Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

Alguma memória
 

-I- Infância

  Eu devia ter uns doze anos quando me levaram para umas reuniões com outros meninos e meninas nas quais ouvíamos histórias do gueto de Varsóvia e da imigração ilegal para a Palestina, ou aprendíamos canções em hebraico e noções de escotismo. Era o Dror, uma organização juvenil sionista socialista. O Dror ou tnuá*, como o chamávamos, tornou-se tão importante na minha vida que tudo o que aconteceu antes parece não contar. Minha infância não existe em sonhos e pesadelos. Todos os meus fantasmas são da época da tnuá em diante.

  As lembranças da infância são pontuais. Episódios isolados e recortes de paisagem, em meio aos grandes vazios da zona norte de São Paulo, onde morava, longe do centro da cidade. Lembro de um porão escuro, minha mãe picando bananas num grande caldeirão para fazer doce; da fila do pão, às quatro da madrugada, ainda escuro e frio. Os cartões amarelos de racionamento. Cortinas nas janelas, por causa do blackout. Lembro de catar ferro velho e cacos vidro para o “esforço de guerra” e, dos versos na contracapa dos cadernos, em homenagem aos pracinhas que tinham ido lutar na Itália, “por mais terras que eu percorra não permite Deus que eu morra sem que volte para lá...”. (1)

 

  Lembro da mesinha de sapateiro cheia de tachinhas, na saleta de frente para a rua. Mas não retive a imagem do meu pai batendo sola. Sei que a tentativa durou pouco. Logo virou mascate, o klienteltchnik como tantos judeus vindos naquela época da Polônia. Percorria de charrete as quebradas da Água Fria e do Tremembé, vendendo calças e camisas que os judeus das confecções do Bom Retiro lhe adiantavam. Lembro da cocheira, no fundo do grande quintal, o cavalo e a charrete que eu aprendi a arrear.

  Apesar de muito pobre, meu pai era tratado com certa deferência porque além de ter participado da militância política na Polônia, era um idischista. Poeta, jornalista e professor de idisch. Escrevia nos jornais idisch de São Paulo, de Buenos Aires e até nos de Nova Yorque (2). Um deles era impresso no Bom Retiro com tipos que ‑ depois me contaram ‑ foram trazidos da Polônia pelo tio o Moshe, o caçula dos irmãos Kucinskis e o último a vir para o Brasil. Dois ou três amigos judeus bem de vida e mais espertos nos negócios, ajudavam meu pai de vez em quando com crédito e contatos. 

  Às vezes me levava na sua charrete. Lembro que uma vez fomos até Cumbica, última estação da linha de trem e lá, num pasto, ele apontou para um potrinho que acabara de nascer e disse que era meu, um presente. Tempos depois, quando perguntei do potrinho ele disse que tinha vendido, ou algo assim. Esse era o meu pai, zichronó levrachá (3). Politizado, responsável, trabalhador, e insensível às sutilezas do mundo das crianças como toda sua geração. Lembro até hoje de uma creche onde a professora distribuía para as crianças seus cadernos bonitos encapados em papel manteiga verde, e eu não tinha caderno nenhum. Minhas poucas lembranças são quase todas assim, mais de carências do que de afetos.

 Aos 7 anos, como todas as crianças da minha rua, entrei no grupo escolar Frontino Guimarães, no Alto de Santana , distante uns dois quilômetros na nossa rua. Íamos a pé em pequenos bandos. Fora do grupo escolar não havia nada. Não havia clubes, yeshivot*, associações, parquinhos, nada. O nosso mundo era a rua, os quintais e os terrenos baldios. Empinávamos pipa, fazíamos fogueiras e brincávamos de esconde-esconde. Meu irmão mais velho vivia na rua. Ia mal na escola. Cabulava aula. Uma vez pulou a janela e fugiu de casa. Era disléxico, mas naquela época ninguém sabia o que era isso.

  Quando a Alemanha invadiu a Polônia em setembro de 1939 minha mãe estava no Brasil há apenas 4 anos. Uma judia polonesa morando num bairro de periferia de São Paulo de ruas de terra sem falar bem o português e sem saber o destino de seus pais e irmãos na Polônia ocupada. Eu tinha então 2 anos de idade. Desde sempre tive uma mãe nervosa, em geral infeliz, poucas vezes alegre, algumas vezes histérica.

  Muitos imigrantes judeus dessa época preferiam morar na periferia, onde podiam fazer freguesia como mascates e os aluguéis eram mais baratos. Não eram religiosos. Não precisavam do bairro judeu do Bom Retiro, da comida kosher ou da sinagoga. Havia famílias judias em muitos bairros. No Cambuci, Lapa e Brás, parece ter havido número suficiente para erguerem uma sinagoga. No Cambuci havia até um escola judaica. Mas onde eu passei minha infância e adolescência, na zona norte , não havia escola judaica nem nada. Na rua éramos os únicos judeus.

 Meu pai começou sua militância política no BUND*, antes de entrar na juventude do Poalei Zion*, abominava religião, a dos judeus mais ainda do que dos católicos. Mas nunca comemos em casa a feijoada, o prato típico brasileiro feito com carne de porco. Uma vez por semana minha mãe ia ao Bom Retiro comprar um arenque, um pedaço de halawa, um pão preto (de centeio). 

Logo, as cartas da Europa pararam de chegar. E, de repente, meus pais pararam de falar polonês. A família de minha mãe, os Mayerczak, foi toda morta, com exceção de um primo o Bennik, que lutou no Exército Vermelho e uma tia, a Hanna Mayerczak. Ambos acabaram em Israel, o tio Bennik condecorado depois da guerra por poloneses e russos, e a Hanna, com sobrenome mudado para Maron, consagrada como artista de teatro. (4)

  

Nossos vizinhos na Água Fria eram quase todos portugueses e alguns espanhóis, vindos duas ou três décadas antes, já abrasileirados e de vida estabilizada. Meu pai a chegou em 1933. Só depois que ele morreu, descobri numa memória escrita por ele para algum encontro de chaverim, que veio fugido, depois de preso e processado na Polônia por atividades políticas subversivas. Seus companheiros do Poalei Zion da Esquerda* corromperam a policia polonesa, mas, em troca da liberdade, ele não podia mais ficar na Polônia. Deve ter sido por isso que minha mãe só veio dois anos depois, trazendo no colo meu irmão mais velho,Wulf. 

A rua “A” era de terra batida, curta, plana e larga; do nosso lado era ocupada por casas pequenas com quintais compridos em declive, todos com frutas, alguns com pequenas hortas. Do lado oposto havia poucas casas, e bem no meio um morro, onde às vezes acampava um circo. Anos depois, ainda na minha infância esse morro foi derrubado, para dar lugar a uma vila de umas 20 ou 30 casas iguais, para a qual nos mudamos quando eu já devia ter meus 7 ou 8 anos.

 Nossa casa era a última da vila, do lado direito. Pulando o muro dos fundos eu cortava caminho para ir ao grupo escolar. Lembro que uma vez, no Natal, todas as crianças saíram com seus brinquedos e bicicletas novas, menos eu. Meus país não percebiam que era ruim nos privar de um brinquedo quando todos os outros tinham ganho um, fosse Natal ou não.

  Lembro mais da casa da Rua “A”do que da casa da vila. Era geminada, de um lado morávamos nós e do outro minha tia Manha, com o Tio David, um falastrão sempre metido em encrencas, e a filha Meri. A Tia Manha era irmã do meu pai. Eu entrava na casa deles poucas vezes, mas lembro até hoje da atmosfera sombria e um quadro na parede da sala, que me impressionava muito, uma mulher sentada num cais de porto olhava para o horizonte. Antes deles, lá morou o Tio Shlomo, irmão mais velho do meu pai e sua família, que depois se mudou para uma pequena cidade do interior, Mogi das Cruzes, onde montou uma oficina de confecções com meia dúzia de empregados.

  Os Kucinskis eram nove irmãos. Sete vieram para o Brasil , um de cada vez, como era o sistema da época: os que já estavam, se cotizavam para trazer o seguinte. Duas irmãs desapareceram na guerra. Uma vez por ano, no Pessach, todos se encontravam. Lembro ainda de um desses encontros num porão dos Campos Elíseos, onde moravam meus avós. O avô, de longas barbas brancas, depois descobri, também naquele memória de meu pai, foi um dos fundadores do Poalei Tzion na Polônia. Quando ele morreu, minha avó foi morar na casa da tia Chava , solteirona que morava no Bom Retiro, e os encontros se davam lá. Tia Chava acabou se casando com um comerciante judeu de roupas velhas. 

  Em 1941 nasceu minha irmã Ana Rosa. Éramos assim, três irmãos muito distantes entre si. Wulf o mais velho, nascido ainda na Polônia, entrou no outro movimento sionista socialista, o Hashomer Hatzair*, fez aliá e hoje vive em Gaash, eu também fiz aliá. Minha irmã Ana já é de uma geração seguinte, mais motivada pela política brasileira. Militou numa organização clandestina durante a ditadura militar, foi presa e executada sem julgamento. Seu corpo nunca foi encontrado.

 

-II- Adolescência

 

 Nem muito brasileiro nem totalmente judeu. Assim recordo minha pré-adolescência. As festas católicas não celebrávamos. O interior das igrejas era um lugar misterioso e proibido. Às vezes ia à quermesse, no terreno da Igreja do Alto de Santana. Sua torre eternamente em construção, para arrancar contribuições dos fiéis.

 E também não celebrávamos os ritos judaicos, porque meu pai era contra. Nunca soube se nossos nomes, Wulf, Bernardo e Ana Rosa, em vez de Abrão Isaac e Sara, por exemplo, foram escolhidos por rejeição à tradição religiosa, ou para disfarçar a origem judaica numa época de ascensão do nazismo.

 Na Avenida Tucuruvi, para onde nós mudamos quando eu tinha uns 9 anos, havia umas quatro ou cinco lojas de judeus, inclusive a que meu pai abriu com a ajuda de um sócio. Lojas distantes entre si, de roupas ou de móveis. A do meu pai e seu sócio era de roupas, principalmente. Fiquei conhecendo alguns moleques judeus da minha idade e às vezes ia à casa de um deles. Mas meu melhor amigo nessa época era filho de italianos que viviam se xingando em dialeto calabrês. 

  Uma vez por ano eu passava uma ou duas semanas na chácara do meu tio Shlomo em Mogi das Cruzes. Sentia então o contraste com os costumes de minha casa. Na casa do tio Shlomo todos comiam juntos na mesma hora, todos os dias. Depois ajudávamos a lavar os pratos. Os sapatos estavam sempre engraxados. Havia ordem e rotinas familiares. Tio Shlomo assim como Azriel, haviam passado alguns anos na Alemanha, antes de vir ao Brasil. Meu pai veio direto da shtetl miserável da Polônia, onde, diz ele, com suas verve literária “comia ovo só uma vez por ano no seu aniversário”. Um dos filhos do Azriel, o Alberto, formado em engenharia, havia vivido na Alemanha até o final do ginásio e falava português com forte sotaque alemão. Eu devia ter uns 15 ou 16 anos quando dia veio a noticia de que o Alberto havia se suicidado. Jogou-se debaixo de um trem. 

 Com 13 anos eu já andava sozinho pelos morros do Mandaqui e da Cantareira, cobrando prestações. Meu pai separava os cartões por rua, às vezes até avisava: “esse é um shvok(5), o caloteiro contumaz, o maior inimigo do Klienteltchiks, e lá ia eu, batendo palma nos portões. Até hoje sou um bom andarilho e exímio batedor de palmas.

 Na região havia algumas casas de estilo gótico, ou imitando castelinhos portugueses nas quais , dizia-se, funcionaram cassinos antes de sua proibição. Havia muitos alemães atraídos pelo clima mais temperado da Serra e uma escola alemã no Mandaqui, que meu irmão e alguns amigos depredaram quando a guerra acabou.

  O sócio de meu pai, um judeu solteirão, vivia na porta da loja acompanhando com olhar lascivo as pernas da mulheres que passavam, até o dia em que se casou e sossegou. Meu pai, quando não atendia os fregueses, ficava nos fundos mexendo nos jornais em idisch, escrevendo notas em pequenos pedaços de papelão cortados de caixas vazias de camisa. Nunca me falou muito do idisch e nem de sua atividade política. 

 Havia dois ritos na loja: o da leitura do Estado de S. Paulo de manhã, e da Gazeta, que chegada à tarde. Lembro das notícias da guerra na Palestina, e de como eu torcia pelos judeus, mas sem entender muito bem o que se passava. Os fregueses eram poucos, um cada hora ou hora e meia, exceto na época do Natal, quando o movimento aumentava bastante e era convocado para ajudar. Meu pai conhecia todos, os filhos, as noras, os cunhados. Foi com a freguesia que ele entrou na sociedade da loja. O sócio entrou como dinheiro. 

 No final do dia somavam os registros das entradas em idisch mecanicamente, conferiam com o dinheiro em caixa e dividiam em duas metades, uma para cada família. Era assim, tudo simples e direto. E sempre tinha algum dinheiro, mesmo quando parecia não ter vindo nenhum freguês.

 Penso que para meu pai o novo mundo do Brasil era principalmente objeto de intensa curiosidade literária, a descoberta de uma outra golá*, novos personagens e paisagens, matéria-prima para seus contos e crônicas, que de fato reuniu anos depois no livro Nussach Brazil (idisch). Uma ironia do destino: ele, sionista convicto desde a juventude, nunca fez aliá, tal o seu fascínio pelo novo golá. Já o Tio Shlomo, trotskista convicto, que chegou a participar de reuniões de líderes trotskistas em São Paulo, não só fez aliá, depois que foi proclamado o Estado de Israel, como levou toda a família e foi viver vida coletiva plena, na kibutz Kineret, onde até hoje vive minha prima Larissa.

 No Tucuruvi, morávamos no mesmo prédio da loja, no segundo andar. Nunca ouvi falar de antissemitismo entre os fregueses ou na minha pré-adolescência, embora a expressão depreciativa “judeu da prestação”, já fosse corrente. No Grupo Escolar Silva Jardim para onde fui transferido quando nos mudamos para o Tucuruvi, pela primeira vez tive que ficar fora da sala de aula, sozinho no imenso pátio, quando chegava a hora da aula de religião. Uma sensação estranha, mas não especialmente traumática.

  Duas vezes por semana eu ia religiosamente ia ao cinema, que ficava bem em frente à loja. À noite, sozinho, ouvia muito rádio, Luiz Gonzaga, principalmente. Minha mãe ia buscar dois livros na biblioteca municipal uma vez por semana. Desde a adolescência, lia muito. Entrava pela madrugada lendo, ao ponto de ter que apagar a luz correndo e esconder o livro debaixo da cama quando minha mãe vinha dar bronca, dizendo que assim eu ia ficar cego.

  Esse era o meu mundo quando chegaram ao Tucuruvi os madrichim do Dror e do Hashomer para nos seduzir. Poucos amigos, pouquíssima atividade social. Falta de identidade cultural. Para eles foi fácil demais. Na mesma época, talvez por causa do mesmo entusiasmo provocado pela proclamação do Estado de Israel, foi fundada no Bom Retiro a Escola Renascença, com a ajuda inclusive de meu pai, e lá fui eu fazer o ginásio numa escola judaica não religiosa, com uma hora de aula de hebraico todos os dias, antes das aulas regulares. 

 Bastaram três ou quatro anos de vida social intensa na tnuá, das reuniões semanais, os passeios, as machanot* e a doutrinação política para que o projeto de fazer aliá se tornasse a determinante de todas as decisões de vida. A decisão de estudar em escola técnica para ter um ofício, em vez de seguir o caminho tradicional dos jovens judeus de virarem médicos e doutores. Enquanto outros pais se preocupavam e faziam de tudo para dissuadir seus filhos, meu pais se orgulhavam de eles virarem pioneiros (chalutzim). Assim era meu pai, zichrono lebrachá (bendita seja sua memória).

Em 1959, com 21 nos de idade e a cabeça tomada pela utopia kibutziana, que em Israel já entraram em seu ocaso ‑ mas isso nós não sabíamos ‑ embarquei com o oitavo garin do Dror para me estabelecer em Erez, kibutz de fronteira coma Faixa de Gaza, conforme determinação da central do movimento. Nessa época mais judeus abandonavam Israel do que para lá. 

Menos de dois anos depois, chega inesperadamente a Erez o Tio Shlomo, vindo lá do Kineret. Trazia uma mensagem: Minha mãe estava com câncer e eu precisava voltar para ajudar no tratamento quimioterápico, que exigia levá-la às clinicas várias vezes por semana. Assim, o destino, muito mais que uma decisão levou-me de volta ao Brasil. Deixei em Erez todos meus objetos pessoais, como se um dia fosse voltar. Mas sabendo, no íntimo, que estava abandonando para sempre, a utopia chalutziana

 

III- Ieridá (6)

 

  Na minha primeira visita a Israel uns 10 anos depois da ieridá, o primo Josef, filho do tio Shlomo, dado a maluquices, quase rasgou meu passaporte brasileiro. E um casal de chaverim, que de malucos não tinha nada, foi tomado por tal nervosismo que num certo momento a chaverá apontou para uma das paredes do pequeno apartamento em que moravam, como se fosse a direção do quintal ou talvez do lixo, e desabafou: “Aqueles livros sobre socialismo, joguei tudo ali.” 

  Não sei até hoje se naquele dia fui condenado por ter abandonado Eretz Israel ou por ter me mantido supostamente fiel ao socialismo. Ou se foi pelas duas coisas. O encontro deve ter marcado a memória dos dois tanto quanto marcou a minha, porque em visitas posteriores nos receberam como chaver de sempre e para sempre, com socialismo ou sem socialismo.

  Hoje, tudo é história. Inclusive o socialismo. Bror Chail já não é kibutz, é um condomínio residencial. O bairro judeu do Bom Retiro virou bairro coreano. O sionismo não é mais conduzido por chalutzim, e sim por fundamentalistas do Brooklin. O sionismo socialista, a ideologia mãe da nossa tnuá, é história. Ficou do movimento sua dimensão humana: nossa amizade e a nossa formação. 

  É difícil definir a natureza dessa amizade. É mais profunda do que a de uma turma de escola ou de bairro. Talvez seja comparável à dos que serviram numa mesma unidade na guerra. Ou, como aconteceu no Brasil, à dos que ficaram presos na mesma cela durante a ditadura. Mas guerra e prisões são rupturas na vida das pessoas vida. A tnuá era o próprio projeto de vida.  

  Nossa formação foi um ganho fenomenal. Desconfio que mesmo os que lamentam o “tempo perdido” reconhecem isso. Éramos quase todos provincianos, a maioria nem era do Bom Retiro. Vínhamos dois ou três e cada bairro da cidade. Do Tucuruvi, do Brás, do Meyer. Alguns caipiras mesmo, como o Zício, que veio do interior de Minas. Nem brasileiros plenos, nem parte de uma comunidade judaica. A tnuá nos socializou. Não só isso: nos incutiu valores e o desejo nada modesto de ter uma visão de mundo. A famosa Weltanschaung exerceu função formativa dominante, acima da escola, da família, da vizinhança .

 O mérito cabe à forma superior com que os fundadores da tnuá no Brasil, alguns deles nascidos e parcialmente educados na Europa, a conceberam. A ênfase na elaboração teórica e no humanismo e na abordagem não maniqueísta da política. Cultuávamos a literatura não conformista. Éramos estimulados a debater e a produzir jornais. No movimento todos éramos maiores do que nós mesmos. Acreditávamos em mais coisas. Éramos mais bonitos. Mais importantes.

  Décadas depois da ieridá ‑ essa palavra feia ‑, depois de me tornar jornalista e finalmente professor, apliquei a pedagogia do movimento no ensino. Conferi ao jornalismo que ensinava uma ética de princípios, como na tnuá. Fui até chamado de ingênuo, ou de ter uma visão idealista do jornalismo. Mas essa demarcação influenciou alguns alunos. 

  Outro método que usei foi o do choque existencial. No movimento tínhamos que vencer obstáculos sucessivos na esfera pessoal até a ruptura final de abandonar o país e a família para viver do outro lado do oceano e fora da sociedade capitalista. Antes disso tínhamos que rejeitar o projeto de nossos pais de nos fazer doutores ou advogados, matriculando-nos em cursos profissionalizantes. Também submeti meus alunos ao choque existencial. Tiveram que enfrentar os poderosos já nas reportagens do Jornal Laboratorial e responder às pressões que se seguiram. Alguns reconhecem que aqueles foram os melhores anos de suas vidas, os anos em que escreveram as melhores matérias. Mais ou menos como nos lembramos da tnuá. A maioria, para meu desgosto, sucumbiu à ordem neoliberal, do “cada um por si Deus por todos”, do sucesso pessoal a qualquer preço, mesmo ao preço de dar uma rasteira no companheiro.

  No “memorial”, que fui obrigado a escrever para disputar o concurso de professor titular, como manda o regulamento, constam as seguintes passagens:

  “ Após tentativa frustrada de viver numa colônia coletiva em Israel, um kibutz, voltei ao Brasil e prestei vestibular para o curso de Física da USP. A passagem por Israel foi traumática. O projeto de vida coletiva se esfacelou de repente, pois chegamos num momento de especial depressão ideológica e política. Nosso "socialismo" era ridicularizado pelos próprios filhos daquela sociedade nova que queríamos ajudar a construir. O fato de termos desprezado a chance de um diploma universitário foi visto como estupidez. Hoje percebo que aquela crise foi um presságio do fim das utopias, que se manifestaria de forma generalizada 20 anos depois...”

 “ Os cursos de física e química eram os únicos, se minha memória está certa, que ofereciam vagas no período noturno. Como nunca me dei bem com a linguagem da química, escolhi a física. Estávamos em 1962, às vésperas do golpe militar. Eu era um pouco mais velho do que a média dos estudantes, mal preparado, e só consegui vaga na segunda chamada. Do contraste entre a decepção da primeira chamada, quando não entrei, e a alegria da segunda chamada, concluí que se tomara muito importante para mim entrar na universidade...."

  “ Estudava à noite, após jornada de trabalho como desenhista-projetista numa indústria de aparelhos eletrônicos. Após o golpe militar, passamos a viver o clima do engajamento total do estudante na atividade política. A universidade tornara-se um laboratório de propostas insurrecionais e doutrinas políticas, cada grupo portando um modelo e um teorema para a revolução brasileira...”

  “ Terminei meu curso de física no clima pesado que se sucedeu ao AI-5. Vários colegas haviam sido mortos. Consultei um dos professores para avaliar se poderia trabalhar em física e fui rejeitado. Eu não havia sido um aluno brilhante, apenas passável. De qualquer forma, o jornalismo já me atraía...”

   Se a tnuá nos fez e nos uniu, a alià que era seu objetivo último nos desmanchou, nos dividiu. Na tnuá, diferentes histórias de vida convergiam para formar uma única história coletiva, um grupo, um garin. Na aliá, projetos de vida individuais infiltraram-se silenciosamente em cada um de nós já durante a viagem. O primeiro sinal foi a revolta súbita, quando quiseram recolher nossos passaportes brasileiros. Visto tantos anos depois, o episódio parece marcar uma inusitada quebra de confiança. De quem com relação a quem? Essa é a questão. Quebra de confiança em nós mesmos, no nosso projeto de vida? Nos nossos líderes?  

 O choque maior aconteceu no navio da Zim, que partiu de Nápoles. Imaginem a excitação, um navio com a bandeira do Estado de Israel. Mas, os marinheiros riam quando nos cantávamos “anu olim hartza beshira ubezimra...(7)

  Nós cantávamos e eles riam, riam, riam...

  A aproximação do porto de Haifa afastou as inquietações por algumas horas. Fomos tomados pela emoção. Lembro que o Hugo Jardanovsky, hoje um artista de teatro em Israel, fez a barba três horas antes para chegar bem escanhoado, mas com a pele já amaciada. De cara limpa.

  O suspense voltou a nos dominar no caminhão que nos levou a Erez, o kibutz designado para o garin. Durante a viagem, igualzinha à dos nossos passeios no Brasil, não enxergávamos muita coisa. Desembarcamos no pátio de Erez já de noite, bem escuro. De início não apareceu nenhum veterano (vatik) para nos receber. Só alguns soldados lá estacionados. O Avrum (Abraão Farc), dramático como sempre, abaixou-se para pegar um punhado de terra, e ao perceber que nem era terra e sim areia, foi deixando-a escorrer entre os dedos enquanto balançava a cabeça decepcionado, como se aquilo fosse mais um sinal de que o destino havia trapaceado conosco.  

 O nome Avrum, também teve que voltar porque seu pai adoeceu gravemente de gangrena. Mas não chegou a tempo e até hoje anda meio curvado, como se carregasse um culpa. Era parceiro do Hugo nas peças de teatro da tnuá e hoje no Brasil se tornou ator profissional. O que ele ganhou da tnuá principalmente foi a descoberta de sua vocação para o teatro. 

 Nosso garin teve a sorte, se é que e pode usar essa palavra, de quebrar a cara logo no primeiro dia. Até hoje, quando ouço os concertos de Brandenburgo, minha memória retorna à varanda do pátio de Erez , onde o Max Sidsamer tocava incessantemente a vitrolinha comprada na passagem pela Europa, como se procurasse na música de Bach o refugio até então provido pela tnuá, esfacelado na viagem.

  A crise demorou pouco para maturar, para levar a decisões de tentar um novo rumo. De modo que os que saíram do kibutz puderam construir uma nova vida no mundo capitalista que como sabemos, não dá moleza. 

 O mesmo se deu com os que abandonaram o país. O primeiro casal do nosso garin a voltar, foram Fernando e Betty Greiber. A Betty não aceitou que tirassem do seu colo a filhinha com apenas 4 dia de vida, para ser criada na beit ieladim(8)

 E foi o Fernando quem me arranjou o primeiro emprego no Brasil quando eu voltei.

  O kibutz carrega esse paradoxo: quanto mais tempo você fica, menor sua chance de optar por outra vida. Até um momento em que isso se torna materialmente impossível. Seria então a permanência por falta de opção. Quase uma servidão. Tive esse pensamento logo nos primeiros dias de Erez, ao conversar com alguns dos veteranos, ou quando dirigia o olhar para os campos, para além do pomar (bustan) árabe que virara nosso pátio.  

  O modo de fazer aliá dramatizava a própria aliá. Era como se partíssemos para a guerra, era uma “emigração.” Para cada era confeccionado um baú. A mãe costurava cuecas e camisas. Era para nunca mais voltar. A viagem, de navio, levava três semanas. Os navios franceses, que sobraram da guerra, balançavam no melhor estilo pirata. Antes, fazíamos uma turnê de despedida pelo Brasil, com apresentações patrióticas nas capitais distantes do eixo Rio-São Paulo. Como a festa que os vizinhos fazem ao convocado para o front.  

  O trauma do retorno. A ruptura. De repente, todos os sentidos que havíamos atribuído à nossa vida se perderam, era preciso urgentemente um novo sentido. Nos primeiros anos depois da ieridá, costumava refletir sobre quem perdeu e quem ganhou. Perderam os que ficaram ou os que abandonaram? Difícil imaginar o que os outros sentem. Difícil generalizar a partir do que nós sentimos. Acho que no começo esse balanço tinha sentido material. E seu resultado se invertia conforme os rumos do Brasil e de Israel. Com o tempo, as condições materiais de todos nós como que se equalizaram, com exceções raras.  

  Logo, afastado o choque dos primeiros tempos, impôs-se o balanço espiritual. Tenho a convicção de que perderam os que abandonaram. Nosso caminho foi interrompido de modo brutal. Ficou faltando um pedaço de nossa alma. Um vazio que pode ser preenchido apenas parcialmente por um novo projeto. Meu primeiro impulso foi em busca da universidade. Entrar na universidade. “ Vocês podiam ir para a universidade e não foram?” Perguntavam espantados, ou meramente gozadores, os sabras de Erez. Depois, vieram as compensações do jornalismo e da militância no Partido dos Trabalhadores.  

  Também entre os que não retornaram, mas saíram do kibutz houve essa busca de um novo sentido, mas dentro de uma mesma geografia, de uma mesma história. Mesmo abandonando o kibutz, continuaram a viver o destino para o qual se prepararam. Sair do kibutz , penso eu, foi uma vicissitude desse destino, uma variante, não a sua negação.

   O Brasil que havíamos deixado era o país mais bonito do mundo. Tínhamos afeto pelo Brasil. Depois veio a ditadura. Os anos de chumbo. Tudo azedou. A tensão, os desaparecimentos políticos. No meio, o milagre econômico. Foram 20 anos de ditaduras, no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Chile. Também os jovens brasileiros, os não judeus (goim), tinham então projetos de vida coletivos. Um amigo meu, professor da universidade contou como um dia vieram avisá-lo que o momento era chegado. O ponto estava marcado. Ele simplesmente fez sua malinha e foi ao ponto combinado de onde iram se juntar a Che Guevara, na Bolívia. Só não morreu naquela aventura louca, porque o ponto falhou. Minha irmã, Ana Rosa e meu cunhado Wilson Silva não tiveram a mesma sorte e foram “desaparecidos.” Ambos rejeitavam o sionismo. Sua utopia era o socialismo. Mas foi o Estado de Israel, graças aos esforços enormes de meu irmão e seus amigos de Gaash, que forneceu salvo-condutos aos dois, quando ainda havia uma tênue esperança de que estivessem vivos. 

  Depois da ditadura, vieram mais de 20 anos de estagnação econômica, a crise da dívida externa, a mesma que quebrou financeiramente o movimento kibutziano. O desemprego em massa serviu de terra fértil para a penetração da cocaína e do crack. Ao ópio das drogas somou-se o “ópio do povo” , as igrejas evangélicas. Também no Brasil houve  uma grande procura popular por religiosidade.

  Tudo é história. A Estação da Luz com seu relógio sempre adiantado três minutos para ninguém perder o trem, de onde partíamos para as machanot, virou Museu da Língua Português. A Sorocabana, de onde também partimos tantas vezes, virou uma sala de concertos. Entre as duas estações, o prédio do DOPS, a Polícia Política, onde um dia levamos uma prensa num processo por “aliciamento de menores”  para Israel, e onde o delegado Fleury instalou depois seu escabroso esquadrão da morte, hoje é um museu dos crimes da ditadura militar.

  Na Bolívia, no Peru, no Equador as comunidades indígenas disputam pela primeira vez o poder dos brancos. O Brasil, pela primeira vez, elegeu um operário para a presidência. E com ele, lá fui eu para Brasília, viver uma inusitada experiência de assessor do presidente. Na Venezuela, Chávez invoca o mito de Símon Bolivar. Na esquerda, após o massacre de Sabra e Shatila, sionismo virou definitivamente palavra feia.

  Desde a primeira vez que pisei no cais de Haifa, senti-me em casa. Fui tomado por uma sensação de euforia, de pertencer plenamente, que não conhecia no Brasil. Esse era um paradoxo. Sentia-me em casa no país, mas não no nosso projeto. Senti-me em casa no Ulpan (9) de um mês em Katamon (10), mas não no kibutz veterano para o qual fomos designados pelo período de adaptação, muito menos em Erez, nosso destino final.

  Ao retornar de uma dessas viagens fui advertido pela mocinha do controle que da próxima vez eu deveria entrar em Israel com passaporte israelense porque eu era cidadão israelense. Hoje, cada vez que desembarco no aeroporto Ben Gurion com o passaporte azul, sinto-me ainda mais à vontade, quase como um filho que volta à casa materna. 

  Tudo me encanta É um deslumbramento que destrói o senso crítico. São viagens cada vez mais frequentes. Durante as negociações de Oslo, fiz planos para me mudar para Israel assim que me aposentasse da universidade ou talvez até antes. O Levy Gurvitz (Gur) (11) me levou para ver lugares onde ainda se podia comprar uma casa a preço não exorbitante. Minha mulher, de descendência japonesa, no começo também se encantava. Tornou-se muito amiga da Aninha, esposa do Levy, e da Cecília, esposa do Dov Zeltzer. E concordou com os planos de mudança. Até estudou hebraico, que aprendeu com facilidade.

  Depois veio o fracasso de Oslo, e em seguida a segunda intifada. E minha mulher foi vendo tudo com olhos críticos, depois com olhos de desgosto. Muito desgosto. Nas visitas, o país cada vez mais bonito, ela via cada vez mais defeitos. Tenho a convicção de que o que a incomoda é a situação dos palestinos. Difícil reconciliar a beleza da reconstrução de um país, da cultura de um povo milenar, com a tragédia palestina. É o espinho atravessado na garganta.  -fim-   

 

 


 

1 Refrão da “Canção do Expedicionário”, do poeta romântico paulistano Guilherme de Almeida.

2 Meier (Mejer) Kucinski, nasceu em Wloclavek (Polônia), em 1904, que pertencia ao império russo. Kucinski fazia parte dos círculos idischistas laicos do Linke Poalei Tzion*. Emigrou ao Brasil em 1935, e logo integrou-se no milieu dos escritores, ensaistas, e periodistas idischistas. Sobre sua importância e influencia nas letras e critica literaria idischistas veja: Rifka Berezin, prefácio ao livro de contos de Meier Kucinski, Imigrantes, mascates & doutores. Organização e seleção, Rifka Berezin & Hadassa Cytrynowicz. São Paulo, Ateliê, 2002, p. 20-29. Jacó Guinsburg, Aventuras de uma língua errante. São Paulo, Perspectiva, 1996, p. 439-440. Nachman Falbel, Judeus no Brasil ‑ estudos e notas. Humanistas; Edusp, 2008, p. 71; 575.

3 Bennik é Benjamin Meirtchak, nasceu em julho de 1917 em Wloclawek, morreu em Israel em março de 2005. Deixou aos netos um livro de memórias: Beahava, saba Bennik (Com amor, avô Bennik). Ed. Schlomo Levi, Israel, 2007.

4 Em sua memória, meu pai fala em “uma familia de dez crianças”, mas os números não batem. Talvez uma tenha morrido ainda na infância.

5 Prego em idisch. Expressão usada pelos mascates judeus (também conhecidos como Klienteltchiks) para denominar os maus pagadores de suas clientelas.

6 Literalmente descida em hebraico, ato de emigrar de Israel, num sentido figurativo abandonar o país, desertar das fileiras. Palavra com conotação pejorativa que se diz de alguém que renunciou aos ideais sionistas pela vida na Diáspora.

7 “Nós emigramos a Israel com alegria e regozijo”, que era cantada pelos jovens nos movimentos juvenis expressando a essência da realização pessoal e coletiva daqueles que se preparavam para se estabelecer num kibutz em Israel.

8 Casas para crianças nas quais habitavam e eram educadas, segundo faixas etárias, separadas dos pais, o que lhes permitia dedicar-se a diversos trabalhos que o kibutz exigia. Este sistema de habitação e educação coletiva das crianças separadas dos pais possibilitava (na teoria) a igualdade entre os sexos, visto que as mulheres poderiam se libertar de tarefas “femininas” como educação, trabalho na cozinha coletiva e realizar trabalhos físicos como homens, como por exemplo trabalhos agrícolas.

9 Escola para jovens emigrantes, lá se aprende hebraico e noções básicas da cultura israelense.

10 Bairro de Jerusalém.

11 Foi secretário-geral (mazkir) do movimento em 1959-1960, se integrou ao kibutz Erez e posteriomente a Bror Chail. Graduou-se em economia e países emergentes na Universidade de Tel Aviv. Atuou nas áreas de cooperativismo agrícola e desenvolvimento rural integrado na América Latina, Ásia e África.

 

 


 

In: Fragmentos de Memórias. Avraham Milgram (org.)Rio de Janeiro, Imago, 2010.  pgs.187-198.www.imagoeditora.com.br

 

 


 
     
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