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Israel em abril
 

Poucas décadas depois da primeira publicação deste relato de viagem, em 1969, já não era tão forte em Israel o perfume dos laranjais nem tão radical o encanto das comunas agrícolas de vida espartana que Verissimo amou e descreveu minuciosamente — tantas e tão profundas foram as transformações da jovem nação nesse curto espaço de tempo.

O kibbutz de brasileiros, Bror Hayil, que o escritor visitou e onde proferiu uma conferência, já não é uma colônia agrícola socialista, mas um condomínio residencial onde cada um cuida de sua vida, mantidos apenas alguns resquícios de coletivismo. O principal jornal do país, o Davar, editado pelo movimento operário, cuja redação ele também visitou, já não existe, vítima da onda neoliberal que fragilizou todas as formas de propriedade coletiva e de poder sindical.

Embora muitas dessas mudanças tenham sido antevistas por um Verissimo especialmente arguto, ninguém poderia ter previsto, por exemplo, a nova e gigantesca onda de imigração de 1 milhão de judeus russos, que mudaria por completo o mosaico étnico do país e contribuiria com seus técnicos e cientistas para transformar Israel em potência tecnológica. E quem imaginaria a chegada em grande escala de judeus da Argentina e da França, empurrados pelo antissemitismo em pleno século XXI?

Nos quarenta anos transcorridos desde a primeira edição deste livro, a população de Israel triplicou de 2,5 milhões para 7,5 milhões, superando em muito o sonho de Ben-Gurion — expresso a Verissimo no encontro que tiveram no retiro espiritual do fundador da nação em Sdé Boker — de que ela chegasse a 4 milhões de almas.

Quando Verissimo percorreu os campos de Israel havia trezentas e cinquenta colônias coletivas de vários tipos, desde o mais radical, o kibbutz, em que não há propriedade privada nem salários, até o moshav, formado por propriedades familiares que compartilhavam benfeitorias e máquinas. Algumas décadas depois, muitas comunidades do tipo moshav se autoextinguiram. E muitos dos grandes laranjais do centro do país, cujo aroma lembrava a Verissimo seus rincões gaúchos, foram arrancados para dar lugar a bairros e cidades.

O kibbutz resistiria mais, no entanto abandonando formas radicais de coletivização, admitindo a diferenciação salarial e permitindo a cada família a posse de sua casa e a educação direta de seus filhos, que antes eram arrancados dos braços das mães e levados para as "casas das crianças" já no quarto dia de vida.

Martin Buber, analisando a dificuldade de convivência das formas cooperativas num universo capitalista por não cuidarem da totalidade da vida da pessoa — o que o capitalismo paradoxalmente faz ó, ressalvou o kibbutz como exceção, a única experiência que deu certo. Foi principalmente o kibbutz — com seus pioneiros de formação meio tolstoiana, meio bolchevique, adeptos do amor livre e do retorno do povo hebreu à terra, no sentido literal da palavra — que deu a Israel sua fisionomia alternativa, seu encanto radical.

Num dos diálogos deste relato, Verissimo anteviu o ocaso do kibbutz, encerrada sua missão histórica de conquista e defesa das fronteiras.Também anteviu a pressão do consumismo capitalista sobre as novas gerações.

A transformação mais importante deu-se na política e na cultura. De pequeno país agredido repetidamente por todos os vizinhos, que se recusavam a aceitar sua existência e dos quais teve que se defender com não pouco heroísmo em duas guerras, a de 1948 e a de 1956, Israel tornou-se uma potência expansionista, conquistando e absorvendo na guerra seguinte, a de 1967, as montanhas de Golan, pertencentes à Síria, e ocupando militarmente os territórios palestinos teoricamente destinados a constituir o futuro Estado Palestino livre e independente — que Israel por sua vez se recusou a aceitar.

Esse novo expansionismo é conduzido hoje não por judeus pobres fugidos dos pogroms da Rússia, e sim por fundamentalistas do Brooklyn imbuídos de fanatismo religioso e intolerância étnica. Na política, o lugar de veteranos, como os anfitriões israelenses de Verissimo, cultos e ascetas, que ainda expressavam certezas de paz e convivência pacífica com os árabes, foi ocupado por novos-ricos, insensíveis à tragédia palestina ou a qualquer outra tragédia social. Nesse caldo de cultura nasceram os grupos que assassinariam Itzchak Rabin, o primeiro-ministro da velha guarda que pugnava por um acordo definitivo com os palestinos.

Os papéis se inverteram, e com eles a imagem do país no exterior e a auto-imagem de uma considerável parcela dos jovens israelenses, ainda imbuídos dos valores tradicionais do humanismo judaico. Embora as forças armadas de Israel sejam do tipo "povo em armas", mobilizando a maioria dos cidadãos, surgiriam os movimentos antimilitaristas, como Paz Agora, e os refusniks — jovens que por motivos ideológicos se recusam a servir.

Verissimo intuiu que algo assim poderia acontecer, ao conceber o título Israel em abril, de duplo significado. Há o sentido da primavera, o mês das flores e da Páscoa judaica, que celebra a libertação dos judeus do Egito. Quando a viagem narrada no livro aconteceu, em 1966, a imagem de Israel era justamente primaveril. O título, porém, pressupõe que pode haver um Israel do outono e até do inverno.

Num dos mais surpreendentes capítulos do livro, "Os judeus e o judaísmo" — texto que durará até o fim dos tempos, aconteça o que ncontecer em Israel —, Verissimo interrompe seu relato de viagem e mergulha numa discussão sobre o grande enigma que o fascina: a sobrevivência do povo judeu por mais de quatro mil anos de antissemitismo e a própria natureza do povo judeu. Afinal, os judeus são uma etnia, uma raça, uma religião, ou o quê?

Verissimo discute essas questões com ironia e irreverência, entabulando diálogos imaginários com pensadores célebres, à moda do Gog, de Giovanni Papini, só que aqui reunidos todos num mesmo espaço. Entre eles, Arnold Toynbee e Oswald Spengler, que compartilham a tese de que os judeus são uma "civilização interrompida" e fossilizada; o antissemita Henry Ford, que passa montado em seu forde de bigode, ignorando a interpelação sobre seu livro, em que acusa os judeus de conspirarem para dominar o mundo; e até Freud, que deu uma explicação obviamente freudiana para o antissemitismo.

Eis então que aparece na praça Max Dimont, autor de Os judeus, Deus e a história, para quem os judeus formam não uma civilização, e sim uma cultura. Verissimo dialoga com esse pensador menos famoso, com ele concordando. Civilizações têm apogeus e declínios. Já as culturas são modos de vida baseados em valores originais e numa estrutura psicológica. Na diáspora os judeus teriam encontrado as condições de sua sobrevivência como cultura e assim duraram mais do que os sucessivos impérios e civilizações que os oprimiram.

É então que Verissimo antecipa em décadas o que seria uma das questões centrais do judaísmo pós-Israel, o judaísmo do século XXI: até que ponto o surgimento de Israel como Estado faria o judaísmo deixar de ser uma cultura para virar uma civilização, destinada, portanto, a um "período do inverno, da velhice e da morte"? Será, pergunta ele, que uma eventual "'decadência' da civilização do novo Estado sionista [...] vai matar a cultura judaica?". Ele achava que não, pois a diáspora judaica continuaria a existir.

Verissimo revela que escreveu o livro três anos depois da realização da viagem. Adotou o tempo presente, como se estivesse escrevendo durante a própria visita, para obter um efeito já testado em outro livro de viagens, México, escrito anos antes: "fazer o leitor viajar comigo, metido na minha pele". Consegue esse efeito com eficácia, pelo nível de detalhamento adotado e pela acuidade das observações.

É como se estivéssemos testemunhando com ele o nascimento dessa jovem nação, então mal completando dezoito anos de vida e distinguindo-se pela singularidade de formação, pela diversidade étnica dos habitantes, vindos de tantas partes do mundo, e pela transformação do deserto do Neguev em um mar verdejante de cereais, entre outros "milagres" da Terra Santa.

Cabe perguntar como Erico conseguiu guardar tantas minúcias, diálogos e nuances de cenários durante três anos se não manteve, como revela, um diário de viagem. A resposta parece estar na intensidade com que viaja e observa os tipos e paisagens que vai encontrando. Tem-se a impressão de que viajava para captar e captava para escrever.

Como não é possível escrever quando se viaja às carreiras, com os dias tomados por pesada programação oficial, como foi essa visita de dezenove dias a Israel, seria preciso dois Verissimos, o viajante despreocupado a conversar com seus anfitriões e guias e o escriba registrando tudo. O próprio Erico sugere isso quando, ao visitar a milenar cidade de Ako, lembra o poema de Fernando Pessoa sobre uma criança que brinca sozinha mas se sente duas: "Há um a brincar/ E há outro a saber/ Um vê-me a brincar/ E o outro vê-me a ver".

Diz ele de si mesmo: "Penso: brinco de viajar, e viajando às vezes me digo que sou dois: um que viaja e outro que se vê viajar. No meu caso há um terceiro, o que vai escrever sobre o que viajou e o que se viu a viajar. Depois virá um quarto eu: o que ler o que o terceiro escreveu sobre o que viajava e o que se via viajar".

Esse segundo Verissimo que observa é um pintor para quem nada é banal ou desinteressante. Um cipreste, uma pedra, um rosto, o caminho, tudo importa. Numa passagem, ele diz: "Minha visão do mundo é frequentemente plástica: o ângulo do pintor. Olho as pessoas, a paisagem e as coisas como elementos de um quadro cujo sentido mais profundo e último tende a escapar-me. Sei que isso muitas vezes é perigoso para o romancista, que assim corre o risco de borboletear na superfície das criaturas e da vida".

E o terceiro Verissimo, que afinal, anos depois, vai registrar na escrita tudo o que observou, é o romancista que procura o prazer da melhor palavra, da expressão mais sugestiva. Que inventa monólogos e digressões engraçadas para nos fazer rir. Uma tecelagem contínua de imagens, analogias, metáforas que acompanha cada segundo do percurso, começando no instante mesmo em que o avião que vem de Roma pousa na Terra Santa. E ele escreve: "O hálito fresco da noite, que minha fantasia tempera de redolências bíblicas, chega-nos degradado por emanações de querosene".

De sua primeira "escaramuça com a comida israelense" ele diz que o matzot, o pão ázimo obrigatório da Páscoa, tem "gosto de papelão", e que o "tostado irregular de sua superfície lembra os caracteres hebraicos". De sua passagem pelas ruas da velha Jafa, guardou a imagem de Fachadas de aspecto levantino que "parecem sofrer duma doença da pele que as descasca e desfigura, dando-lhes uma fisionomia a um tempo sinistra e pitoresca".

Um "herege", como o próprio Erico parecia se considerar, o tempo todo associa lugares e nomes de cidades e vilas a passagens da Bíblia, que conhecia em profundidade, "por ter estudado num ginásio protestante, onde a Bíblia era matéria obrigatória". Em Cafarnaum, às margens do lago Tiberíades, onde Jesus se refugiou ao sair de Nazaré, Verissimo evoca Mateus, que condena a cidade ao "juízo final" com mais rigor do que o aplicado a Sodoma. E diz, sardônico: "haverá pior castigo para uma cidade outrora digna que transformar-se em ponto ele curiosidade turística?".

Esses lances de ironia e descontração parecem ter a função de impedir que a prosa se torne pedante, já que outra qualidade da narrativa é o didatismo, sempre que se trata de questões centrais da organização da vida no kibbutz, do sistema político do país e da história do judaísmo. Verissimo se esmera nessas explicações.

Muitas vezes faz ironia consigo mesmo. Numa manhã em que acordou exausto em Sefad, diz, ao fazer a barba, que o barbeador elétrico "desliza por uma cara para mim demasiadamente conhecida — e cada vez mais gasta...".

A vocação turística que Verissimo chamou então de maldição deve-se à profusão de lugares sagrados, não só para cristãos e judeus como também para drusos, muçulmanos e até para os Bahai, que fundaram em Haifa seu centro espiritual e administrativo. Quando Verissimo visitou Israel, a busca organizada e o restauro de sítios arqueológicos já era prioridade de Estado e também hobby nacional.

Em Tabga, pouco adiante de Cafarnaum, de onde Jesus teria saído para sua caminhada sobre as águas do Tiberíades, Verissimo se maravilhou ao admirar os mosaicos do século IV na igreja bizantina da Multiplicação. Mosaicos das eras romana e bizantina foram posteriormente descobertos em várias partes do país. E é com imensos fragmentos de mosaicos originais transpostos para as paredes majestosas do novo aeroporto Ben-Gurion que Israel daria depois as boas-vindas a seus visitantes. Entre eles, caravanas inteiras de evangélicos, que consideram a imersão no rio Jordão uma vez na vida tão necessária quanto a peregrinação a Meca para os muçulmanos.

Novas escavações foram revelando cidades romanas inteiras, a primeira igreja cristã, os subterrâneos do templo sob as muralhas de Jerusalém e instalações insuspeitas nas ruínas de Cesária, a cidade construída pelos romanos para ser a nova capital daqueles domínios.

São poucas as terras no mundo pelas quais passaram tantos impérios e conquistadores: assírios, persas, romanos, gregos, mamelucos, os cruzados e seus templários, o exército de Napoleão, os árabes de Saladino, os turcos e, finalmente, os ingleses. Todos deixaram suas marcas em ruínas, túmulos, templos e em memórias de batalhas, saques e destruição. Sefad, que na visita de Verissimo começava a tornar-se uma cidade de artistas, já era conhecida moo anos antes de Cristo. Tomada pelos templários em 1140, foi invadida 125 anos depois pelos mamelucos, que a destruíram.

Também o judaísmo da Idade Média, de espírito místico e cabalístico, lá fincou referência nas moradias e sinagogas dos rabinos e sábios da Cabala, especialmente em Sfad, onde o rabino Isaac Luria estabeleceu o centro mundial da cabala, e em Tiberíades, cujos "becos com suas arcadas, seu calçamento de pedras irregulares, as suas sinagogas sombrias" Verissimo descreve com tintas fortes.

Ao chegar às nascentes do Jordão, coladas à fronteira, à distância de um tiro de fuzil dos sírios, "os mais implacáveis e agressivos inimigos de Israel", e logo em seguida ao vale do Hule, onde muitos pioneiros morreram de malária ao tentar cultivar os pântanos, Verissimo é totalmente tomado pela emoção. É essa sua admiração pelo povo judeu e em especial pelo Estado de Israel que o faz aceitar e registrar sem questionamento as versões oficiais que vão sendo passadas pelos anfitriões, embora ele sempre esteja ciente do problema palestino. Tudo isso seria difícil, talvez impossível, uma década depois, quando todas aquelas terras a leste do Jordão, até os altos da montanhas do Golan, foram conquistadas por Israel e virtualmente anexadas.

Vê-se que a relação de Verissimo com o judaísmo e com Israel era profunda e de natureza espiritual, não havendo espaço para distanciamento crítico. Pois em 1966 já fazia dez anos que Israel participara da destrada intervenção anglo-francesa no canal de Suez para derrubar Nasser primeira grande operação em que Israel atuou em coordenação com potências colonialistas, embora na época ainda mantivesse relações preferenciais com países do Terceiro Mundo saídos da era colonial, Israel deixara de ser a promessa de utopia que jovens de boa vontade estão sempre a buscar para virar um país como qualquer outro, movido pelo interesse próprio e pelas leis da realpolitik. "Perdeu sua alma", proclamaria, rancoroso e desiludido, um dos primeiros livros dessa nova era. Mas não para Verissimo.

 

Bernardo Kucinski é professor titular de comunicação social na Universidade de São Paulo (USP) e foi assessor especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (2003-2006). É autor dos livros Jornalistas e revolucionários — nos tempos da imprensa alternativa (1991) e Jornalismo na era virtual (2005), entre outros.

 


 

In: Israel em Abril. Érico Veríssimo, São Paulo, Cia das Letras, 2010; prefácio, pgs12-19. www.companhiadasletras.com.br


 
     
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