Sistema e browser desconhecidos

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Crimes, mitos e tabus
 

A menina rica foi acusada de tramar a morte dos pais a pauladas, enquanto dormiam;  depois foi a um  motel com o namorado, um dos assassinos. Uma história sensacional, com os ingredientes de uma tragédia grega que terminaria com a morte de todos os protagonistas se a pena de morte existisse entre nós. 

   O crime da jovem  Suzane , com apenas 19 anos de idade, tem uma dimensão especial, mesmo numa sociedade tomada pela violência em todos os seus níveis e gradações, como é a nossa, porque remete aos mitos mais  profundos do imaginário humano. Lembra demais a tese de Freud sobre origem dos totems primitivos, que ele associa ao tabu do incesto, no seu famoso estudo “Totems e Tabus.” Nessa explicação, que tem a estrutura de um mito primitivo,  Freud diz que na era em que os homens viviam em hordas primitivas em torno de um chefe, filhos se sublevavam e matavam o pai, para possuir a mãe. 

   O totem é a representação desse pai ancestral, erigida para barrar a propensão primitiva ao incesto, para fazer do incesto um tabu.  Por extensão,  matar os próprios pais também virou tabu, mesmo não havendo a motivação do incesto. Ao tramar a morte dos  pais, Suzane não apenas cometeu um crime capitulado em Lei, ela violou um mais imponentes tabus da cultura  humana. 

   Uma história com esses ingredientes e essa dimensão emblemática, envolvendo uma família de classe média alta é candidata imbatível a capa nas revistas semanais, voltadas essencialmente à classe média, por qualquer critério editorial. 

   ISTOÉ, deu Suzane na capa com a chamada : “Jovem, Rica, Bela e Cruel.”   Dedicou ao crime cinco páginas , relatando os detalhes disponíveis do crime e de seu planejamento, confessados por Suzane, por seu namorado Daniel e o irmão dele,  Cristian.

   ÉPOCA foi ainda mais ousada, na capa deu: “Matou os pais e foi para o motel”. No corpo da revista, com grande destaque, nada menos que sete páginas para a história do crime. Incluindo uma seqüência desenhada como história em quadrinhos, simulando as principais etapas da matança e seu planejamento.

   Tanto ÉPOCA quanto ISTOÉ recordaram outros episódios  recentes do “crime em família”, mas sem tentar trabalhar um contexto sociológico para esse tipo de situação. ISTOÉ tentou uma explicação psiquiátrica para a atitude de  Suzane.

   Por tudo isso, foi muita estranha a postura editorial de VEJA, que  preferiu esconder a história lá no final da edição, espremida em duas páginas discretas. Na capa da revista, uma reportagem fria, gelada, sobre livros de auto - ajuda, que poderia ter sido publicada em qualquer outra semana. Chamamos a esse tipo de matéria “ calhau”, fica na gaveta do editor para ser  usada quando falta assunto melhor. mais importante. 

 

  Está claro que VEJA decidiu não dar a capa à menina rica que mandou matar a família, mesmo não tendo outra história de mesmo porte.  Teve que usar um calhau, uma matéria fria de gaveta, porque na última hora optou pelo tratamento  discreto do crime. 

   A história com todos os seus dramáticos detalhes foi revelada oficialmente a toda a imprensa na manhã da sexta-feira numa coletiva. Portanto, não se pode alegar que VEJA não teve tempo de trabalhar uma história mais alentada. Além disso, desde o dia seguinte ao crime, uma semana, antes, a Polícia já indicava que a motivação do massacre não era o roubo e que os criminosos tiveram ajuda de alguém da casa. Mais dois dias e descartaram o envolvimento de uma ex- empregada. Portanto, sobravam como suspeitos os familiares ou conhecidos íntimos.

   VEJA é uma usina de sonhos, ilusões, conceitos e preconceitos da classe média. Fala da classe média e em seu nome, como um jornal de sindicato fala de sua categoria sindical. É uma usina ideológica , como explica Eugenio Bucci em seu “peixe morre pela boca”

, porque funciona quase sozinha, por mecanismos silenciosos  de estímulos e filtros que induzem todos os seus jornalistas e leitores a um denominador comum ideológico . Sua função ultima é dizer ao leitor o que ele deve pensar, pensar pelo leitor. Por isso seu gênero é essencialmente editorial. O texto padrão  de VEJA é editorializado.

  E como VEJA poderia editorializar o crime de Suzane? Dessa vez não foi uma violência que atingiu a classe média vindo de fora, lá do mundo dos pobres. Na história de Suzane, a violência nasce no berço de ouro da classe média alta. A violência primordial é exercida por um pai controlador e autoritário , que não permite seu namoro com Daniel, um desempregado. Que a obriga a fazer jardinagem nos finais de semana e força o filho menor a fazer carpintaria. O pai que programou  o destino dos filhos e até determinou que valores devem cultuar e para os impor erigiu um sistema de tabus, de proibições. Na história desse crime, a  violência é a própria família da classe média. Isso,  VEJA não podia admitir. Preferiu pular. Registrou, apenas, para não dizerem que se omitiu completamente.

   VEJA não podia gostar dessa história, porque para ela a classe média é a base mítica de toda a sua narrativa. Seus textos formam um conjunto de associações  que sempre procuram levar à uma classe média idealizada , a forma como ele deveria ver o mundo e se auto- reconhecer. Nessa definição semiótica de mito, criada por Roland Barthes, a narrativa opera de modo não explícito não conscientizado, nos interstícios da subjetividade.

   Barthes dá os exemplos do “casamento da Igreja”, e da”Cozinha Moderna”, como sonhos de todas as pessoas, que assim se identificam com os valores de uma classe média à qual nem sequer pertencem. São esses os mitos produzidos pela usina de sonhos da editora Abril . Suzane violou as regras do jogo. Ela disse que matou por amor. Mas para VEJA foi  um pesadelo que fundiu a cuca de revista, que afrontou seus fundamentos. Melhor passar batido. 

 

 



 

6Três anos e meio depois, em 21 de junho de 2006, Susane Von Richthofen, Daniel Cravinhos e seu irmão Christian  Cravinhos foram declarados culpados em tribunal de júri acompanhado de perto pela grande mídia. Mais uma vez, VEJA se desinteressou pela história.. 

 

 

7 Scritta Editorial, 1993


 
     
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