Sistema e browser desconhecidos

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A mídia como justiceira
 

 

Uma nova avalanche de histórias de corrupção tomou conta dos jornais e  revistas dos últimos dias. Em quase todas as histórias a imprensa fez justiça com as próprias mãos. As exceções foram Carta Capital e VEJA, mais recatadas. Carta Capital conta em tom brando a curiosa história de como a Receita Federal  passou o pente fino nas declarações de tucanos notáveis, entre eles, Bresser Pereira  e Ricardo Sérgio. O ministro explicou as irregularidades  de sua declaração, mas Ricardo Sérgio não.

   VEJA conta uma história de políticos paraguaios que financiam suas campanhas com a o contrabando para o Brasil de marcas falsificadas de cigarros. Traz também um estudo de dois economistas do Banco Mundial sobre os custos econômicos da corrupção e sua incidência no mundo. O Brasil está na turma dos países muito corruptos, em que fiscais arrancam propinas gordas de empresas para fechar os olhos à sonegação. ÉPOCA traz transcrições de novas fitas envolvendo o governador do distrito Federal Joaquim Roriz em grilagem de terras.

   A Folha saiu-se no domingo com mais uma das histórias de Josias de Souza sobre mordomias e gastos extravagantes no setor que ele chama de “para -fiscal”, o sistema Sesc/Senai/CNI. Hoje a Folha acusa políticos do Tocantins de receberem propinas para aprovar emendas do orçamento; o mesmo esquema dos “anões do orçamento”.

   Tanto a reportagem da ISTOÉ como a da Folha de hoje são baseadas em dossiês vazados aos jornalistas por procuradores ou pela Polícia Federal. ISTOÉ resolveu fazer justiça sumária. Deu capa a uma denúncia ainda não comprovada de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo políticos importantes  do Nordeste, entre eles Vilma Faria, eleita governadora do Rio Grande do Norte pelo PSB e Inocêncio Oliveira, líder do PFL na Câmara. 

  A história da ISTOÉ  uma das mais perfeitas manifestações do jornalismo denuncista alimentado por dossiês que proliferam na nossa imprensa nos últimos anos: é baseada exclusivamente num dossiê que chegou pronto e acabado às mãos dos jornalistas,  e adota o tom condenatório, mal disfarçado com uma ou outra frase de que “Não há provas definitivas.” As negativas dos acusados são registradas pró- forma  num pequeno compacto. A história no entanto é bastante convincente pela riqueza de detalhes. O caso de Tocantins traz documentos que aparentemente comprovam as denúncias. 

  Quase todas essas histórias deixam mais interrogações do que explicações. As denúncias contra políticos são oriundas de procedimentos abertos por procuradores da Justiça ou pela Receita Federal e  no entanto não se explica como e porque chegaram às mãos dos jornalistas. Os  contribuintes da Receita Federal são protegidos pelo sigilo. Como e porque foram quebrados os sigilos? Os procedimentos contra políticos não foram levados nem ao conhecimento dos acusados, mas já chegaram aos jornais. Em todos esses casos a presunção  da inocência salvo prova em contrário foi desprezada. 

  Na reportagem da ISTOÉ há um detalhe mais grave; os procuradores da República na Paraíba admitem que seguraram a informação durante a campanha  eleitoral para não influir nas eleições. Isso indica que as denúncias foram feitas no contexto da campanha eleitora com óbvios objetivos eleitoreiros e (b) que a justiça condiciona seus procedimentos a interesses políticos, escondendo  ou vazando denúncias à imprensa segundo seu próprio julgamento. 

  Em São Paulo aconteceu o oposto; o procurador –geral de justiça do estado, Luiz Antonio Marrey, montou uma força tarefa especialmente para denunciara a administração petista de Santo André no período eleitoral. Causou um grande estrado pela mídia, vazando cuidadosamente os seus inquéritos. Depois das eleições, foram todos anulados por decisão unânime do Tribunal de Justiça do Estado, porque os próprios indiciados não eram ouvidos e ficavam sabendo apenas pela imprensa, do que estavam sendo acusados. Um procedimento  kafkiano. 

   As histórias também impressionam porque em sua maioria tratam de casos e personagens e processos já conhecidos. E que não deram em nada. Foram arquivados, esquecidos em alguma gaveta, adiados ou abafados. Percebe-se que há um vazio deixado pela inoperância da justiça no combate à corrupção e aos crimes de colarinho branco. Nesse vazio, floresce o jornalismo denuncista. Esse jornalismo acusa, julga e pune, tudo ao mesmo tempo. É uma modalidade de rito sumário, que se realiza no espaço midiático, na qual não há o direito o contraditório, na qual a defesa é uma farsa que apenas legitima a acusação. É justiça cruel, e na qual não há direito de apelação porque não há segunda instância.   

  A história de Paula Milhim Monteiro Alvarenga que a Folha conta na edição deste Domingo é bom exemplo dos estragos de uma imprensa justiceira. Paula foi uma das proprietárias da Escola Base, acusada  com os outros professores de abusar sexualmente das crianças. A acusação, que a mídia proclamou em manchetes de primeira página  era  falsa, fruto de ilações precipitadas de um delegado ignorante sobre o lugar da fantasia na imaginação infantil. A Escola Base foi destruída, a casa em que Paula morava foi apedrejada, ela foi agredida nas ruas por desconhecidos.

   Hoje, nove anos depois, Paula  não consegue emprego, perdeu a linha telefônica por falta de pagamento e corre o risco  perder a água pelo mesmo motivo. Enfim, a imprensa acabou com a  vida de Paula. Destruiu a imagem que tinha perante pais, alunos e vizinhos. Construiu em seu lugar a imagem de um monstro, provocando com isso a ira popular. Os americanos chamam a esse fenômeno do pode da mídia “character destruction”. Em geral é aplicado contra personalidades políticas, como parte do jogo de poder. Mas ocasionalmente é aplicado contra pessoas simples, como Paula. A Folha foi um dos  jornais que participou desse linchamento, liderado no entanto, por outro jornal da mesma empresa , o Noticias Populares. 

  Seu propósito , na reportagem desta vez, foi o de cobrar do Estado o não oferecimento a Paula Paula  por “perda de prazo” de uma indenização oferecida às outras vítimas do episódio. Na entrevista ao jornal, Paula disse à Folha que antes ainda conseguia trabalhar por alguns meses,” até que me reconhecessem. Aí eu precisava procurar outro emprego “.  Só que a Folha não resistiu a um pouquinho mais de espetáculo às suas custas de Paula e  publicou de novo sua foto, com destaque e tratamento sombrio. Precisava? Além de sua vida continuar estragada, sem que ela  tenha direito à indenização,  a Folha  expôs de novo sua face  à violência da malícia coletiva. 


 
     
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