Sistema e browser desconhecidos

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A dimensão épica da vitória de Lula
 

 

Na sua primeira edição depois do segundo turno, o Estadão  dedicou a capa do caderno eleições a uma única  e enorme foto com a seguinte legenda : “Nas águas do Rio Cumbu, no interior do Pará, as bandeiras do Brasil e do PT são levadas por dois barqueiros a caminho de seção eleitoral” A foto é de Paulo Amorim, a serviço, não por acaso,  de uma agência estrangeira, a Associated Fance Press

  O barquinho dessa foto remete para duas imagens do passado, a dos barquinhos da retirada de Dunquerque, destacada por todos os jornais e cine-jornais da época, e a imagem, nunca publicada,  de um  pequeno barquinho carregando Lula e um grupo de companheiros numa das caravanas da cidadania da campanha de 1989, cercado de dezenas de barquinhos, de pescadores, oriundos de todas as direções, no  meio do Rio São Franciso.

   O que  essas cenas tem em comum é seu  sentido épico.

   A foto do Estadão é uma das poucas exceções na postura da mídia brasileira. Até o debate da  TV Globo da sexta-feira, nossa  mídia ainda não havia despertado para o caráter épica da candidatura  Lula.  Essa dimensão maior só começou a influir na pauta dos jornais a partir da divulgação das pesquisas IBOPE e Data Folha do sábado e domingo que derrubaram a última esperanças de Serra, de virar o voto de 15 milhões de eleitores com base apenas num papo-furado de  último minuto.

   Mesmo assim, foi preciso a imprensa estrangeira realçar o caráter emblemático da subida de um operário ao poder e o impacto desse fato nos destinos da América Latina, para os jornalistas brasileiros começarem a aceitar que algo histórico estava por acontecer.

   No O Globo de domingo, em “Uma emocionada viagem às origens de Lula”, temos uma das  primeiras narrativas jornalísticas sobre a campanha de Lula de caráter claramente épico. Nessa reportagem Consuelo Lins revela como e porque os cineastas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles decidiram  filmar a campanha . A narrativa abre com esta fala de João Moreirta Salles;

   “ Às vezes, tenho a sensação de que neste momento não tem ninguém na face da Terra que esteja fazendo alguma coisa mais importante do que a campanha de Lula.”

  E é ainda João Moreira Salles que fala: :

   ”... Em cada uma das cidades que fomos, havia 50, cem  mil pessoas para ouvir Lula. Em João Pessoa vi um espetáculo que só posso descrever como fluvial: uma cidade inteira escoando lentamente pelas ruas e acompanhando o Lula, com a sensação de que estavam fazendo história...”

  Quem quiser conhecer os detalhes dessa epopéia, não os vai encontrar nos jornais brasileiros. Os futuros pesquisadores da nossa história também vão ter muita dor de cabeça, porque o corpus de pesquisa primário do historiador moderno, o jornal, não registrou os grandes comícios de Lula. 

   Jornais importantes com Folha de S. Paulo  omitiram sistematicamente informações que pudessem indicar a escala gigantesca da massa humana que convergia para os comícios, a força carismática do candidato operário e a  dimensão mítica de sua imagem, três dos elementos típicos  de uma  narrativa épica.  Até O Globo do domingo, não sabíamos sequer que Eduardo Coutinho  e João Moreira Salles, autor de “Central do Brasil”, estavam registrando em filme  Lula em sua epopéia.

  Não se pode alegar que a linguagem jornalística,  tendo que ser objetiva, clara e econômica é incompatível com a narrativa épica. Desde o primeiro minuto, foram tipicamente épicas as narrativas em torno do ataque terrorista ao World Trade Center. Inclusive a repetição infindável, já deslocada no tempo, da mesma cena em que os aviões batem nas duas torres e se incendeiam. Ou as cenas da longa fileira de bombeiros penetrando nas torres, para serem depois dizimados.

  Quase todas  as reportagens de guerra são épicas. Destacam heróis, cultivam os valores da comunidade e principalmente seu  esforço coletivo e sobre-humano de ação ou de resistência. Em  Dunquerque, os alemães infligiram aos ingleses uma humilhante derrota, encurralando as tropas britânicas junto ao mar. O  próprio  Winston Churchill  chamou os editores de jornais e lhes pediu que dessem tratamento épico ao que havia sido o mais completo desastre militar dos ingleses até aquele momento. Assim surgiu a cena dos barquinhos mobilizados para a retirada dos soldados britânicos. 

   Em seu livro “A primeira vítima” (Nova Fronteira, 1978), Phillip Knightley mostra que o tratamento épico de mídia inglesa à derrota em Dunquerque , adotado de combinação com o governo, foi o ponto de partida do formidável  espírito de resistência do povo britânico ao longo de toda  segunda guerra mundial. Assim a mídia inglesa fez da derrota material em Dunquerque, uma vitória moral. Knithley, aliás, relata esse episódio como exemplo de sua tese de que nas guerras a verdade é a primeira vítima (daí o título do livro).

  A mídia inglesa atribuiu um sentido forçado de epopéia à derrota em Dunquerque. A mídia brasileira  fez o contrário:  suprimiu o conteúdo épico realmente existente nas campanhas de Lula. A comparação entre os dois comportamentos é a chave para se entender as razões da opção editorial anti - épica da nossa imprensa na cobertura das campanhas Lula, mesmo porque essa política editorial vem sendo  adotada desde as primeiras “caravanas da cidadania” de Lula, com aquela do Rio São Francisco, imaginadas por Ricardo Kotscho na campanha de 1989. 

    Se os jornais ingleses queriam criar as bases para a resistência heróica contra o nazismo, a mídia brasileira quis solapar as bases da retomada da auto-estima e do desejo de auto-afirmação e liberação do povo brasileiro, expressos no seu  apoio a Lula. A supressão do sentido épico das campanhas de Lula não é um aspecto menor da cobertura, é o seu traço essencial. Visa enfraquecer a marcha de um povo, ou   seja sua epopéia, antes mesmo dela receber seu mais impulso decisivo. 

   A mídia inglesa atendeu o pedido de Churchill. E a mídia brasileira, atendeu o  pedido de quem?


 
     
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