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Agenda: Lançamento do livro: Pretérito Imperfeito      |      Participação na Feira do Livro de Porto Alegre - Mesa: Literatura: efeitos de transmissão      |      

A dedicatória de Neruda, publicada na revista CULT
 

 

Eram poucos livros, estendidos sobre o jornal, na calçada e subindo pela parede úmida, um sobre o outro. Livros de um sonhador, talvez um ativista. Livros de esquerda. O de capa cinza mole, pequeno e gordo, era o Canto General, de Pablo Neruda. Ali expostos, solitários, naquela noite úmida, pareciam fruto de um botim, despojos de um derrotado. Eram como as botas que o soldado arranca das pernas inúteis do que já tombou. Havia um drama por trás daquela oferta mirrada, naquele vão escuro da Avenida São João. Uma história triste que os livros pareciam querer contar. Estamos aqui, mas quem nos lia está preso. Ou então, estamos aqui, mas quem nos lia conseguiu escapar. Quem sabe naquela mesma hora o dono desses poucos livros era interrogado num pau de arara, tomando choques elétricos no pênis? Ou talvez já estivesse morto? Ainda que tenha escapado, é certo que sua pequena estante foi desfeita pela violência. O vendedor não teme exibir esses livros. Não o assusta o golpe militar ainda em curso; os rumores de prisões. Não sabe que são livros de esquerda. Não sendo o dono dos livros, quem é ele? Seria o seu algoz? Um cúmplice da repressão? O encarregado da pilhagem? Ou um oportunista qualquer? Comprei o livro de Neruda sem olhar para a sua cara. Canto General é um longo poema épico de exaltação ao continente americano, suas florestas, seus pássaros, seus répteis suas, frutas, rios e montanhas. Também descreve os tipos desse continente mil vezes saqueado, os grã senhores, os golpistas, os señoritos a serviço dos estrangeiros. O Neruda dos dez poemas de amor y una canción desesperada era um dos nossos heróis. Anos depois, partimos para um exílio voluntário em Londres. Levei, entre poucos livros, o Canto General. No Brasil seguiram-se as prisões, fugas, desaparecimentos. No Chile, venceu a Frente Popular. Dezenas de brasileiros refugiaram-se no Chile, alguns participando do governo Allende. Quem sabe o dono daqueles livros na calçada era um deles? Neruda torna-se embaixador do Chile na França Uma noite, dá um recital no Queen Elizabeth Hall, de Londres. Após os aplausos, vou vê-lo no camarim; nas mãos, o pequeno e envelhecido Canto General. Não lhe digo nada, apenas lhe estendo o livrinho e uma caneta. Neruda fita-me com aqueles olhos de peixe grande. Não estranha uma edição tão antiga e já tão gasta de seu Canto General. Não pergunta meu nome. Escreve na contra – capa, num só lance: “A usted, Pablo Neruda.” A síntese do poeta. Depois, aconteceu o que aconteceu. Pinochet assassinou todos os esquerdistas que conseguiu pegar, mais de dez mil, estima-se. Nunca se saberá ao certo. Também nunca saberei se entre eles estava o dono daquele Canto General. “A usted”, lhe digo mentalmente, sempre que releio seu livro, sem saber até hoje quem era ele, se escapou, ou desapareceu, numa das fossas coletivas do massacre chileno.


 
     
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