Sistema e browser desconhecidos

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A vida dura de uma vice-consuleza, publicada no Jornal ABDC Maior na edição 339
 

 

Vocês devem achar que vida de diplomata é moleza, salário bom, imunidades, festas, recepções, tudo pago pelo Estado. E a cada cinco ou seis anos, um outro país, se tiver sorte Paris, Roma, Londres, e agora Berlim, as capitais de impérios, com suas óperas, seus museus. De fato é de se invejar.
Mas sempre há um outro lado. Veja aquela quarentona, sentada com as amigas na mesa ao lado, ela é vice-consulesa e queixa-se, exaltada; ouça como ela reclama; e as amigas só escutam, solidárias.
“Virei um cartório ambulante, passava o dia inteiro fazendo certidão de casamento, divórcio, registro de nascimento, passaporte, tudo, até atestado de óbito. “ “Mas as festas, a ópera...”
Que festas que nada, você acha que numa cidade como Frankfurt tem baile da corte? Tinha lá uns dois ou três museus, a feira do livro uma vez por ano, e só. Ainda se eu gostasse de livros...”
“E durou quanto tempo isso?
“Só em Frankfurt foram quatro anos; depois do segundo ano contratei uma auxiliar de confiança que despachava os pedidos de rotina, eu só tinha que assinar; em compensação, virei consultório sentimental.“
“Como assim?”
“São as brasileiras que casam com alemães. Quando chegam na Alemanha os caras trancam elas em casa e não deixam sair para nada. É uma combinação braba de ciúme com machismo. “
“Daí, procuravam você no consulado?”
“As que podiam, procuravam, vinham chorar no meu ombro. Teve uma dentista que casou com o alemão com a idéia de se especializar e virou “do lar”, como se diz. Passava o dia lavando e cozinhando, essa eu consegui tirar de lá numa boa. Depois desse caso, acho que criei fama, todo dia tinha uma que me procurava.”
 
“Eles também batem nas mulheres?”
“Não, são muito espertos, não querem dar pretexto, elas até aceitariam uns safanões de vez em quando, desde que pudessem sair; é pior que apanhar elas dizem, não batem mas não deixam um tostão em casa e nem deixam elas trabalharem; não recebem ninguém e nem vão à casa de ninguém, e trepam, trepam, uns animais elas dizem, depois saem sozinhos para encher a cara.
 
“São prisioneiras na própria casa,” comenta a amiga loira desbotada sentada à sua direita.
“São escravas sexuais,” proclama a outra, de óculos, sentada à sua frente.
“E depois de Frankfurt, na Colômbia, como era?”
“Em Bogotá servi pouco tempo, pouco mais de dois anos; muito pior que na Alemanha. Em Frankfurt eu podia sair sozinha, entrar em qualquer bar, restaurante, ir a um concerto a um cinema. Em Bogotá, nem pensar. Mulher sozinha na rua à noite é abordada como se fosse uma prostituta. Nem mais nem menos.”
“ E tem também muita brasileira casada com colombiano? “Poucas e muito bem tratadas. Os colombianos ricos são uns gentleman, parecem aqueles fazendeiros do século passado, e são esses que viajam para o Brasil e acabam casando com uma brasileira.”
“Vou dizer para minha filha procurar um colombiano rico.”, diz a loira.
“Mas tem um problema,” adverte a vice consulesa, “Na Colômbia é norma o homem ter outra mulher, além da esposa.”
As amigas falam uma atropelando a outra.
“Como assim, é norma?”
“ E as esposas, as legítimas, não reagem ?”
“Não fiquei lá tempo suficiente para saber, parece que aceitam numa boa, desde que os maridos as tratem bem; nunca uma brasileira veio reclamar comigo ou pedir desquite.”
“É uma poligamia às escondidas”, diz uma delas.
“É bigamia, e não é às escondidas, todos tem, quem se preza,tem”.
“Qual foi o pior lugar em que você serviu?”
“Assunción, não tem lugar pior que esse, a única vantagem é que fica pertinho, qualquer feriado dá para vir
para cá.”
“E porque é tão ruim lá?”
“Por tudo, é um fim de mundo, é como uma cidade morta do interior, e tem problema demais; os brasilguaios são muito discriminados, não dão registro de nacionalidade para os filhos de brasileiros, dão um registro diferente, tem muito conflito de terra com brasileiros, e
a gente é que tem que resolver. ”
“E tem muita brasileira casada com paraguaio?
“Tem as de origem árabe, lá está cheio de árabe, porque não precisa visto de entrada, o cara entra por lá, casa com uma brasileira de origem árabe que já foi prometida para o cara lá no Líbano ou na Síria, depois vão ao consulado, pedem visto temporário, e entram, no Brasil, quando
nasce o primeiro filho. Pedem cidadania e pronto.
“É verdade que eles podem ter até quatro mulheres?” “Acho que isso é mais lenda do que realidade, mesmo lá na terra deles; no consulado é uma só, e tem mais, se a gente descobre é crime, crime de poligamia; o que tem muito é casamento arranjado.”
“E como são esses casamentos arranjados?
“Não vejo nada demais, é como casar pela internet”, diz a loira.
“É e não é, diz a vice – consulesa. Num dos casamentos que eu fiz a moça foi prometida quando tinha 9 anos; depois a garota completou faculdade, fez curso de fonoaudióloga, quando ia fazer estágio o cara aparece do Líbano cobrando o contrato entre as famílias. Eu até fiquei amiga dessa moça. Ela chorava, coitada”
“E daí, casaram?
“Claro que casaram, contrato entre eles é sagrado.” “Coitada, esse mundo machista...”
“Coitada nada, está feliz, tem três filhos lindos, outro dia me mandou uma fotografia.”
“E para onde vão te mandar agora? Pergunta a loira. “Dizem que é Riad, na Arábia Saudita, um horror, ali mulher nem pode guiar carro; está entre Riad e Tel Aviv. “
“E o que você prefere ?”
“Sabem de uma coisa, já sou quase quarentona, está na hora de arranjar um homem para mim, um homem bom, de preferência, bom e rico; dizem que Israel está cheio de judeu rico, passando dos cinquenta e procurando mulher madura para curtir a vida; casamento com judeu é a melhor coisa, não bebem, não batem na mulher, na cama se contentam com pouco; acho que prefiro Tel Aviv; chega de fazer casamento dos outros, agora, quero fazer o meu.
 
publicada no Jornal ABCD Maior na Edição nº 339

 
     
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