Sistema e browser desconhecidos

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Agenda:

A mídia de FHC e o fim da razão
 

A mídia de FHC e o fim da razão

BERNARDO KUCINSKI (1)

 

“FH acreditou que poderia ser a síntese entre a metrópole e a periferia, que poderia manipular ideologias divergentes em nome da razão”

(Arnaldo Jabor. “Há uma inexplicável cisão entre o dito e o feito de FHC.” Folha de S. Paulo 02/02/99, Folha Ilustrada, p 4.)

 

“A imprensa...parece aqueles violinistas do Titanic, que ficam tocando até o barco afundar...”

(Seção de carta da Folha de S. Paulo, citada por Carta Capital 03/02/99).

 

“...a mídia é totalmente tucana... Fernando Henrique fala bonito, os tucanos falam bonito, jornalista gosta de gente que fala bonito. Na verdade, acho que jornalista tem é um pouco de complexo de inferioridade perante o mundo acadêmico...

(Macaco Simão, Carta Capital 03/02/99).

 

Introdução: invertendo as premissas

Quando se pergunta o que levou a mídia a fechar tão completamente com o governo Fernando Henrique ao longo de todo o seu primeiro mandato, logo vem a suspeita de que a questão deveria ser invertida: existiria alguma razão para que assim não fosse? Dificilmente. Desde a era Collor, o projeto patronal de desmonte do Estado e abertura comercial ganhou efetivamente as mentes e corações da maioria esmagadora de jornalistas e das classes médias às quais eles pertencem e às quais servem.

Desprovidos de veículos de comunicação de massa, e sem um discurso alternativo novo com igual poder de sedução, o campo popular, com a exceção do movimento de desobediência civil do MST, ficou falando para si mesmo; trabalhadores organizados e os funcionários públicos mais resistentes, acabaram estigmatizados como sabotadores do novo ideário porque seu discurso não foi entendido pelo grosso da população como de defesa dos interesses gerais e sim dos seus interesses exclusivos.

A única razão possível para a mídia não apoiar Fernando Henrique seria o caráter crítico do jornalismo como profissão intelectual frente às evidências, para qualquer mente dotada de raciocínio lógico, do seu modo dogmático de governar e dos conteúdos anti-sociais e antinacionais de suas políticas. O que impressiona é justamente o colapso da Razão na era Fernando Henrique. Era necessário que o apoio da mídia implicasse no colapso da razão crítica da própria mídia?

 

1. O sistema e seus interesses

Para o capital estrangeiro, a reestruturação chamada neoliberal trouxe o pagamento de parte da dívida externa com patrimônio público, a abertura dos mercados bancário, de energia e de telecomunicações a capitais estrangeiros. Um projeto de valor estratégico especialmente para os bancos, conglomerados de serviços e da indústria de telemática que passaram a comandar a acumulação na América Latina, e os operadores dos setores de energia e transportes que exauriram seus mercados nos Estados Unidos e Europa.

Apesar de exigir um grande esforço de adaptação dos grandes empresários brasileiros, a proposta foi por eles apoiada consensualmente e com entusiasmo, porque abria espaço à sua própria expansão como sócios menores dos consórcios de privatização ‑ testas-de-ferro pós-modernos, aquinhoados com pedaços do patrimônio das estatais e seus mercados. Assim se tornou hegemônico o projeto que levou a relação de dependência e limites inimagináveis pelos seus teóricos. Não se manifestou, em momento algum, qualquer dissidência burguesa antagônica a esse modo de acomodação da economia brasileira à nova expansão do grande capital estrangeiro.

Esse projeto vinha sendo unanimemente apoiado pela mídia brasileira desde suas origens mais remotas, na primeira renegociação da dívida externa brasileira em 1982, quando foram lançadas suas bases. Desde então a mídia como um todo vilipendia os que ousam outros caminhos, como Dilson Funaro, último sobrevivente, na época, da fração hoje extinta conhecida como “burguesia nacional” (da mesma forma passou a vilipendiar Itamar Franco, que reergueu mais de dez anos depois a bandeira da moratória de Funaro).

Para apoiar o passo seguinte, o desmonte da Constituição cidadã de 1988, o grande empresariado brasileiro criou no interior da Federação das Indústrias dos Estado de São Paulo, em 1993, sob a liderança de Jorge Gerdau, uma operação de cunho ideológico-propagandístico, a Ação Empresarial”. (2) O alinhamento da mídia a Fernando Henrique começou logo depois, com o sucesso do Plano Real de estabilização em meados de 1994, e manteve-se durante todo o seu primeiro mandato, aparentemente motivado ‑ apenas aparentemente ‑ pela personalidade do presidente, sua fama de intelectual importante, em contraste com o horror inspirado nas classes médias pela alternativa Lula.

Com as pressões pela reeleição, incluindo a compra de votos, em meio ao agravamento do quadro social, o prestígio de Fernando Henrique foi abalado, mas nem por isso a mídia passou a criticar seu projeto. Ao contrário, a sustentação da mídia tornou-se então determinante. E não se alterou quando o empresariado assumiu um discurso público contrário aos juros exorbitantes da política econômica do governo, nem mesmo com o colapso final do Real, tratado como um caso de inépcia da equipe econômica e não como evidência de que seu projeto não prestava. O apoio da mídia é ao projeto de reestruturação econômica e do Estado, no início magnificamente personificado pelo presidente, e não ao presidente em si.

Fernando Henrique tinha consciência disso. Tanto assim que, perseguido pelo fantasma de sua teoria crítica da dependência, e pelo rótulo “social-democrata” de seu partido, apressou-se, logo que eleito, a esclarecer que não havia apenas desempenhado o papel circunstancial de derrotar Lula; de que efetivamente apoiava a reestruturação e repudiava suas idéias do passado. Esse foi o sentido da senha “esqueçam tudo o que eu escrevi”.

O sistema mídia como um todo fechou com o sistema de poder e por tabela com o sistema governo. Apenas alguns poucos veículos isolados e de circulação restrita, como Carta Capital, manteve-se também sistematicamente crítico a FHC e portanto fora do sistema de apoio. Veja tem sido o veículo mais explícito em colocar a reestruturação nos termos exatos em que é formulada pelo grande capital como um imperativo histórico, visão subjacente à postura de toda a mídia brasileira. Dos grandes jornais, apenas a Folha de S. Paulo matizou seu apoio sistêmico com revelações pontuais que podiam eventualmente pôr em risco o governo. A ausência de pluralismo, outro notável característica do discurso da mídia durante o primeiro mandato de Fernando Henrique, é mais um sintoma do caráter sistêmico do apoio. Apenas dois ou três colunistas mantiveram-se críticos ao governo, entre eles Jânio de Freitas, Cony e Aloysio Biondi, nenhum deles, no entanto, engrossando o discurso tradicional do campo popular.

O apoio acrítico e irrestrito das empresas de comunicação a FHC foi sobre determinado pelas volumosas privatizações das telecomunicações nas concessões de novas freqüências de transmissão de rádio e TV e de áreas de exploração da TV a cabo. O traço central da reforma dos sistema Telebrás no governo Fernando Henrique foi a sua fragmentação em empresas regionais que passariam a ser disputadas por grupos privados interessados em reorientar suas estratégias de expansão, centradas agora nas telecomunicações. O início do processo se dá justamente no primeiro ano do primeiro mandato de Fernando Henrique, 1995, quando Sérgio Motta comanda a enxurrada de modificações constitucionais e legais que reorganizam o setor e definem as posições relativas a diversos grupos de interesses na nova formatação.

As grandes empresas de comunicação já estavam respondendo ao desafio tecnológico que trouxe uma súbita e crescente segmentação de audiências, através de políticas de concentração da propriedade, acumulação de concessões e formação de conglomerados de mídia. Outros setores empresariais também passam a investir pesado na indústria de comunicações, a partir da percepção de que ela se tornara nucleadora e condutora de um novo ciclo de expansão e acumulação do capitalismo baseado no sinergismo entre telemática, consumis-mo, entretenimento e lazer.

Assim se articulou, em torno da reestruturação da indústria das telecomunicações, o apoio acrítico, laudatório mesmo, de cada empresa em particular, e do sistema mediático como um todo a Fernando Henrique. Criou-se um nexo entre o projeto estratégico geral da desestatização e os interesses setoriais das empresas de comunicação, abarcando desde as empresas menores, regionais, até os grandes conglomerados de mídia. Os poucos que não se reposicionaram nesse processo foram alijados do mercado, como ocorreu com o grupo Manchete.

Como mostra a história da troca de concessões de rádio e TV por votações no Congresso e outros favores nos governos Figueiredo e Sarney, o “coronelismo eletrônico” tornou-se parte integral da cultura política brasileira durante o abandono gradual da ditadura. Uma forma de controlar a própria transição. (3) Fernando Henrique reativou esse instrumento clientelista, deixado de lado por Itamar Franco. Prometeu, além das privatizações das Teles e da concessão de 140 áreas de TV a cabo, a reabertura das outorgas de freqüências de rádio e TV Seriam concedidas 610 novas freqüências de rádio e TV em lotes mensais de 60.

Mesmo sendo sócios dessa grande empreitada, tanto os grandes empresários das comunicações, como as oligarquias políticas interioranas que dominam a mídia eletrônica regional, sentiram-se reféns do governo, dado o poder do Ministério das Comunicações de favorecer um ou outro grupo. Apesar de sujeitas formalmente a licitações, abertas a todos os interessados, as empresas precisam se pré-qualificar e, como mostrou o grampo do BNDES, dependem muito dos favores e humores do governo. Nas licitações da TV a cabo a palavra final sobre os vencedores da licitações é dada pela Comissão de âmbito nacional, subordinada ao Ministério das Comunicações.

Nas primeiras licitações em fevereiro de 1997, foram oferecidas 122 frequências de rádio e TV em 118 municípios. A maioria foi vencida por pequenas e médias empresas que já atuavam em comunicações, possuídas por caciques políticos e grupos econômicos locais já favorecidos nos governos Figueiredo e Sarney. (4)

Para grandes empresas, como a Editora Abril, e grupos Roberto Marinho, Folha de São Paulo, O Estado de S. Paulo, Silvio Santos e RBS, estavam em jogo interesses maiores, estratégicos que implicavam na reestruturação e definição dos objetivos centrais de cada grupo, devido à abertura das concessões de TV a cabo em todas as grandes e médias cidades brasileiras, a partir da aprovação da Lei do Cabo, em 1995, e das concessões de telefonia.

O grupo RBS disputou as concessões de telefonia na região Sul, onde já controla grande número de jornais e emissoras da rádio e TV O Grupo Estado associou-se à Bell South americana, criando a OESP Gráfica, para explorar o novo mercado das listas telefônicas em 250 cidades brasileiras de 25 estados. O grupo Folha reagiu associando-se à Quad Graphics, também americana, criando a Plural Editora e Gráfica, para explorar o mercado de multimídia; ao mesmo tempo, o grupo Folha uniu-se ao Unibanco, Odebrecht e à americana de telefonia celular Air Touch, para explorar a telefonia celular no Brasil. O Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) de Silvio Santos, com faturamento anual de US$ 2 bilhões, interessou-se pelo mercado de telefonia e provedores de Internet, em parcerias com a americana GTE; e em parceria com TV Bandeirantes e Jornal do Brasil, formou o consórcio TV Cidade, que se tornou o maior dos novos provedores de TV a cabo, operando em 13 cidades grandes. (5)

O maior conglomerados de mídia do Brasil e um dos maiores do mundo, as Organizações Globo, de Roberto Marinho, com faturamento anual da ordem de US$ 5,5 bilhões (dados de 1997) redefiniu “mídia, entretenimento e telecomunicações” como o “core-business” de sua atividade, e se aproximou da Bell South e grupo Maxitel para disputar as concessões das empresas espelhos de telefonia (banda B). (6) E consolidou sua posição dominante no mercado de TV a cabo, controlando 50 provedoras através da NET, e da SKY. Ainda lançou a semanal Época, em parceria com a revista alemã Focus, sincronizada para impactar a campanha de reeleição, e sinalizadora de um desejo de enfrentar o outro grande conglomerado de mídia brasileira, a Editora Abril, no seu próprio terreno, o das revistas, que a Abril domina. A Abril, por sua vez, aumentou seus esforços de penetração no mercado de TV iniciado com a MTV e agora ampliado com a criação da TVA para operar TV a cabo.

 

2. O discurso único e o seu colapso

O discurso do jornalismo na era Fernando Henrique é essencialmente econômico e não veio para explicar e sim para persuadir. Originário do exterior, das crises do dólar que seguiram à denúncia do acordo de Bretton Woods, começou a tomar forma no Brasil a partir da crise da dívida externa, quando o triunfalismo da mídia brasileira cedeu lugar a sentimentos de baixa auto-estima e colonialismo. É um discurso que não considera o homem como protagonista das histórias e sim as empresas, os executivos, os fundos de pensão, enfim as várias representações do capital e seu processo de acumulação. Com esse tipo de discurso articulador de interesses estratégicos da grande burguesia, a impressa brasileira passou a adotar uma linguagem de abstrações, que, aliada ao seu governismo, alienou-a da realidade e do povo? (7) Esse discurso possui uma semântica própria formada por aquilo que Umberto Eco (8) chamou de conceitos-fetiche, associações de palavras de sentidos antagônicos que suscitam reações afetivas ao invés da reflexão. O primeiro foi o "eurodólar", contrapondo dólar (americano) com euro (Europa). Durante três décadas, os mais destacados economistas discutiram se eurodólar criava crédito ou não, era ou não a moeda universal. Quando a crise da dívida externa estourou em 1982 porque o Federal reserve elevou brutalmente os juros sobre as dívidas já contraídas por países periféricos, ficou claro que eurodólar nada mais era que o próprio dólar americano, travestido de moeda mundial para fugir aos controles de bancos centrais europeus. (9)

Realidade virtual é um conceito fetiche. Assim como tempo real, economia virtual e principalmente os dois macro-significadores: “globalização”, e “neoliberalismo”. Globalização justifica tudo sem explicar nada. Desperta emoção, angústia, fascínio, subordina todo raciocínio aos seus pressupostos nunca explícitos, muito menos claros. Deu o tom dos discursos do presidente, e justificou todas as políticas de Pedro Malan. É tão intensa a emoção despertada pelo macro-significador “globalização” que até a esquerda, crítica, rendeu-se ao seu poder de articulação de sentidos.

A expressão “neoliberalismo”, outro típico conceito-fetiche, que tentar associando neo (novo) com uma das mais velhas e encardidas doutrinas econômicas, é uma articuladora de sentidos cunhada segundo o mesmo mecanismo que cunhou globalização, mas apropriado pela esquerda, com sinal contrário.

A partir do macro-significador “globalização”, o jornalismo da era Fernando Henrique, vai fetichizando a linguagem jornalística. Por exemplo, devido à “globalização” é preciso reduzir o “custo Brasil”, sem explicar que o salário do brasileiro já é um dos mais baixos do mundo, ou reduzir o “déficit público”, sem que seja feita a distinção entre gasto público necessário e supérfluo, entre investimentos de estatais com recursos próprios ou do Tesouro. Gradativamente a cobertura passa a ser viciada também pela supressão da informação e da memória jornalística. Já durante o saneamento dessas empresas com recursos públicos, para passá-las a mãos privadas, foi preciso esquecer o argumento original que justificava as privatizações acusando as estatais de perdulárias e deficitárias. Pois se é possível saneá-las, por que passá-las ao setor privado?

Quando o próprio BNDES passou a financiar a compra das primeiras estatais dos setores petroquímico e siderúrgico, desmoralizando outra justificativa para as privatizações, a de que o Estado estava falido e não tinha recursos para a necessária expansão e modernização das empresas, os sofismas tomaram de assalto o discurso jornalístico. Críticos da reestruturação passaram a ser desclassificados como “dinossauros” e “atrasados”, sem que seus argumentos fossem discutidos. Deputados contrários às propostas do governo ou adeptos de propostas alternativas foram chamados pela imprensa de “contras”, numa referência aos criminosos contratados pela CIA para fazer sabotagem na Nicarágua. Os que prognosticam o fracasso foram desclassificados como adeptos da “fracassomania”.

Assim foi nascendo no interior da própria mídia uma cultura de intolerância e desvalorização do mérito das questões, exatamente como na guerra-fria. O que deveria ser a diretriz fundamental do trabalho do repórter ‑ perguntar sempre ‑ reduz-se emblematicamente a uma pequena retranca “perguntar faz mal? “da coluna de notas do O Estado  de São Paulo. Surgiu o “discurso único”, que na opinião insuspeita de Delfim Netto, “interditou o debate” ao proclamar a infalibilidade do governo ‑ como a Igreja Católica proclama a infalibilidade do papa. Ao final desse processo, a mídia havia abandonado sua capacidade analítica e seu espírito crítico; havia se tornado incapaz de tirar conclusões lógicas das mais elementares e evidentes premissas. Quando foi anunciado o primeiro acordo com o Rindo Monetário Internacional, em novembro, sua meta de superávit comercial implicava necessariamente numa desvalorização logo que as coisas se acalmassem. Mas a mídia nem se deu ao trabalho de ler o documento e interpretou o acordo como queria o governo para ganhar tempo e ajuda a poeira a baixar: como um endosso à manutenção do gradualismo na política cambial.

O predomínio de um modo dogmático de saber é uma das mais curiosas e originais características da era Fernando Henrique. “Durante meses e anos havia certos dogmas oficiais: os juros baixariam paulatinamente, o dólar permaneceria sob controle nos níveis estabelecidos pelo Banco Central, o desemprego iria sendo absorvido pelo mercado; o desenvolvimento voltaria no dobrar da esquina; quem falasse o contrário ou estava atacado de sinistrose ou adotara comportamento prejudicial ao Brasil”. (10) Fernando Henrique chegou a classificar as idéias de Gustavo Franco como uma “Revolução Copérnica” e José Roberto Mendonça de Barros passou um pito nos economistas críticos, alegando que “a transformação da economia brasileira estava sendo tão profunda que exigia um pouco de sofisticação na discussão da política cambial.” (11)

A partir da tese de que liberar a economia era o único caminho e Fernando Henrique a única solução, não houve debate nem mesmo durante a campanha eleitoral. O eleitorado acabou escolhendo o mal que já conheciam, por temor de um mal maior, caso elegessem um Lula sem condições de governabilidade.

Foi preciso o colapso do Real para alguns colunistas começarem a suspeitar de que foi o governo que operou com base em dogmas e não as oposições. A saída Gustavo Franco, em janeiro de 1999, sinalizou o abandono do primeiro dogma o do câmbio. Nos diversos setores manufatureiros e agroexportadores, foi com um sentimento de profundo alívio que se recebeu a primeira desvalorização de cerca de 15 a 20 por cento. A queda do dogma de quatro anos de câmbio baixo e juro alto pode ser comparada ao que sentiram os alemães na queda do Muro de Berlim.

Mas, mesmo nesse colapso total, como veremos, a mídia tergiversou sobre a crise. E jogou a culpa nos que o haviam antecipado e advertido para a necessidade de mudanças, sob o argumento de que obstaculizaram as reformas. “O governo tentou, com o apoio de que dispunha no Congresso, aprovar as reformas que atenuariam a crise fiscal. Não conseguiu integralmente o seu intento, graças à oposição de partidos como o PT e de políticos como Lula. São esses os responsáveis pela vulnerabilidade da economia brasileira. (12) Um terror mediático foi desencadeado contra o Congresso, ao ponto de muitos deputados aprovarem constrangidos, em janeiro de 1999, o confisco dos proventos dos aposentados do serviço público, que haviam rejeitado em quatro ocasiões anteriores.

 

3. O jornalismo e suas misérias

A redemocratização, paradoxalmente, levou ao esvaziamento do jornalismo brasileiro, trocado por inúmeros intelectuais por outras atividades, inclusive pelas demandas da própria abertura. As redações se empobreceram; os imaginários nacionalistas, populistas ou socialistas de transformação através de ações coletivas foram abandonadas e seus espaços ocupados por esse novo ideário pós-moderno da busca de soluções individuais. Jornalistas não mais acompanharam a literatura crítica ao capitalismo que continuou sendo produzida em outros países. Com uma boa dose de auto-engano, passaram a ver a abertura e liberalização econômica como sinônimo de modernidade. O Plano Real passou a operar no imaginário coletivo, inclusive dos jornalistas, como novas promessas de redenção, sucessora de outros projetos de libertação, todos fracassados, o projeto da libertação pelo aço de Volta Redonda, depois pelo petróleo da Petrobrás, depois pela reserva de mercado de informática. Como se um modelo econômico em si mesmo levasse ao progresso.

Mas o principal encanto do novo ideário para o jornalista está na possibilidade, pela primeira vez em décadas, de poder exercer uma profissão demarcada por uma ética de interesse público sem, no entanto, ter que se incomodar com o sofrimento do outro e sem se sentir culpado por causa disso. Apenas parcelas do campo popular mantiveram a esperança em soluções coletivas e solidárias, mas nem conseguiram ampliar no campo popular e muito menos persuadir as classes médias.

Quando Fernando Henrique assumiu, o jornalismo havia se transformado numa profissão de passagem exercida majoritariamente por jovens de 25 a 30 anos, que tinham no máximo 15 ou 16 anos de idade durante a campanha das Diretas Já. Essa geração tem uma relação superficial com a cultura clássica, valoriza os faits-divers mais mundanos, descrê de ideologias e não entende o jogo das variáveis econômicas no Plano Real. Na edição dos jornais, tenta resumir a vida em tabelas de computador ou em debates de nível ginasiano “contra e a favor”. Fernando Henrique aparece para esses jovens relativamente incultos, deslumbrados com o poder e possuídos de sentimentos de inferioridade frente ao saber acadêmico, como o mestre que tudo sabe e que lhes pode passar um pito ou uma nota baixa.

Sentem-se também sob a permanente ameaça de demissão, pois a indústria da comunicação no Brasil sofre crises recorrentes de contração, que são resolvidas pelas demissões em massa. Num ambiente extremamente competitivo, ferido por cortes repentinos de vagas, a ambição máxima do repórter é a de marcar uma presença mas sem se deixar marcar como um radical. Somente em São Paulo, no bimestre anterior ao mês das eleições de 1998, 200 jornalistas foram demitidos em sete grandes grupos de comunicação. (13) No Rio, na mesma época, foram demitidos 500 jornalistas da TV manchete e 93 na Globo. (14)

Destacam-se, nesse panorama desolador, os colunistas, jornalistas privilegiados, em geral mais velhos e com melhor formação, que ocupam espaços simultaneamente no rádio, na TV e em dezenas de jornais das grandes cidades. Não por acaso, os principais colunistas da imprensa brasileira, os que têm mais espaço, e que aparecem simultaneamente nos jornais, no rádio e na TV são comentaristas especializados em economia. Em sua maioria esmagadora, alinharam-se ao projeto da desestatização da economia brasileira, da abertura econômica e do desmonte do Estado solidário. E alinharam-se sinceramente, não por oportunismo, ainda que tenha sido uma adesão para muitos deles bastante oportuna. Tornaram-se jornalistas de repetição do discurso oficial, até chegar a hora da verdade, quando a prioridade passou a ser a preservação de sua credibilidade e então ‑ só então ‑ passaram a fazer a análise crítica.

É notável a sistemática sustentação por essas griffes jornalísticas, das políticas públicas propostas pelas elites. Por um processo de seleção natural, os jornalistas que já tinham prestígio mas não aderiram às elites foram sendo alijados dos melhores espaços, especialmente da televisão e das mesas-redondas, apesar de alguns ainda manterem colunas em jornais. Assim, essa ocupação de espaços pelas griffes, foi também um processo de perda de pluralismo ideológico. Há entre eles notáveis pensadores, que mantêm seu espírito crítico, como Fanklin Martins, Washington Novaes e Mareio Moreira Alves, jornalistas de velha guarda. Mas os apoiadores do projeto de reestruturação, os repetidores do discurso oficial ganham os maiores espaços. (15) Com os artistas de telenovelas e programas de auditório, os colunistas são formadores de opinião no processo de determinação da agenda no Brasil, de definição do que é problema e o que não é, e dos termos em que devem ser discutidos.

Não só no Brasil, também na França e em alguns outros países, os interlocutores ideais das griffes jornalísticas são os “empreendedores”, empresários supostamente schumpeterianos, com os quais mantêm uma relação de cumplicidade, como se fossem todos sócios de uma mesma empreitada histórica que infelizmente precisa enfrentar a oposição dos “atrasados,” dos “obscurantistas”, dos “interesses corporativos”. Com os quadros do governo mantêm uma relação de reverência, conforme a feliz definição de Serge Halimi. (16) Também passaram a ocupar amplos espaços na mídia os próprios empresários mentores da reestruturação ou seus intelectuais orgânicos, como Benjamim Steinbruch, Ermírio de Moraes, Miguel Jorge e Mailson da Nóbrega.

 

4. A mídia de FHC e suas táticas

Ao assumir como seu o discurso do governo através do um jornalismo declaratório e oficialista, a mídia tornou-se também instrumento de suas manobras diversionistas, de desinformação e da reiteração de verdades auto-proclamadas. Houve veículos e jornalistas que em certos momentos exerceram o espírito crítico e houve até mesmo episódios de jornalismo investigativo, em especial os casos da compra de votos e dos grampos no BNDES, que colocaram o governo em risco. A Folha de S. Paulo destaca-se como o jornal que mais repetidamente cutucou o governo.

O que caracterizou o apoio sistêmico foi o fato de que a própria mídia ter se encarregado de isolar esses jornalistas e veículos, e/ou reelaborar rapidamente o discurso mediático, de modo a esvaziar essas crises. A mídia agiu coletivamente como um corpo de bombeiros do governo, acionada regularmente para apagar incêndios provocados por jornalistas ou veículos que isoladamente não haviam entendido ou aceito as regras do jogo. É um caso particular do modelo marxista-estruturalista de Althusser que hoje deve estar sorrindo no seu túmulo, pois na época em que o formulou foi muito criticado. (17) Para ele, a mídia burguesa é um dos “aparelhos ideológicos de Estado”, com as atribuições, junto com a Igreja e as escolas, de garantir as condições de reprodução do sistema.

Assim, no caso do grampo do BNDES, foi enfatizado o modo “criminoso” como as fitas haviam sido obtidas ou o modo “tendencioso” como teriam sido editadas, e não os crimes que elas revelavam, apesar das fitas não terem sido sequer gravadas por jornalistas, e nem os trechos divulgados especialmente editados, muito menos distorcidos. Nenhuma dessas restrições foi aplicada aos episódios da compra de votos, ou o caso de corrupção que atingiu políticos cariocas na mesma época do grampo e também baseados em gravações.

A abordagem diversionista adotada pela mídia, especialmente pelos colunistas formadores de opinião, no caso do grampo do BNDES, no momento mesmo de sua primeira revelação, deveu-se à gravidade fazendo delas uma questão estratégica. Foi uma abordagem elaborada nos corredores do Palácio do Planalto e totalmente encampada pelo discurso mediático. No caso anterior, da compra de votos, não foi preciso criticar como criminosa a forma de obtenção das gravações, essas sim feitas diretamente numa operação jornalística, porque o sistema mídia conseguiu o mesmo resultado isolando a Folha de S. Paulo.

Mas numa democracia ‑ e daí as restrições a Althusser - não é natural a mídia se limitar ao papel de aparelho ideológico do Estado. A realidade dura e cruel que vivemos acaba se impondo nos noticiários do fim de tarde, nas notícias que a mídia precisa vender, criando percepções populares indesejadas pelo sistema governo. Em maio de 1998, deu-se a virada da opinião pública, após a seqüência de incêndios na Amazônia, revelando negligência do governo, e os saques de alimentos por nordestinos desesperados com a seca, cenas que nos colocavam muito mais perto do Quarto Mundo do que do Primeiro Mundo prometido por Fernando Henrique. Subjacente a isso, aumentava o desemprego, a inadimplência e as quebras de empresas. Quando as pesquisas de opinião pública mostraram uma perigosa aproximação entre os índices de preferência de Lula e de Fernando Henrique, foi dado um salto de escala no acionamento da mídia como o corpo de bombeiros do sistema.

Como ficaríamos sabendo pela Veja só depois de assegurada a vitória de FHC no primeiro turno, ou seja, cinco meses depois, “...Fernando Henrique convocou para conversas um grupo de pessoa muitíssimo influentes... os barões da elite brasileira... queixou-se das televisões, que no seu entender, vinham maltratando o governo com ênfase exagerada em notícias ruins, que acabavam azedando a avaliação popular do governo. Procurou os donos da Rede Globo, reclamou que o Jornal Nacional tinha ampliado a cobertura de temas como a seca no Nordeste, os saques e o arrocho de salários, o incêndio de Roraima_ depois dessas conversas em que agitou o fantasma da renúncia, teve apóia imediato. A seca desapareceu do noticiário, o aumento do salário mínimo fui esquecido e os pajés apareceram para apagar o incêndio de Roraima...” (18) Neste encontro, impensável em democracias do Primeiro Mundo em tempos de par, acenando com o fantasma de Lula, ameaçando renunciar à sua candidatura à reeleição, Fernando Henrique reenquadrou a mídia e restabeleceu o sistêmico de seu suporte ao governo.

A outra grande conseqüência do encontro de FHC com os barões da burguesia brasileira foi a organização por Mauro Salles, em julho, sob a égide da “Ação Empresarial da FIESP, da secreta e subliminar “Campanha do Bom Astral”, com o objetivo de potencializar campanhas publicitárias regulares e rotineiras das grandes empresas a favor do Plano Real, uniformizando algumas características de suas mensagens que por sua vez seriam associadas à imagem de Fernando Henrique e de seu governo. (19) A idéia original era a de usar intensamente as cores da bandeira nas campanhas publicitárias, e associá-las a frases otimistas sobre o Brasil, para canalizar ao governo a empatia dos torcedores durante a Copa do Mundo e defender a política econômica do governo. Nem a derrota na Copa acabou com a campanha do Bom Astral, da qual surgiu o olho azul da Veja contra o fundo verde-amarelo, o slogan “orgulho de ser brasileiro”, do grupo Pão de Açúcar.

Quando sobreveio a grande primeira crise do Real, em outubro de 1997, criou-se um desses momentos em que o projeto corria riscos. Mais uma vez, como corpo de bombeiros que corre para apagar um incêndio, em vez de criticar o governo e discutir alternativas, a mídia erigiu Pedro Malan e Gustavo Franco em heróis de uma resistência nacional contra o ataque da especulação mundial. Os espaços nobres dos jornais foram ocupados por grandes matérias com os economistas alinhados ao governo, e fotos imperiais de Malan e Fernando Henrique. Até mesmo os críticos pela direita, como Delfim Netto, foram ignorados pela mídia.

Encaixa-se notavelmente no modelo de Althusser, o apoio decisivo da mídia à reeleição de FHC. Tratava-se literalmente de garantir as condições de reprodução do sistema. Daí o apoio decisivo e irrestrito, apriorístico. Fernando Henrique certamente não teria sido reeleito se tivesse desvalorizado o Real em setembro, e ele contou com a complacência da mídia para sua tática de procrastinação, que depois teria o custo elevado que hoje todos conhecemos. Pelo mesmo motivo os jornalistas seguraram até depois da eleição os vazamentos insistentes sobre a existência das fitas gravadas do BNDES e do dossiê Cayman.

Apesar de algum esforço isolado em aprofundar a investigação, especialmente por parte da Folha de S. Paulo, que mais uma vez, como no caso da compra de votos, viu-se isolada pelo conjunto da mídia, o dossiê caiu no esquecimento. A Folha conseguiu provar que existia uma empresa com a sigla CH, J & T, com sede em Nassau, como dizia o dossiê. (20) Mas essa pista não foi perseguida pelo restante da mídia e a própria Folha acabou por abandonar a investigação.

Churchill dizia que “a imprensa nunca sabe de nada.” Isso foi no contexto da guerra, quando as informações vitais fluíam por canais secretos. Efetivamente, mesmo os mais bem relacionados repórteres têm acesso a apenas uma parte diminuta dos fatos relevantes que ocorrem todos os dias. Mas quando se trata de rachas no governo e decisões de gabinete em tempos de paz, a mídia em geral tem quase sempre alguma noção de que algo está concorrendo, mesmo quando não consegue os detalhes. Mas durante o governo Fernando Henrique, o que se deu foi a supressão ao público de informações sobre crises e episódios de interesse público, que os repórteres conheciam, mas se fossem revelados naquele momento prejudicariam Fernando Henrique.

Outro notável exemplo desse comportamento foi o livro instantâneo de Josias de Souza e Gilberto Dimenstein, revelando bastidores da implantação do Real, especialmente de como tudo foi planejado para eleger Fernando Henrique, mas só publicado depois de abertas as urnas. Os dois jornalistas eram diretores da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasília durante a campanha e seus principais repórteres políticos na capital federal. (21)

Quando o Real colapsou, outras histórias dos bastidores do poder vieram à tona. Primeiro, a história do grande encontro de Fernando Henrique com os barões do empresariado brasileiro, inclusive os donos da comunicação, em maio de 1998, quando ameaçou renunciar à sua candidatura, se não parassem de noticiar as secas no Nordeste os incêndios na Amazônia. Na crise da moratória da Rússia, em setembro, em reuniões da cúpula tucana, faltando ainda um mês para as eleições, foi tomada a decisão de se desfazer de Gustavo Franco e negociar um acordo com o FMI. Já existia então uma “equipe econômica paralela”, mas os jornalistas de Brasília, tão próximos ao poder, nada nos informaram. Ficamos sabendo depois, muito tempo depois das eleições. (22) Contar as histórias depois que a poeira baixou, de forma a preservar os poderosos e os governantes, tornou-se um hábito do jornalismo brasileiro.

Que papel atribuir à corrupção, no alinhamento da mídia? O jornalista brasileiro atual é relativamente honesto, especialmente nas grandes empresas. Mas nem sempre foi assim e mesmo nessas empresas não há normas rígidas de conduta separando matéria paga de material jornalístico. Sendo um componente importante de nossa matriz cultural, a corrupção não poderia deixar de contaminar o jornalismo. A corrupção pelo capital estrangeiro chegou a ser determinante em algumas situações. (23) Na era Fernando Henrique, corrupção aberta tornou-se politicamente incorreta e legalmente arriscada nos países sedes desses grandes grupos, mas assume novas formas, como o merchandising, as verbas de publicidade das estatais e a complacência na cobrança das grandes dívidas das empresas de comunicação junto ao INSS.

Ocorre que muito dinheiro estava em jogo no primeiro governo Fernando Henrique. Era a passagem para mãos privadas, para bancos e os monopólios industriais, de um patrimônio acumulado pela sociedade brasileira da ordem de US$ 200 bilhões, incluindo todo o setor bancário, a petroquímica, mineração e siderurgia, o setor energético, e serviços públicos de transporte, telefonia e saneamento, além de reservas estratégias de minérios e eventualmente de petróleo, e os respectivos mercados já potencializados pela formação do Merco-sul, no qual o Brasil tem posição pivotal.

O episódio do grampo do BNDES mostra que o favoritismo e a corrupção da mídia continuam desempenhando papel importante em situações específicas. Além de revelarem as ligações perigosas de altos dirigentes tucanos com interesses privados e familiares, e a tentativa de favorecer um determinado grupo nas licitações da Telebrás, as gravações revelaram a caixinha de US$ 2,8 milhões dos fornecedores do setor de telecomunicações para corromper os formadores de opinião na rádio e TV

Para ajuntar esse dinheiro, Luiz Carlos Mendonça de Barros arquitetou a fundação de uma falsa ONG, Brasil 2000, que serviu de canal para as doações dos fornecedores. Parte do dinheiro foi dada a apresentadores de rádio e TV em quantias variáveis para que “espontaneamente” defendessem a privatização do sistema Telebrás. Parte foi dada à mesma empresa de publicidade, a DM-9, que fazia então a campanha de reeleição de FHC, para organizar esse esquema de corrupção. O episódio também corrobora a tese do apoio sistêmico a Fernando Henrique, tanto pelo caráter coletivo da operação, como pela decisão editorial, também coletiva, de toda a mídia, de deixar a denúncia cair no esquecimento, como de fato caiu. (24)

 

5. O Príncipe e seu espelho

Em Fernando Henrique o narcisismo tornou-se fator importante no desencadeamento do modo dogmático de governar: Reconhecidamente vaidoso, o Príncipe tinha também consciência do papel determinante da mídia como formatadora do espaço público da política e governava para a televisão. O próprio plano Real fora cronometrado para assegurar o máximo de satisfação durante o pico da campanha eleitoral, como de fato ocorreu, tática que deveria se desdobrar num segundo mandato como na Argentina, de onde essa tática foi trazida por Domingo Cavallo, pois um só mandato não seria suficiente para sua implementação. (25) Seu prestígio pessoal já grande, cresceu tanto com o sucesso estrondoso do Real que Fernando Henrique passou a personificar para a mídia mundial e não apenas a brasileira, o grande projeto de abertura das economias latino-americanas ao capital financeiro e de serviços. Por suas qualidades pessoais, tornou-se o orgulho do Brasil. Um presidente de Primeiro Mundo. Nessa fase o apoio da mídia, sem deixar de ser sistêmico, se concentra na figura do presidente.

Mas Fernando Henrique parecia saber que o caráter anti-social de suas políticas exigiam um grande esforço propagandístico. E seu ego não admitia a hipótese da derrota. Depois de eleito, a verba de propaganda da Presidência e das estatais sob seu controle no orçamento da União superou R$ 350 milhões anuais, sendo intensamente disputada pelas agências de publicidade.(26)

Para a campanha de reeleição, Fernando Henrique montou uma vasta operação de trimming político, a mais avançada técnica de marketing político, desenvolvida para eleger os presidentes norte-americanos e que consiste em oferecer ao eleitor médio a imagem e o discurso que ele espera ouvir, tudo isso cientificamente aferido por pesquisas de campo, e até por aparelhos, como o Perception Analyzer. Os grandes especialistas em trimming dos EUA foram consultores da sua campanha de reeleição. (27)

Ao contrário de Collor de Mello, que invadia a televisão equivocadamente, com cenas de filmes de Rambo, ou de Lula, que fala quase sempre com incontida raiva, Fernando Henrique usava esse meio de forma mais eficaz, como se tivesse lido os preceitos de Marshall Mcluhan, que definiu a televisão como um meio “frio”, que deixa muitos espaços para a reação ou interpretação do espectador (ao contrário do que pensa o senso comum). (28) Fez do salão de transmissões de posse do Palácio do Planalto, um palco permanente de exibição narcisista, assim como os presidentes norte-americanos usam os jardins da Casa Branca. Como na Idade Média, a esfera pública na era Fernando Henrique torna-se um espaço de exibição do governante, mas no qual os principais objetos de ostentação não são estandartes e coroas e sim a superioridade de seu saber.

Falando manso, perguntando e respondendo ao mesmo tempo, como um professor ministrando uma aula, Fernando Henrique parecia convidar à reflexão. Parecia, mas não convidava. Além da natural arrogância dos tucanos, tão evidente no estilo de seu antipático porta-voz Sérgio Amaral, o próprio Fernando Henrique através do tom anti-retórico, banal mesmo, ía semeando frases de desqualificação da crítica, ironias, pequenos insultos, quase imperceptíveis, cujo significado os jovens jornalistas, com tanto saber, íam procurar nos dicionários. Como observou Elio Gasperi, “chegou a se meter em encrencas por conta de sua paixão de seu governo pela virtualidade; um incorrigível desejo de ser o que não é, num mundo que deveria existir, mas, infelizmente, não existe”. (29)

Em Carta Capital, Bob Fernandes definiu com bastante felicidade que o fundamento ético do governo Fernando Henrique estava no desrespeitos corporalidade do outro, inclusive do seu direito de pensar e falar.(30) Além das pressões contra a imprensa, o governo se caracterizava pela “arrogância no discurso e no gestual.” Intelectuais notáveis, muitos deles gurus da geração pós-moderna de jornalistas, criaram uma sofisticada semântica de anulação da crítica aos planos de FHC, através da desqualificação de seus críticos. Arnaldo Jabor, que depois acusaria FHC de esquizofrenia política (31), chamou a esquerda anti-Fernando Henrique de “Cafetões da miséria... que querem o fracasso, não acreditam na democracia.” Ignorando as propostas das oposições, diz que “basta-lhes a sabotagem.” (32)

A ridicularização da crítica, como atitude anacrônica, ou resultado de interesses meramente corporativos ou atrasados, ou fruto de uma mentalidade de patrulhamento estalinista, ou da mera ignorância foi um dos pilares do sistema dogmático de FHC, uma das características mais desagradáveis da sua fala, sintetizada na sua famosa referência ao “nhe-nhe-nhem”. Em 22 de agosto de 98, acusou os sem-terra de cooperar com produtores de maconha no Nordeste. Agricultores foram chamados de “caloteiros”, empresários afetados pelos juros anômalos e a abertura comercial indiscriminada, de “ineficientes e atrasados”, funcionários públicos de “vagabundos” e os críticos do Real, de “catastrofistas e/ou impatríóticos” minimizou o problema das crianças abandonadas, dizendo que em São Paulo “não havia nem mil meninos de rua.”

Luiz Carlos Mendonça de Barros chamou as oposições de ignorantes, despreparados, destrutivos e negativistas. O presidente acusou o deputado Ruy Falcão, que foi preso político durante a ditadura militar, de “dedo-duro”, porque ele denunciara uso de avião oficial por um ministro em campanha eleitoral.

 

6. Contradições

Por que a mesma revista Época, que nasceu para sustentar o projeto neoliberal, atacou com a transcrição dos grampos do BNDES? Por que a Folha freqüentemente fustiga o governo, mesmo apoiando seu projeto? A mídia é um espaço de contradições. Precisa vender uma mercadoria, mas essa mercadoria tem a informação, é política. Tentar o controle social por meio da comunicação é paradoxal e por isso perigoso. Em muitos momentos a mídia se voltou contra o governo ‑ mas em todos recuou antes de colocar o sistema em risco.

Foram duas as principais crises na lua-de-mel mídia-governo. O episódio da compra de votos, em maio de 1997, e a crise do grampo e do dossiê Cayman, em novembro de 1998. Na denúncia da compra de votos de dois deputados do Acre, Ronivon Santiago e João Maria, para apoiarem a proposta da reeleição, a Folha de S. Paulo ficou sozinha, foi isolada pelo conjunto dos meios de comunicação de massa e com isso conseguiu-se enterrar o episódio.

No grampo do BNDES foi enfatizado o meio, supostamente criminoso, pelo qual as fitas foram obtidas e não seu conteúdo. Graças ao grampo descobrimos que o sistema Telebrás foi leiloado para uma nova “máfia” empresarial, similar às máfias surgidas na privatização russa. “Esse é o padrão das privatizações em todo o mundo”, diria depois Mendonça de Barros, ao tentar explicar no Congresso porque usou a palavra gangue, no seu grampo, ao definir os consórcios. Descobrimos que fornecedores de equipamentos de telefonia foram compelidos pelo Ministro das Comunicações a contribuir para uma caixinha da milhões de Reais de financiamento de campanha favorável ao governo, em pleno período eleitoral. E que Presidente da República, além de sua própria participação nas conversas, sabia dos grampos há mais de dois meses, assim como sabiam alguns jornalistas.

A demissão da cúpula das privatizações visou estancar o escândalo, que, no entanto, era tão grave quanto o que levou ao impeachement de Collor de Mello. A solução era recuar. Mesmo jornalistas renomados tentaram desqualificar as denúncias graves sob a alegação de que foram obtidas criminosamente ‑ esquecendo-se que todos os grandes documentos da história do jornalismo são obtidos sub-repticiamente. O dossiê Cayman foi logo esquecido.

Como no caso Collor, as revistas semanais saíram na frente, mas apenas quando Fernando Henrique já se havia desgastado perante a classe média frente ao crescente desemprego. Os jornais oligárquicos aderiram quando já não podiam evitar o assunto. Ao contrário desses jornais, que têm como público referencial a própria elite dirigente protagonista das notícias, as revistas dividem sua lealdade entre governo e um público autônomo de classe média com o qual mantêm vínculos muito fortes. São revistas lidas no Brasil por cerca de 5 milhões de pessoas, a maioria esmagadora, da classe média, ou seja, pela quase totalidade da classe média. Recebem milhares de cartas e emails. A nova revista semanal, Época, do grupo Roberto Marinho, apesar de lançada em sincronia com a campanha de reeleição de FHC, acabou se valendo do furo dos grampos do BNDES para marcar seu espaço nesse importante mercado editorial e publicitário. Mas ao contrário do comportamento da semanais no caso Collor, quando conduziram o impeachement em nome de uma classe média destituída de suas poupanças, desta vez a lealdade maior das revistas pendeu para o sistema. Com a exceção de Carta Capital, uma outsider, ainda quinzenal. E assim se deram os recuos nos casos do grampo do BNDES e do dossiê Cayman.

Ironicamente, o próprio Príncipe fez a mais contrangedora revelação sobre essa mídia que exaltou em bloco as privatizações. “Está demais, não é? Estão até exagerando” ‑ disse Fernando Henrique no grampo do BNDES.

Foi muito mais do que exagero. Quando o Real desabou, em janeiro de 1999, final do primeiro mandato de FHC, e a crise se tornou total, a classe média brasileira sentiu que durante todo o tempo havia sido mal informada, havia sido enganada pela mídia, como o menino Josué do filme A vida é bela, de Roberto Benigni, levado a acreditar pelo seu pai, durante todo o tempo em que estiveram num campo de concentração, que as barbaridades nazistas eram apenas uma brincadeira de regras esquisitas.

 

 


 

1. Bernardo Kucinski é professor de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP.

2. Folha de S. Paulo, 26/11/98.

3. Célia Stednik. Coronelismo eletrônico. Porto Alegre, Famecos/PUC, mimeo, 1993. Mais de duas mil concessões foram distribuídas entre 1981 e 1990 a critério pessoal do presidente e do ministro das comunicações. Em 1991, dos 503 Congressistas 109 tinham interesses diretos ou indiretos em veículos de comunicação de massa.

4. No Amapá, a família do senador Gilvan Borges (PFL), comprou todas as cinco concessões de rádio e TV. No Maranhão, o secretário da Assembléia Legislativa Leão Santos (PSDB), comprou quatro concessões de rádio. Em Mogi das Cruzes (São Paulo), o grupo proprietário do Diário de Mogi ficou com a frequência de TV.Algumas concessões foram outorgadas a grupos religiosos, católicos e evangélicos, que também partiram para uma reorganização centrada no uso intensivo de redes de comunicação de massa.

5. Gazeta Mercantil, 09/05/97, p. C/1.

6. Gazeta Mercantil,16/11/98, p. A/6.

7. Levantamento em 115 municípios com uma amostragem de 790 pessoas, em novembro de 1997, mostrou que apenas 1 em cada 5 leitores acreditavam irrestritamente na mídia. 1 em cada 3 confiavam pouco nos jornais e 1 em cada 16 não confiavam nunca. A pesquisa também mostrou que 40 por cento dos entrevistados consideravam o noticiário sobre o Presidente sempre favorável e outros 40 por cento o consideravam neutro. O mesmo se passa quando os personagens são empresários governadores, uma medida do oficialismo da mídia O Estado de. Paulo, 28/11/97.

8. Umberto Eco. Apocalípticos e integrados. São Paulo, Perspectiva, 1985.

9. Na crise do petróleo surgiu o "petrodólar", um suposto dólar ruim que só os árabes possuíam, responsável pela desestabilização do mundo. Para acabar com os petrodólares, o FMI propôs a "reciclagem das petrodólares" que levou países como o Brasil a se endividarem pesadamente para grandes compraz de equipamentos superinflacionados. Ver bibliografia completa sobre o eurodólar em Daniel R. Kave. The Eurodollar market and the years of crisis. Londres, C. Helm, 1983. 

10. Newton Rodrigues. “Uma trilha em defesa da federação”. Gazeta Mercantil, 03/02/99, p. A-3.

11. Cf. José Eli Veiga. “Caminhos e descaminhos”. O Estado de S. Paulo (30/01/99): 2.

12. Os Responsáveis pela vulnerabilidade do Brasil. Editorial de O Estado de S. Paulo em setembro de 1998.

13. Demissões em massa na imprensa. Boletim do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, 10/09/98.

14. Observatório da Imprensa, novembro de 1998, p. 6.

15. Alexandre Garcia, que foi subsecretário de imprensa de Costa e Silva, tem sua coluna publicada em ff jornais e seu programa de rádio transmitido por 52 emissoras; Carlos Chagas, que foi secretário de imprensa de Costa e Silva tem sua coluna reproduzida por 23 jornais; Joelmir Betting aparece em 40 jornais; Carlos Monforte, em 32 jornais; Ferreira Neto, em 25 jornais; Alvaro Pereira, em 27 jornais. Todos aparecem também na TV. Cf. Colunistas Brasileiros, ed. 96/97, São Paulo, 1998, Ed. Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e Puente.

16. Serge Halimi. Os novos cães da guarda, Petrópolis, Vozes, 1998.

17. Louis Althusser. Aparelhos ideológicos de estado, São Paulo, Graal, 1983.

18. Veja, 07/10/98, p. 28-33, reportagem de Expedito Filho.

19. Íntegra do plano em “Empresários deflagram campanha disfarçada de FHC”, artigo de Frederico Vasconcelos, Folha de S. Paulo, 01/09/98, p. 3, cad. Especial.

20. Folha de S. Paulo, 19/01/99. 193

21. Gilberto Dimenstein e Josias de Souza. A História real. São Paulo, Ática/Folha de S. Paulo, 1994.

22. Ver Maria Clara R.M. do Prado. “Não há espaço para mágicas”, Gazeta Mercantil (04/02/98) p. A-3.

23. O célebre major John MacCrimmon, presidente da Light, “distribuía propinas a todos os jornais da época até mesmo ao jornal do partido Comunista, A Manhã”, revelou Samuel Wainer. Também era comum empresas jornalísticas em dificuldades financeiras lançarem campanhas de difamação contra grupos econômicos para chantagem. Depoimento de Wainer em Boletim do Instituto Gutemberg, jan-fev., 1998, p. 32. Para o comportamento chantagista dos barões da mídia, ver Chatô, Rei do Brasil de Fernando Moraes, São Paulo, Cia das Letras, 1994.

24. Folha de S. Paulo, 21/11/98, p 6, O ES1 21/11/98, p. A/4. Hebe Camargo recebeu R$ 10.350,00; Ratinho recebeu R$ 3.450,00, Ana Maria Braga, R$ 920,00. No total R$160.000,00 foram distribuídos a 59 radialistas de 55 rádios espalhadas em 37 cidades.

25. Cf. Gilberto Dimenstein e Josias de Souza. A História real. São Paulo, Ática/Folha de S. Paulo, 1994.

26. Em 1997, chegou a R$ 491 milhões, ou 4 por cento de todos os gastos publicitários do país. Ver detalhes dos gastos do governo em Folha de S. Paulo, 22/10/97, p. I-6. O total gasto em propaganda e publicidade no Brasil está em Agências & Anunciantes, 22/06/98.

27. Veja, 07/10/98, p 32.

28. McLuhan, Marshall. Os meios de comunicação como extensão do homem. São Paulo, Cultrix, 1968.

29. Folha de S. Paulo, 28/02/99, p. 10-Brasil.

30. Bob Fernandes. “O Silencio dos inocentes”. Carta Capital, 19/08/98, p. 28.

31. Arnaldo Jabor. “Há urna inexplicável cisão entre o dito e o feito”. Folha de S. Paulo, 02/02/99.

32. Arnaldo Jabor. “Já raiou o stalinismo no horizonte do Brasil”. Folha de S. Paulo, 05/08/99, Ilustrada, p. 6.

 


 

A mídia de FHC e o fim da razão. In: O desmonte da nação. Ivo Lesbaupin (org.) Petrópolis, Vozes, 1999,  pgs 181-199.


 
     
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