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  Nicaragua Libre - Viajem à revolução sandinista - Duas Entrevistas 2016-12-22  
 

Muitas indústrias de Managua ficam ao longo da estrada que liga a cidade ao aeroporto. Uma grande reta asfaltada, com a cidade ao Sul, e o grande Lago ao Norte. Entre o asfalto, e as margens irregulares do lago v3o se sucedendo os galpões industriais — empresas pequenas, quase todas. Há também favelas intercaladas, partindo do asfalto e penetrando pelo mato até as margens do lago. A estrada faz parte da Carretera Panamericana, que liga todos os países da América Central. Ali, no km 4. está o terreno onde funcionavam as rotativas do La Prensa. No dia 11 de junho, plena insurreição popular, os tanques de Somoza O bombardi cram. — Depois, invadiram as oficinas, derramaram gasolina e atearam fogo. Isso foi lá pela uma da tarde. Jaime Chamorro, irmão mais novo do antigo Diretor do La Prensa, Joaquim Chamorro, assassinado por agentes da Guardia. Joaquim Chamorro combatia Somoza há muito tempo. Em 1974 havia fundado a União Democrática de Libertação, uma frente de grupos conservadores, liberais e socialistas, em torno de uma plataforma democrática. Seu jornal denunciava sistemáticamente violações de direitos humanos Era membro natural dessa família de oligarquias proprietárias de grandes jornais na América Latina. Mas na luta contra Somoza em nada se parecia com outros membros dessa mesma oligarquia, em maior ou menor grau comprometidos com ditaduras. No dia 10 de janeiro de 1978 Joaquim Chamorro foi arrancado de um veículo e assassinado. Nesse dia, tala-se, começou a insurreição na Nicarágua. A UDELdeflagrou Uma greve geral em Managua. As milícias saíram às ruas abertamente. Jaime Chamorro, tem aparência simples. Bonachao, ele percorre o terreno mostrando os estragos nas instalações do jornal. Do prédio onde ficavam as rotativas só restam pedaços de paredes laterais. Debaixo das lonas e laminados pretos de polietileno, há peças de máquinas, ferros queimados, placas encunadas e torcidas. O jornal é impresso em León. 90 kms ao Norte de Managua, nas oficinas de um diário local, o Centro-América. — Preparamos o "pest-up" aqui e mandamos por carro. Um outro carro parte de León, de forma que se encontram a meio caminho. Dá mais segurança, por que depois que escurece fica tudo mais arriscado. A distribuição do jornal é feita da mesma forma. Por isso o La Prensa só aparece em Managua lá pelas 10 ou 11 da manha. O La Prensa mantém a mesma tradição de vigilância no campo dos direitos humanos que o caracterizava nos tempos de Somoza. Notícia do Jornal. No dia 10 de agosto o Sr. Manoel Montenegro Salazar foi capturado no Clube Social de Masaya e levado para Coyotepe por um grupo de milicianos. No dia 10 de agosto a senhora Montenegro apresentou-se em Coyotepe perguntando pelo marido e lhe disseram que na noite de 18 mesmo havia sido transferido para outro lugar... desde então já esteve em todas as prisões sem êxito... suplica por este meio às autoridades, que investiguem o assunto. Ê mie de cinco filhos e vive em Masaya, del Triangulo 30 varas a Tisma, Santa Tereza. Mas o jornal age com cuidado extremo: — Oficialmente nao há nenhuma restrição à liberdade de imprensa, mas é um jogo sutil, um jogo do qual participamos conscientemente. Queremos demarcar bem nossa posição come de apoio crítico a revolução. E há abusos, abusos de toda a ordem. .* A redação toda do jornal funciona num único barracão de folhas de zinco e compensado. A sala de Chamorro é minúscula, e a todo instante há interrupções. Os abusos. Quero eu que explique melhor essa questão dos abusos. — Acontece que a revolução mudou tudo, acabou com tudo. O poder judiciário deixou de existir; a policia acabou. Aqui em Managua, depois de vitória. n3o havia nem sequer um guarda de trânsito. Pergunto qual a posição do jornal sobre o decreto da Junta de Governo proibindo o uso da expressão "sandinista" por organizações nao pertencentes à Frente. — Pessoalmente acho que eles tem razão. Até pouco tempo atr^s ser sandinista era morrer. — Mas ao mesmo tempo em que baixam esse decreto, estão formando uma Central Operária Sandinista. uma polícia sandinista, e assim por diante. A combinação do decreto com esses fatos n3o representa uma negação de compromisso pluralista, que segundo se diz os sandinistas assumiram? Chamorro parece um tanto surpreendido com a observação. Faz uma anotação num caderno, em letra bem miudinha, mas consigo perceber que é um registro onde entram as palavras combinação, decreto, central sindical. Notas para um editorial, suponho. Chamorro n3o parece muito seguro na resposta. — Sim. isso pode levar ao rompimento de compromisso pluralista. Os sandinistas já estão exercendo pressões bem fortes no sentido de st organizarem. Os sandinistas querem criar um parlido e fazer com que todas as organizações sociais pertençam ou sejam dirigidas por esse partido. Mas parece que as instituições permanentes, o exército, a polícia, deixariam de set chamadas "sandinistas." É o que estão dizendo, pelo menos. Também n3o foi correto terem passado o jornal de Somoza e a Rádio, para a Frente Sandinista. quando deveriam ter passado as mãos do Estado. Foi assim que surgiu o Barricada, apenas depois do triunfo da insurreição. org3o oficial da Frente Sandinista. circulação de 25 mil exemplares, leitura obrigatória em toda a parte Chamorro continua a falar sobre a questão do compromisso pluralista; agora em tom mais reflexivo: — O compromisso por uni sistema político pluralista foi assumido antes do triunfo. Eles nunca imaginavam que o triunfo seria total. Mas aí. o compromisso já existia. Eu acho que mais cedo ou mais tarde surgirá a necessidade de romper esse compromisso. A liderança sandinista por enquanto obedece ao compromisso de pluralismo e democracia, mas a maioria deles é marxista. Por outro lado, o povo também lutou muito na Nicarágua, e não lutou pelo marxismo, lutou pela democracia. E praticamente metade de toda a sociedade já está socializada. Penso em dizer qualquer coisa sobre a contraposição colocada, entre democracia e marxismo. De qualquer forma somos interrompidos por um funcionário que traz uma enorme pasta. Gráficos de venda do jornal, que acompanho discretamente. Crescimento muito lento de vendas. Dos 65 mil exemplares em média, em 1977, para os atuais 70 mil. Mas com picos extraordinários, como em janeiro de 1978, logo após o assassínio de Chamorro, quando o La Prensa vendia 110 mil exemplares. O funcionário retira-se. Pergunto a Chamorro o que pensa da campanha da Junta do Governo e da Frente contra as esquerdas. — Atualmente passamos por um período triunfalista. Mas os sandinistas sabem que já começa a surgir descontentamento entre o povo, e como eles nao tem uma organização pela base. lançam essa campanha de denúncia de uma "contra-revolução", que é mais para aterrorizar. E eles estão mais preocupados com os grupos de ultra-esquerda porque a direita está congelada. A direção sandinista teme, acima de tudo a oposição de esquerda. Chamorro me acompanha à saída. Já caminhando pergunto ainda se é fato que, até agora, as divergências no interior da Junta tem sido desprezíveis. Ele é cunhado de Violeta Chamorro, membro da Junta, e deve saber. Jaime Chamorro confirma. — Nâo tem havido divergências fundamentais até agora. Chegamos à saída. Chamorro diz que brevemente darão inicio à reconstrução das oficinas. Quanto à política, parece absolutamente sem pressa. O novo partido burguês que acaba de ser lançado não o seduz: os laços do La Prensa com o sandinismo e com a Revolução tornaram-se fortes demais para que a família Chamorro se junte à primeira aventura burguesa que se apresente. Mas a frase que Jaime Chamorro articula para denotar seu pouco entusiasmo pelo novo partido burguês revela o que ele realmente pensa sobre o futuro mais distante: - Estavam muito na defensiva, os lançadores desse partido. Deveriam ter se apresentado como alternativa de poder melhor do que os sandinistas marxistas. Volto de táxi para a Casa del Gobierno. A entrevista com Moisés Hassan está marcada para o fim do expediente, depois das sete. O motorista se torna loquaz quando descobre que seu passageiro é um jornalista estrangeiro: - Hoy se trabaja descansado en Nicaragua. Divorciado, pai de 12 filhos. Diz que há 4 mil motoristas de táxi assalariados, como ele, na Nicarágua. Pagavam 125 córdobas por dia aos donos de frota antes da queda de Somoza. Agora pagam 70 córdobas. - Nos organizamos e fomos negociar com o patrão. Atingimos a cabeceira da Carretera panamericana. Alguns "out doors". Os nomes de muitas .indústrias são os mesmos encontrados em qualquer estrada brasileira. PILHAS RAY-O-VAC NA RECONSTRUÇÃO DE NICARÁGUA. - Agora o ministério quer comprar todos os veículos e nos assalariar. Oferecem 60 córdobas por dia. É pouco, não aceitamos. Chegamos. O motorista diz que os velhos dirigentes de sindicatos foram expulsos ou fugiram. Eram somozistas. Cobra pela corrida mais de que o normal. Novamente a senha, e subo para o 4o andar da Casa del Gobierno. - A ultra-esquerda está nos criando dificuldades; não se precisa de muita liderança para convencer camponeses a tomar terras; estão promovendo greves. Neste momento crítico, promover uma greve por aumento de salário é uma irrealidade. Moisés Hassan Morales, 37 anos,-solteiro. Rosto inexpressivo. Dizem que é gênio. Matemático brilhante. Já foi reitor da Universidade Autônoma da Nicarágua. Sua ficha no Programa Oficial do Governo de Reconstrução Nacional diz que é engenheiro formado pela Universidade Nacional de Nicarágua, e Doutor em matemática pela Universidade de Carolina do Norte. Moisés Hassan é ligado à tendência Guerra Popular Prolongada, da Frente Sandinista, mas não foi combatente. Quando a burguesia percebeu que a insurreição contra Somo za tomava rumo irreversível, lançou a Frente Ampla Opositora, juntando grupos conservadores, uma fração do partido socialista e membros do partido liberal, numa plataforma anti-somozista, tentando obviamente assumir o comando ideológico e político da luta contra a ditadura. Hassan, com mandato da Frente Sandinista articulou uma frente parecida, mas com outro conteúdo de classe, juntando gente do Partido Comunista, alguns sindicatos, no Movimento Pueblo Unido. Em março de 79 a Frente Ampla Opositora, de caráter burguês e o Movimento Pueblo Unido de caráter proletário, aliaram-se numa chamada Frente Patriótica Nacional essa contando já com o apoio do "grupo dos 12", de oposição liberal. Fechava-se assim, quase que completamente o cerco político contra Somoza. Hassan tornou-se o secretário dessa Frente Patriótica Nacional. É um dos dois únicos membros da Junta de Governo, de cinco membros, de formação marxista (o outro é Daniel Ortega, um "terceirista"). A conversasse dá ao final de um dià exaustivo de trabalho. A Casa del Gobierno, finalmente está quase deserta. No quarto andar apenas Hassan e sua secretaria, Lygia, que me oferece um café. Poderia ser uma entrevista rotineira no escritório de um industrial qualquer numa marginal qualquer da Grande São Paulo. Deixo mais para o fim a questão dos ataques à chamada ultra-esquerda. Peço a Hassan que fale um pouco do processo de busca de unidade que parece marcar o sucesso dos sandinistas. A Frente ainda se divide em tendências? - A atual direção da Frente foi constituída por acordo que data de abril deste ano, com a intenção de unificar completamente a luta armada contra Somoza. Também porque não havia mais razão de fundo para a divisão, as divergências eram apenas de tática e estratégia militar. Ao longo da luta as três tendências tinham alguma verdade em suas r-intr^v"»- de maneira que na fase final, combinaiTr- íe :«iis as formas de luta. A genialidade da a ^ i . nacional foi perceber, compreender isso e ptssir por cima de preconceitos pessoais desenvolvidos ao longo do racha. Pergunto se as tendências fundiram-se completa- —-ene. - A direção da Frente hoje passou a chamar-se direção nacional conjunta da frente Sandinista de Libertação Nacional. Agora a palavra "conjunta" caiu. Nesta fase procuramos sempre representar paritariamente as tendências nos organismos de direção, mas, por exemplo, quando Joaquim Quadra foi indicado chefe do estado Maior do Exército, a paridade já ficou de lado. - Não tem surgido divergências dentro da Frente, ou na Junta do Governo? - Desde a queda de Somoza não tem havido sequer votações. Há uma grande unidade, principalmente quanto à política interna. Quando há discussões mais importantes a Junta consulta a Frente e vice-versa. E as divergências tem sido resolvidas com base no consenso, discute-se até que se chega ao consenso. - A reforma agrária, foi muito discutida? - Reforma agrária não gerou discussões. As discussões mais importantes dizem respeito à política externa. Tem se discutido muito e ainda se discute. Está claro que quanto aos Estados Unidos temos que manter as relações mais amistosas possíveis. A entrevista deu-se dias apenas, após o encerramento do Sexta Conferência dos Não Alinhados em Cuba. - Os chineses ajudaram Somoza. Na conferência de Cuba, alguns queriam que apoiássemos a posição cubana mas outros achavam que uma política de apoio a um dos blocos poderia ser prejudicial aos interesses da Nicarágua. - Que problema tão sério tem levado a divergências quanto à política externa? - Relação com Israel, por exemplo. Esse tem sido um tema candente; a solução de fato é de que a Nicarágua não rompeu relações com Israel, mas tampouco as retomou. Praticamente todo armamento novo que Somoza recebera nos últimos dois anos era israelita: as metralhadoras Uzi, o fuzil Galil. A Argentina contribuiu um pouco, mas a maior parte veio de Israel. - Não havia armamento do Brasil? - Estamos satisfeitos com a posição assumida pelo Brasil. Na sétima conferência da OEA, o Brasil teve a mesma posição positiva na discussão da tese de ruptura de relações diplomáticas com Somoza. Levanto a questão dos ataques à ultra-esquerda. Refiro-me sem entrar no mérito das questões, ao tom grosseiro dos ataques. Ele não demonstra se irritar com essa observação, talvez não a tenha entendido. - Com a ultra-esquerda o problema é que eles lançam o povo a ações que não são corretas no momento. Por exemplo, h* fazendas que podem nem terem pertencido a um somozista; e lá vão eles lançando o povo a tomar essas terras; tem ocupado um número apreciável de propriedades. Aliás esse tipo de ação não é correta nem agora nem nunca. As terras serão tomadas pelo Estado. Mesmo muito antes da tomada do poder achávamos inconveniente repartir terras. A política é de não criar uma grande classe de pequenos proprietários. E a ultraesquerda, nesse sentido, está criando muitas dificuldades, m - Como se explica tanto poder de liderança, se são grupos minúsculos, como o governo alega? • Não é preciso muita liderança para convencer os camponeses a tomarem terras. Pergunto se já há alguma decisão sobre a eventual introdução de um salário mínimo no país. - Ainda não. Por enquanto atacamos os grandes salários, os salários dos funcionários do governo. Já está decidido que o salário máximo no setor público será de 10 mil córdobas. Desde agosto já reduzimos alguns grandes salários. O presidente do Banco Central ganhava antes 40 mil dólares. Salário máximo de 10 mil córdobas. Faço alguns cálculos mentalmente. Seriam Mil dólares, Trinta mil cruzeiros mensais. Não chega a ser um limite revolucionário. Quatro vezes o salário de um trabalhador. Pergunto qual serão as próximas etapas do processo: - Aprofundar as reformas e alfabetizar o povo. E os Conselhos de Defesa Sandinista? Porque tanta queixa contra eles? - O problema é que quando as armas triunfaram, muita gente acostumada ao somozismo, gente dada ao servilismo ou à corrupção, tratou logo de se infiltrar nos CDS. Quando Somoza estava no poder serviam ao somozismo; quando os sandinistas chegam ao poder, servem ao sandinismo. Mas a mim isso não preocupa; não me preocupam os próximos dois meses e sim os próximos dois anos. E em pouco tempo essa gente toda será depurada. Além disso, há também gente bem intencionada, só que sem preparo. A conversa está chegando ao fim, retomo a questão das esquerdas não sandinistas por outro ângulo. Hassan fala rapidamente. Há três tipos de PC de linha soviética, um se denominando-se PC mesmo e os outros dois Partido Socialista. Grupos pequenos; nunca conseguiram imprimir marca profunda no movimento social ou na política do país. - Um dos PS foi conseqüente com a revolução e acaba de manifestar a vontade de entrar na Frente. Isso está sendo discutido. É o PS do Alvaro Ramírez, o mais numeroso dos dois atualmente. E os marxistas, ou o pessoal da Ação Popular? - Parte dos dirigentes deles foram expulsos da Frente Sandinista. Três dias depois do triunfo esses ultras puseram-se a criticar a Frente. Hasan não faz a menor concessão nos "ultra". Pergunto o que poderá acontecer. Pergunto cuidadosamente se não foram precipitadas as acusações de que teriam praticado sabotagem. Responde a pergunta apenas em parte. - Não queremos chegar a medidas extremas contra a ultra-esquerda, mas se for necessário, eu pessoalmente acho que o mais adequado seria levá-los aos tribunais. A conversa terminou. Lá em baixo os soldados da guarda me indicam onde encontrar um táxi. Está escuro e o toque de recolher informal já entrou em vigor. No hotel o chinês misterioso continua de ouvidos colados ao rádio. Revelações de que o próprio filho de Somoza, que o povo chamava de Chiguin, participou do assassínio de Joaquim Chamorro. Um Guardia preso deu novos detalhes. - El Chiguin, ele mesmo participou. O homem está mais agitado do que de costume. Excitação de quem acha que muitas batahas decisivas ainda estão por acontecer.


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A campanha contra a Ultra-Esquerda

 

 

 

 
   
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