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O antilulismo na campanha de 2006 e suas raízes
 

Foi num encontro com alguns ex-alunos de jornalismo que me ocorreu a idéia central deste pequeno ensaio. Um deles, crítico musical na revista Veja, orgulhava-se de ter escrito a última reportagem de capa da revista, sobre o assassinato de Celso Daniel. A matéria não tinha novidades, era uma cozinha do que já havia sido escrito, com os mesmos pontos obscuros e as mesmas ilações sobre a cúpula petista. Pensei com meus botões: por que será que ele está tão orgulhoso? E por que será que decidiu escrever sobre o caso Celso Daniel, se a sua praia é outra?

Achei que se tratava de uma questão de pertencimento. Ao escrever aquela reportagem de capa, meu ex-aluno sentia-se partícipe do engajamento jornalístico de sua geração, movido pela indignação com o PT, partido que levantara como bandeira principal a ética na política mas, no entanto, utilizara os mesmos métodos dos outros partidos, que tanto criticara.

Na campanha de 2006, a maioria esmagadora dos jornalistas — dos veteranos ao mais novo foca de redação — aderiu espontaneamente ao antilulismo e seu correlato antipetismo

 . Um fenômeno coletivo, de natureza comportamental, não apenas ideológico ou político.

Espantosamente, de nada adiantou todo esse esforço. Ao contrário, Lula venceu com votação esmagadora, que consagrou seu mandato popular. Talvez “pela primeira vez em nossa história”, parafraseando o próprio presidente, deu-se a derrota completa da grande imprensa pelos eleitores. Foi como se, de repente, todas as teorias sobre a influência da mídia na opinião pública e na formação da agenda de debates tivessem sido invalidadas por uma única experiência

.

E o que dizer do antilulismo dos jornalistas, depois desses resultados?

 

1. O antilulismo nas campanhas presidenciais

 

As sementes do antilulismo foram plantadas ainda na primavera da nossa abertura política, em 1989, quando aconteceu a primeira eleição direta para presidente depois da ditadura. Os barões da mídia armaram incidentes sucessivos para desgastar Lula. Expuseram sua vida íntima de um modo difamatório, chamaram-no de ignorante, vestiram camisetas do PT nos sequestradores de Abílio Diniz e ainda falsearam o último debate televisivo, para eleger o “caçador de marajás”, ficção política que eles próprios haviam inventado para barrar Lula. Mas a massa dos jornalistas era então mais petista que antipetista.

Na campanha de 1994, o antilulismo agressivo da cúpula dirigente do jornalismo arrefeceu. Apesar da armação para desgastar o candidato a vice de sua chapa, José Paulo Bisol, essa foi, em tese, uma campanha em que Lula não foi derrotado por truques de mídia e sim pelo impacto do Plano Real, conduzido por Fernando Henrique Cardoso, que conseguiu estabilizar a moeda brasileira depois de décadas de violenta e destrutiva instabilidade monetária.

  

Na campanha da reeleição, com o Plano Real fazendo água, Fernando Henrique cobrou dos barões da mídia apoio irrestrito, caso contrário nem concorreria. Ainda era um antilulismo da cúpula dirigente apenas, mas já aconteciam nessa campanha alguns episódios de antilulismo espontâneo do reportariado jovem. Estava entrando em cena uma nova geração de jornalistas, “fernandinhos e patricinhas”, que não haviam feito história, nem mesmo participado da campanha das Diretas Já, e que viam no antilulismo ativo uma forma de participação, de pertencimento,

de estar in

.

Na campanha de 2002, o próprio Lula priorizou a questão midiática, atraindo para seu campo os quadros mais experientes do marketing político que até então só serviam à burguesia. Foi a campanha do “Lula paz e amor”. Mas, quando eclodiu a chamada “crise do mensalão”, já num ambiente em que o caráter épico da sua vitória havia se esvaziado pelo desencanto das suas primeiras medidas recessivas, o antilulismo se disseminou, tornando-se postura obrigatória no meio jornalístico.

E mais, a mídia flertou com o golpismo, tentando incriminar o círculo mais próximo de auxiliares do presidente, com o objetivo de fornecer elementos para a proposta de impeachment, formulada pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Derrotada a tentativa de impeachment, a campanha de 2006 foi protagonizada pelos colunistas e repórteres como uma segunda chance de depor Lula. Daí o especial empenho da mídia em forçar o segundo turno, o que de fato conseguiu. O antilulismo agressivo foi referendado até por jornalistas veteranos ilustres, chocados pelo escândalo do valerioduto

, e apoiado obviamente pelo baronato da mídia. Jornais e revistas semanais fazem jornalismo antilulista como campanha. A revista IstoÉ teria 14 capas seguidas da crise; Veja, mais de 20.

Todos os recursos humanos e espaços midiáticos foram alocados ao antilulismo e à construção da narrativa de que nunca houve tanta corrupção no Brasil. Todas as outras narrativas foram suprimidas ou desqualificadas: a da redução significativa do custo dos alimentos, a dos aumentos do emprego formal, a do Prouni (Programa Universidade para Todos). Outra raiz do atual antilulismo está no engajamento do jornalismo brasileiro nas denúncias da corrupção, que se iniciou no governo Fernando Collor e foi crescendo e ganhando musculatura no decorrer dos escândalos dos anões do orçamento, da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia) e da Sudene (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste), tornando-se gênero dominante do jornalismo brasileiro dos últimos 20 anos. As revelações de Roberto Jefferson reavivaram as brasas adormecidas desse gênero. A grande imprensa abandonou de vez a pretensão de mediadora entre o mundo real e a imaginação dos brasileiros, ainda

que parcial e engajada, para tentar escrever e impor sua própria história do governo Lula.

Mas não era essa a história que o povo estava vivendo. Nos

lares, nas ruas, nos campos, uma outra história estava sendo escrita, que a mídia ignorou.

O eleitorado não derrotou apenas Alckmin, derrotou também essa narrativa da imprensa brasileira e, junto com ela, todos os seus narradores, um por um, todos eles, desmoralizados. Não é coisa pequena a humilhação do jornalismo brasileiro na campanha de 2006. … tão grande, de tantos e profundos significados, que

certamente será suprimida e para sempre negada por esse mesmo jornalismo.

 

2. Raízes do antilulismo

 

A grande imprensa brasileira tem um DNA oligárquico tão forte que ele não se alterou com a introdução da indústria cultural pelos Civita nos anos 1950 nem com a investida mais recente de

Nelson Tanure no jornalismo diário

. … uma imprensa de opinião, não de informação, utilizada com fins predominantemente ideológicos por uma elite insensível às demandas populares. Nunca aceitaram o Estado que chamam pejorativamente de populista e que poderíamos classificar, talvez com um pouco mais de precisão, de nacional-desenvolvimentista. Com a vitória da Revolução de 1930, que marcou o fim da hegemonia agrário-exportadora, Getúlio cooptou a cadeia dos Diários Associados, que englobava 32 jornais e 22 emissoras de rádio, e submeteu o restante à censura direta do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) (ver Borges, 1979).

Quando voltou ao poder pelo voto, e o antigetulismo aflorou em sua plenitude, comandado por Carlos Lacerda, Getúlio estimulou Samuel. Wainer a fundar a cadeia Última Hora, e graças a ela, e também à grande influência do Partido Comunista nas redações, a formidável. campanha anti-Getúlio levada a cabo por Lacerda nunca envolveu o conjunto da imprensa, muito menos o conjunto dos jornalistas.

Percebemos que o Estado nacional-desenvolvimentista de Getúlio, tanto na primeira fase como na segunda, precisou intervir no mercado da informação, para neutralizar a imprensa oligárquica, tal o nível de antagonismo entre os dois sistemas.

O governo Lula, mais populista do que nacional desenvolvimentista, teve urna visão inicialmente ingênua da mídia oligárquica, que, no entanto, se tornou ainda mais monolítica desde o fechamento da cadeia Última Hora e do Correio da Manhã pelos militares. Mais anti-Estado nacional, mais antipopular e mais homogênea desde o seu engajamento coletivo na grande campanha pelas privatizações, no governo Fernando Henrique, na qual desempenhou papel central, unificando-se ideologicamente.

  

Hoje, a grande imprensa brasileira forma um sistema ideológico único, sem nuances, como se todos os meios de comunicação de massa no Brasil fossem comandados por um único editor invisível, um Big Brother, com a mudança apenas do público-alvo e do estilo dos diferentes veículos.

Assim se explica como a campanha antigoverno, alimentada por três CPIs simultâneas — às quais, ao mesmo tempo, realimentava —, atingiu a totalidade da mídia. O sentido geral do alinhamento antipolíticas populares é o mesmo da época de Getúlio e a intensidade da ojeriza ao governo “populista” é igualmente vigorosa. Pouco importa a essa imprensa oligárquica que o governo Lula seja dócil ao capital financeiro, hoje hegemônico. Atavicamente antinacional e antipopulista, ela ataca em especial a política externa de rejeição da proposta da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e o programa Fome Zero. O presidente Juscelino Kubitschek também foi atacado de forma impiedosa pela imprensa oligárquica por seu viés fortemente desenvolvimentista. E, em seu governo, Jango (João Goulart) foi simplesmente derrubado, com grande apoio dessa mesma imprensa...

Enfim, o inconformismo das oligarquias e de sua imprensa com a vitória pelo voto de líderes populares é recorrente em nossa história. Nós, os amantes do jornalismo, é que nos iludimos com as possibilidades do jornalismo livre na democracia brasileira. A grande imprensa tem sido a principal arma dos golpistas. Seu pretexto é sempre a luta contra a corrupção, seduzindo com isso a classe média, recalcada e infeliz com seu empobrecimento real ou imaginado. Mas o seu objetivo oculto é sempre derrubar o Estado nacional-desenvolvimentista.

Trata-se de um gênero jornalístico barato, que se alimenta de dossiês e informações adiantadas pela polícia e por inimigos dos acusados e que não precisam ser verificados ou conferidos. O chamado “escândalo do mensalão” levou o denuncismo a um novo patamar, em que a imprensa se comportou como um tribunal de Inquisição, perseguindo suspeitos de malandragens políticas, grandes ou insignificantes, com o mesmo zelo jesuítico dos sacerdotes de Torquemada. Nesse jornalismo, o governo é o demônio. Todas as decisões de governo são vistas com suspeição ou descritas como possuidoras de objetivos criminosos ou imorais.

  

Despreparada e sem apetite para destrinchar os milhares de documentos trazidos às CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito), a mídia empenhou-se muito mais em ampliar ao máximo o âmbito das acusações e o leque de acusados do que em esclarecer e qualificar com exatidão os vários graus de envolvimento em corrupção. Da excitação com as acusações iniciais de Roberto Jefferson, a mídia chegou ao paroxismo na cobertura das CPIs. Nas campanhas anteriores da mídia contra a corrupção, havia abusos no jornalismo denuncista, mas o objetivo era elucidar as tramas. Já em 2006, o objetivo não era elucidar. Era incriminar, mesmo que para isso fosse preciso falsear a verdade dos fatos, suprimir informações, torcer manchetes e chamadas.

O terceiro fator estruturante do antilulismo como cultura jornalística é o preconceito de classe contra Lula, que se manifestou tão logo ele saiu do seu casulo original sindicalista e levou sua liderança para o campo político, fundando o PT e se tornando ele mesmo um quadro dirigente. Esse é o fator que não existiu nas derrubadas de nenhum presidente anterior, todos eles originários das famílias dirigentes. Mas existiu em todas as campanhas anteriores de Lula para presidente, inclusive a que o elegeu pela primeira vez em 2002.

Chamar Lula de ignorante e despreparado tornou-se urna forma de demarcar os campos em disputa. Fernando Henrique Cardoso em várias ocasiões fez essa demarcação. Em uma delas disse com todas as letras que Lula era tático e não estratégico porque para ter raciocínio estratégico era preciso dominar conceitos, e Lula não tinha preparo para isso

. Os jornalistas tratam Fernando Henrique com reverência, como um mestre, um professor. Recebem sua fala como uma aula.

Em todas as campanhas, Lula foi tratado de forma desrespeitosa, por vezes insultuosa. Em todas, inventaram histórias para desmoralizá-lo e tentaram humilhá-lo com revelações sobre sua vida pessoal e familiar, que nunca ousaram manejar em relação a

    

outros presidentes ou candidatos a presidente de origem nas elites. Em 2006, a linguagem preconceituosa contra Lula e desrespeitosa à figura do presidente foi adotada até mesmo por colunistas importantes. O reportariado se dedicou a descobrir ou mesmo inventar gafes nas viagens de Lula ou nos seus discursos.

 

3. A função estruturante da falta de exatidão na narrativa antilulista de 2005-2006

 

Parodiando Chacrinha, o jornalismo de denúncias da crise do mensalão e da campanha de 2006 veio para confundir, não para explicar. Não se sabe até hoje o que há de verdade ou de mentira na lista de Fumas, no valerioduto, na atuação de Daniel Dantas e no dossiê Vedoin, quatro dos principais casos que marcaram a crise do mensalão e a campanha de 2006. Principalmente, não se sabe ao certo, até hoje, de onde veio o dinheiro.

Se o jornalismo se dedica a produzir sentidos, pode-se dizer que o principal sentido produzido pela mídia nesta crise da campanha de 2006 foi o da falta de sentidos: foi a produção da confusão. Isso se conseguiu misturando o grande com o pequeno, a coisa provada com a mera ilação, deslocando o tempo de episódios, omitindo detalhes significativos. Enfim, criando um grande discurso genérico de culpabilização do petismo, apesar de as principais quadrilhas — como a das ambulâncias e a dos medicamentos — terem se formado no governo Fernando Henrique, ou antes, assim como o esquema do valerioduto. A tática de criar confusão era necessária para que esse objetivo fosse alcançado. Para que a mídia pudesse proclamar que no governo Lula deu-se a maior corrupção de todos os tempos.

Tudo isso foi facilitado pela natureza intricada do esquema de financiamento de campanha inventado por Marcos Valério e outros marqueteiros nesta fase da democratização. Esquemas quase impossíveis de ser desvendados.

Confundir para poder incriminar passou a ser a postura geral do reportariado, a começar pelo nome dado à crise: “crise do mensalão”. Criou-se uma linguagem própria, incriminatória, que lembrava os tempos do macartismo. Num clima de grande intolerância, surgiram ataques virulentos de jornalistas a alguns colegas que se recusaram a entrar na onda antilulista, e até expurgos, na Rede Globo e na Folha de S.Paulo.

O designativo mensalão simboliza todo esse processo de ofuscamento dos sentidos, já que nunca foi provada uma correlação entre pagamentos mensais regulares e votações de deputados a favor do governo. O PT e o governo insistiram que os pagamentos eram ressarcimentos por gastos da campanha que tiveram que ser parcelados por falta de recursos, como sugeriu o próprio Roberto Jefferson, na sua denúncia inaugural da crise. Os jornalistas ignoraram deliberadamente os indícios de que não era lógica a hipótese dos pagamentos mensais para votar a favor do governo, principalmente porque a maioria dos beneficiados já era da base de apoio ao governo. Não precisavam ser pagos. Muitos deles, petistas. Outros, como Roberto Brant, opositor ferrenho de Lula, nunca votaram com o governo.

Confundir tornou-se método editorial. O noticiário confundiu, por exemplo, os pagamentos às empresas de publicidade para a compra de espaço nos veículos com comissões pagas às empresas. Reportou o esforço do ministro Luís Gushiken em preservar o interesse público na Previ contra o assalto de Daniel Dantas, como se fosse o contrário disso. No caso da tentativa de compra de um. dossiê contra José Serra, em que os jornalistas, em conluio com. policiais, fizeram de tudo para levar as fotos do dinheiro ao Jornal Nacional na véspera do primeiro turno, a imprensa sempre omitiu que o ex-policial Gedimar Passos foi torturado para envolver o nome de algum assessor direto de Lula no esquema

.

 

4. O conceito de linchamento midiático

 

No jornalismo de denúncias instituído pela crise do mensalão, os suspeitos foram tratados como culpados até prova em contrário, o oposto do princípio da presunção da inocência, e até mesmo depois de haver prova em contrário. Os acusados foram julgados, condenados e sentenciados à penalidade máxima que a mídia permite: a destruição de sua honra e de sua auto-imagem, sem direito à presunção da inocência, sem advogado de defesa,

sem o contraditório, procedimento que poderíamos chamar de “linchamento midiático”.

O sumário de culpa era construído mediante ilações sucessivas, insinuações, generalizações. Foi abandonada a regra básica de sempre ouvir o outro lado ou o acusado, antes de veicular uma acusação. Muitas vezes, o acusado era procurado no último momento, para poder ser usado o pretexto de que foi procurado sem sucesso. Ouvir o acusado abria um flanco para o esclarecimento

do fato, o que contrariava o objetivo geral da cobertura: semear o máximo de suspeição.

Nas poucas ocasiões em que os acusados eram ouvidos, suas explicações eram desclassificadas, tratadas com ironia e até com sarcasmo. … “a tragédia da condenação sem julgamento”, disse em sua defesa o deputado do PFL (Partido da Frente Liberal, que em 2007 mudou seu nome para Democratas — DEM), Roberto

Brant. Eventuais absolvições depois pela justiça ou pelas comissões de ética são sempre chamadas de pizza

.

As falas da oposição eram outro mecanismo gerador da retórica midiática antilulista

. A mídia também deu total crédito a acusações formuladas por criminosos, alguns deles retirados diretamente da cadeia para depor na CPI, como foi o caso de Toninho Barcelona. O próprio Roberto Jefferson, articulador da acusação fundante de toda a crise, confessou práticas criminosas e, no entanto, foi sempre tratado como herói da crise.

  

Suspeitas que deveriam ser o ponto de partida para uma investigação jornalística eram publicadas como se fossem a própria investigação, mesmo quando as poucas tentativas de corroboração fracassavam. Assim se criava um clima geral de suspeição e se alimentava a indignação da classe média, independentemente da verdade dos fatos

.

Foram cunhadas novas expressões de culpabilização coletiva: os “mensaleiros”, os “vampiros”, os “sanguessugas”, violando mais um princípio da Justiça, o da individualização da culpa. Mesmo depois de passada a crise, manteve-se a estigmatização

. Criou-se uma linguagem virulenta de palavras e imagens pesadas

.

 

5. Algumas reflexões finais

 

Provavelmente, o golpe midiático não venceu em 2006 porque esse objetivo da mídia oligárquica estava descolado não só dos interesses populares, mas também dos interesses do capital financeiro, hegemônico nesta etapa da nossa história e que se sentiu muito confortável com o governo Lula, já que ficou com o controle do Banco Central. Na hora “H”, faltou vontade política para derrubar Lula. Não tanto por parte da mídia. Por parte da burguesia.

Várias outras causas combinadas entre si também podem explicar o fiasco da mídia na campanha de 2006. Entre elas: o declínio dos grandes jornais; o caráter elitista de sua circulação tanto em números como em tipo de leitor; o descolamento dos “formadores de opinião” em relação aos reais problemas da maioria do povo; seu alinhamento ideológico à agenda do neoliberalismo e uma pitada de arrogância e auto-suficiência.

 

 

Em 2006 os brasileiros, pelo seu voto, sepultaram o que poderíamos chamar de “síndrome da Rede Globo” — a mania da família Marinho de querer instituir a história do Brasil em vez de se limitar a relatá-la. Creio ser esse o maior significado dessa eleição na esfera da comunicação. Ela aponta para o fim de todo o ciclo que se iniciou quando os militares delegaram à Rede Globo a tarefa de controlar ideologicamente a sociedade brasileira a partir do momento em que o controle pela força se tornasse inviável. Acabou-se o poder instituinte da Rede Globo.

 

 

Bibliografia

 

POPPER, Karl. Conjectures & Refutations. Paul, 1963. Londres, Routledge and Kegan Paul, 1963.

 

KUCINSKI, Bernardo. Síndrome da antena parabólica. 3. reimpr. São Paulo, oligarquia paulista. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2006.

 

BORGES, Vavy Pacheco. Getúlio Vargas e a oligarquia paulista. São Paulo, Brasiliense, 1979.

 


 

In: A mídia nas eleições de 2006. São Paulo Editora Fundação Perseu Abramo, 2007; Pgs 133-144 .   www.fpabramo.org.br


 
     
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