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  Nicaragua Libre - Viajem à revolução sandinista - A reforma agrária 2016-12-07  
 

(cerca de 40% das terras ficarão sob controle do governo)

 

A caminhoneta repleta de passageiros roda em direção ao Sul cortando ao meio a meia lua que é Managua. Sobe e depois desce, contornando pela esquerda, a colina onde Somoza tinha suas fortificações; atinge o cruzamento de onde parte a carretera de  Masaya. Ali passam as jardineiras sempre cheias e animadas em direção a Masaya, distante uns 30 quilômetros, ou Granada, mais ainda para o Sul, já à beira do grande Lago de Nicarágua. Pequenas barracas de feira. Garotos vendem o "La Barricada", orgâo oficial da Frente Sandinista de Libertação Nacional. A primeira página é dedicada  inteiramente a ; Rigoberto Lopez Perez que nesse mesmo dia 21 ide setembro, há 23  anos, matou Anastácio Somoza Garcia, o fundador da dinastia. 

Surge um ônibus para Masaya. Subo.

 

Notícia de Jornal

LA BARRICADA

O INSTITUTO NACIONAL DE REFORMA AGRÁRIA SÁ CONTROLA 40% DAS TERRAS CULTIVAVEIS.

 

De acordo com uma exposição do companheiro Roberto Gutiérrez, responsável pela | escola técnica de capacitação do INRA, 40% das terras cultiváveis está sob controle do  governo. Toda essa terra pertencia a Somoza e sua quadrilha de ladrões, o que dá uma  idéia do poder que detinham Disse que o conceito de Reforma Agrária tem sido sempre manipulado pelas classes dominantes... Quando o imperialismo em Punta dei Este pediu aos governos que aplicassem a reforma agrária estava escandalizado pela vitória da Revolução Cubana. Mas aquela convocação de reforma agrária nada mais foi do que a criação de mecanismos ainda mais sofisticados para despojar os camponeses de suas terras, e isso Somoza e sua camarilha fizeram muito bem feito.

O companheiro Gutiérrez acrescentou que na Nicarágua nunca se pôs em prática uma reforma agrária e o que Somozismo fez foi estabelecer alguns projetos de colonização com objetivos claramente anti-insurrecionais, para que os camponeses não dessem apoio

aos sandinistas.

Gutiérrez declarou que nossa produção agrícola se baseia numa modelo agrário exportador altamente tecnificado, em especial nas áreas do algodão, do café, do açúcar e do gado. Uma produção que vai para fora e não para atender as necessidades internas, e que esse será um dos problemas a serem tratados pela Revolução Sandinista.

... Com a Revolução Sandinista está se fazendo uma verdadeira reforma agrária. Além disso, está se pondo a produzir os latifúndios que os geólogos mantinham ociosos.

...O sistema agro-exportador ganha o ano todo, mas o mesmo não acontece com o  camponês, convertido em trabalhador sazonal, ficando muito tempo sem produzir e sem emprego, e portanto sem salário. O INRA está procurando resolver isso também...

Declarou o companheiro Gutiérrez que a Reforma Agrária que está sendo impulsionada pelo INRA é uma das aspirações mais profundas das massas camponesas, e que para isso se conta com 40% por cento das terras cultivadas do pais, e que ele chamou de “o capital com que se conta para a Reforma Agrária".

"Essas terras são agora propriedade social, propriedade do povo.

 

<< Nosso camponês tem a mentalidade de pequeno proprietário, quer possuir sua própria terrinha, mas já se nota uma disposição para participar de fazendas estatais. >>

 

A jardineira chega a uma nova encruzilhada. Quilômetro oito da carretera de Masaya: é ali a sede do Instituto Nacional de Reforma Agrária. Alguns soldados montam guarda, relaxados, no portão da frente do casarão de muros altíssimos. Um dos soldados deve ter apenas 13 ou 14 anos. Dentro os salões vazios. Numa saleta lateral, pilhas de sacaria com adubos fosfatados. Numa mesinha, folhetos de um PROCAMPO — programa de estímulos e financiamentos ao pequeno produtor rural. Ò nome poderia ter sido inventado em Brasília. Folhetos legados ainda de Somoza. Alguma coisa deve-se dar às pessoas que vem ao INRA.

Um francês, sociólogo e jornalista, procura sem sucesso informações sobre o campo na Nicarágua. Mapas, tabelas, dados de população, produção, qualquer coisa. Edita uma,  revista geográfica em Paris. Parece desesperado com a taita de dados. O que tem é o que está no livro de Wheelock. Dados velhos. Os mais novos, exportações dos principais produtos agrícolas, vão até 1972:

 

 

1950

1970

1972

Café

17,3

32,1

33,0

Açúcar

0,71

9,8

15,2

Algodão

1,8

32,3

62,9

Carne

26,6

38,2

Ouro

8,0

3,8

3,1

Exportações totais
(em milhões de dólares)

34,2

178,6

249,7

 

Impressionante a queda na participação do café, com papel tão importante na formação da economia Nicaragüense. O algodão e a carne, tomam a dianteira. Os dados de distribuição da Terra são de 1963. Mas dificilmente terão mudado nos últimos 16 anos de forma significativa:

 

No de unidades agrícolas

%

Area

%

Total                   102.000

100

5.461,162

100

Minifundio            51.936

50,8

190.108

3,4

Latifundio                  575

0,6

1.664.675

30,5

 

Wheelock define minifúndio como propriedades com menos de 10 manzanas, ou seja, menos de 6,7 hectares. E latifúndio como a que tem 1.000 manzanas ou mais, ou seja, 670 hectares ou mais. O que nao consta da tabela, portanto, perto de 65% da área de propriedades agrícolas, e metade do número total de propriedades, s3o de tamanho médio, nem latifúndios, nem minifúndios. Mesmo assim é impressionante a concentração de um terço de toda a área em m3os de apenas 575 proprietários, pouco mais de meio por cento de total de proprietários agrícolas. Wheelock revela ainda que o latifundio detinha:

 

92% da produção total de algodão do pais

73% da produção total de café

73% da produção total de açúcar.

 

O latifúndio típico, empregava, como pessoal administrativo:

 

1 mandador, ou administrador

1 chefe de máquinas

1 contador

3 apontadores

20 capatazes

 

 

O fazendeiro quase nunca participava diretamente da gestão da propriedade. Era na maior parte do tempo um ausente. Quem mandava era o "mandador", autoridade máxima, com a faculdade de contratar e despedir. Homem de confiança do patrão, mas ele mesmo um assalariado. Ganhava de 400 a 500 córdobas por mês "con comer". Os trabalhadores aerícolas, para se ter uma idéia, recebiam 4 a 6 córdobas por dia de trabalho — e nem todo dia era dia em que havia trabalho (bóias frias; trabalho de crianças e mulheres, jornadas longas de trabalho, numero grande de acidentes; moradias insalubres).

Encontramos numa saleta envidraçada, uma espécie de assessoria de imprensa. Juan Escobar, alto funcionário do INRA, anuncia que haverá uma entrevista coletiva às duas da tarde. Então teremos todas as informações. Com paciência conseguimos que ele fale um pouco antes mesmo da coletiva.

— Quando a guerra terminou, só faltavam duas semanas para o fim da semeadura postrera". De forma que a primeira medida foi promover a semeadura enquanto ainda havia um pouco de tempo, auxiliar os camponeses nessa semeadura. tanto os que haviam ocupado terras como qualquer outro. Combinamos com os camponeses que poderiam semear a "postrera" mas depois seriam removidos para fazendas estatais, no caso de terras que eles não pudessem ocupar de forma permanente. 

Quando os proprietários exigiram pagamento de renda, o próprio INRA pagou entre 100 e 150 córdobas de aluguel por cada manzana. Antes costumava-se pagar em torno de 250 córdobas. O francês quer saber se houve muita ocupação de terras. Onde, que tipo de terras, de culturas.

Escobar, de má vontade:

— Houve muita ocunacão de terras em Chinandega, em León, em Esteli, Matagalpa. Em León, fins de julho, pouco antes da vitória final, haviam sido criadas já as Unidades Produtivas Agrícolas Sandinistas. O francês inicia uma complicada explicação de como durante a revolução cubana Fidel Castro obtinha ou deixava de obter apoio dos camponeses conforme a natureza da produção agrícola de cada região.

Escobar:

— Nosso camponês tem a mentalidade de pequeno proprietário, quer possuir sua própria "territa", duas ou três manzanas. Mas se nota uma disposição para participar de fazendas estatais. Essa é a tendência no INRA. Formar fazendas estatais onde os camponeses  recebam salários, mas eles mesmo decidam sobre os seus excedentes. Cremos que as cooperativas serão pouco produtivas, enquanto as unidades estatais atingirão o máximo de produção possível. Até mesmo lotes de terra hoje desconexos poderiam ser unidos e estatizados.O francês pergunta se o modelo é das "granjas del pueblo", as fazendas estatais cubanas.

Escobar:

— O modelo adotado tenta aliar as vantagens da modernização, da agricultura  americana, por exemplo, com a experiência da coletivização cubana. Digo ao francês que o projeto segue muito de perto o estudo da CEPAL. A coletivização ê controlada pelo Estado, pela burocracia estatal e sandinista. e não por orgâos autônomos da massa. Além disso, a propriedade rural não somozista permanece incólume. O francês diz que não é só com a questão agrária, a questão da reforma urbana, transportes, saúde, tudo segue os projetos reformistas da CEPAL, inclusive projetos elaborados anteriormente para o próprio Somoza. O truque está em confinar a ação confiscatória à sociedade somozista. Pergunto a Escobar: Afinal, como se define um somozista.

— Eram chamados de "guardieros", eram os que durante o tempo de Somoza usavam a Guardia para ganhar qualquer briga. Ficamos de voltar para a entrevista coletiva das duas da tarde. Apanho outra jardineira, para Masaya. A máquina fotográfica invariavelmente chama a atenção e convida para a conversa. Ao meu lado um sujeito de compleixâo forte. Pela janela, à direita, mato ralo recoberto por pedras irregulares, queimadas.' Cinzas vulcânicas. De uma elevação mais pronunciada sai fumaça branca que à primeira vista se confunde com as nuvens baixas. Estamos no topo da região montanhosa que separa os dois lagos. 

— El vulcán Santiago, o sujeito forte explica, apontando com o dedo.

Pergunto se tem estado sempre assim, soltando fumaça.

— Não. Era apagado. Isso de sair fumaça de novo aconteceu há uns dez ou doze anos depois que o major Morales atirou Tejada na cratera do vulcão. David Tejada, ele explica, era um estudante, militante de oposição, que foi assassinado dessa forma pelo major Morales, chefe de polícia.

 

<< O modelo adotado tenta aliar as vantagens da modernização da agricultura americana por exemplo, com a experiência da coletivização cubana. >>

 

A estrada atravessa a região mais habitada do país: sucedem-se vilarejos,bifurcações,  motéis e restaurantes de luxo, sugerindo como deveriam ser as noitadas somozistas.  Clubes privados. Algumas chácaras de fins-de-semana.. Destroços de caminhões ou  restos de um galpão atingindo pelos morteiros. A jardineira passa ao longo de Masaya, cuja igreja matriz pode ser vista ao longe. Meia hora depois chegamos a Granada. Cidade conservadora, Tugar de comerciantes, sempre em oposição a León, de fama liberal. Somoza sobreviveu e foi cavando seu império e ganhando força em parte graças a essa rivalidade entre as oligarquias de Granada e León. Managua surgiu como capital, por  esse mesmo motivo. A cidade é pequena. Apenas algumas ruas centrais, as outras de  terra, tomadas já por casas miúdas, de madeira cruzada e estuque de barro. A um canto  da cidade, o quartel antigo, de forma pentagonal; cinco torres erguem-se ameaçadoras a  uma altura de uns 60 metros. La Pólvora, chama-se. O rádio havia anunciado pela manhã que soldados sandinistas haviam encontrado cadáveres de vítimas da repressão somozista, enterrados dentro do próprio pátio do La Pólvora, Alberto Araya, pseudônimo, "Ali", 21 anos, combatente da Frente Sul. Agora um dos encarregados dessa unidade que ocupa o La Pólvora, transformando em sede a da Polícia Nacional Sandinista. O quartel foi tomado a 17 de julho. — Estávamos fazendo uma faxina geral quando tombou umà barrica de óleo. A terra afundou e saiu aquele fedor de morte. Começamos a cavar e apareceu o primeiro corpo. Nao se sabe de quem, mas o forense estabeleceu, provisoriamente, pelo grau de composição, que estava enterrado há uns noventa dias.

No pátio do quartel — faixas estreitas de térra entre as muralhas pentagonais externas e  as construções internas — os dois buracos recém cavados. Acredita-se que há mais  corpos. Por toda parte escavações. Foram localizados tampo de cimento; em baixo, grandes compartimentos subterrâneos, providos de saídas muito pequenas. Podem ter sido parte de um sistema de drenagem de água ou saida de esgoto. Os soldados garantem que sâo buracos onde eram mantidos presos, isolados de todo o mundo; jaulas como as que ficaram famosas no Vietnã. Apontam para um outro sistema de manilhas e depósitos que seriam, esses sim, esgoto. 

 

Manoel Oroco Lacayo, pseudónimo Tomás,

23 anos, solteiro, combatente. Foi preso político em La Polvora.

 

— Foi depois de um assalto numa indústria, em que conseguimos 125 mil córdobas. Eu era empregado nessa indústria e tinha contato com todos os companheiros do operativo  que realizou o assalto. Me trouxeram aqui no La Pólvora e me levaram a um quarto — o  quarto escuro como chamavam — e ali me puseram corrente elétrica, para que eu falasse. Eu nunca falei nada porque sabia que isso ia prejudicar meus três companheiros. Fui interrogado oito vezes durante o dia, e não me deram comida. Quem me ajudou foi  um tenente que me conhecia e disse que eu não era sandinista. Depois de três dias me soltaram. Tinha lá um companheiro de Masaya, que era chamado de "pajaro", e foi preso com uma pistola na mão, e também outro companheiro encontrado na montanha com uma mochila e várias granadas. Os corpos deles foram encontrados no banhado. Cinco dias depois. Amarrados por detrás. De La Pólvora seguimos para urna transversal próxima onde está havendo o velorio de um combatente sandinista. Guilhermo losé Pena, 23 anos, pseudônimo "Aldo." Morreu estupidamente quando a arma de outro soldado disparou por acidente. Soldados sandinistas montam guarda solene na sala apertada da casa simples. Mulheres choram. Bandeiras. Fala-se que muitos dos tirotejros na madrugada acontecem porque os meninos ficam o dia inteiro de fuzil na mão, e quando chega a noite disparam por qualquer besteira, compulsivamente.

— Siguen jugando la guerra. Do velorio seguimos para outra delegacia da Polícia sandinista. Um sobrado casa agradável. Na parede do fundo do patio interno, o mural recém pintado, com cenas "da luta guerrilheira. A epopéia de Pancasán. Ao lado a inscrição:

 

PANCASÁN DEPTO DE MATAGALPA

Jornada Heroica el 27 de Agosto de 1967, massacre en que calieron muchos companeros entre ellos Silvio Mayorca, pueblo-ejército, unidad garantida de la victoria — FSLN. Recuerdo de los companeros Marcos y Casimiro, los impulsores deste mural. O muralista,  pintor de paredes José Maria Sepeda, posa ao lado orgulhoso. O mascote da turma desce para a foto. José Garcia, Alvarado, pseudônimo Manoel, tem apenas 13 anos. Combatente de armas na mão desde setembro de 78. O fuzil é maior do que ele. Ferido numa perna, já depois da vitória, com a explosão de uma bomba terrorista. Diz que vai continuar na milícia.

Caminhada curta, até a jardineira que me levará de volta à carretera de Masaya, quilômetro oito, sede do INRA.

 

<< Estamos convencidos de que as transformações no campo serão de tal ordem que  dentro de alguns anos o problema da agricultura será o da falta de mão de obra. >>.

 

A entrevista coletiva marcada para as duas começa as três. 

 - Em primeiro lugar quero informar sobre a área total que até este momento está sob  administração do INRA. A procuradoria investiga a situação de cada propriedade e então  decide se deve passar à administração do INRA. Neste momento, segundo esse  procedimento, há um total de 322.510 manzanas. Salvador Mayorca, vice-chefe do  Instituto Nacional de Reforma Agrária, a maior autoridade, logo depois de Jaime Wheelock. Jovem. Sem senso de humor, simples mas formal. Fala encostado numa mesa; ao redor uns dez jornalistas, a maioria da imprensa local. La Prensa, Barricada e El Pueblo, os únicos três diários de Managua. Mayorca passa a detalhar as áreas estatizadas em cada departamento; os repórteres anotam apressados a relação tediosa. 

— Faltam dados de algumas regiões, e a distribuição por tipos de cultura, ou de atividade, como a pecuária. Mas podemos adiantar que aproximadamente 20 por cento da produção cafeeira nacional deste ano pertencerá a fazendas do INRA. Terras que pertenciam a  Somoza e aos somozistas. Isso não inclui terrras tomadas pelos camponeses, mas que não chegam a cinco mil manzanas. Além disso, muitas dessas terras ocupadas de fato, estão sob intervenção preventiva.

Há uma extensão do decreto número 3, que determinou o confisco das propriedades de Somoza, autorizando a intervenção preventiva, uma vez que haja presunção de que as  terras foram obtidas graças a vínculos com a ditadura somozista. Algumas das terras ocupadas por camponeses encontram-se nessa situação. À medida que vão avançando as investigações, aumentarão as áreas sob administração do INRA. Tampouco estão incluídas as terras devolutas demarcadas para colonização, e as terras ociosas em geral. Acreditamos que vai aumentar muito a área a ser colocada sob administração do INRA, porque até agora só se interveio em propriedades de somozistas notórios, ou naquelas em que não houve nenhuma possibilidade de escamotear a natureza da propriedade. À  medida que as investigações foram sendo aprofundadas pela procuradoria, serão encontradas mais propriedades que pertenciam de fato a somozistas, mas que^or procedimentos diversos, foram passadas em nomes de outros, logo que ficou evidente o desmoronamento da ditadura. Estimamos que uma vez concluídos pela procuradoria, os processos de expropriação, entre 40 e 50 por cento das terras cultivadas do país estarão  sob administração do INRA. Quanto ao maquinário, estimamos o que mais ou menos metade do que está passando à administração do INRA é inútil, está avariada, ou por falta de manutenção ou de peças, ou em consequência direta dos combates.

Longa pausa. Agora em tom mais grave:

— Em concreto, entre os meses de dezembro e maio o problema do desemprego no país  será sumamente grave, porque nesse período, uma grande quantidade de braços é  utilizada na colheita do algodão. Nos últimos anos trabalhavam mais ou menos 300 mil apanhadores na colheita do algodão. Este ano haverá trabalho somente para uma quarta parte, entre 70 e 75 mil. Efetivamente estamos conscientes de que o país vai atravessar  uma crise este ano e no próximo. Por outro lado, estamos convencidos de que as  transformações que a revolução está introduzindo na agricultura do país são de tal ordem que dentro de alguns anos o problema será de falta de mão de obra. Objetivamente o problema hoje, e muito sério, é o da falta de emprego. É preciso que todos os  camponeses e o povo da Nicarágua em geral tenha consciência disso. Esse é um fato  concreto, que a revolução precisa enfrentar. 

 

<< Como política geral não haverá repartição de terras. As propriedades estratégicas serão transformadas em empresas estatais, e os trabalhadores serão assalariados, podendo opinar sobre parte dos excedentes, através de suas representações sindicais  >>

 

Nova interrupção. Agora mais pausadamente:

— Uma das linhas fundamentais da política agrária do país, será a de obtenção de pleno emprego; equilibrar a utilização da força de trabalho de forma que não continue a situação atual, em que grande número de trabalhadores são utilizados no período muito curto de  colheita do algodão, e depois ficam sem trabalho. Um dos objetivos fundamentais da  reforma agrária é o de impulsionar as transformações no campo de forma que a utilização  da força de trabalho seja a mais permanente possível. Reduzir a sazonalidade da força de  trabalho no campo. Esse problema deriva da estrutura da produção agrária que herdamos e sua solução pressupõe projetos de grande envergadura, que precisam ser  implementados aos poucos. Mas achamos que somente dessa forma poderemos resolver  os problemas de habitação, de saúde, de educação dos trabalhadores agrícolas, que hoje  andam tão dispersos, vagando em ondas migratórias. À medida que os trabalhadores vão  se assentando de forma permanente, será mais fácil resolver todos os outros problemas. 

(Que tipos de soluções o sandinismo estuda para fixar o trabalhador e eliminar a  sazonalidade e o desemprego? A pergunta é de um dos repórteres locais).

— No caso das fazendas onde predomina a cultura do algodão, pensamos em introduzir outras culturas, como a do tabaco, culturas que permitam o uso da força de trabalho  durante o ano todo. Os trabalhadores, assim, seriam assalariados permanentes das  fazendas, e não apenas durante os dois meses em que dura a colheita do algodão. Mas  isso apenas não resolve. Pensamos também em ampliar a irrigação o mais possível, de  forma que o uso das terras independa do regime de chuvas. Outra possibilidade está em projetos de exploração racional das madeiras, ou da palma africana. E fomentar culturas  não sujeitas a uma sazonalidade tão drástica, como è o caso do tabaco, que utiliza a força  de trabalho durante seis ou sete meses. Entendemos que sazonalidade é um dos  problemas fundamentais da nossa agricultura, como ademais, acontece em todos os  países capitalistas dependentes como o nosso.

(Pergunto: as terras de Somoza não serão repartidas entre os camponeses? Os  camponeses sem terra receberão terras?) 

— Como política geral não haverá repartição de terras. As propriedades de Somoza  funcionavam como unidades eficientemente. A divisão dessas fazendas levaria a uma  quebra de eficiência. 

É do interesse dos próprios camponeses que essas fazendas tenham sua integridade  preservada. A propriedade camponesa como tal não vai desaparecer. Há muitos  camponeses proprietários que continuarão proprietários. Por outro lado há camponeses  sem terra, trabalhando na qualidade de arrendatários, parceiros meeiros, e várias outras  modalidades. Nesses casos deverá haver uma legislação permitindo que esses camponeses deixem de ser arrendatários para serem proprietários. Nesse caso o que se  vai fazer é formalizar uma situação que já existia de fato, com a direrença de que esses  camponeses não precisarão mais pagar uma renda sobre a terra. De forma que a política do INRA não é de eliminar a pequena propriedade camponesa, ao contrário, aqueles que  já trabalham a terra sem serem proprietários terão a oportunidade de se, tornarem  proprietários. O camponês pequenos proprietário continuará existindo, mas as grandes  propriedades, eficientes e modernas, de Somoza, essas não serão divididas e retalhadas em pequenas propriedades. Serão geridas como propriedade coletiva. 

(Como será feito isso? Os camponeses passarão a empregados do Estado? Irão morar dentro dessas fazendas, fora delas? Terão participação nos destinos dessas fazendas?)

 

<< As outras propriedades, não estratégicas, serão geridas de forma associativa; a  administração será basicamente dos próprios trabalhadores, mas existirá sempre um  assessor do INRA >>

 

— Essas propriedades assumirão duas formas principais. As propriedades que nós  chamamos de estratégicas, ou seja, as de mais alta produtividade, ou que fornecem  produtos de exportação em volume apreciável, serão transformadas em empresas  estatais. Os trabalhadores irão participar na direção dessas através de suas  representações sindicais. Os trabalhadores poderão opinar sobre os planos de cultivo. Quanto aos excedentes, haverá, é claro, uma política geral de aplicação dos lucros, mas  os trabalhadores poderão opinar, através de suas representações, sobre o destino de  uma parcela, pelo menos, desses excedentes. O administrador dessas empresas será  designado pelo Estado, mas nós acreditamos que haverá mecanismos pelos quais os  trabalhadores poderão questionar essas administrações e até mesmo removê-las, se se  mostrarem inconvenientes. Mas ainda não temos a menor idéia de como seriam esses  mecanismos.

— O segundo tipo de propriedade será de modelo associativo. As terras serão de  propriedade coletiva e os trabalhadores terão uma participação muito maior nas decisões,  e também no destino dos excedentes. A administração será basicamente dos  trabalhadores, e existirá um assessor do INRA. O que vai determinar se uma propriedade  será estatal ou do tipo associativo será principalmente a forma como está organizada a  produção nessa propriedade.

( Se um camponês quiser terras para si, para cultivar, receberá essas terras?)

— A política geral do INRA será de estimular a associação, nem que seja nas etapas de  compra de insumos, e na venda do produto final, e de estimular as formas mais  produtivas de trabalho agrícola, estimular a produção. Não é política do do INRA estimular  a multiplicação de uma grande comunidade de pequenos proprietários rurais.

(Pergunto: A frente Sandinista, ou a Junta do Governo decidiu consensualmente por essa política? Houve divergências sensíveis no interior da Frente ou da Junta?)

— Essa foi a decisão consensual. Duas outras propostas foram rejeitadas. Por um lado rejeitou-se a proposta de limitar o tamanho das propriedades e por outro não se aprovou também a idéia de vender as terras de Somoza pela melhor oferta.

Peço emprestado do francês o livro de Wheelock. Os jornalistas só fazem perguntas “a favor." Decido provocar e leio:

"La formación de Ias grandes fincas de café se llevó a cabo a Io largo de una historia de expropiaciones, lanzamientos y violencias contra el campesinato... Sandino, cuya guerra antiimperialista tenia un profundo contenido clasista, derrogo todas las leyes de medición  y en algunos casos, fueran devueltas las tierras usurpadas a los pequenos productores…" 

Pergunto se os sandinistas não pretendem devolver todas essas terras tomadas à força  ou truques, como fez Sandino.

Salvador Mayorca:

— De quien es eso?

— Del livro de Wheelock, escrito antes de la victoria, y de ser ministro para la reforma

agrária. 

Mayorca, sem jeito, mas logo se recompõe:

— La procuradoria es que determinará quales fueron las tierras adquiridas por métodos  ilegítimos, o propriedades de somozistas. Solamente essas serão confiscadas, y nó serán  repartidas sino estatizadas.

 

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