Sistema e browser desconhecidos

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player


Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

O filósofo e o Comissário, conto, publicado no jornal abcd Maior Edição 01-03 fevereiro de 2011
 

Trancado na saleta da rádio-escuta, como todas as noites exceto os sábados, o secretário Simas, de fones aos ouvidos, sintoniza as ondas curtas da  rádio Tirana, anotando o melhor que pode as orientações transmitidas, sempre na mesma ordem: primeiro a análise do cenário mundial, em seguida noticias da Albânia, também referida como “país farol do socialismo”, finamente a avaliação da política brasileira com as respectivas diretivas. Depois datilografará tudo e passará ao diretor do jornal, Raildo Pereira  que memorizará as diretivas antes da reunião de pauta do jornal das dez da manhã. O lançamento do jornal foi idéia do partido, que segue a linha albanesa, de critica feroz à União Soviética, chamada por eles de “social-imperialismo. 

   Aos 35 anos, Raildo já é uma puta velha do jornalismo, como se diz no jargão do ramo; maneiro, deixa aos outros, a maioria  membros do partido, a tarefa de propor ou rejeitar  matérias de forma a manter o jornal na “linha correta.” Nunca diz não diretamente. Foi assim na reunião dessa quarta-feira, quando tudo começou. 

   O jovem Ernesto, editor de internacional, um dos poucos não filiados ao  partido,  comentou um massacre em Angola atribuído a  Jonas Sawimbi, que há anos vem combatendo o Movimento Popular de Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto com apoio soviético.

  “Podíamos  entrevistar o professor Manelli da USP, ele é especialista em África e pode explicar porque o Sawimbi é apoiado pela CIA e pelo regime do apartheid da África do Sul, aliás esse não é o primeiro massacre de civis desarmados cometido pelo grupo do Sawimbi, como se sabe ” 

  Seguiu-se  silencio constrangido. As diretivas da rádio Tirana haviam sido claras. Sawimbi  luta contra a influência do social -imperialismo na África; as acusações de massacre são propaganda dos inimigos do socialismo. A um sinal de Railton, dois  subeditores, previamente instruídos expressam  dúvidas sobre a veracidade da acusação contra Sawimbi. A  pauta foi derrubada. 

   Na outra ponta da mesa o editor da  coluna de notas observa, atento, a troca de olhares. Chama-se Renato Pompillo, mas todos o chamam de “filósofo”, devido ao seu jeito de ruminar palavras, e  sempre carregar uma pasta gorda  repleta de livros. Ele também é um tanto gordo, movendo-se de vagar, os olhinhos miúdos fitando ironicamente os  que  topa pelo caminho. Lia o Le Monde  o The Guardian;  sabia que o massacre fora um dos piores da guerra civil angolana e que esse Sawimbi era um malfeitor, um mercenário  a serviço da CIA. Mas Pompillo nada disse.  

   Na quinta, o “filósofo”já tinha seu plano. Executaria no dia seguinte, sexta, quando os editores principais  relaxam os controles na pressa de começar logo a reunião semanal do núcleo partido, que faziam às escondidas, no ultimo andar. Naquele dia enfiou entre as demais notas, esta, que acabou publicada incólume:

   “O guarda de fronteira da Albânia Mikhail Gluko, matou ontem por estrangulamento a velhinha Irina Maria Drenova,  de 82 anos, quando a anciã, que sofre de deficiência auditiva se recusou a mostrar seu visto de saída, insistentemente pedido pelo guarda.

  Na tarde do sábado nervosismo tomava a redação. O diretor  Railton chamou os editores à sua sala e exigiu explicações, que nenhum deles conseguiu dar; o cochilo passara por todos. Railton pos se suspeitar de um complot interno para  derrubá-lo da direção do jornal. 

   No começo da noite entra na redação, despertando uma onda de sussurros e ahs! o presidente do partido em pessoa, o velho João Tocantins, já de cabelos brancos e dorso encurvado, mas ainda pisando firme. O veterano das brigadas internacionais  e constituinte de 1945, havia retornado de seu exílio na Albânia há apenas dois meses.

   O fechamento é acelerado para que os quadros principais possam  se reunir com Tocantins no último andar.

   Abrindo a reuniãoTocantins foi direto:  

   “ Essa nota mentirosa abalou as  relações com nosso partido irmão da Albânia; é a sobrevivência  do jornal que está em jogo e com ela nosso projeto político de hegemonizar as esquerdas brasileiras”. Acusou o “filósofo” de agente provocador:

  “ Ou a serviço da quarta internacional ou do social-imperialismo”

   Dois participantes da reunião informaram  que o “filosofo” era tido como trotskista. Que ele inventara a infame nota não havia duvidas, tinham acabado de confirmar o Simas  que excepcionalmente para um sábado, estava na radio – escuta. 

  Railton explicou que o filósofo fora contratado porque era bom demais na escrita e aceitara os salários “de militância “. Além disso, era preciso dar uma aparência pluralista ao jornal, que vendeu cotas a inúmeros jornalistas  apresentando-se como o primeiro diário independente e  dirigido pelos próprios jornalistas. Dois outros contratados, disse ele, o editor de internacional e o chefe de distribuição, também não eram do partido.

   O editor de esportes, previamente instruído pro Railton propôs a imediata demissão do filósofo. Mas um sub -  editor alertou que ele era  muito conhecido e  respeitado; alguém lembrou a possibilidade  de outras saídas por solidariedade, o que transformaria um incidente individual numa crise geral, com graves repercussões para um jornal ainda não consolidado.

    Ainda estavam discutindo, quando  Simas  da radio- escuta irrompe na sala, nervoso,  agitando um papel, e gritando frases entrecortadas: “Atacaram o edifício da Radio e Televisão de Tirana... multidões... exigem o fim do regime de partido único... muitas pessoas.. nas fronteiras  também, alguns velhos foram pisoteados e mortos na tentativa de atravessar para o Montenegro e o Kosovo,...” 

   Correram todos para a sala da radio – escuta.  Na correria quase atropelaram o velho João Tocantins. O jornal ainda durou um mês mais.


 
     
Index Enviar noticia por email clique aqui para imprimir a noticia
Comentários: 1

Comentários:
- André Burgmann
Como sempre, os contos do professor são sempre interessantes, porém, terminam de forma abrupta nos deixando com vontade de mais!