mesma natureza.

Paulo Francis nessa época fez a cabeça de muitos jovens. Visto em perspectiva, esse parece ter sido o período em que o calor da hora, a aventura alternativa e o companheirismo da resistência coletiva contra a ditadura ‑ e contra a censura prévia ‑ fizeram Paulo Francis crescer como jornalista e como homem. Só então virou, “mensch”, um ser ético. Até seu estilo melhorou. Em O Pasquim, escrevia ainda com mais vigor e não recorria às muletas do insulto. Os textos eram também mais bem acabados e mais sóbrios. Sua prisão por três meses, durante a ditadura, com a equipe de O Pasquim, pode ter contribuído para a sua despedida das idéias de esquerda.

 

Racismo e preconceito

Paulo Francis tornou-se cada vez mais racista. Essa atitude preconceituosa pode ter nascido, segundo seu pequeno livro de memórias, na viagem pelo Brasil na década de 50, ainda jovem como ator do Teatro de Estudante, dirigido por Paschoal Carlos Magno. Foi a experiência de vida que marcou sua passagem pela adolescência, assim como o golpe de 64 marcaria sua passagem para a maturidade (12) e sua visão de uni Brasil com o qual não podia se identificar. “Nunca imaginei que existisse algo igual na face da terra. A subnutrição, a miséria, o atraso, a inconsciência quase absoluta do que é bem-estar, do que é uma sociedade civil, o atordoamento do ser humano bestializado por um clima...” (13) Garoto da classe média carioca, depois protegido pelos muros de um colégio de padres, ficou assustado. E enojado. Nunca havia estado perto da miséria, nem mesmo nos subúrbios do Rio, em Bangu ou Bonsucesso. “O mundo da classe média, no Rio, era uni mundo fechado.” (14)

O racismo de Paulo Francis atingiu povos mediterrâneos, negros e pobres de todos os tipos. Nordestinos. Tinha um forte conteúdo anglosaxônico, ou talvez calvinista. “Os portugas são mestres do ócio e da burrice”, disse dos portugueses. “Raça que ...se não fazia jus a um forno crematório, certamente mereceria uma lixeira.”(...) “Deixei (que os japoneses me apertassem a mão) mas com leve repulsa.” (...) “É pouco provável que um filho do Nordeste, região mais pobre do país, vergonha nacional, saiba alguma coisa, pois vive no século XVI”. Em junho de 1994, descreveu o senador Ronaldo Aragão como um ...mulato, feijão mulatinho... que parece descender do macaco certo (isto é, não de Lula). (15)

Na descrição do senador e na referência ao forno crematório, a arte de insultar de Paulo Francis sofistica-se: inclui um xingamento dentro de outro. Por ser gratuita, essa inclusão torna o segundo insulto ainda mais ofensivo. Assim é a insinuação de que certos povos podem fazer jus a fornos crematórios, inclusive, talvez os portugueses, certamente os judeus, para quem foram inventados. Lula é chamado de macaco, en passant. Esses exemplos, em sua maioria já da década de 90, revelam não apenas um Paulo Francis doentio, mas um país doentio e uma grande imprensa carente de qualquer referencial ético. Os insultos de Paulo Francis eram passíveis de processos na Justiça, inclusive pela implacável lei Afonso Arinos. O fato de que poucas vezes tenha sido processado denota a descrença do brasileiro na Justiça, em especial quando se trata de crimes de imprensa, injúria, calúnia e difamação.

Seu anglo-saxonismo levou-o a escrever: “A descoberta do clarinete por Mozart foi uma contribuição maior do que toda a África nos deu até hoje”. Essa frase sintetiza o método Paulo Francis. Primeiro, pela displicência com o idioma, pois ele deveria ter escrito: “maior do que tudo o que a África nos deu”, e não “maior do que toda a África nos deu”. Segundo, pelo reducionismo de seu “chute” de erudição, pois apesar da indiscutível valoração do clarinete por Mozart, Haydn, antes de Mozart, e Rameau, antes de Haydn, já haviam incluído o clarinete em suas composições. Terceiro, pela depreciação preconceituosa da África, desconhecendo que é do Egito, e portanto da África, o instrumento de sopro considerado precursor do clarinete. Sua frase também não faz justiça ao lugar do clarinete no jazz tocado pelos negros de New Orleans.

 

A fragilidade do homem Paulo Francis

Ao longo de sua vida, Francis sofreu perdas importantes. Perdeu a mãe, que o amava obsessivamente, quando tinha apenas 14 anos. Uma morte estúpida, de parto malconduzido, por negligência do pai, diz Francis. Sua mãe tinha então 37 anos. Perdeu o irmão mais velho, Fred, num desastre de avião. Perdeu três vezes o teatro. Primeiro quis ser teatrólogo, logo tentou ser artista de teatro, mas, apesar de apontado ator revelação pela crítica em 1952, faltou-lhe fôlego e talento para continuar. Teatro sempre foi sua grande paixão. Não ter escrito para teatro, sua maior frustração. Também tentou dirigir, ao retornar de seu curso com Eric Bentley, e chegou a montar cinco peças de teatro, sem, no entanto, conseguir se firmar como diretor. O rapaz tímido tornou-se um homem solitário, frágil e inseguro, segundo os que o conheciam. O Paulo Francis de carne e osso era uma pessoa gentil e educada.

Ao final de sua carreira, com a alma vendida ao neoliberalismo, completou a construção do personagem Paulo Francis, um apresentador de televisão que fazia o gênero do analista impiedoso, de pupilas fechadas e voz arrastada como se estivesse drogado ou bêbado, emitindo frases curtas em staccato, definitivas e cínicas. O personagem era a caricatura de si mesmo. Escondia-se atrás desse personagem, para agredir e continuar fazendo sucesso. Tinha virado, finalmente, o ator que sempre quis ser.

Paulo Francis morreu vítima de suas agressões, de seu próprio método. Armadilhas da história. Em fins de 1996, saiu o livro de mais de 400 páginas de Fernando Jorge, listando seus plágios e infâmias. Esse livro o desgastou bastante, segundo alguns amigos. (16) Logo em seguida, foi acionado na Justiça de Nova Iorque por Diretores da Petrobrás, num processo de difamação que poderia lhe custar todas as suas economias. Exigiam USA 110 milhões como reparação por danos morais. Paulo Francis os havia acusado de manter contas secretas de US$ 50 milhões na Suíça. Acusação repetida no Manhattan Connection, transmitido no Brasil pelo canal de TV a cabo GNT.

O processo foi aberto na Justiça de Nova Iorque, exatamente devido ao descrédito na Justiça brasileira em casos de crimes de imprensa. Os juízes brasileiros raramente admitem processos contra jornalistas, sob um pretexto ou outro, ou dirigem o processo contra o diretor-responsável da empresa jornalística, como ocorreu com o processo de Vicentinho contra Francis, transformado pelo juiz num processo contra Júlio de Mesquita Neto, diretor-responsável do Estadão.

Processado, teve de contratar advogados, também americanos, a peso de ouro. Passou a temer o empobrecimento súbito, a derrota e a humilhação. Morreu vítima da calúnia que tentou plantar.

 


 

1 Entrevista a Ivan Lessa, Londres, 1996.

2 Walnice Galvão. No calor da hora. São Paulo: Ática, 1977.

3 Paulo Francis. Cabeça de papel, e Cabeça de negro, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977 e 1979.

4 Revista Senhor, junho de 1961. Para seus textos de crítica teatral, ver a tese de George Moura, A crítica teatral de Paulo Francis, ECA/USP, de onde também foram tiradas algumas citações deste artigo.

5 O Brasil no inundo. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

6 Fernando Jorge. Vida e obra do plagiário Paulo Francis. São Paulo: Geração Editorial, 1996.

7 O afeto que se encerra. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1980.

8 Trinta anos esta noite. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

9 Jabor conseguiu a proeza de se autoplagiar: em 21 de abril de 1998, publicou na Folha de S. Paulo, com algumas mudanças, um artigo que já havia publicado em 23 de janeiro de 1996.

10 O afeto..., op. cit.

11 O afeto..., op. cit.

12 Trinta anos..., op. cit.

13 O afeto..., op. cit.

14 Ibidem.

15 Vida e obra do plagiário... op. cit.

16 Alberto Dines. Correio Popular, Campinas, 05/02/97.

 


 

O método Paulo Francis. In: Brasil país do passado? Ligia Chiappini e/o (org.) , São Paulo Edusp/Boitempo ,2000; pgs 276-285. Na edição alemã: Die methode Paulo Francis. In: Brasilien, Land der Vergangenheit? Ligia Chappini /Berthoild Zilly (Hersg), Frankfurt am Main, TFM, 2000.pgs 291-301.


 
     
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Comentários: 1

Comentários:
- Vinícius Silva
Ótimo texto, nos da uma cosmovisão da farsa que foi Francis, que infelizmente deixou discípulos que empobrecem o jornalismo contemporaneo...