Sistema e browser desconhecidos

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Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

A mídia que não escuta a voz do povo
 

 A edição desta semana da Veja é uma notável demonstração de como a pauta da mídia nacional, inclusive com freqüência a própria Veja, está descolada do interesse popular. Nas amarelinhas da revista, Marcos Coimbra diz e repete que a preocupação central do eleitor brasileiro, desde antes da reeleição de FHC, não é a estabilidade e sim o emprego, a educação, a saúde e a habitação. 

   “Uma agenda neoliberal não está na cabeça do eleitor... o que a população deseja é uma agenda que não se limite á obsessão em torno da estabilidade. Ao longo desses anos fizemos várias pesquisas de opinião em que se perguntou o que era mais desejável: baixíssima inflação com pouco emprego ou um pouco mais de inflação com uma queda na taxa de desemprego. Sempre foi esmagadora a maioria de pessoas favoráveis a alguma concessão no terreno da estabilidade para ter mais emprego e alcançar melhores salários”. 

   Na mesmíssima edição de Veja o que encontramos logo depois das amarelinhas? Uma grande reportagem querendo impingir ao leitor e, pasmem, aos próprios candidatos à presidência, a agenda neoliberal. A mesma agenda que Marcos Coimbra diz que não interessa ao povo. Veja determina o que deve ser feito e diz textualmente, sem pudor: “(...) prosseguir na política de metas de inflação (...) pagar sem discutir as dívidas interna e externa; e sustentar a superávit nas contas públicas...” 

  Veja ainda descarta como promessas nas quais não se deve acreditar a diminuição da pobreza e das taxas de juros ou maior crescimento econômico. Seu argumento é uma precioso exemplo do sofisma: “Se crescer fosse uma decisão pessoal do presidente, Fernando Henrique Cardoso teria dado essa ordem há muito tempo”. Mas a frase que mais impressiona é: “pagar sem discutir as dívidas interna e externa”. Vejam bem: “pagar sem discutir”. 

  O pressuposto da receita de Veja para o próximo presidente é que a economia é um sistema natural com leis invioláveis que só admitem uma solução tecnicamente competente. Tanto assim que relaciona “as tarefas que o presidente deve manejar de forma técnica, do jeito que é feito hoje”. 

    Se a população não pauta Veja, quem pauta Veja? A revista alega ter entrevistado 39 especialistas. Quem são esses especialistas? Veja só cita dois: Antonio Kandir e Reis Velloso, dois tucanos neoliberais. Os outros são: “economistas, sociólogos, cientistas políticos, empresários, banqueiros e políticos”. Interessante a mixórdia de categorias: por que empresários e não sindicalistas? Por que banqueiros e não bancários? Por que “pagar sem discutir? 

  O Estadão também se saiu com uma jóia da pauta neoliberal, na sua manchete de primeira página do domingo: “Economia vira centro do debate político”. A tese do jornal é que pela primeira vez temas como “inflação e superávit primário estão recebendo mais atenção no debate dos presidenciáveis do que segurança ou saúde.” 

   É como se isso tivesse acontecido naturalmente, e não como resultado de uma verdadeira guerra de mídia, martelando o tempo todo os tema da Lei de Responsabilidade Fiscal, das metas de inflação e do respeito aos contratos. É a pauta dos banqueiros, que a mídia conseguiu efetivamente emplacar como principal agenda de debates nacional. 

  A oposição foi vencida por esses processos. Está discutindo a agenda que os bancos determinaram, e não sua própria agenda. Os teóricos americanos de mídia chamam esse processo de “agenda setting”, que quer dizer “a determinação da agenda”. Dizem que em geral o processo se dá em duas etapas. Passa primeiro pelos formadores de opinião e depois atinge o grande público. Em nosso caso os principais formadores de opinião são os colunistas chapa-branca, que há meses vem insistindo na inviolabilidade das metas de inflação e de superávit primário,  erigidas por eles em dogma. É a pauta dos banqueiros, do “pagar sem discutir”. 

  Na semana passada, o próprio governo mudou suas metas de inflação. Imaginem as manchetes se as mudanças das metas tivesse sido um ato do governo de Lula? Seria o “caos”. Mas como foi o governo que mudou, os colunistas de plantão ficaram quietos. Alguns até aplaudiram como uma decisão realista. 

   Na semana anterior, outra decisão, essa do FMI, mudou o cálculo do déficit público: investimentos da Petrobrás deixaram de ser contabilizados como déficit. Entenderam como era? Se a Petrobrás investia, mesmo com seu próprio dinheiro, isso era contado como déficit público. O déficit público, um dos temas centrais da agenda neoliberal e uma das manchetes mais recorrentes do Estadão é mera construção contábil e ideológica.

 

Operação Távola Redonda ( cont.) 

   A descoberta de  42 fitas com gravações de conversas de petistas deve conduzir o noticiário deste começo de semana. As fitas confirmam que foi organizada uma vasta operação de devassa e espionagem política contra o PT. Três irregulares já foram descobertas: na licença do juiz para a escuta telefônica , obtida sob pretexto de que se tratava de combate ao narcotráfico ( Procedimento IE 008/02), na Operação Távola Redonda, supostamente de investigação do morte de Celso Daniel, e no procedimento contra Lula. 

  A escuta e a operação  estão interligadas. A vigilância em cima de Lula parece ter ficado ao no papel, mas tem um aspecto ainda mais o escandaloso: a denúncia do Tenório Cavalcanti contra um prefeito do PSDB foi torcida pelo delegado da PF para se transformar numa denúncia conta Lula e com objetivos eleitorais, conforme ele relata ao JB do sábado “de testemunha a alvo da polícia”. 

   Fernando Rodrigues anunciou na sua coluna do sábado, na Folha, que é inevitável o vazamento do conteúdo das fitas e que elas poderiam comprometer o PT. A TV Record disse que eram 42 fitas. O Jornal Nacional da Globo falou em 40 fitas e disse para os seus 30 milhões de telespectadores que as gravações foram feitas com autorização da justiça, o que é mentira. As gravações foram feitas a partir de um ofício duplamente fraudulento, que alegava  mandato inexistente CPI do narcotráfico e ainda omitia os nomes dos usuários das linhas a serem gravadas.

 

 

 


 

1 Essas gravações forma gravadas em Disco e distribuídas fartamente pelas redações nos meses seguintes.Trechos dos diálogos gravados foram reproduzidos intermitentemente pela imprensa, para sugerir que o cúpula petista de Santo André tinha algo a esconder ou estava implicada na morte de Celso Daniel. “O mentor intelectual do seqüestro seria ( Sérgio)  Gomes da Silva”, diz a Folha com todas as letras na sua reportagem sobre as fitas de 19/07/02. 


 
     
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