Sistema e browser desconhecidos

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Notícia importante: não há fome no Brasil
 

Jornais, jornalistas e o próprio presidente Fernando Henrique nos informam que não há fome no Brasil. O texto inaugural desse discurso é o Demétrio Magnolli,  publicado em ÉPOCA  logo que Lula anunciou o programa Fome Zero como sua prioridade de início de governo. Magnolli disse que “não há fome social no Brasil”, diferentemente do ocorre em alguns países da África, contestando as premissas do programa Fome Zero .

   Em Londres, uma das etapas de sua agradável viagem de fim de governo ao exterior, o presidente Fernando Henrique arrematou,  em entrevista .à BBC, reproduzida por todos os nossos jornais: ” Há casos raros de fome no Brasil. O que há é subnutrição.” E no final da semana, VEJA foi ainda mais enfática, provando com números que “como fenômeno social, não há famintos no Brasil” 

   Todos esses argumentos  são sofismas baseado num ingênuo jogo de palavras. Com se mudando palavras ou re-inventando definições,  acabasse a fome no Brasil.. Os sofismas  tem uma mesma  estrutura de contraposição entre a palavra “fome” e três outras expressões:  “fome social”, “desnutrição”, e “miséria” : o que existe no Brasil é miséria, não a fome, o que existe no Brasil é a fome esporádica,  não a fome social, o que existe no Brasil nem é fome, é apenas desnutrição. 

  Como o que existe é uma outra coisa, a fome não existe. O truque é até muito simples. Ocorre que ou as premissas dos argumentos são falsas, ou é falsa a conclusão. A três falácias nem mesmo são compatíveis entre si. Não passam de jogo de palavras

   Magnolli refere-se grandes surtos epidêmicos de fome ocorridos na Europa, e que hoje ocorrem em alguns países da África. A língua inglesa tem uma expressão própria para esses surtos epidêmicos, “famine”. Essa é a fome epidêmica,  que afeta de uma vez só grandes populações. Assim foi a “famine’ que eclodiu na Irlanda  no século XIX, quando deu-se uma praga nas batatas, levando milhões de Irlandeses à morte por desnutrição e outros milhões ã emigração para os Estados Unidos. Por isso, na língua inglesa usa- se “famine’ para essa fome de caráter social, e hunger para a fome comum.

  O sofisma de Magnolli consistiu em considerar os surtos epidêmicos de fome  como única modalidade de fome social. Mas e a fome crônica, permanente,  espalhada e não concentrada, um pouco em cada dia, um pouco em cada povoado do Nordeste, um pouco em cada favela da periferia, um pouco em cada cortiço de São Paulo? Essa fome não é social? O que falta no Brasil não é a fome social, mas uma palavra nossa para  designá-la.

 

  A outra falácia usada tanto por Magnolli como por FHC, foi a  de que no Brasil não há fome e sim desnutrição. Mas como é possível haver desnutrição sem haver  fome”? A desnutrição é um dos  principais efeitos da fome, e de uma fome crônica, contínua.  É preciso passar fome durante meses, anos, par se tornar subnutrição. No Brasil isso ocorre principalmente com crianças entre e dois e seis anos de idade, quando já pararam de mamar e ainda não foram à escola, onde teriam acesso a uma merenda escolar, pelo menos.   Seis em cada cem crianças brasileiras são subnutridas, informou a Folha deste domingo. entre crianças de aldeias indígenas, a proporção mais do que dobra.

   VEJA valeu-se da falácia da miséria sem fome. Na edição desta semana usou um jogo de palavras:  todos os famintos são miseráveis mas nem todos os miseráveis são famintos. A partir disso, estimou em miseráveis 14% da população. E concluiu: como os programas sociais do governo atenderiam 80% e aos 20% restantes é assistida com maior ou menor eficiência por ONGs, não sobram famintos no Brasil. Um argumento que chuta números e taxas de atendimento, sem nenhuma  corroboração ou prova. Um mero exercício retórico. 

   Ouve outras falácias: FHC usou o argumento de que 95% das crianças vão hoje à escola e como na escola recebem merenda, não tem como passar fome. Mas e os 5% restantes? E as crianças na faixa de dois a seis anos que não vão à escola? Puro sofisma, enganação, que  num assunto tão sério  não fica bem para um presidente da República mesmo em fim de mandato.” Outra falácia de FHC é de quesão casos raros”. Uma proporção pequena de desnutridos, digamos 1% da população, já significam 1,7 milhão de famintos.

   Distoando de tudo isso, uma reportagem da Folha do domingo mostra a fome no mundo real dos índios. Os dados foram obtidos pelo cruzamento de informações da Fundação Nacional da Saúde e da Pastoral da Criança. Entram na conta crianças com até 6 anos e 11 meses. Dados de 18 dos 34 distritos sanitários revelaram que havia 5.012 crianças com peso abaixo do normal – principal indicador de sub - nutrição. A reportagem da Folha foi uma das que desde o lançamento do programa Fome Zero vem trazendo fragmentos de um mapa da fome no Brasil. 

  A mesma Folha na semana anterior, mostrou que o governo considera que existem há 39 milhões de pobres no Brasil, ( contra  57 milhões estimados pelo IPEA) e que apenas metade deles (52%) estão cadastrados nos programas de auxílio, como Bolsa- escola. Sobram quase 19 milhões de pobres sem essa proteção. Se apenas dez por cento deles passarem fome, já são 1,9 milhões de brasileiros com fome. 

   Josué de Castro conta em “sete palmos de terra e um caixão” ( Brasiliense, 1968) que no Nordeste era hábito  “ servir-se um pedacinho de carne seca com um prato cheio de farofa.” O suficiente de  carne, quase nada,  só para dar um gosto. É assim o jornalismo de VEJA sobre a Fome: muita farofa e pouquíssima carne. 

 

 



 

8 Essa expressão, depois do inicio do governo Lula passou a ser mais conhecida: insegurança alimentar. Afeta cerca de  40 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados oficiais do IBGE.


 
     
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