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  Notícias de diversas Mídias  
   
  As griffes do jornalismo 2017-09-28  
 

Para: Caderno de Resenha (Folha de S. Paulo)/Discurso Editorial Crítica do livro "Os  novos cães da guarda", de Serge Halimi Editora Vozes, Petrópolis, 1998, 150 pp.  Traduzido por Guilherme João de Freitas Teixeira.

 

É curioso como a metáfora do "cão de guarda" pode ser aplicada com sentidos tão  antagônicos ao mundo do jornalismo. Os americanos gostam de definir seus jornais como  os "cães de guarda ( "watchdog") dos interesses públicos. Já Serge Halimi, em seu livro  sobre mídia francesa, "Os novos cães de guarda", analisa não uma imprensa que vigia o  Estado e disseca seus segredos, mas que, ao contrário, age como braço auxiliar do  governo e como força tarefa do projeto de implantação do neo - liberalismo na França. 

 

Sérgio Halimi focaliza um pequeno grupo de jornalistas que ocupam posições estratégicas  na mídia francesa e dão o tom de toda a cobertura jornalística . Aparecem todos os dias  na televisão e várias vezes num mesmo dia em comentários de rádio. Também colaboram  nos principais jornais e revistas; escrevem as críticas dos livros sobre política e suas  colunas são reproduzidas em grande número de jornais do interior. Seu papel, na  definição de um deles, Patrick Poire dÁrvor, o mais influente comentarista da televisão francesa, é o de transmitir "uma imagem polida do mundo.” 

 

Também temos no Brasil um pequeno grupo de jornalistas que se destacam da massa do  reportariado e dão o tom da cobertura. Prefiro chamá-los de "griffes' jornalísticas, devido à  forma pela qual operam no Brasil. Em geral, organizam-se como micro- empresas  jornalísticas que mantém contratos de prestação de serviços com jornais, emissoras de  TV e de rádio. Vendem o prestígio de seu nome, uma marca, uma "griffe." Suas colunas  assinadas nos quatro jornais de prestígio do eixo Rio- São Paulo (Folha de S. Paulo,  Estado de S. Paulo , JB e O Globo), são reproduzidas em jornais das outras capitais e cidades do interior ; podemos ouvi-los na CBN vários vezes por dia; à noite aparecem nos  noticiários da TV. Sem deixar de se vincular de modo preferencial a um ou dois veículos  também preferenciais no panorama da comunicação, trabalham em seus escritórios, e  não nas redações desses veículos. Alguns empregam outros jornalistas, anônimos, para  fazer suas pesquisas. Mandam seus despachos radiofônicos por telefone ou Email, em geral sob uma rubrica reforçadora da "griffe", tipo "espaço aberto " de fulano de tal, ou "o  dia na economia", de cicrano, ou " a economia passada a limpo” de beltrano.”

 

O jornalista " griffe" típico, é um híbrido de jornalista e artista . Graças à notoriedade  adquirida na TV, recebe cachês de artista, inclusive para aparições em convenções e  ciclos de conferências de empresários. No Brasil, o mais bem sucedido membro dessa  elite jornalística foi Paulo Francis, que recebia uma dos mais altos salários da mídia  brasileira. Na França, segundo o relato de Halime, parecem atuar também como  intelectuais orgânicos do neoliberalismo, pois além de seus artigos e aparições na mídia,  ocupam postos chaves nos Conselhos dirigentes dos meios de comunicação. Ajudam a formular as políticas neo- liberais que depois irão defender na mídia. No Brasil também  temos esse tipo de quadro intelectual ,oriundo do jornalismo que ajuda a formular políticas  para grupos de interesses empresariais, mas eles não se confundem com as "griffes"  jornalísticas. 

 

O que explica a descomunal ocupação dos espaços da mídia por essa elite de "griffes  jornalísticas", é a sua adesão coletiva aos pressupostos do neoliberalismo. É notável a  sistemática sustentação por esses jornalistas, das políticas públicas propostas pelas elites  durante esta fase histórica crucial de implantação do projeto neo- liberal. Ocorre que deu- se um processo de seleção natural pelo qual os jornalistas que já tinham prestígio, mas  não aderiram ao projeto neo- liberal foram sendo alijados dos melhores espaços,  especialmente da televisão e das mesas redondas, apesar de alguns ainda manterem  colunas em jornais. Esses espaços foram paulatinamente sendo realocados . Assim os jornalistas com mais espaço na mídia, as verdadeiras "griffes" jornalísticas, são também  os que apoiam o projeto neo- liberal.

 

As "griffes" jornalísticas tornam-se os principais formadores de opinião no processo de  determinação da agenda publica de discussões desejada pelas elites dirigentes. É  primeiro através deles , graças á sua influência e posição estratégica na mídia, que se  definem os termos das grandes discussões. É através deles que se discute, por exemplo,  a influencia dos encargos trabalhistas no custo Brasil, em vez de se discutir a influencia  dos baixos salário no analfabetismo, na saúde coletiva e na criminalidade.

 

A esse discurso homogêneo, Halime chama de "pensamento único." Seu livro pesquisa a  construção desse discurso em algumas situações importantes da história da implantação  do neo-liberalismo na Fança, incluindo o Plano Juppe’, que modificava as regras da  previdência social e provocou uma greve nacional que foi recebida com espanto e  indignação pelos "cães de guarda". O referendum sobre a moeda única européia "  Maastricht", foi colocado para a opinião pública, pelos "cães de guarda", como uma  necessidade histórica, uma decorrência da natureza da coisas, da mesma forma como  foram colocadas para nós, no Brasil, as privatizações.

 

Talvez com alguma dose de exagero, Halime chama esse grupo, na França, de traste.  "Não é possível falar do jornalismo francês sem citar o nome do "trust" constituído por  cerca de trinta associados que compartilham os jetons de presença de seus conselhos de  administração e sobrevivem a alternâncias políticas e industriais" , diz Halime. Para eles,  diz Halime, O Sol nunca se põe. "Desde o alvorecer, no estúdio de rádio, até a noite na  televisão. Na imprensa escrita, no editorial de fluxo contínuo: no jornal cotidiano de  “âmbito nacional, publicação semanal, jornais diários regionais. E para completar, o livro  anual matracado em todas as ondas. “ 

 

Halime dá o nome aos bois. Discorre detalhadamente sobre esses trinta papas do  jornalismo francês, de como sempre apoiam o governo e apoiam-se mutuamente. De  como se auto- emulam, de como uns visitam os programas de entrevistas dos outros, de  como uns elogiam os livros dos demais, para depois serem eles próprios os elogiados.  Infelizmente, para o leitor não familiarizado com esses jornalistas e com o cotidiano da  cena francesa boa parte da leitura de "Cães de guarda " é enigmática.

 

Um membro proeminente dessa estirpe é o jornalista Alain Duhamel, que preside o comitê  editorial da rádio Europe 1, escreve em Liberation, le Point, L"Humanite, e alguns jornais  de província . O livro acompanha uma seqü.ncia de 3 dias na vida de Duhamel em que  ele faz sete aparições na mídia, incluindo entrevistas, artigos ,comentários.

 

Os interlocutores ideais das griffes jornalísticas são os "decididores", os homens que  decidem, sejam do governo sejam das grandes empresas. Temos inúmeros programas de  entrevistas desse tipo hoje no Brasil no rádio e na TV. Se sâo do governo, recebem das  griffes um tratamento de reverência. É o "jornalismo de reverência", como diz Halime para  o caso francês. Se são empresários, a relação é de cumplicidade, como se fossem todos  sócios de uma mesma empreitada neo- liberal, que infelizmente precisa enfrentar a oposição dos "atrasados," dos "obscurantistas", dos "interesses corporativos". É curiosos como certas qualificações, ou desqualifícações dos oponentes, usam na França e no  Brasil a mesma semântica.

 
   
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