Sistema e browser desconhecidos

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Agenda:

Jornalismo e Direitos Humanos
 

 

A Violação dos direitos humanos. É disso que trata o livro-reportagem de Márcia Guena. Não a violação incidental, esporádica, o abuso isolado de poder por um indivíduo, e sim Os vastos subterrâneos da violação planejada dos direitos humanos, organizada pelo próprio Estado. A violação contênua, sistemática, dedo por dedo, unha por unha. A filha na frente da mãe, a mãe na frente do pai. O pai depois do filho. Um companheiro depois do outro.
Sob a égide da Guerra Fria, instituiu-se uma nova modalidade de guerra, contra o próprio povo, contra pessoas. E lá se foram os códigos ó a distinção entre soldados e civis, entre prisioneiros e combatentes. Instituiu-se o vale-tudo. A violação protegida, Não importa se soldados ou não, de mulheres ou adolescentes. Pisados, furados, eletrocutados; a tortura das almas, tragadas em redemoinhos de delações, em noitadas de terror. Uma longa inquisição.
Como inquisição, esse terror contemporâneo gerou uma linguagem própria, uma semântica da delação, da necessidade de mostrar serviço, da visão estereotipada do mundo, da calunia, da denúncia sem prova, da impunidade da tortura, da impiedade policial. Toda uma enciclopédia de verbetes, datada da Guerra Fria. Essa cultura documentada da repressão está ali, virando a esquina, no Archivo del Horror do Paraguai, o único mantido incólume, graças à auto-suficiência de uma ditadura que se julgava eterna. Um dos méritos de Márcia Guena foi entender os registros desse arquivo como parte dessa cultura, e não pelo seu valor de face.
Não existe nenhuma área em que o jornalismo possa ser tão importante, tão decisivo e ao mesmo tempo insubstituível como na defesa dos direitos humanos. Não por acaso, o conceito de direitos humanos, nascido nos Bill of Rights das colônias americanas e reafirmado na Déclaration des Droits de L'Homme et du Citoyen da Revolução Francesa, adquiriu autonomia demarcatória e perfil de guia de ação política nestas últimas décadas do nosso século XX. O século no qual nos coube viver foi o mais truculento da já sangrenta história da humanidade. Em apenas uma batalha, a do Somme, mais de meio milhão de soldados morreram. Foi o século do Holocausto, do napalm, de Hiroshima, dos Gulags, de Dresden. Tudo isso resultou, em 1946, na proposta de uma "Declaração Universal dos Direitos Humanos", finalmente aprovada pela ONU em 1948. Seu objetivo, mais do que a mera enumeração desses direitos, era o de gerar um conjunto de ações e tratados para que os direitos humanos fossem efetivamente respeitados em escala mundial.
Mas venceram, mais uma vez, as razões de Estado. Os mesmos estadistas que levantavam seu polegar na arena mundial das Nações Unidas pela salvação da vida organizavam, nos subterrâneos do novo Coliseu, os serviços de repressão e de violação dos direitos humanos. A crueldade explícita da "guerra quente" foi como que reprocessada numa terapia homeopática de combate secreto à revolução e a dissidência. Agentes do holocausto foram aproveitados para os trabalhos da Guerra Fria. Tornaram-se agentes da repressão. Na União Soviética, o terror de Estado foi ocupando todos os interstícios, tornando-se totalitário. Assim se instituíram as formas de terror cotidiano, no stalinlmno, no macartismo, na censura, na intolerância política, no gigantismo e secretismo da CIA, nos Gulags, na ajuda militr dos Estados Unidos aos torturadores da América Latina,
O desprezo do jornalismo brasileiro por essa fonte inesperada de informação sobre a repressão no Cone Sul, que é o Archivo del Horror do Paraguai, é sintomático de um desprezo maior pelos direitos humanos em geral. Resgata-se no jornalismo dedicado aos direitos humanos o valor ético fundamental, compartilhado por todas as filosofias humanistas, o valor da vida. O jornalismo dos direitos humanos tem esse grau de pureza máxima das ações retas, sobre as quais não cabem dúvidas. No jornalismo dedicado aos direitos humanos não há dilemas éticos entre dizer a verdade ou ser misericordioso, entre meios e fins. Na salvação de uma vida, a verdade se soma à solidariedade e a nobreza dos fins atropela qualquer dúvida sobre os meios. No ensino do jornalismo, é a modalidade de reportagem com o maior potencial formativo que mais contribui para o caráter e a identidade profissional do jovem jornalista. A opção de Márcia Guena por esse tema, primeiro num trabalho de conclusão de curso que tive a satisfação de orientar, agora na forma de livro, é a opção por toda uma maneira de fazer jornalismo e, porque não, por toda uma forma de se relacionar com o mundo. Aquele que salva uma vida, salva toda a humanidade, diz o Talmud. O jornalista que se dedica aos direitos humanos pode ter o privilégio de um dia salvar uma vida.
 
maio de 1996
BERNARDO KUCINSKI
JORNALISTA E PROFESSOR DA ECA-USP
 

 
     
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