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  Nicaragua Libre - Viajem à revolução sandinista - Duas Entrevistas 2016-12-20  
 

Ogrupo, de pé, forma um pequeno semi-círculo na calçada, assim como fazem certos pregadores evangélicos. Roupas domingueiras, sapatos lustrosos. Na tarde anterior já haviam aparado a grama do jardim e colocado a pedra comemorativa, no canto mais próximo à esquina. A rua toda tinha sido varrida cuidadosamente. Cruzando o asfalto, de um poste a outro, a faixa de pano: DOMINGO — NOVE E MEIA — BATISMO DA AVENIDA IULIO BUITRAGO. A antiga Av. 27 de Maio vai mudar de nome. — Hay uma conferência importante, por eso no vienen. A cerimônia está atrasada. Um ou dois comandantes sandinistas que deveriam comparecer, afinal parece qi.e nao virão. As pessoas esperam em silêncio ou c< nversando em voz baixa. Há mais blusas brancas : mais brilhantina nos cabelos negros dos nicaragüenses no domingo. E violões, braçadas de flores, ba ucadas. Em toda a Nicarágua o povo está aprove:ando os domingos para mudar os nomes das riuis e das praças. A JUNTA DO GOVERNO DE RECONSTRUÇÃO NACIONAL DECRETA QUE Fica proibida em toda a Nicarágua a manutenção de efígies, cartazes, retratos, pinturas, quadros e similares, que representem a figura ou a triste memória dos membros da família Somoza, ou de FUI administração; (...) Tais nomes serão substituídos principalmente com os de mártires, heróis e combatentes que caíram na luta contra a ditadura somozista; Nesse momento estão ocorrendo muitas outras cerimônias semelhantes, em que tomam parte os familiares do homenageado, seus amigos mais chegados, vizinhos e antigos' colegas de escola. São Aos domingos o povo toma conta das ruas e se põe a apagar os vestigios culturais do somozismo. As ruas e as praças vão sendo rebatizadas numa homenagem aos que tombaram na luta contra a ditadura. . milhares de ruas e praças para serem rebatizadas; mas são cinco mil, também, os mortos, dentre eles centenas de combatentes que caíram ainda jovens. Aos domingos o povo toma conta das ruas, e se põe a apagar os vestígios culturais do somozismo. Não há duvidas de que pelo menos uma nova cultura está nascendo. Popular, nacionalista, sandinista. Apontamentos sobre a vida de Julio Buitrago Na tarde do dia 15 de julho de 1969, muita gente presenciou a batalha desigual entre mais de 300 efetivos da genocida Guardia somozista, e um HOMEM, assim mesmo, com maiúsculas. Julio Cesar Buitrago Urroz. Tinha 25 anos. Ao morrer, ele era encarregado da insurreição urbana em Managua. Admirador ardente do gesto de Sandino, caiu como um herói, cumprindo seu lema: "meus homens nem se vendem, nem se rendem». E deu, coara muitos, sea sangue generoso para regar com ele a semente da liberdade da Nova Nicarágua. O pequeno folheto mimeografado termina com a saudação padrão: Patria Libreo morir! Chegam crianças em uniforme escolar. Alguns soldados da delegacia de trânsito próxima improvisam uma guarda de honra. Mas eu preciso ir porque foi anunciada uma importante entrevista coletiva da Junta de Governo no aeroporto, ainda naquela manha. A partida da delegação nicaragüense para a Assembléia Geral da ONU havia sido antecipada de um dia, porque os membros da Junta receberam um convite para visitarem o presidente Cárter. No noticiário da manhã o comentarista da rádio lembrou que Fidel Castro, ao participar de Assembléia geral da ONU em circunstâncias semelhantes, teve que sair do seu hotel escoltado e diretamente para a sede da ONU. Vou para o aeroporto de táxi. Nas ruas há bandeirinhas por toda a parte. Festas, quermesses, cerimônias de batismo de ruas. Muitas são organizadas pelos Comitês de Defesa Sandinista — CDS. — Eu não agüento esses CDS, porque se eu preciso viajar, sair do país, e se sou seu inimigo e você não me deixa sair, eu não posso sair. Nâo foi para isso que lutamos. Por que isso aí é o comunismo, e comunismo não é para nós, por qüe como dizemos, ou ter a patria livre ou morrer. Você não concorda? Digo ao motorista que não sei. Que sou estrangeiro. — Sabe o que? Querem nos manter oprimidos, por meio desses CDS. Pergunto se ele lutou contra Somoza. A resposta não é convincente. — Si, claro. Mataram um sobrinho meu. Meu patrão me mandou embora por que eu era organizado. Organizado, mas sem coloração. Pergunto o que ele vai fazer se as coisas segundo as suas concepções, não melhorarem. Será capaz de brigar? — Não só eu como muitos outros. Por que temos gente, gente organizada para derrubar esta Junta de Governo. Não agüentamos esta Junta de Governo. Perguntei como se chamava. Ele riu alto, desconversou. Faremos ver ao presidente Cárter a necessidade da ajuda econômica, pois o governo dos Estados Unidos, todos sabem, foi responsável pela manutenção da ditadura somozista e portanto pela destruição da Nicarágua». — A mi me llaman el catito bonito. Chegamos ao aeroporto. — O que se passa é que esta junta de governo, com esses CDS quer nos manter rígidos: rígidos e organizados. Mas nós, os nicaragüense, nem a puta que os pariu conseguiu organizar e manter rígidos. Muito menos vai ser essa Junta que vai conseguir. A entrevista coletiva da Junta já começou há uns vinte minutos, no salão de cima, do aeroporto. Foram lidos novos decretos importantes para o setor de habitação. Moisés Hassan em seguida passa a palavra a Alfonso Robello. No sofá apertados uns contra os outros membros da delegação: Miguel D'Escoto, o ministro do Exterior, Daniel Ortega, e Sergio Ramírez. Daniel Ortega veste o seu uniforme de campanha. Robello, o antigo presidente do Conselho Superior da Iniciativa Privada, em mangas de camisa, apresenta uma pequena surpresa: — Desde ontem existe um decreto da Junta do Governo de Reconstrução Nacional congelando o preço do gás propano. Ê importante que se controlem produtos como o gás propano, usado na cozinha. Como esse é um produto derivado do petróleo,! os nicaragüenses devem se conscientizar sobre a necessidade de usar racionalmente o gás de cozinha. Se no futuro o preço do petróleo subir mais ainda, as companhias que vendem o gás terão que consultar o Ministério da Indústria e Comércio antes de qualquer alteração de preço. Outra novidade, dessa vez anunciada por Daniel Ortega: — Queremos anunciar que todas as pensões de favor dadas pelo somozismo estão anuladas, e que o dinheiro dessas pensões reverterá ao Ministério do Bem Estar Social. Miguel D'Escoto anuncia que é iminente a partida da delegação. Agora, sobra pouco tempo para perguntas sobre a viagem. Principalmente sobre o encontro com Cárter, com o Council of Américas, o organismo que representa as mais poderosas multinacionais norte-americanas. A leitura dos decretos ocupou quase todo o tempo da coletiva. D'Escoto faz um rápido relatório sobre a agenda da delegação nicaragüense. — Amanhã pela manhã, haverá um encontro com o presidente Cárter, no qual estarão presentes também o vice-presidente Móndale, e o Ministro das Relações Exteriores, Warren Christopher, e o assessor para Segurança Nacional Zbigniew Brezinski. Há outras reuniões. Com senadores americanos. Com deputados americanos. Depois, a participação na Assembléia Geral da ONU, quando Daniel Ortega, em uniforme de campanha, marcará a entrada da Nicarágua sandinista na comunidade das nações. Surgem algumas perguntas. Qual será o teor das conversas com Cárter? Que posição a Nicarágua defenderá na Assembléia Geral da ONU? Daniel Ortega: — Nossa posição internacional foi definida na sexta reunião de cúpula dos não alinhados em Havana. Na ONU chamaremos a atenção dos pafses desenvolvidos para que participem de alguma maneira na reconstrução da Nicarágua. Também chamaremos a atenção, sobretudo para buscar apoio internacional, contra as manobras que setores reacionários do governo norte-americano e a CIA, estão tramando em áreas de Centro-América, e concretamente em nosso pais. Ê a primeira vez que percebo no discurso de membros da Junta, essa diferenciação de setores "reacionários" do governo norte-americano, que pressupõe existirem setores não reacionários, ou progressistas. Imagino as discussões que devem ter precedido o embarque, as reações ao convite de Cárter. — Faremos ver ao presidente Cárter as dificuldades que enfrenta a Nicarágua, sobretudo provenientes das ações desses setores reacionários; também mostraremos as necessidades de ajuda econômica pois o governo dos Estados Unidos, todos sabem, foi responsável pela manutenção da ditadura somozista e portanto pela destruição que essa atadura trouxe ao povo da Nicarágua. Ninguém mencionou o encontro com o Council of Ar-.ericas. Pergunto se esse encontro vai ocorrer de ãro. Pergunto mais: sobre a divida externa, sobre a imdição de Somoza. Responde Alfonso Robello: leñarnos um convite do Councü of Américas JKI fazer uma apresentação à comunidade de homens de negócios dos Estados Unidos membros do Council. em que se explicará nossa política quanto a investimentos estrangeiros e a natureza de nossa economia mista. Sobre sua segunda pergunta, podemos dizer que estamos atualmente identificando a dívida externa contraída pela ditadura somozista. A maior parte diz respeito a bancos americanos e vence a curto prazo. Nós vamos necessariamente colocar a questão da renegociação dessa dí- •vida. A alternativa seria pagar de imediato 300 milhões de dólares, o que nos é impossível. Robello, então levanta o timbre da voz, torna-se veemente: — Queremos reiterar que aceitamos a obrigação financeira de pagar até o último centavo dessa dívida, por uma questão de imagem externa do país, mas que não temos nenhuma obrigação moral de pagar a dívida somozista. Além disso, estamos investigando a forma pela qual os empréstimos foram contratados, se as taxas e comissões estão de acordo com as leis. Nos casos em que não estejam os contratos serão revisados. A coletiva está terminando. Robello fala ainda sobre os processos de extradição de Somoza. Diz que estão sendo encaminhados pela via judicial, não só os de Somoza, mas de centenas de seus auxiliares mais diretos. E que a Junta pedirá também o congelamento de bens somozistas. «Queremos reiterar que aceitamos a obrigação financeira de pagar até o último centavo da divida, por uma questão de imagem externa do pais, mas que não temos nenhuma obrigação moral de pagar a dívida somozista.» — Advogados que conseguiram congelar muitos bens do Xà do Irã estão nos assessorando nos Estados Unidos. A delegação levanta-se dirigindo-se para o embarque. Eu volto para o antigo centro de Managua, tentando pegar ainda uma parte da cerimônia de fundação do Partido Social Democrata, o primeiro novo partido a se lançar na Nicarágua após o triunfo sandinista. Significativamente, um partido burguês. A burguesia também se movimenta aos domingos. Vou de táxi, folheando o La Prensa dominical que acaba de chegar ao aeroporto. A manchete principal fala do convite de Cárter à Junta: A página 2, inteira é uma homenagem a Pablo Neruda, morto seis anos antes, nesse mesmo dia 23 de setembro - "sacudido por Ia vorágine que ahogó en sangre el proceso revolucionário del pueblo chileno, presidido por Allende, Neruda, com bien dijera Miguel Ángel Asturias, "murió de dignidad nacional". Fué quando em tierra nuestra se enterraron las cruces, se gastaron, inválidas, profesionales Llegó el dolar de dientes agresivos a morder territorio, en la garganta pastoril de America Os versos que eu tão bem conhecia. Só agora me dava conta de que falavam de Sandino. A história vinha demonstrar que não fora desmesurado o espaço dedicado por Neruda ao distante herói nicaragüense em seu Canto General. Um canto inteiro contra o imperialismo, contra os yankees. Corrieron hacia Nicaragua, Bajaran, vestidos de blanco, tirando dolares y tiros. Pero allí surgió um capitán que dijo: nb, aquí no pones Tus concesiones, tu botella. (...) Augusto C. Sandino se llamaba Y en este canto quedará su nombre estupendo como una llamarada. (...) Sandino colgó a los intrusos. Los héroes de Wall Street fueron comidos por la ciénaga, un relámpago los mataba, mas de un machete los seguia, (...) Sandino estaba en silencio, en la Plaza del Pueblo, en todas partes estaba Sandino. matando norteamericanos «os sandinistas vão por etapas. É uma velha tática: não fazer tudo de uma vez; vão solapando pouco a pouco. Mas nós vamos estar viligantes para que se cumpra a plataforma básica do governo provisório, que já está sendo violada.» Nós nos consideramos sandinistas porque entendemos que Sandino foi um herói nacional, que pertence a todos os nicaragüenses. Wilfredo Montalván. fundador do novo Partido Social Democrata da Nicaragua. No salão nao muito grande senhoras bem vestidas, jovens de classe média, homens de pele macia e branca. Há uma tila para a assinatura do livro de fundação do partido. Ê notável o nervosismo, a tensão nas fisionomias. Musica de baile é tocada alto para imprimir um ar festivo à ocasião. Montalván é jovem, 34 anos, dono de uma pequena gráfica. Foi preso nove vezes durante a ditadura somozista. Agora foi obrigado a apagar o adjetivo "sandinista" que havia colocado no nome do partido (Partido Social Democrata Sandinista), pelo decreto da Junta que reservou exclusivamente para a Frente Sandinista de Libertação Nacional e suas organizações, o uso da expressão "sandinista". A burguesia, é claro, tenta dar o seu conteúdo de classe à cultura "sandinista", que começa a nascer. PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA DECLARACIÓN DE PRINCD?IOS El Partido Social democrata es una organización democrática antiimperialista > revolucionária, que busca la eliminación de la explotación del hombre mediante la satisfacción de las necesidades humanas dentro de um ordem pluralista y de ampias libertades publicas... El Partido Social Democrata persigue liberar a nuestro pueblo de la dependencia económica de una minoria que posee y controla los médios de produción. Opta por cambios esrruturales en todos los ordenes... El Partido Social Democrata hace su próprio el ideário del general de Hombres Libres, Augusto Cesar Sandino, porque está convencido de su orientación pluralista, democrática, revolucionaria y anti-imperialista... O programa é extenso. E a palava "sandinista" aparece muitas vezes borrada com tinta mágica. Quando chegou a proibição da Junta, o programa já havia sido mimeograf'ado. — Aceitamos a decisão da Junta como imposição, mas não concordamos com ela. A própria Junta havia dito que todo o povo era "povo de Sandino." Montalván fala aos solavancos tentando vencer o barulho. — Tivemos grande receptividade. Já recebemos convites para aparecer em 12 departamentos. Aqui, hoje vieram mais de 400 pessoas. Já há milhares de afiliados. Peço a Montalvám que fale um pouco sobre o processo político. — Vejo a situação muito obscura. Nos últimos sessenta dias aumentaram os sintomas de que os sandinistas tendem a querer instaurar um sistema totalitário. Por exemplo, a criação da central única de trabalhadores, a futura criação do partido sandinista, quando já existe a polícia nacional sandinista, o exército sandinista, a força aérea sandinista. Estamos pedindo que a Junta fixe um prazo para sua extinção mas ela recusa-se. Propusemos três anos de prazo. Em tom mais grave e reservado: — O que se passa é que eles vão por etapas. É velha tática; não fazer tudo de uma vez; vão solapando pouco a pouco. Nós vamos estar vigilante » para que se cumpra a plataforma básica do governo provisório, que já está sendo violada. Pergunto se esse "nós" representa um grupo político organizado há muito tempo. — Somos um grupo de jovens que combate Somoza há muito tempo e sempre fomos socialdemocratas. Vislumbramos que o futuro da Nicarágua oscila entre duas correntes, o marxismoleninismo e a social-democracia. — Como essas correntes aparecem na Junta? —Na Junta acreditamos que contamos com o apoio de Violeta Chamorro e Alfonso Robello. Por outro lado, um setor muito importante da Frente Sandinista em que predominam os terceiristas, é favorável ao caminho social-democrata proposto por nosso partido. Defronte ao salão, sob uma árvore gigantesca, no terreno baldio, dois soldados discutem com alguns dos fundadores dos novos partidos. Falam todos ao mesmo tempo. — O que se passa é que tem um monte de gente morrendo de fome porque a economia nao se mexe, e quando a economia não se mexe não há trabalho ,e vamos todos comer merda. — Por qualquer coisa hoje se interrompe o trabalho. Fomenta-se a luta de classes o ódio entre as classes. — Eu acho que os objetivos políticos tem que se subordinar aos ditames da insolvencia econômica. A triste realidade é que hoje não há confiança dos investidores e portanto não há investimento, e sem investimento não vamos gerar divisas para comprar os carros, os tratores, as colhedeiras, tudo isso que precisamos e que não produzimos na Nicarágua. — A Nicarágua sempre foi dependente, e não é fácil passar por um guerra. O soldado tenta rebater os argumentos mas é sobrepujado com facilidade pelo poder de articulação verbal dos outros. A maioria são pequenos empresários. — Ontem eu estava indo para Jinotega e viajei com um garoto, armado de fuzil e tudo. nao era mais do que um garoto e sabem o que ele me disse? Disse que aqui vamos para um socialismo radical, e que isso de eleições como na Costa Rica, não serve para nada. porque o sulfrágio universal está em decadência. — A Frente e a vanguarda, certo... — Eu, para vender um terreno, tenho que pedir autorização ao CDS; para viajar tenho que pedir o visto do CDS. Há uma semana preciso ir ao Panamá e nada, o pedido nem foi discutido, quando mais chegar ao comando. Digo a vocês uma coisa, amanhã eu vou lá e se não sair essa porcaria de visto eu me declaro auto-réu. digo que me investiguem que digam qual é o crime que pratiquei. — Vocês sabem que a contra-revolução está infiltrada em toda a parte, pòrisso é preciso investigar. A discussão aos poucos torna-se mais caima. O soldado enfim encontra uma conceituação aceitável por todos: — O nosso povo fez a guerra e venceu, mas não está acostumado ao jogo político. Porque nunca teve liberdade para se educar politicamente. De forma que todo nicaragüense responsável deve tomar a si a tarefa de conscientizar o povo. porque se não nunca vamos conseguir nada. Os outros concordam. — Ademas, temos que lutar contra todos los vicios que quedaran del régimen anterior. Almoço numa cervejaria perto do bairro Bologna 2. Bologna 1 é bairro burguês. Bologna 2 é muito pobre uma enorme favela, com seis mil habitantes. «Os trabalhadores e os camponeses são as classes dominantes, a classe que tem que governar. Por que são eles que constróem, que criam, que fazem mover a fábrica. E tem que permanecer unidos, para que o programa dessa Revolução se cumpra.» Ali houve muita luta durante a insurreição e muitas mortes. Na cervejaria um tipo bem falante me conta a complicada história de seus dois casamentos e 11 filhos. Entre cervejas e ovos de tartaruga, (o tira-gosto nacional), ele faz um balanço da revolução, — Los ricos tienen miedo. Los pobres no tienem miedo pero están quebrados; los ricos no están quebrados pero tienem miedo; esta es la contabilidad del país. _ . O tipo já está meio bêbado. Rimos. Da cervejaria saimos caminhando uma boa distância. Procuro um Comitê de Defesa Sandinista, e acabo encontrando um "encarregado de abastecimento". Cada CDS tem encarregados eleitos pelos moradores do bairro, para diferentes tarefas, como limpeza, saúde, abastecimento. — Fui eleito pelas 34 familias deste quarteirão. Renê Usedas Corea, 35 anos, seis filhos. Tipo magro, sofrido. O lugar é extremamente pobre. Barracos de madeira; as crianças brincam na terra. A rua foi varrida e está enbandeirada; debaixo de uma árvore na entrada do acampado, há um jazigo com flores semi-murchas. O sujeito dispõe-se a me levar até o encarregado geral do setor, que compreende vários ajuntamentos como aquele, e quarteirões, num total de#29 quadras. No caminho se queixa. 'r —Em todas as remtpões dizem que no CDS não se pode protestar poimie* o protesto é contrarevolucionário. Então nífiT falamos mais em comida. i.- Os altos cargos continuam sendo dos ricos e eles não sabem o que é fome. Diz que tbi despedido do Instituto Nacional do Comércio depois que a Junta tomou posse. Era carregador. — Por todo lado procuro emprego e nao há. Fico imaginando que era um tipo servil, ou qualquer coisa, que agora está na pior porque não prestava. — Todos los empleados son los mismos, apenas lo gerente, Alejandro Martínez fue cambiado. Diz que apenas uma vez o CDS distribuiu comida. Foram 5 quilos de arroz, meio litro de azeite, e meia libra de sal. — Passamos dias sem comer. Chegamos a uma quarteirão bem ajeitado, casas de alvenaria, quintais com árvores de fruta já crescidas, ruas alinhadas. — Aqui, 40 por cento das casas são de madeira. E pequenas, insuficientes. Os moradores em sua totalidade são trabalhadores, a maioria da indústria, só uns dez por cento do comércio. Mas agora não há trabalho. As pessoas estão sem trabalho. Eduardo Rodrigues, mestre de obras. Gordo, na casa dos 50 anos. Conversamos no pátio da casa. Estranho que seja encarregado do CDS. Diz que nao lutou'na insurreição, nem seus filhos lutaram. Foi eleito pelas 29 familias do quarteirão. — Como membro do CDS eu passo a ser membro do movimento sandinista, claro. Peço que fale um pouco do CDS e da Revolução. — Penso quu a revolução foi feita pelo povo e temos que cooperar com o governo. Mesmo porque todo mundo está de acordo com a revolução e com o governo. O meu acompanhante, que se queixara abertamente há pouco, fica quieto. Pergunto se é fato que o povo está passando fome. — Há bastante escassez de comida. O que se passa é que as pessoas não saem por aí pedindo comida, mas que sofrem necessidade sofrem; tanto assim que vivem perguntando ao CDS quando é que vão ser distribuidos mantimentos de novo. De Zamora vou de ônibus a Masaya. onde está programada uma reunião na Central Sandinista de Trabalhadores. Em toda a parte há reuniões sindicais, formam-se novos sindicatos, sindicatos velhos sao reativados. No ônibus vou folheando o Barricada, que traz um artigo triunfalista sobre os CDS: NOTICIA DE JORNAL BARRICADA OLHOS E OUVIDOS DA REVOLUÇÃO O QUE SÃO OS CDS A participação dos CDS dirigidos peia vanguarda do povo, a FSLN, foi muito importante para a insurreição vitoriosa do povo sandinista. HOY SON MAS NECESSÁRIOS DO QUE NUNCA Organizando ei CDS vamos organizando o poder popular, isto é, as massas vão criando seus próprios meios para resolver seus problemas políticos sociais e econômicos. Para um povo em revolução o mais importante é se organizai', porque por maior que seja seu entusiasmo, seu espirito combativo, se não está organizado, unido, suas forças não se coordenam... CADA HOMBRE CADA MUJER CADA JOVEN DEBE ORGANIZARSE DONDE TRABAJA DONDE ESTUDIA, DONDE VIVE. ORGANIZARMOS PARA VENCER. O artigo relaciona as várias tarefas propostas para os CBS, e como eles se organizam por. quarteirão ou grupo de casas. Cada grupo de 15 CDS formam um Conselho da CDS encarregado de coordenar as atividades de toda a área compreendida. Os Conselhos formam comitês de comarca, e lasssm por diante. Os representantes sao sempre (cáenos por voto popular.- I — Nesta etapa da rejwluçâo, temos a tarefa da {^••^-r-sTruçâo material, nó sentido de que temos que ¡sumccmir moradias, reconstruir os meios de produçâo, consertar as estradas. Nesta etapa também estamos instituindo os organismos que vâo dirigir a política econômica, a política de exportação e importação, a política habitacional, a política educacional. Sindicato dos trabalhadores em Masaya. Sala pequena, umas setenta pessoas, desacostumadas com esse tipo de reunião, ouvem atentamente o orador. Na primeira fileira muitos estudantes tomam notas. Nos fundos o quadro negro anuncia uma série de "charlas" sobre os princípios de Ia teoria marxista." O orador é um advogado de 55 anos, Henrique Alemán Flores. Fala pausadamente, um discurso longo, previsível, que começou no império espanhol, para chegar muito vagarosamente no "imperialismo yanque", e depois nos problemas da reconstrução. — O somozismo nao educava, não dava uma educação conseqüente com o desenvolvimento nacional, era a educação imposta pelo imperialismo. Uma educação com a quai não concordavam os trabalhadores intelectuais, o povo nicaragüense. Portanto, a tarefa de reconstrução, nesta etapa revolucionária, inclui a revolução no ensino, dando ao ensino seu conteúdo de classe. O discurso è construido com lógica, didático. O advogado é obviamente um velho militante de esquerda, ortodoxo. Talvez em toda a sua vida. '.cja essa a primeira vez que possa lazer esse discursa em voz alta. — Os trabalhadores e camponeses são a classe poderosa, porque é a classe que constrói, é a ciasse que cria, que faz mover a fábrica a classe dominante, a classe que tem que governar. Os trabalhadores das fábricas e os camponeses que produzem a terra, tem que permanecer unidos, para que o programa desta Revolução se cumpra. A palestra aproxima-se do fim. — El sindicato es ei baluarte dei processo revolucionarlo. Todo trabalhador, todo camponês deve se organizar em um sindicato. Deve-se promover a coordenação e a comunicação entre todos os sindicatos; o sindicato organizado e forte nesta etapa do processo revolucionário é fundamental para que o programa da Revolução seja cumprido. Por. t i Revolução já está sendo lesada, a Nicarágua. Os setores reacionários, os setores capitalistas,  que estão sendo prejudicados pelo processo revolucionário, que já nao poden explorar â vontade a classe trabalhadora ja estão fazendo a contra revolução. O imperialismo já começa a manobrar contra a nossa revolução.

Duas garotas distribuem copias mimeografadas do manifesto comunista. Apresso-me para tomar o onibus de volta antes do toque de recolher e de fato acabo aanhando a ultima jardineira. Quando chegamos em Managuá já é noite, vejo dos lados de Managua ouvem-se tiros. Tomo uma ultima cerveja antes de dormir, a cervejaria já esta baixando as portas com o toque de recolher. Um bebado faz um longo discurso para um auditório imaginário: 
- Esta revolucion sy me da la capacidad de deixar-les un projecto. Yo digo que es um projecto, um projecto de alimentar um niño para que cresca bem, para que sea um sano y que sea gordo. Este es la solucion.

 
   
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