Sistema e browser desconhecidos

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Agenda:

Como os tucanos pautam os jornais.
 

 

Nesta campanha presidencial, em contraste com as anteriores, a mídia tem procurado aparentar mais isenção. Mas a candidatura oficial continua pautando jornais e jornalistas. Só que com mais sutileza. Nesta edição contamos três histórias exemplares de como os tucanos pautam os jornais.Uma história de falsa isenção, outra de intriga jornalística, e finalmente um caso de falseamento de dados. Tudo isso para eleger Serra.

   A história da falsa isenção está na revista  ÉPOCA desta semana que nos oferece um grande pacote de comparação entre os três candidatos, com a aparência de isenção, mas habilmente formatado para enaltecer Serra e diminuir Lula. O pacote abre com uma grande reportagem sobre a herança de FHC que já delimita a agenda, com a pauta,  sempre sugerida pelos banqueiros e monetaristas de existir um   Espaço Curto para Mudar. E o olho  ainda mais explicito diz que ‘Uma herança pesada de desigualdades e arrocho financeiro limita o próximo governo e impõe propostas na mesma direção.” A premissa é importante para orientar o resto do pacote que tem a única finalidade de dizer que se todos os candidatos tem a mesma proposta e/ou terão que seguir uma mesma direção, a diferença está portanto apenas na competência e/ou experiência de cada um ou  seja, Serra é o melhor.

  Seguem-se os perfis dos quatro principais candidatos, com o seguinte tratamento:  Lula é a “Obstinação refletida”. Com uma foto de Lula se enfeitando no espelho e um texto  crítico, que basicamente semeia dúvidas sobre sua a capacidade de governar.  Serra é o “centralizador e metódico”, e ganha uma foto sensacional sentado numa cadeira estudando documentos, em contraste total com a foto de Lula.  Ciro e Garotinho são apresentados apenas como dotados do poder de sedução pelas palavras. Em resumo: Lula é o obstinado,  Serra o preparado, os outros dois, demagogos.

  Cada perfil é acompanhado de uma pequena entrevista com um intelectual que faz a crítica do candidato. As perguntas de novo apontam que Serra é o único preparado e Lula o mais problemático. Uma das perguntas a  Fabiano Santos sobre Serra é :”Mas Serra não seria o candidato mais preparado.?”

   A critica a Lula é feita por Fabio Wanderley Reis. ÉPOCA diz na abertura que o professor da Universidade Federal de Minas Gerais “garante que Lula não pode  dar certo.” Acontece que o professor Wanderley, mesmo criticando severamente Lula, nunca disse isso, conforme esclareceu o jornalista Claudio Cerri, intrigado com a peremptoriedade  da declaração ( que dificilmente sairia da boca de um cientista social), e em carta enviada a ÉPOCA.  A frase é uma criação da revista, uma espécie de cafagestagem editorial.

    O caso de intriga é de autoria coletiva. Muitos meses atrás, no dia 14 de março deste ano, o candidato a vice de Lula, senador José Alencar, respondendo a uma pergunta de Boris Casoy sobre a questão palestina, no programa “Passando a limpo”,  disse que sendo a população árabe maior que a judaica talvez fosse o caso de o Estado de Israel mudar para outro lugar. Mais de três meses depois, na sua coluna de 23 de junho, Claudio Humberto explorou a frase infeliz de Alencar especulando qual seria a posição de um governo lula questão palestina se Lula morresse e Alencar virasse o presidente. No dia 19 de agosto,  Alencar visitou a  Federação Israelita  e se desculpou pela gafe e pela ignorância, já que essa proposta de um território alternativo para o estado judeu foi feita e superada há mais de um século

   No dia 6 de setembro um dia antes do Ano Novo judaico, Alencar enviou carta ao rabino Sobel, mais uma vez se desculpando pelo palpite infeliz e reconhecendo o direito à existência do Estado de Israel. Sobel respondeu também por escrito, no dia seguinte,  inocentando Alencar e pondo um ponto final no assunto. Mas para o comitê de Serra o assunto não morreu. E com a ajuda da mídia criaram uma intriga. No mesmo dia 7 de setembro quando se inicia o Ano Novo judaico e todos os judeus vão às  sinagogas e passam o dia rezando e fofocando, o Estado de S. Paulo publicou um grande artigo de Mauro Chaves, em que ele transcreveu na íntegra todo o diálogo de Alencar com Boris Cassoy, tomando o cuidado de não dizer que aquilo havia acontecido seis meses antes. Deu como se tivesse acontecido na noite anterior. 

  O estrago da campanha Lula na comunidade judaica foi muito grande. No mesmo dia, o ombudsman da Folha cobrou o seu jornal por não ter tratado do “fato”, também pensando que o fato havia acontecido no dia anterior. E a Folha entrou na fofoca. Simultaneamente o artigo de Mauro Chaves passou a ser circulado pela internet, sem  referência nenhuma à troca de correspondência entre Sobel e Alencar. A exploração eleitoral, com o risco de se criar uma animosidade entre a comunidade judaica e  correntes  políticas  incomodou tanto o rabino Sobel que ele emitiu um comunicado especial eximindo Alencar  perante a comunidade judaica. Essa nota, obviamente, nenhum jornal publicou.

   Nossa terceira história, de falseamento de dados, é de autoria exclusiva da Folha. O jornal inventou um  sofisticado  mecanismos para a manipulação da opinião pública favor da candidatura Serra: o rastreamento diário de opinião por telefone. Usou como pretexto o desejo, muito louvável, de democratizar um tipo de rastreamento, que só circula em comitês de campanha.

  O rastreamento começou a ser publicado no dia 23 de agosto, sincronizado para coincidir com o início da propaganda gratuita pelo rádio e TV, a cartada decisiva de Serra  para desbancar Ciro Gomes. Mediria não apenas a intenção de voto, como também a eficácia e receptividade dos programas gratuitos e o grau de conhecimento do candidato. Uma ferramenta sob medida para monitorar dia a dia o sucesso da estratégia de Serra e assim contribuir para eventuais correções de rumo. 

  Contando com a subida de Serra, as manchetes com os dados do sucesso serrista, jogados eventualmente na primeira página, impulsionariam ainda mais essa estratégia. O jornal assim colocava-se a serviço direto do comitê Serra. Coincidência? Se fosse para medir opinião pública a Folha já tem o DataFolha. Acontece que o rastreamento se limita a um universo de apenas 54% de eleitores, os que possuem telefone fixo em casa, em geral situados nas faixas  mais elevadas de renda e de escolaridade, e concentrados na região Sudeste. Era a faixa do eleitorado mais suscetível de reagir positivamente à propaganda gratuita de Serra, que viria em doses esmagadoras.

    Logo no segundo dia, 24 de agosto, a Folha passou a usar a palavra “pesquisa”, na sua titulação do rastreamento, levando o leitor a confundir esses dados parciais, feitos com apenas uma elite de eleitores, com dados de uma pesquisa de opinião, mais criteriosos. No dia  4  de setembro deu um passo a mais, omitindo a palavra “ por telefone”. No dia seguinte, deu destaque a Serra, quando a notícia era a subida de Lula; “Pesquisa já mostra Serra com 21% e Ciro com 20.” Era a isso que a Folha queria chegar. Só que não era verdade. Serra estava estagnado em 21% em quatro medidas seguidas. Quem havia subido, e muito,  nesse rastreamento,  era Lula, de 35% para 39%.

  A Folha só começou a recuar da manipulação depois que o comitê de campanha de Lula escreveu uma carta formal de protesto. Mesmo assim, não resistiu e vez ou outra o título do rastreamento do dia ainda enfocava fatos secundários ignorando o principal. 


 
     
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