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  Nicaragua Libre - Viajem à revolução sandinista - A campanha contra a Ultra-Esquerda 2016-12-21  
 

Muita gente que não tem dinheiro nem para comer está sendo obrigada a comprar essas bandeirinhas da Frente. — Se fizermos uma enquete e o resultado for jesfavorável a essas medidas, a Junta fecha o jornal. Redação de El Pueblo, um dos três diários de Managua.

O jornal foi lançado em março, em plena insurreição, como "Periódico de Nuevo Tipo que expressa el actuar y las aspiraciones de las mayorías". Foi também em março que os sandinislas completaram seu processo de reunificação, tornando possível a formação,então, de alianças com os grupos de oposição burguesa, especialmente a Frente Ampla Opositora. A oposição burguesa a Somoza tinha seu diário, o La Prensa.
Os sandinislas, só os boletins mimeografados da imprensa clandestina. El Pueblo saiu na frente como imprensa legal de esquerda, opondo-se à liderança da Frente. No número três já noticiava: Noticias de Jornal Surgem MILPAS Em um comunicado publicado esta manhã e recebido em nossa redação, as Milícias Populares Anti-Somozistas MILPAS proclamam-se como as forças armadas da classe operária e dizem estar dirigidas pelo Movimento de Ação Popular, MAP, organismo que trabalha pela organização do Partido Comunista Marxista Leninista da Nicarágua... As Milícias Populares Anti-Somozistas também afirmam em seu comunicado que desenvolvem a guerra de resistência armada das massas, que desembocará numa insurreição popular dirigida pela classe operária organizada no Partido Comunista Marxista Leninista da Nicarágua. No dia seguinte da vitória sandinista, o El Pueblo saiu dizendo que a burguesia havia arrebatado a vitória. Foi fechado pelos sandinistas e só deixaram que voltasse a circular trinta dias depois. A reunião de pauta começa às oito da manhã. Devido ao loque dè recolher os jornais fecham ao final da tarde, e não de madrugada.

O ambiente é tenso. O "La Barricada", órgão oficial da Frente Sandinista de Libertação Nacional, passou a veicular que é sem dúvida uma campanha combinada de todas as tendências da Frente Sandinista, contra os grupos de esquerda não representados no sandinismo. Notícia de Jornal Denuncia o comandante Henry Raiz Ultras conspiram contra a Revolução O comandante Henry Ruiz denunciou que a burguesia vende-pátria em estreita colaboração com a ultra-esquerda do pan e a reação internacional, está conspirando para destruir a Revolução. Os polos contra-revolucionários unem-se na ação, disse. O comandante fez também algumas reflexões sobre o caráter de vanguarda da Frente Sandinista de Libertação Nacional, dizendo que a partir do fato de que o povo acompanha e compreende as ações em curso, a Frente Sandinista continua sendo a vanguarda do povo. Sobre os sabotadores que usam as mesmas consignas e métodos dos sandinistas, Ruiz disse que estão brincando com a Revolulção. A consigna "operários e camponeses ao poder" está sendo mal interpretada e utilizada; Uns a aproveitam para anarquizar e confundir o processo, outros lhe dão seu verdadeiro significado histórico, através das conquistas sandinistas. «O comandante Henry Ruiz denunciou que a burguesia vende-patria em estreita colaboração com a ultra-esquerda do pais e a reação internacional está conspirando para destruir a Revolução». Henry Ruiz. conhecido como Comandante Modesto, possuiu longa folha de combale nas montanhas. Membro da Tendência Guerra Popular Prolongada, da qual faz parte também Tomas Borge, o veterano dos chefes guerrilheiros vivos. Borge foi ainda mais agressivo do que Ruiz: Noticia de Jornal La Barricada O companheiro comandante da Revolução e Ministro do Interior, Tomas Borge foi bem claro ao anunciar ontem em Belo Horizonte que os somozistas e Guardias presos não serão libertados... disse também que as MILPAS e o pessoal da Frente Obrero e os idiotas ultra-esquerdistas, estão todos fazendo trabalho contra-revolucionario, usando precisamente linguagem revolucionária para confundir o povo. Idiotas que querem que radicalizemos o processo revolucionário sem considerar a correlação de forças nacionais é internacionais; pretendem que saltemos etapas e façamos o socialismo já. Para eles é muito fácil atiçar os trabalhadores e camponeses, empurrando-os para a.radicalização, dizendo a eles que entregamos a revolução à burguesia, e assaltando bancos... Porque assaltam bancos agora? Porque fazem o que fazíamos nos tempos de Somoza? Por que acham que somos como Somoza?

Esses radicais são os maiores aliados da burguesia e do Somozismo... cinqüenta por cento deles são agentes da CIA, devem ser vigiados muito de perto., esses Idiotas da Frente Obrero e o grupo MILPAS, que não tenham ilusões, vamos tratar essa gente com mão de ferro, vamos prender essa gente. Vamos ser implacáveis com eles. Muitos estavam fora do pais e agora voltam, lançam essa campanha contra-revolucionária, se fazem chamar de trotskistas, de maoistas, já demos ordem para que essa gente não entre no país. El comandante Tomas Borge anadio que ai mejor van a crer que es mentira, pero se vá a provar en la practica..." Observo que no mesmo discurso Tomas Borge atacou também a direita do próprio governo: Interesses estrangeiros tratam de seguir manteniendo su hegemonia económica en el país, estan discriminando el gobierno en sus financiamentos para detener el proceso revolucionario, la verdad es que el pueblo está desnutrido, tiene hambre, tenemos que agarrar este dinero para el pueblo. Ataque ainda mais sério às esquerdas não sandinistas é defechado pela comandante Dora Maria Tllez: Notícia de Jornal La compañera Dora Maria Tellez dice que estos grupos, en los cuales se mezclan oportunistas, desorientados, ultraisquierdistas y anarquistas, financiados con capital de la burguesia, hicieron detonar una bomba en el Teatro Gonzales en los momentos en que habíala un miembro de la Central Sandinista de Trabajadores... señaló especificamente que hay grupos de maoistas y desadaptados trabajando en un plan contrarrevolucionario em conluio com a burguesia local... O El Pueblo é um tabloide cum circulação de sete mil exemplares que conta com o apoio de apenas alguns setores públicos, onde a Frente Obrero possui eventualmente posições solidas. Os anuncios oficiais vão praticamente todos para o La Barricada. E agora essa campanha ameaçadora. A conversa é tensa. Sâo oito jornalistas, todos muito jovens. Critica-se o recente decreto -da Junta que proibiu o uso da expressão "sandinista" por grupos não pertencentes ou não filiados à Frente. "A Consigna Operários e Camponeses ao poder eslá sendo mal interpretada: uns a aproveitam para anarquizar e confundir o processo, outros lhe dão seu verdadeiro significado histórico. através das conquistas Sandinislas". — Com esse decreto os Conselhos de Defesa Sandinislas ficam sob controle da Frente. — Nos bairros já se fala que até para pedir trabalho é preciso autorização dos CDS. O decreto foi baixado porque um grupo politico burguês QUIS fundar um partido social-demecrala "sandinista". A Frente reagiu proibindo o uso do adjetivo. Mas com isso colocou todos os organismos que têm o adjetivo "sandinista", inclusive a Polícia Nacional Sandinista, o Exército Sandinista, a Central Sandinista de Trabalhadores, sob direção política da Frente sandinista. O caminho do partido único. — A força política decisiva neste momento histórico é sem dúvida a Frente Satuiii.isla cie Libertação Nacional, mas há setores in riatües não sandinislas. Carlos Cuadra, redator-chefe do jornal, feições robustas de índio americano.

O único "velho" da reunião, mais perto já dos 40. Propõe que se passe à leitura em voz alta e discussão do editorial do El Pueblo sobre 8 assunto. Editorial «Tomas Borge disse lambem que o pessoal do Frente Obrero, e os idiotas ultra-esquertlistas estão todos ta/.endo trabalho contra-revolucionário ... disse que esses radicais são os maiores aliados da burguesia e do somo/ismo e que 50 por cento deles são agente da CIA'. O decreto da Junta de Governo não apenas determina uma exclusividade dessa denominação à favor da FLSN, mas passa à considerar que os CDS, os sindicatos que se chamam sandinistas, têm que ser dirigidos pela FSLN por força de ¡ei. Mais que isso, na interpretação de um membro da Junta,, os CDS são uma célula da FSLN. Então já não são organizações amplas de massa, onde as decisões são tomadas por vizinhos de um bairro, e sim pelos membros da FSLN, que tudo decidirão... uma provocação feita por um punhado de reacionários social-democratas não deveria desviar a FSLN nem nenhum outro partido revolucionário da linha de massas, que lhes permitiu dirigir e vanguardizar a luta pela vitória da revolução sandinistã. A discussão é breve. Ninguém discorda do editorial. Uma menina que não deve ter mais que quinze anos observa que é importante ressaltar o caráter autoritário da medida. Pedem a minha opinião e eu digo apenas que a medida é "stalinista". A reação é seca. Parece haver muitas tiislórias por detrás dessa história que o recémchegado não perceberá facilmente. Carlos Cuadra propõe uma pauta cautelosa: — Vamos verificar o que as pessoas pensam de nossos editorial. Os leitores. Se nossa voz fala no deserto ou se ecoa sentimentos populares. A reunião vai se desfazendo aos poucos; o redator- chefe distribui tarefas. Há uma entrevista coletiva importante da Junta do Governo na parte da tarde. Oferecem-me exemplares atrasados do jornal. Visito as oficinas onde estão imprimindo a segunda edição de um "Cancioneiro de la Revolución", no estilo de folhetos de cordel. — É para levantar dinheiro. Durante a insurreição nâo havia problemas. A gente ia a um banco e tomava dinheiro. Agora temos que repensar tudo. Marvin Ortega, um dos dirigentes do jornal, desses que parecem fazer de tudo e cujo cargo não é bem definido. Tipo alte¡0expressao maliciosa. Almoçamos junto na cervejaria que fica bem defronte ao jornal e ele revela que já esteve no Brasil. Joga alguns nomes para me testar. Felizmente conhecia alguns. Juntei detalhes apropriados. Diz que uma das primeiras medidas dos sandinistas para consolidar sua hegemonia foi decretar a dissolução das milícias populares. As colunas de guerrilheiros eram exclusivamente sandinistas, mas nas milícias havia de tudo. E havia as milícias da Ação Popular, MILPAS, que se arrogava competir com o sandinismo na direção da luta. — As milícias eram mais importantes e mais numerosas que as guerrilhas; combatiam com paus e pedras, deram o tom na insurreição de Managua. Marvin fala baixo, em 'om quase conspirativo, mas essa frase saiu em voz aita. Da mesinha ao lado uni tipo bonachão retrucou: — Hay una diferencia ¡jntre miliciano y combatiente. Milicia es después de i.- Revolución; milicia no es combatiente, t i político. La milicia nc combatió, o por falta de a.-mas o falta de valor. Marvin não responde. - - I U „ - „r — Fueron pocos los nicaraguenses que lucharan. Los nicaragüenses no so1.; lancho de íuta. Terminamos o feijão c 8W arroz e picadinho de carne. Um comercial com • os nossos mas a salada c simbólica: apenas um; rodela ' i lómale enfeitando algumas lasquir. Acabar os legumes no país Marvin r ¡mete marcar um papo com o editor d»* ¡ornai, f-> !vin Wallace, que até agora nao vi,  não quer reuniões. A Junta está instalada do Banco Central, edificio de apcüa qua¡ andares, no meio da região devastada- b Ierre oto. Colado a ele está o prédio imponer : éo Barris .f America —t e o resto é mato. Nessa < *¡ie far." -sma, nem há muitos escombros; forari: íO I as ira" i pelos tratores, ou retirados como ¡- ria' ap* jveilávei para construção. Nos fundos casa .«i Gobierno corno é chamado agora o edificio do banco Centra!, soldados sandinistas fazem uma rodinha. puxo conversa, matando o tempo até a coletiva, e unía garota "combatiente", pede emprestado o E! Pueblo. Parece ler com interesse. » Notícir de Jornal El Pueblo Frente Obrero responderá a dirigente del FLSN Em vista de las declarações na imprensa, rádio e televisão, de varios dirigentes de FSLN apontando Frente Obrero como uma organização ultra-esquerdista, entrevistamos varios membros do Comitê Central dessa organização, e da Central Sindical Revolucionaria. Claro que responderemos aos dirigentes da FSLN, declararam nossos entrevistados, responderemos para esclarecer uma série de fatos e defender nossa Unha proletaria. Mas a nossa não será uma resposta desesperada, que não prova o que diz com atos concretos, como tem sido H imputações de membros da Direção Nacional ponjunta da FSLN. Será uma resposta dentro dos marcos unitários que nos auto-impusemos com outras forças revolucionarias. Pergunto à garota o que pensa da questão do monopólio da expressão "sandinista". — isto aqui é uma revolução. Todo mundo sabe que é uma revolução; isso de se chamar de sandinislas, quando não lutou é puro oportunismo. Wallace sabe de tudo isso muito bem. Diz que é amiga do editor do El Pueblo, e que o fechamento do jornal decretado pela Frente foi necessário: — Wallace sabe que El Pueblo cometeu um erro. Já fez até aulo-crítica. Os guerrilheiros estão ali montando guarda à Casa del Gobierno. Há outros na porta de entrada. Quase todos morenos ou mulatos e todos bem jovens. É preciso uma senha para se entrar no prédio, mas há razoável desorganização. Exemplares do Barricada estão amontoados nas mesinhas. Os funcionários burocráticos, secretárias, assessores de imprensa, ao contrário dos soldados, são todos de linhagem branca. «As casas de somozistas serão dadas aos mártires da revolução e suas familias». A entrevista coletiva é montada com deliberada solenidade, no salão térreo do edifício. Em toda a volta soldados sandinislas empunhando fuzis. No mezanino alto que rodeia o salão há soldados a cada três metros também. Seis membros do governo sentam-se ao redor da grande mesa. Ao fundo a bandeira indefectível, preta e vermelha da FSLN. Há grande número de correspondentes estrangeiros entre os jornalistas. — Convocamos esta entrevista coletiva para fazer um comunicado especial do Ministério da Habitação, de que não será tolerada a ocupação ilegal de moradias, não será permitida a tomada de lotes urbanos. Moisés Hassan Moraiez, 37 anos, solteiro. Um dos cinco membros de Junta do Governo de Reconstrução Nacional. Tem sido o porta-voz da Junta do Governo para a imprensa. Lança agora um violento ataque contra os "ultra". — Esses oportunistas estão se aproveitando não somente das condições miseráveis do povo nicaragüense, das dificuldades da Revolução em resolver problemas que vem de décadas e décadas, mas estão se aproveitando também da abertura deste governo. Esses tipos estão induzindo à prática de atos que podem criar desofdens; este governo não permitira que se pratiquem atos contra-revolucionáríos, porque é contra-revolucionário a prática de qualquer ato que cause desorganização e prejuízo à imagem deste governo ante os olhos do país e do mundo. Ao lado de Hassan, na mesa alongada, em postura mais do que solene, quase ameaçadora, estão Violeta Chamorro, membro também da Junta, e o Ministro da Habitação, Ernesto Vigil. A junta parece alarmada com a onda de ocupações de terrenos baldios em Managua, por famílias desabrigadas, a ocupação de casas, e a rebelião de inquilinos das "colonias", essas habitações semi- -coletivas construídas em madeira após o terremoto de 1972 em que são cobrados aluguéis altos. Como no caso da ocupação de terras agrícolas, os sandinislas acusam os grupos de "ultra-esquerda", especialmente o Frente Obrero, de estimularem essas ocupações. acia wupuyuioii — Não vai ser nenhum grupusculo de esquerda que vai atrapalhar o processo; indivíduos que não foram capazes de lutar efetivamente contra Somoza e agora lutam contra este governo, que aproveitam- se da abertura democrática para derrotar a condução da Frente Sandinista. A palavra passa ao ministro da habitação, Ernesto Vigil, que anuncia a criação de uma interventoria com objetivo de assumir o controle de todos os loteamentos clandestinos. De imediato "é decretada a intervenção em 150 "colonias", que ele enumera uma a uma. Só em Managua, é decretada a intervenção em 87 "Colonias", ou lotemane loteamentos clandestinos: . . — Todas as contas bancárias dos proprietários desses loteamentos clandestinos serão congeladas. De agora em diante será o Estado que gerenciará esses loteamentos. Portanto, seus moradores não devem pagar os aluguéis aos antigos proprietários. Além disso, o Estado devolverá quantias cobradas em excesso, de acordo com a reavaliação que procedemos sobre o valor justo desses aluguéis. Parte Sa arrecadação será usada para promover as melhorias que nunca foram feitas, como esgoto e água. O ministro apresenta o chefe do escritório de intervenção, Alberto Novoa, um jovem ainda. Novoa explica os critérios de definição de um loteamento clandestino. São critérios bem amplos. — Fazemos este apelo e o aviso de que não foi autorizada a tomada de lotes. Quando se toma um lote num lugar onde deveria passar uma rua, ou onde deveria ser construída uma escola, está-se prejudicando o país. O governo e o povo da Nicarágua vão resolver os problemas do país com trabalho, com paciência, com organização. Muitas pessoas que já têm casas apossaram-se de lotes urbanos com o objetivo de negociá-los. O que nós estamos tratando de conseguir é que todos os nicaragüenses tenham casa própria e condições cada vez mais dignas de moradias e de vida, na medida em que o consigam com seu próprio trabalho, ainda que de forma progressiva. Também estamos tratando de apresentar um projeto de lei para resolver de forma justa e revolucionária a situação das pessoas que tem que pagar aluguel. «A Junta do Governo foi produto da necessidade que tinha a Frente de contar com a confiança da socialdemocracia. » Os jornalistas começam a fazer perguntas. O que acontecerá com casas de pessoas qie foram para o exterior? Detalhes de lugares passíveis de intervenção. Quanto tempo a Junta do governo ainda precisará para aliviar o problema das moradias em geral? —• As casas de somozistas serão dadas aos mártires da Revolulão e suas famílias. De forma que pediremos a compreensão dessas pessoas que estão ocupando essas casas e tentaremos persuadir essas pessoas para que saiam. Logo depois outras informações nova: — Os Conselhos de Defesa Sandinista — CDS — vão canalizar a distribuição de material de construção nos bairros populares, segundo o projeto do Ministério da Habitação, para a urbanização e recuperação desses bairros. — O governo poderia dar um exemplo concreto dessas ações contra-revolucionários praticadas por grupos de exlrema-esquerda? A pergunta é de um jornalista estrangeiro. Yugoslavo, parece. Peço que ampliem a resposta, perguntando que provas tem a Junta de que grupos de "ultra-esquerda" como estão sendo chamados, colocaram uma bomba em uma solenidade pública, conforme denúncia da comandante Maric Telles? —E specificamente vou denunciar entre os grupos oportunistas, ao Movimento de Ação Popular, através de sua organização Frente Obrera, e de seu braço, segundo eles, armado, MILPAS. Hassan começa falando grosso, Depois faz referências ao partido Social-Democrata, de origem burguesa, e que quis adicionar ao seu nome o adjetivo "sandinista". Passa estão à defensiva: — Sabemos que nesses grupos a imensa maioria são pessoas bem intencionadas, que não compreenderam este processo. No entanto, na direção desses grupos encontram-se pessoas viciadas, oportunistas, contrarevolucionários, e agentes da reação internacional neste país. O final da resposta é inigualável: — Como exemplo de ações conlra-revolucionárias, temos as ocupações de terras, as invasões de casas, os maus tratos de cidadãos em nome da «Quem manda no dia-a-dia é a Junta de (¿overno, mas quem lem o poder é a Frente. A burguesia, representada na Junta, também já construiu algum poder, com um projeto social-democrata bem definido. Frente Sandinista. Apropriam-se do nome FSLN para maltratar pessoas e desprestigiar essa organização. Hassan passa a palavra a Violeta Chamorro. — Vamos aproveitar a oporluniade para anunciar o novo decreto sobre o Tribunal de Contas. Violeta passa a ler o longo decreto, denunciado o antigo tribunal de contas como legitimador das roubalheiras de Somoza, e criando o novo tribunal. A leitura é enfadonha. O texto poderia ter sido distribuído antes. O estilo deve ser o mesmo dos tempos de Somoza, advocatícioe elitista — apesar das eventuais expressões revolucionárias intercaladas. A cada decreto segue-se uma regulamentação, de estilo também cartorial. Antes de sair,marco com Hassan uma entrevista para o dia seguinte à noite. Domingo, logo depois do expediente. A Junta também trabalha aos domingos. De volta ao bairro Montoya, já me espera o editor do El Pueblo, para a entrevista acertada dê manhã. — A Junta do Governo de Reconstrução Nacional foi produto da necessidade que tinha a Revolução de contar com a confiança da social- -democracia. Daí a presença de Violeta Chamorro. cujo único mérito é o de ser viúva de Joaquim Cha- . morro. Melvin Wallace, lem 31 anos e aspecto de quem só lem 25. Franzino, calmo, cuidadoso em cada frase. Deixo que fale sem dirigir demais a conversa. — O outro membro da Junta, Alfonso Robello, é um grande homem de negócios do setor capitalista exportador, que não tinha vínculos com Somoza. E fl advogado Sergio Ramirez, representa a pequena burguesia. Escritor, advogado, professor universitário. Em círculos estreitos ele se proclama marxista, mas publicamente se diz social-democrata. Essas pessoas foram postas na Junta do Governo pelos sandinislas para venderem a imagem da revolução. Diria mais que isso: que em parle foram impostas por Carlos Andrés Pérez, que era muito ligado a Joaquim Chamorro, com que vi^eu no exilio por uns tempos. Por isso podemos caracterizar o governo como democrático-revolucionário, com al; gumas características populares. Nesta altura não é possível uma definição mais precisa de sua ideologia. Pergunto quem manda no país e na Revolução. A Junta do Governo, ou a Frente Sandinista? — Quem está mandando no dia-a-dia e definindo a estrutura administrativa do pais é a Junta do Governo. Mas quem tem o poder é a Frente. As informações que temos é de que todas as decisões importantes são encaminhadas à Frente, mas que até gora não tem surgido divergências e por isso o problemas do poder não se colocou. Mas vai se colocar.Mesmo porque, a burguesia, represenlada na Junta do Governo, está conseguindo também construir algum poder, e com um projeto social- -democrala bem definido, na minha opinião. Pergunto sobre a participação popular: — As massas participam na medida em que estão lomando terras, sindicatos. Mas as massas não são consultadas pela Frente ou pela Junta do Governo. Desgraçadamente, tanto dentro do exército como da Frente, parece haver um processo de burocratização das decisões. Reuniões abertas não existem. Há muito tempo houve duas reuniões da Junta do Governo que foram abertas, mas isso já não acontece. E como andam as tendências dentro da Frente? — As três tendências eram mais de caráter histórico. Agora apresentam-se duas tendências, a social-democrata e a socialista. Devemos supor que dentro da Frente Sandinista estão se formando esses dois grupos; também dentro do exército há os dois grupos. O comandante "zero", Edén Pastora, que chefiou o assalto ao Palácio é um social-democrata por formação e de origem burguesa. Tomas Borge é marxista, Daniel Ortega também. Pergunto como foi o episódio do fechamento do jornal pelos sandinistas, se é verdade que ele, Wallace, fez autocrítica. «As massas participam na medida em que tomam terras e sindicatos, mas as massas não são consultadas». — Nós havíamos publicado dois artieos aue eles não gostaram. Especialmente um que denunciava o caráter burguês do governo. Vieram aqui e me prenderam; fui levado de olhos vendados a uma casa. Fiquei lá como 'convidado" durante 48 horas. Depois chegou Tomas Borge e conversamos sobre a linha do jornal. Ele alegou que as críticas do jornal poderiam confundir, as massas e até mesmo os combatentes da Frente, porque o povo, aqui na Nicarágua é radical. Depois de conversar com meus companheiros, concluímos que foramos inoportunos. De fato, fizemos uma auto-crítica. Tomas Borge disse que o jornal não voltaria a circular enquanto não nos puséssemos de acordo com a Frente. O jornal foi fechafo no dia 23 de julho e só reabriu um mês depois. Wallace faz uma pausa; depois, como se fosse consigo mesmo: — Muita gente acredita que ter o poder é o mesmo que ler a razão. Isso nem sempre é certo, as vezes é o oposto. Durante a visitar do chanceler vietnamita, por exemplo, nosso jornal foi discriminado. E agora, para exercer jornalismo, é preciso ser afiliado da União Nacional de Jornalistas, que é controlada pelo pessoal do La Prensa. Eu por exemplo, já pedi o registro há 50 dias, e não recebi resposla. A rigor, com a nova lei de imprensa, eu não poderia ser o diretor do El Pueblo. Ou seja, utilizam-se de organizações afins da burguesia, para prejudicar o jornalismo revolucionário. A queixa é posta sem azedume. como se falasse do tempo. A conversa chega ao fim. Nos despedimos. Wallace solta um último comentário. — Uma confusão em que os sandinistas caem é a de se acreditarem detentores de uma ideologia, quando o sandinismo não é ideologia, sandinismo é a forma assumida pela luta na Nicarágua.


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