Sistema e browser desconhecidos

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Entreguismo a ferro e fogo.
 

Nunca foi tão apropriado recuperar as velhas palavras do imaginário dos anos 60: imperialismo, entreguismo, testas-de-ferro.  ”Quando FHC disse que seu governo significaria o fim da era Vargas, ninguém pensou que fosse tão longe” , lembra solitariamente Élio Gaspari  na sua última coluna. FHC entregou ao velho imperialismo anglo - holandês a Companhia Siderúrgica Nacional, a maior da América Latina, a primeira grande siderúrgica brasileira, semente raiz e tronco de toda a nossa industrialização e símbolo supremo da era Vargas. Realmente, o governo FHC  vai entrar na história como o  mais entreguista de toda a triste história do entreguismo nacional.

   Com a absorção da CSN pela Corus revelou-se toda a hipocrisia do discurso nacionalista de Benjamim Steinbruch, quando disputou o controle da CSN. Na época,  proclamou-se nacionalista e acusou o grupo rival Votorantim de estar associado a capitais estrangeiros.

   O que é pior, com esse discurso recebeu  o apoio de fundos de pensão e um empréstimo de  US$ 660 milhões do BNDES, o banco que deveria ajudar o desenvolvimento nacional. Steinbruch desempenhou mais uma vez o velho papel das elites brasileiras: foi  um mero corretor  dos interesses  de grupos estrangeiros nos corredores do Palácio. 

    ISTOÉ Dinheiro fez a conta de quanto “ o rei do aço”, como diz laudatoriamente a revista, ganhou nesse negócio:   “...Steinbruch controlava uma empresa avaliada em US$ 1,2 bilhão. Na última quarta-feira, ao bater o martelo e selar o acordo era dono de 17,5% de um conglomerado três vezes maior, uma participação avaliada em US$ 1,8 bilhão..a assinatura valeu aos acionistas da CSN um ganho imediato de US$ 600 milhões no valor de seu patrimônio.”

   De onde surgiu esse lucro? Por que duas empresas separadas passam a valer  mais quando se fundem? Porque Steinbruch vendeu algo que não estava na contabilidade do patrimônio da CSN, uma espécie de mais-valia patrimonial: vendeu o controle estratégico de nossa siderurgia, vendeu o nosso futuro. Esse valor  de patrimônio nacional virou patrimônio pessoal de Steinbruch e de um punhado de acionistas brasileiros entre os quais a fundação Valia, que tem 10,3% do capital da CSN..

   A maioria dos jornais, inclusive os especializados VALOR e Gazeta Mercantil engoliu sem pensar o enorme e cuidadoso press - release preparado por Steinbruch, que  tentou nos convencer que foi a CSN que incorporou  Corus  e que o Brasil se tornaria, assim, controlador da quinta maior multinacional do aço. Todos os jornais reproduziram o mesmo texto básico, como os mesmos quadrinhos, a mesma abordagem, as mesmas palavrinhas. Apenas um ou outro jornal acrescentou um pequeno Box por conta própria.

   O truque midiático que inverteu o sentido dos fatos,  foi baseado numa filosofia e numa linguagem. A filosofia foi a de tratar a CSN como unidade mercantil, uma mera empresa como qualquer outra, ignorando sua origem, seu papel estratégico. Com isso, foi possível usar as palavrinhas mágicas da linguagem neo- liberal, mostrar que a CSN vai operar com mais “sinergismo”, que “ crescerá no mercado internacional.” , que  passará a ter um novo “ canal de distribuição de seus produtos”, e por ai a fora.

    O truque mais  interessante foi a introdução de algumas palavrinhas especiais como “parceiro estratégico”, eufemismo para designar um parceiro minoritário, apenas com direito a poltrona de couro  no Conselho, ou a balela de que Steinbruch, lá pelo ano 2004 vai dirigir a Corus. 

  Houve também uma curiosa inversão de ênfase. A imprensa brasileira deu manchete para o fato de que a CSN vai ter 37.6% da nova Corus e que com isso vai controlar a Corus porque o resto das ações está “pulverizads.” Mentira. 

  A imprensa londrina e a própria  Corus no seu site informaram que os atuais acionistas da Corus vão ter 62,4 da nova empresas e a CSN vai ter não mais do que 29,9% dos votos, “exceto em certas circustâncias.”.Ora , se a CSN terá menos votos do que sua participação acionária ( justamente um pouco menos de 30%), é porque com 30% teria certos direitos que a Corus não quer que tenha.   

  Assim  se vendeu a ilusão de que a CSN vão controlar a Corus.  Chico Santos, na Folha, foi um dos poucos a por o dedo na ferida e apontar a falácia: Fusão sepulta o sonho da multi brasileira do aço.” Todo o resto dos jornais enganou descaradamente os leitores. Fusão só se o rato ficou mais forte do que o gato” , disse Chico Santos.

 

   O cretinismo dessa cobertura  ficou tão evidente que não foi possível sustentar a mentira. As revistas semanais corrigiram o tratamento, admitindo como fizeram ÉPOCA e ISTOÉ, que o centro estratégico da decisão sobre a siderurgia nacional mudou para Londres. VEJA não reconheceu nem isso. Apresentou o negócio como muito bom “ para as duas partes.”. Mas, meio envergonhada, escondeu a mais importante história da semana numa coluninha  sob o titulo “CSN vira multi.” Carta Capital, a mais critica das revistas semanais, paradoxalmente deixou a postura critica de lado  fez uma mini-entrevista com Steinbruch em que levantou a bola para ele chutar.

   A primeira conseqüência da perda de controle nacional foi a decisão já embutida no próprio acordo de absorção, de cortar os investimentos da CSN em energia elétrica, tanto térmicas como hidroelétricas, o que contraria o interesse nacional e afronta decisões de governo.Isso apareceu apenas no pé da matéria do Estadão sobre o caso. 

  E nenhum jornalista questionou como foi possível Steinbruch negociar a venda, se do outro lado da  mesa havia apenas “acionistas pulverizados?A negociação só poderia ter sido feita com um corpo dirigente, com mandato conferido por uma maioria acionária. Então essa maioria existe e a história  das “ ações pulverizadas “ apenas encobre a essência dos fatos. As ações podem até estar em sua maioria pulverizadas, mas uma maioria existe. 

   Os jornais fizeram pesquisas supérfluas sobre a história da CSN de 40 anos , apenas para produzir calhaus a- críticos, e com isso deixaram de lado a verdadeira história da guerra do aço dos último meses. Nossa derrota nessa guerra começou com o medo do governo, em março deste ano, de reagir às restrições combinadas de  cotas tarifas impostas por  Bush ao aço brasileiro e de outros países. Celso Láfer preferiu “negociar,”as cotas.

    A decisão de Bush foi um golpe sério contra  siderurgia brasileira, e não se resolvia por mudança da cota. A própria sobrevivência da nossa siderurgia estava em jogo.  Durante duas décadas o BNDES, gastando cerca de US$ 10 bilhões do dinheiro dos brasileiros, promoveu o saneamento da siderurgia .O Brasil estava hoje preparado para dar um novo salto, graças á sua alta produtividade, com um custo de apenas US$ 100 por tonelada, contra US$ 131 na Europa e US$ 168 nos EUA. Novos investimentos estavam programados para aproveitar essa vantagem comparativa. 

    Foi quando Bush deu o seu golpe impondo tarifas ao aço importado brasileiro. De imediato, as siderúrgicas  terão de cortar investimentos programados da ordem de US$ 1 bilhão, conforme os jornais de março passado, que nenhum jornalista consultou na semana passada. É o risco de estrangulamento da nossa siderurgia. Foi nesse ambiente, e antes de uma vitória de Lula, que Steinbruch decidiu entregar os pontos, E ainda embolsou 46,48% de US$ 600 milhões, sua parte das ações da CSN.  

  O Brasil tem o melhor minério de ferro do mundo. E a siderurgia mais eficiente. Toda essa vantagem comparativa será suplantada  pela vantagem comparativa política do governo Bush. E a Corus ficará com nossa mina Casa de Pedra, a menina dos olhos da CSN, motivo principal de todos esse negócio.

  Essa é a história que a mídia poderia  ter contado. Não contou, revelando neste único episódio boa parte de suas características: o entreguismo, a preguiça de pensar, a cumplicidade com as assessorias de imprensa, a aceitação a - crítica dos press- releases, e falta de memória e de mancômetro. Um episódio realmente exemplar. 

 

 



 

2 Um mês e meio depois, em 22 de agosto, a Folha admitiu que para alguns analistas  era a Corus que estava comprando a CSN e não o contrario. E deu como objetivo principal da Corus o controle da mina Casa de Pedra, da qual pretendia importar 16 milhões de toneladas anuais de minério, metade de suas necessidades totais.  Meses depois, as negociações malograram. Em 13 de novembro a Corus informou que a proposta dependia de algumas condições que ainda estavam sendo estudadas pela sua direção. Finalmente em 14 de maio de 2003, a Corus anunciou a desistência formal do negócio, alegando problemas de financiamento da operação ligados a dificuldades no desinvestimento de empresas de alumínio do grupo, entre outros motivos.  


 
     
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