Sistema e browser desconhecidos

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player


Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

O Juramento, conto publicado na Revista do Brasil de dezembro de 2010
 

 

Era um general de quatro estrelas; pela primeira vez, um general  de exército estava disposto a ouvir a sua história.  O encontro fora articulado por um dirigente da comunidade judaica do Rio de Janeiro, pessoa importante, no entanto discreta, quase invisível, provavelmente  o homem dos tratos  espinhosos junto às autoridades, dos acordos inconfessáveis,  das emergências. Tradição desse  povo escaldado por inquisições milenares. 

Seja como for, graças a ele, um general estava disposto a ouvir e quiçá, a dar alguma informação. Não haviam prometido nada, apenas que ele ouviria. A oportunidade  não deveria ser desperdiçada, advertiram. No velho judeu reavivaram-se  esperanças, embora magras, depois de tanto engodo e do tempo já tão longo do desaparecimento da filha. Ou era auto-engano?  Tinha esperanças, sim. Afinal, o  general não o receberia se não tivesse nada a dizer, ou para dizer  o que um pai  não pudesse ouvir.

 Combalido, mas determinado, apoiando-se na parede, o velho comerciante judeu foi vencendo um a um, os  degraus em mármore branco talhados em curvas suaves como pétalas, que conduziam ao andar superior do  Clube Militar  onde o esperava o general de quatro estrelas. Seu acompanhante  aguardou junto ao umbral que se elevava a partir do quinto degrau.  Fora  combinado  receber a sós, e uma só pessoa; se era o pai que fosse apenas o pai. 

  Era um palácio, não há dúvidas, esse Clube Militar. Imponente em suas linhas neoclássicas. Lembrou-se subitamente o velho judeu de  outra escadaria em outros tempos, em Varsóvia , igualmente em mármore e também no estilo neoclássico. Degraus que ele galgara aos saltos, ainda jovem e valente, para indagar o paradeiro de sua irmã Guita, presa num comício sionista.  Surpreendeu-se  apreensivo, pela emergência da lembrança, que julgava soterrada nos escaninhos  da memória. 

O velho comerciante judeu não era estranho a exércitos nem neófito em política. Tinha doze anos, a idade da observação arguta, quando sua cidade  foi tomada  primeiro pelo exército alemão, depois pelo russo. Mais tarde, já crescido, ele próprio seria arrastado pelas ruas,  acusado de  subversão pela polícia polaca. Por isso, emigrou  às pressas, deixando  mulher e filho, que só se juntariam a ele no Brasil passados três anos.A policia polaca  o soltou na condição de emigrar, além é claro, da propina  coletada pelos amigos de militância. Guita, cinco anos mais velha, não tivera a mesma sorte. Morreu tuberculosa no frio da prisão.

O velho judeu prosseguia em sua lenta escalada rumo ao encontro com o general de quatro estrelas.  A imagem repentina de  Guita puxou a do delegado de Varsóvia que jurara que sua irmã nunca fora presa e que ante sua insistência o  expulsara da sala e ainda gritara do topo da escadaria  que ela teria fugido para Berlim,isso sim,  com algum amante. Esse episódio  o velho  judeu nunca revelou  a ninguém, ele que era também escritor e jornalista, um apreciado contador de histórias, que publicava em jornais de língua iídiche de Buenos Aires e Nova York. Tinha faro de escritor para o caráter das pessoas. Com será esse general de quatro estrelas?

Passaram-se quinze minutos. O  velho judeu reaparece no topo da escadaria; desce de vagar, seu rosto por natureza róseo, está branco como o mármore leitoso em que pisa.  Por fim chega ao final da escada, mas não fala; joga os dois braços para cima e murmura apenas. ”O general jurou pela sua honra que ela não foi presa.” Baixou as mãos e as levou ao rosto, ”jurou pela sua honra”  repetiu,  já então tomado por choro convulso, e pela certeza de que  sua filha estava morta.


 
     
Index Enviar noticia por email clique aqui para imprimir a noticia
Comentários: 0

Comentários: